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João Pedro Stedile, um dos coordenadores no MST, explica
a história da concentração de terra no Brasil
e o sentido da luta dos movimentos sociais
Os jornalistas
Sérgio Gomes e Sérgio Buarque de Gusmão
acompanham João Pedro Stedile na palestra do dia 19
de julho
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André
Azevedo da Fonseca
"Estou
alegre que hajam jovens idealistas, que querem conhecer melhor o
Brasil, colocar sua profissão a serviço dos interesse
da maioria... espero..." Assim começou a palestra de
um dos principais coordenadores do movimento dos Sem-terra (MST),
João Pedro Stedile, concedida a um grupo de 20 estudantes
e recém-formados em Jornalismo que participavam do projeto
Repórter do Futuro, um curso realizado pela Oboré
- projetos especiais em comunicações e artes, em parceria
com a Radiobrás. O encontro foi realizado na tarde de 19
de julho, na sede da Oboré, em São Paulo alguns
dias antes de sua palestra no salão paroquial no município
de Canguaçu (RS), quando um trecho de sua fala serviu de
base para uma avalanche de críticas na imprensa brasileira.
Na
conversa com os estudantes, Stedile fez uma síntese da história
da ocupação e posse da terra no Brasil país
no qual, junto ao Paraguai, persiste a maior concentração
de terras no planeta. Para ele, compreender a História é
fundamental para entender as raízes do problema agrário
brasileiro e o sentido da luta dos movimentos sociais. E o que disse,
em resumo, foi o seguinte:
Antes
de os portugueses chegaram ao continente, há 503 anos, havia
5 milhões de pessoas distribuídas em diversas tribos
e agrupamentos sociais. A terra, evidentemente, era de propriedade
coletiva, um bem da natureza. Com a conquista dos portugueses, as
terras passaram a pertencer à Coroa, e para que os capitalistas
pudessem usufruir da terra, foi implementado um sistema de concessão
de uso: eram as capitanias hereditárias extensões
gigantescas de terra, mais tarde medidas em sesmarias. O sistema
econômico era baseado na monocultura exportadora de algodão,
cana-de-açúcar ou cacau, realizada em grandes unidades
de produção, através de exploração
de mão-de-obra escrava.
Em
meados do século XIX os negros já se organizavam e
fugiam para os quilombos. Ao mesmo tempo, graças a forte
pressão do capital inglês, esse modelo de produção
agro-exportadora entrou em crise. Assim, Dom Pedro II foi levado
a promulgar a Lei 601 de 1850 que, há apenas 153 anos,
introduziu a propriedade privada das terras no Brasil. A partir
daí, os senhores de engenho poderiam transformar-se em proprietários
das glebas que ocupavam desde que pagassem uma fortuna à
Coroa.
Segundo
Stedile, em outras colônias das Américas foram criadas
leis mais democráticas. A lei de terras dos EUA, promulgada
por Abraham Lincoln em 1862 (12 anos depois da brasileira) garantiu
a posse de 100 acres (equivalente a 80 hectares) de terra pública
a toda e qualquer família americana que quisesse trabalhar
na terra uma revolução no campo, o que constitui-se
em uma verdadeira lei reforma agrária, apesar de não
ter tido esse nome.
"Aqui
no Brasil as elites não quiseram esse caminho" porque
queriam "que os negros continuassem trabalhando como assalariados
deles". Para Stedile, esta é a base da desigualdade
atual. "Nós perdemos a primeira oportunidade de fazer
reforma agrária na transição da escravidão
para um outro modelo".
Marcos Zaniboni /Oboré

Grupo
de 20 estudantes participaram do encontro com o coordedador
do MST |
Industrialização
A
crise do modelo agro-exportador se prolongou até 1930, quando
então surgiram as primeiras lutas organizadas de camponeses.
Esses trabalhadores rurais eram formados por gerações
de miscigenados mamelucos e mulatos excluídos pela
lei de 1850 que haviam entrado sertão adentro em busca
de terra. Para Stedile, a primeira grande luta camponesa do Brasil
foi Canudos. "O que foi Canudos? Um líder messiânico,
Antônio Conselheiro, disse para esse tipo de população:
vamos pessoal, eu sei onde tem terra boa, vamos comigo que lá
ninguém vai encher o saco."Antônio Conselheiro
conseguiu reunir 25 mil pessoas em quatro anos. "Aí
o governo se assustou com aquela mobilização, e a
história do massacre vocês conhecem..."
Assim,
para repor a mão-de-obra na lavoura, a classe dominante estimulou
um programa de atração de camponeses pobres da Europa,
de forma que, entre 1875 e 1914 vieram para o Brasil 1,6 milhão
de famílias de camponeses pobres. O governo chegou a fazer
um programa de colonização das terras públicas,
entregando a eles, no inicio, de 40 a 50 hectares, e depois, aos
outros, 25 hectares. Assim, aquelas gerações de miscigenados
e esses imigrantes formaram, pela primeira vez na nossa sociedade,
o que pode ser chamado de classe social dos camponeses.
