Estudo analisa dieta do carboidrato

Fernando Botero (reprodução)
Pesquisa de alunos de Nutrição contesta a dieta que incentiva o consumo de gordura e proteína

Karine Rogério
3 período de Jornalismo


Em 1972, o cardiologista norte-americano Dr. Robert Atkins lançou uma nova forma de dieta, afirmando que o que fazia as pessoas engordarem não eram gorduras e proteínas, mas os carboidratos (pães, arroz, massa).

Essa novidade foi chamada de dieta hiperlipídica e hiperprotéica (muita gordura e muita proteína). Atualmente, é um dos mais populares e discutidos métodos de emagrecimento seguidos nos Estados Unidos e conquistou grande número de adeptos no Brasil. Ao contrário de todas as outras dietas, nesta é liberado o consumo de carnes, ovos, bacon, queijo e alguns poucos vegetais. Os carboidratos ficam restritos a uma quantidade entre 20 a 40 gramas por dia.

Para verificar a eficácia deste procedimento, o curso de Nutrição da Uniube iniciou, no ano de 2001, um projeto de pesquisa chamado Efeitos Anatômicos, Histológicos e Bioquímicos da Dieta Hiperlipídica e Hiperprotéica em ratos do tipo Wista. Baseadas nesta dieta, as alunas Lidiane Bernardes Faria e Daniela Braga Tarquínio, hoje no 6 período de Nutrição, deram início aos experimentos, que envolveram análises histológica, anatômica, patológica, bioquímica e comportamental, sob a orientação geral do professor Geraldo Thedei Júnior.

Inicialmente, foi realizada pesquisa, através de um questionário, com pessoas que diziam fazer a dieta. O professor Luís Cláudio Benavenuto, nutricionista, concluiu que havia altos índices de proteína e lipídio e baixos índices de carboidrato, mas não era a dieta do Dr. Atkins. Segundo Lidiane, "as pessoas seguiam uma folhinha lançada no mercado com explicações da dieta, mas não faziam acompanhamento da quantidade de carboidrato ingerido, nem da quantidade de corpos cetônicos eliminados na urina".

Uma ração especial foi montada e dada aos ratos de um grupo experimental durante doze semanas. Além disso, foram feitos: o controle de consumo, medição do pH da urina e coleta de amostras de sangue para análises bioquímicas. Os resultados eram sempre comparados com os níveis dos ratos do grupo de controle (ratos que não se alimentavam com a dieta especial).

Ao final do experimento, foi feita a dissecação dos animais e seus órgãos foram analisados. De acordo com Daniela, "foi verificada esteatose hepática (acúmulo de gordura no fígado) no grupo experimental. A esteatose faz com que o órgão aumente de volume, peso e tamanho, e ficam bem evidentes gotículas de gordura no citoplasma das células".

Um dos pontos mais questionados na dieta do Dr. Atkins é que o cérebro precisa de energia rápida, na forma de glicose, para poder funcionar com eficiência, e acontece que é demorado o processo de produção de energia a partir de proteínas e gorduras. De acordo com Lidiane, quando isso acontece, "você quebra todo o seu ciclo bioquímico, que é a degradação dos alimentos. Isso leva à tontura e a pessoa fica com a memória mais lenta, de acordo com o estudo da nutrição. E estudando nutrição, eu te digo que essa dieta não faz bem".

A estudante ainda explica que não pode extrapolar o que se encontra em ratos para os seres humanos. "O objetivo do projeto era provar que a dieta não fazia bem para os ratos e provamos. A partir do momento em que foi encontrada esteatose, as análises bio-químicas mostraram que houve diferença entre os ratos-controle e os ratos experimentais, e que foram encontradas diferenças entre o início e o final do experimento. A gente não quer extrapolar para o ser humano, a gente só quer mostrar que essa dieta pode fazer mal", afirma Lidiane.

De acordo com o método de emagrecimento do Dr. Atkins, o corpo humano, privado de carboidratos, passaria a queimar a gordura acumulada, transformando estas em cetonas, o que o cardiologista chama de "cetose benigna". O indivíduo elimina muitos desses corpos cetônicos pela urina e também pelo ar expirado, o que causa um grande mau hálito. De acordo com Lidiane, "foi visto que os ratos experimentais urinavam dez vezes mais que os ratos de controle".

O projeto, em novembro de 2002, foi premiado no Simpósio Internacional de Iniciação Científica da USP, com Menção Honrosa. "Nós inscrevemos o trabalho e ele foi apresentado na forma de pôster, em Ribeirão Preto. E entre mais de três mil candidatos, nós ficamos entre os trinta premiados", conta a estudante. Outras aná-lises de rim, coração e artérias estão sendo concluídas para que um artigo científico seja publicado.

Neste ano, teve início um segundo projeto, já aprovado pela universidade, e a estudante Lidiane foi aprovada pela Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) como aluna de iniciação científica, recebendo, por isso, uma bolsa de incentivo à pesquisa. Na fase atual, a ração especial está sendo dada a ratas gestantes. Dividido em duas etapas, o novo projeto terá duração de dois anos, com término previsto para o final de 2004.

 

 

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