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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 256, em 19 de agosto de 2003


Vencedor da categoria Crônica na Mostra Competitiva do 16. Set Universitário, realizado pela Famecos/PUC-RS, em Porto Alegre, 2003

andre.azevedo@uniube.br

 


Caetano, taxista: devorador ou devorado? Episódio de novela deixa implícita a luta político-sexual em que se envereda a nova mulher

foto: André Azevedo da Fonseca

André Azevedo da Fonseca

O episódio a seguir aconteceu em algumas cenas da telenovela Mulheres Apaixonadas, de autoria de Manoel Carlos, exibida pela TV Globo. Vale à pena uma breve reflexão sobre esse caso, pois ele diz alguma coisa sobre a luta político-sexual em que se envereda a nova mulher.

Caetano é um típico motorista de taxi — moreno, queixo quadrado, falador, camisa aberta, cheirando a suor e cigarro — casado com uma dedicada e maternal secretária de escola, Rosinha. Evidentemente, como é de se esperar de um personagem com este perfil, eis que o varonil garanhão não se contenta com o arroz-feijão de seu lar e arruma uma namoradinha extra para praticar com ela todas as safadezas que sua moral não permite fazer com a mulher — afinal, a cândida Rosinha é mãe de seu filho, quase santa. Deve ser até pecado fazer certas coisas.

A namoradinha, uma dedicada (e lindinha) empregada doméstica, não sabe que Caetano é casado. Ela trabalha na casa de Sílvia, uma dessas grã-finas que, entediadas com o pífio desempenho sexual e afetivo do marido, esbanjam a vida buscando outras formas de distração — shopping, cabeleireiro, etc.

Vamos espiar a doméstica pelo buraco da fechadura: Uau! E não é que, por baixo daquela prudência servil de assalariada, a morena fogosa é dessas que acendem labaredas de lascívia, capazes de ferver até à ebulição os fluidos de Caetano, o penetrador? Esses taxistas são demais mesmo! Tudo que um machão quer da vida: de um lado a mãe de seus filhos, e do outro uma namorada ingênua e gostosa.

Mas, voltemos algumas linhas… grã-fina entediada com o marido? Essa mulher é a síntese da dialética entre caça e caçadora, quer abater e ser abatida, devorar e ser devorada, urgentemente! Só de olhar para a cara dela, qualquer telespectador com pouca imaginação é capaz de imaginar as mil e uma sem-vergonhices que estremecem suas virilhas e sobem pelo corpo em arrepios desencadeando inconfessáveis fantasias eróticas com trabalhadores másculos, morenos, queixos quadrados, faladores, camisas abertas, cheirando à suor e cigarro… Só os bons modos seguravam a libido dessa mulher. Ela é pura potência erótica! A menor faísca de ignição seria capaz de detonar uma verdadeira erupção do motor de sua lascívia, levando o taxímetro de quem a conduzisse pelas avenidas do prazer a ultrapassar todos os dígitos da devassidão do orgasmo pleno e total!

Corta a cena. Esqueçamos as outras duas, porque a madame tem algo importante a dizer. Vamos ao que interessa.

Divulgação

Caetano, interpretado pelo ator Paulo Coronato, é o taxista comedor na novela

Na caixa de som do motel vagabundo, La vie en rose: clássico da música popular francesa, mas em uma versão meio bossa nova e cantada em inglês por algum devoto de Frank Sinatra (tipo de versão que só aparece mesmo em trilha de novela ou naquelas seleções fajutas de ‘as melhores músicas do século’ vendidas em conjuntos de CDs através de telemarketing.) "Vem, gostoso, vem me fazer ver estrela", diz a grã-fina Sílvia, peladona, mergulhada numa banheira de espumas, para o erétil taxista — um desfecho óbvio da química da sedução (tele)folhetinesca que deveria desembocar inevitavelmente no quatrilátero amoroso taxista-secretária-doméstica-grã-fina. "Se os homens fizessem com as esposas o que fazem com as amantes, não iam ter tanto chifre", diz Sílvia, a messalina; no que Caetano, o erótico, responde com uma careta de reprovação.