A
saída da crise aconteceu em 1930, quando a chamada burguesia
industrial, constituída com o capital dos barões do
café e sediada sobretudo em São Paulo, fez uma revolução
política, destronou a oligarquia rural, assumiu o poder e
implementou um novo modelo econômico. Nesse momento, explicou,
a classe dominante brasileira perdeu a segunda oportunidade de fazer
uma reforma agrária.
Segundo
Stedile, todos os países do hemisfério Norte casaram
o capitalismo industrial com distribuição de terras
no século XIX. Inclusive, quem inventou o termo reforma agrária
foi a própria burguesia industrial da Europa, que desenvolvia
uma política de Estado para derrotar a aristocracia rural
européia, dividir a terra, transformar os camponeses em pequenos
proprietários e, portanto, em pequenos produtores rurais
e pequenos consumidores das mercadorias produzidas pela indústria.
Mas
no Brasil, Getúlio Vargas não fez reforma agrária,
primeiro porque o capitalismo brasileiro era voltado ao mercado
externo e não ao mercado consumidor interno. E depois,
porque precisava de um elevado nível de exploração
de mão-de-obra para poder competir com a Europa, pois a única
maneira de ter alta taxa de lucro era ter baixos salários.
E para ter baixos salários é preciso ter grandes contigentes
de mão-de-obra sempre procurando emprego. E de onde vinha
esse exército industrial de reserva, cujo papel
fundamental é manter os salários baixos? "Vinha
do interior, dos filhos de camponeses."
Dessa
forma, o modelo de industrialização, para a burguesia
brasileira, foi um sucesso. "Durante 50 anos de 1930
a 1980 nossa economia teve um processo de crescimento econômico
fantástico! Nesse período, na história do planeta,
nenhuma outra sociedade cresceu tanto economicamente quanto o Brasil.
E nós saímos de uma economia atrasada e agrícola,
e em 50 anos nos transformamos na oitava economia do mundo!"
Da
década de 80 para cá, ocorreu o fenêmeno que
José Graziano, atual Ministro Extraordinário de Segurança
Alimentar e Combate à Fome, descreveu em sua tese de doutorado
como modernização dolorosa ou seja,
aqui, o capitalismo entrou na agricultura, mas apenas na grande
propriedade, expulsando ainda mais a mão-de-obra. Segundo
Stedile, o Brasil tem a mais alta tecnologia agrícola, mas
se por um lado ela aumenta a produtividade da lavoura, aumenta também
a concentração da riqueza, o desemprego, a pobreza,
a desigualdade social "tudo ela aumenta, e aumenta até
os idiotas que, de vez em quando, escrevem nos jornais que a agricultura
brasileira deu certo. Deu certo para apenas 26 mil proprietários,
de áreas entre 500 hectares e 1 mil hectares; mas para os
pequenos agricultores, que têm pouca terra, esse modelo agrícola
não deu certo."
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Geografia
da desigualdade
Números
mostram concentração da propriedade da terra
no Brasil
Na
palestra concedida aos estudantes de Jornalismo, o coordenador
do MST, João Pedro Stedile, demonstrou com números
a desigualdade na distribuição de terra no Brasil.
"Em números gerais, só para vocês
terem uma idéia: pela extensão territorial do
Brasil, transformando os 8 milhões de quilômetros
quadrados em hectares, nós temos 860 milhões
de hectares." Destes, em torno de 260 milhões
ainda se mantém como terras públicas de propriedades
da União, ou dos Estados, que é em geral a chamada
Amazônia Legal toda aquela região do extremo
norte além de algumas regiões de fronteira.
"Então
temos hoje, no Brasil, 600 milhões de hectares de propriedade
privada, com escritura em cartório. E destes 600 milhões
de hectares, a estrutura social é mais ou menos a seguinte:
1% dos proprietários de terra no Brasil controlam 46%
de todos esses 600 milhões. Isso como número
geral. Mais detalhado dentro dele, nós temos 27 mil
fazendeiros que possuem fazendas acima de 2 mil hectares que
controlam, hoje, 178 milhões de hectares. O maior deles
é de uma construtora de Curitiba, do Cecílio
Rego de Almeida, que é dono de 4 milhões de
hectares uma área maior do que a Dinamarca!
A famosa construtora CR Almeida! Ele não sabe diferenciar
um pé de melancia de um pé de abóbora,
mas é dono tem escritura lavrada, lá
no Pará de 4 milhões de hectares."
"Logo
abaixo desses 27 mil fazendeiros", prossegue, "tem
o que nós poderíamos chamar de a burguesia
agrária produtora, que são mais ou menos
em torno de 400 mil proprietários, que possuem entre
100 e 2 mil hectares. Esse é o núcleo que produz
na agricultura, o núcleo capitalista da nossa sociedade"
Depois,
abaixo de 100 hectares que seriam os pequenos agricultores,
ou camponeses, que é a base da Confederação
Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (Contag)
há 5 milhões de famílias de camponeses.
