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"Semana
da TV Desligada" propõe nova ecologia mental
Grupo
de ativistas convida o planeta a ficar sete dias livres dos "tubos
de raios catódicos"
André
Azevedo da Fonseca
O
que aconteceria se você participasse de uma experiência
que consiste em ficar por uma semana sem ligar o aparelho de TV?
Para a TV-Turnoff
Network,
uma rede global de ativistas dedicados a encorajar crianças
e adultos a assistir menos televisão, nesta era de excesso
de estímulos televisuais o experimento pode inspirar uma
prática libertadora. Ao aproveitar o tempo livre com outras
atividades, o ex-telespectador passivo é levado a inventar
formas de entretenimento que freqüentemente despertam soluções
criativas de lazer comunitário. Além disso, segundo
os ativistas, essa renúncia permite o surgimento de pelo
menos uma reflexão crucial: "Quando manipulo o controle remoto,
quem realmente está sob controle?"
O
conceito que está por trás da TV Turnoff Week (Semana
da TV Desligada), que em 2004 acontece de 19 a 25 de abril [mas
que pode ser praticada em qualquer tempo e/ou espaço. Ne
], é a idéia de "meio ambiente mental". Os Adbusters,
grupo de ativistas canadenses historicamente envolvidos na campanha,
acreditam que, assim como o ar e os oceanos, nossa ecologia psíquica
está saturada de ruídos, elementos dispersivos e outros
poluentes. "Nosso objetivo é simplesmente incentivar as pessoas
a pensar sobre o acúmulo de lixo em seu universo mental."
Assim, clamam para que os telespectadores celebrem tudo que a vida
tem a oferecer além da TV.
A
campanha já é realizada há 10 anos e a cada
edição reúne entusiastas
por todo o globo. Em 2003, segundo os organizadores, foi estimada
a participação de 7 milhões de telespectadores
em 17 mil grupos organizados nos Estados Unidos e em vários
outros países. "Tire umas férias de sete dias da TV
e recupere o tempo para conversar, brincar, ler, exercitar, criar,
sonhar - e viver!", convidam.
Propaganda
anti-TV na TV
Para
divulgar a campanha os ativistas produzem anúncios de TV
e tentam veiculá-los nas próprias redes comerciais
indiretamente criticadas por essas peças publicitárias.
Evidentemente, muitas recusam. Segundo os Adbusters, a "pseudo-rebelde"
MTV recusou-se a veicular neste ano o "anti-comercial" da Semana
da TV Desligada. A empresa teria simplesmente comunicado que as
peças iam "contra a MTV em geral". Para os ativistas, isso
expõe o comportamento anti-democrático das estações
de televisão que, apesar de explorarem canais que são
concessão pública, deixam a maioria das pessoas sem
acesso aos sistema da produção da mídia. "Está
na hora de fazer algo contra isso. Dê uma olhada no anticomercial
'TV Head' e diga-nos o que você vai fazer sobre a recusa da
MTV em vender seu tempo publicitário para pessoas como nós
que se preocupam com a utilidade pública".
No
dia 20 de abril do ano passado o grupo conseguiu veicular essa anti-publicidade
no intervalo da CNN Headline News. (O vídeo está disponível
no endereço: www.adbusters.org/metas/psycho/tvturnoff).
Uma
pesquisa realizada com mais de 400 adultos americanos, divulgada
pelo Entertainment
Book apontou que 81% apóia o conceito da Semana da TV
Desligada. Além disso, 63% dos entrevistados declararam que
tinham intenção de reduzir o tempo de TV durante a
semana. E três quartos disseram que seria perfeitamente possível
reduzir seu tempo exposto à TV se eles conseguissem identificar
alternativas baratas de lazer que pudessem substituir o entretenimento
televisivo.