Assim, a frívola madame realiza um verdadeiro exame de toque retal em dois dos tabus ainda firmes no estereótipo do macho latino-americano: a idéia da "esposa imaculada" e o mito do "direito exlusivamente masculino ao orgasmo". Primeiro, põe uma pulga atrás da orelha do sequioso taxista: será que a sua esposa, mal-amada como eu, é assim tão virtuosa quanto meu marido está certa que sou?, diz sem dizer ao taxista que finge não entender direito. Se consideramos a transa de Sílvia e Caetano como um ato político, a primeira leitura, fundamentada naquele mito, levaria à conclusão precipitada de que o que ocorreu foi uma espécie de "revanche" ou "vingança" da classe trabalhadora que, através de um representante, levou a melhor sobre o patrão porque transou com sua mulher e meteu no capitalista-explorador-da-força-de-trabalho um vistoso par de chifres — humilhação suprema em uma cultura que preza, acima de tudo, a honra do varão. Assim, o trunfo de Caetano, o guloso, não é sexual — para saciar seus instintos, além de já ter garantidas as rotinas conjugais da esposa, contava ainda com os encantos extras e sempre disponíveis da namoradinha. Seu trunfo é sócio-político: quem diria, eu, pé-rapado, papei a madame do bacana!

No entanto, essa leitura se mostra defasada quando consideramos as transformações nas relações sociais entre os gêneros. A cultura do ardente amante latino-americano, vista através da ótica masculina, é fundamentada na idéia de que o penetrador (o homem) é o verdadeiro é único possuidor do objeto sexual (a mulher) e, portanto, o legítimo detentor do usufruto das delícias do sexo. A mulher é sempre compreendida como pouco mais que uma serva que conclui seu papel com o orgasmo do macho. As únicas damas com direito a manifestar (e supostamente obter) prazer eram as prostitutas. Mesmo assim, analisando com mais cuidado, esse prazer na verdade também era tido como duvidoso, pois o comum era atribuir a elas o ‘fingimento do orgasmo’ através de gemidos exagerados, ou então certo gozo masoquista de mulher que gosta de ser machucada, ou mesmo de apanhar — tudo em nome da satisfação do garanhão.

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Sílvia, interpretada por natália do Vale, é a grã-fina devoradora

Mas Sílvia, a dissoluta, ao mesmo tempo em que era usada, usava; ao mesmo tempo em que era engolida, engolia. Em sua ótica, era ela quem devorava o amante e realizava suas fantasias sexuais. Assim, é possível elaborar uma segunda leitura: quem comandava, quem conduzia, quem usufruía de verdade as delícias do amor — faça isso, faça aquilo, venha cá, quero mais — confirmando a relação de dominação entre classes, era a grã-fina. Tudo aquilo, para ela, era exótico, uma novidade infinitamente deliciosa, uma transgressão que inspirava profundo senso de aventura e prazer — eu, uma mulher fina, no motel com um taxista ralé? Inadmissível, impensável, só se estivesse doida varrida. Foi um bom negócio: o prazer que recebia era estratosfericamente maior do que o prazer que ofertava. O taxista era um instrumento, um equipamento, um mero motorista sexual. É claro que ele gozava, mas uma gota em comparação à cachoeira orgástica da grã-fina; um tostão em relação a fortuna de prazer da madame alegre; uma migalha de seu banquete; uma moedinha nos lábios de seu caça-níquel.

Assim, inverte-se a situação e sobra para o garanhão o papel de coadjuvante, de um esforçado operário que tem o dever de, nas horas extras, executar mais um dos serviços que deveriam ser de incumbência do patrão: saciar a concupiscência da mulher, preencher seu tédio, distraí-la com uma atividade esportiva qualquer, cumprir os caprichos da patroa. Dessa forma, a figura da esposa fina e imaculada transforma-se em mulher destemida e desavergonhada, uma "caçadora de prazer", exigindo que Príapo se esforce em mil acrobacias eróticas para garantir a manutenção das labaredas da insaciável alazã. A revanche, portanto, é dela. E assim, parece susurrar aos telespectadores: E agora machões? Digam aí quem é que come quem?

Resta ver como as coisas vão se resolver nos próximos capítulos.

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