"Para vocês verem como vão se ampliando
as contradições." E além desses
5 milhões de pequenos proprietários, existem
4,6 milhões de famílias que vivem no interior
do Brasil, mas que não têm terra. São
os camponess sem-terra, que é a base do MST. "E
abaixo de nós, ainda tem outros 5 milhões de
pessoas porque aí é difícil calcular
família 5 milhões de pessoas que trabalham
como assalariados rurais. Inclusive, grande parte deles já
moram nas cidades."
"Essa
é a realidade que existe na nossa sociedade",
afirmou. "O movimento Sem-terra só existe porque
existe essa realidade. Só existe sem-terra porque,
antes dos sem-terra, existe o latifundiário. Lá
na minha região, onde me criei, nas terras do meu avô,
que é a região colonial italiana no Rio Grande
do Sul, lá não tem latifúndio
e não tem sem-terra! Então, onde se produziu
regiões onde a terra foi distribuída democraticamente,
não se produziu latifúndio e não se produziu
o sem-terra pobre.
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Força e mobilização social
Stedile
fala sobre o sentido da organização dos pobre

Mulheres,
crianças e velhos, aprisionados no final da guerra de
Canudos
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"O
movimento Sem-terra é a expressão natural daquele
setor da nossa sociedade que resolveu se organizar para lutar pelos
seus direitos.", afirmou João Pedro Stedile na palestra
aos estudantes. O MST nasceu, em nível nacional, em 1984
justamente aproveitando toda aquela efervescência social
e o reacendimento do movimento de massa na luta contra a Ditadura.
Não foi, portanto, coincidência, mas foi fruto de um
contexto histórico e ideológico.
"Os
pobres sem-terra têm discernimento suficiente para se indignar:
vivendo num país com tanta riqueza, numa sociedade tão
rica, por que ele é pobre? Por que passar necessidades, diante
de tanta riqueza? Por que eu tenho que passar fome, passando todos
os dias em frente a uma lavoura de milho?"
Stedile
disse que o segundo objetivo do movimento é a luta contra
a desigualdade social. "Por que nossa sociedade é tão
desigual? Por que o Sr. Cecílio Rego de Almeida tem 4 milhões
de hectares e eu nenhum? Por que?" Para alcançar esse
objetivo, eles assimilaram diversos ensinamentos dos movimentos
camponeses que os antecederam na América Latina, por
exemplo, há uma tradição de luta camponesa
muito maior.
"Nós
usamos até uma historinha didática", um "exercício
de raciocínio lógico" que, segundo Stedile, é
a primeira aula dos sem-terra, para despertar a consciência
crítica: de onde vem o poder dos latifundiários, dos
ricos? Vem do dinheiro! Com o talão de cheques compra
o jornalista, compra a televisão, compra tudo. E os Estados,
os políticos, de onde vem o poder deles? O Estado usa o seu
poder é nas Forças Armadas. Quando o Estado quer aplicar
sua vontade, chama a polícia ou o exército.
E
o sem-terra, os pobres, como é que têm força?
Nós não temos cheque, não temos polícia.
De onde vem a força? A força dos pobres, dos trabalhadores,
vem do número! Quanto mais gente nós conseguirmos
juntar e organizar para o mesmo objetivo, maior força nós
temos.
"Se
vamos em duas pessoas por mais que o digam líder dos
sem-terra falar com o prefeito lá da sua cidade, a
secretária, já na primeira sala, já diz que
o prefeito viajou para a capital. Vocês são
o quê? Sem-terra? Ah, o prefeito viajou. Se chegamos
em 50, ela diz: espera aí um pouquinho que eu vou
ver se ele está!, e antes dela voltar o prefeito
já aparece: no que eu posso atender meu povo?
Mas isso porque estão em 50."
"Mas
se viemos em 500, antes de chegar na porta da prefeitura, o prefeito
já vai no meio da estrada: em que eu posso ajudá-los?!
Nós representamos vocês! Eu já fui pobre, hein!!!
Essa é uma frase clássica dos políticos. Eu
já fui pobre hein! Eu já trabalhei, sou igual a vocês!!!"
Então,
qual é a força que, milagrosamente faz com que o tratamento
do prefeito seja do estava viajando, depois espera
um pouco e então o que eu posso fazer
meu povo? "É o número! E aí
que está a nossa força. No número. Então,
a tarefa do MST é juntar número de pessoas com consciência
para que lutem por um mesmo objetivo, por um mesmo ideal. Aí
sim, se transforma em uma força social. É para isso
que precisa organização. Organizar vontades, energias
para um mesmo objetivo, isso que é o MST."
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