Saúde
pública
Percebe-se
que, diferentemente do Brasil onde a maior discussão gira
em torno da falta de qualidade da programação, os
tópicos da Semana da TV Desligada privilegiam questões
de saúde pública. Mesmo assim, muitos desses conceitos
podem ser úteis para a realidade brasileira. Em depoimento
no sítio oficial da campanha, William Dietz, do Centro de
Controle de Doenças dos Estados Unidos, declara que sua experiência
mostra que há algumas estratégias de sucesso para
prevenir obesidade infantil, mas uma das principais é: "os
pais devem tomar o controle do aparelho de televisão e limitar
o quanto de TV as crianças assistem."
A
Semana da TV Desligada é apoiada por mais de 80 ONGs e associações
médicas nos EUA. O presidente da Academia Americana de Pediatria
(AAP), Carden Johnston, observa que as crianças americanas
passam em média três horas diárias assistindo
à televisão e, no decorrer do ano, ficarão
mais tempo em frente à TV (até 1.095 horas/ano) do
que em salas-de-aula (900 horas/ano). "Ainda que a televisão
possa informar, entreter e ensinar, esta semana é uma excelente
oportunidade para colocar a TV de lado e fazer com que as crianças
percebam que há poucas coisas na programação
diária que não podem ser substituídas por um
bom livro, por uma caminhada na pracinha ou por uma tarde de brincadeiras
divertidas com os amigos ou a família."
William
Caplan, diretor de desenvolvimento clínico do Kaiser Permanente's
Care Management Institute concorda que o excesso de TV é
um dos principais fenômenos responsáveis pela epidemia
de obesidade nas crianças. "Mas o lado positivo é
que a simples diminuição do tempo de TV vai reduzir
a exposição da criança aos anúncios
de "junk food" (comidas gordurosas e sem qualidade nutritiva) e
aumentar seus níveis de atividade."
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ONG
brasileira exige responsabilidade pública das emissoras
de TV
Tver
incentiva direitos dos telespectadores e educação
crítica para os meios de comunicação
A
ONG Tver
nasceu em 1997 como um grupo de trabalho formado por psicanalistas,
psiquiatras, advogados, educadores, jornalistas, sociólogos,
procuradores e pedagogos dedicados a refletir sobre a responsabilidade
pública da televisão no Brasil. Fundamentados
em pesquisas indicando que crianças brasileiras passam,
em média, 3 horas diárias assistindo a televisão,
o grupo passou a analisar as conseqüências da TV
no desenvolvimento infanto-juvenil e na formação
das mentalidades, levando em conta a regulamentação
existente em países democráticos.
Em agosto de 1998,
para facilitar o diálogo e a repercussão de
suas pesquisas e pareceres, o grupo TVer se transformou numa
ONG. Para os ativistas, é tarefa dos cidadãos
e seus representantes políticos a tarefa de exigir
responsabilidade daqueles que ocupam a esfera pública
através da televisão. "As concessões
são propriedade pública entregues às
emissoras na qualidade de serviço público e
este deve ser exercido com responsabilidade e em nome do bem
comum."
A
Carta de princípios da ONG prega que o principal objetivo
do grupo é a promoção dos direitos dos
telespectadores e a educação crítica
para os meios de comunicação. A ONG dedica-se
a divulgar os direitos do telespectador, combater qualquer
forma de censura, encaminhar reclamações para
os órgãos competentes, incentivar a criação
dos ouvidores nas emissoras e fomentar grupos de pesquisa
em linguagem, memória e ética na TV.
O
Tver realiza diversas campanhas e manifestações
organizadas para incentivar telespectadores a desenvolver
postura crítica diante a TV. Uma delas ocorreu em 2001,
quando levou milhares de pessoas a desligar suas TVs simultaneamente
por 15 minutos para protestar contra a baixa qualidade na
programação. Outra idéia foi incentivar
o boicote a patrocinadores de programas de baixa qualidade.
"Deixar de comprar o produto anunciado em programas de
má qualidade é o maior castigo que se pode dar
a uma empresa."
Confira
o trabalho da ONG no sítio: www.tver.org.br
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