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A
utopia de Sócrates
Serão
os livros substituídos por labirintos de hipertextos atualizados
diretamente no cérebro?

André Azevedo da Fonseca
Dizem
que Sócrates não gostava de livros. O filósofo
grego resmungava que, por culpa dessas novas tecnologias, crias
diretas da equivocada invenção do alfabeto, os jovens
deixariam de usar a memória, entregariam esta responsabilidade
a caracteres inanimados e nunca mais seriam capazes de evocar o
conhecimento por si próprios. Assim, Sócrates parecia
temer o objeto livro. Ele preferia confiar no conhecimento virtual
dos confins do espírito. Tanto foi assim que nunca deixou
nada escrito. Tudo que sabemos dele vem do relato de seus discípulos
Platão e Xenofonte.
No
decorrer dos séculos, o artefato livro inspirou um fascínio
assustador no imaginário popular. Mesmo quando ainda não
tinham o formato pelo qual hoje o conhecemos, esses objetos passaram
a ser intimamente temidos e admirados como os sumos portadores dos
mistérios profundos do mundo. Rolos e códices de pergaminhos
sagrados, manuscritos com fórmulas proibidas da alquimia,
tábuas ancestrais de argila ou terracota e suas revelações
dos mais baixos segredos do homem e do universo eram meticulosamente
soterrados em porões de mosteiros. Pouquíssimos sacerdotes
tinham acesso a esses registros. Durante séculos, incunábulos
amaldiçoados no Index Librorum Proibitorum foram aniquilados
e queimados, às vezes junto com os autores e leitores.
Reverência
ao livro
Percebe-se
que essa intuição temorosa de certa forma perdura
até hoje. Quando crianças, em plena primavera, temos
uma relação aberta e dessacralizada com textos e livros.
Sem o mínimo de cerimônia, debochadas, indisciplinadas
e displiscentes, riscamos, desenhamos nas margens, rasgamos, colamos,
picotamos as figuras. Uma delícia. Se a obra torna-se desinteressante,
desprezamos, amassamos, jogamos fora. Mas quando em um dia de verão
acordamos adultos, passamos a ter uma postura mais reverencial perante
o objeto livro. Muitos consideram um sacrilégio riscá-lo.
Quando o fazem, preferem lápis, fingindo que em um futuro
eventual pretendem apagar as anotações que um dia
pareceram importantes. Adultos são inibidos e constrangidos.
Tratam o livro como uma peça sagrada, inviolável.
Como
bem observou a pesquisadora Maria Helena Martins, isso ocorre porque,
sem dúvida, desde os pergaminhos mágicos, há
ainda uma forte tradição de culto ao suporte. Além
de criar uma adoração ao artefato, essa mística
cartorial nos faz acreditar que o que está impresso em livro
é verdade selada e carimbada. Não sem malícia,
o poeta e violeiro Catullo da Paixão Cearense, quando mostrava
a alguém os seus manuscritos, dizia que depois de impressos
ficariam melhores, e ao saírem em livro estariam excelentes.
Mas
talvez tenha chegado a hora de pensar o texto menos como um artefato
e mais como um acontecimento. Barthes fala da necessidade de colocarmo-nos
dentro da produção, não dentro do produto.
Novas leituras iconoclastas se fazem necessárias para que
possamos nos libertar da adoração ao objeto para submergir,
sem obstáculos, nas profundezas do texto.
Paulo
Freire ensinava que o ato de ler não se refere apenas às
palavras. Lemos a cidade, as pessoas. Lemos o mundo. Mas, mesmo
quando a leitura está restrita ao livro, o fato é
que não lemos apenas com os olhos. Lemos com o paladar, com
o olfato, com o tato. Quando nos dedicamos ao texto, o corpo inteiro
está mobilizado na leitura. Nossos músculos lêem
conosco, nosso fígado se contrai, os rins se ajeitam, a pele
se arrepia, o estômago se contorce.
McLuhan
dizia que as tecnologias são extensões do corpo humano.
Assim, o garfo seria a continuação de nossas mãos;
o pneu, a extensão de nossos pés; a roupa, a extensão
da pele, e assim por diante. É uma visão muito perspicaz.
Todo artefato tecnológico é evidentemente cultural,
pois nasceu de anseios humanos, foi feito pelos (e para) os humanos.
Precisamos sempre saciar o apetite dos anseios da alma perante nossa
frágil biologia. Assim, descobrimos que podemos acoplar uma
pedra à mão e triplicar a potência da pancada.
Depois, aprendemos a lançar o apetite através de um
arco e assim alvejar uma presa. Mais tarde, transformamos em telefone
os nossos delírios telepáticos. Construímos
o avião com nossa vontade de voar.
Burilando
a roda quadrada
Mas
o computador ainda está em sua pré-história,
quer consideremos seus processos internos, quer a estrutura física
de seus equipamentos. Assim como houve um tempo em que os vasos
sanitários eram quadrados, os computadores ainda não
estão adequados à anatomia humana. Poucas coisas são
tão desconfortáveis aos nervos e músculos quanto
a combinação de mouse, teclado e monitor. Ainda
estamos burilando a roda quadrada. Talvez pela pressa em vender
um produto inacabado, talvez pela fome do público que salivava
sonhando a Internet, comemos tecnologia mal-passada e admitimos
os maus-tratos às vértebras.
Essa
auto-flagelação não ocorria, por exemplo, com
nossas velhas tias datilógrafas. Isso porque, entre diretos
de esquerda e cruzados de direita em suas Remingtons, as
pugilistas alternavam os esforços repetitivos da datilografia
com exercícios variados, pois se ocupavam simultaneamente
em colocar papel, ajeitar o carbono, girar o botão de deslize
de folhas e acionar o braço do carrinho. Hoje em dia não
há digitador que não tem, teve ou terá uma
lesão por esforços repetitivos, ou pelo menos uma
tendinite. Ler um texto em um monitor, então, nem se fala.
É ridículo. Cansa as vistas em minutos.
Entretanto,
persiste um grande equívoco nas críticas às
narrativas da era da Internet. Pierre Lévy observa que considerar
o computador apenas um instrumento a mais para produzir ou ler textos
significa negar sua fecundidade cultural própria. Primeiro,
ele argumenta que o hipertexto é análogo à
estrutura de pensamento: sempre estamos nos deslocando em memórias
e idéias no decorrer da leitura linear. Mas o que se articula
no computador, e que provavelmente será sua grande ruptura,
são as narrativas estruturadas em rede.
Se
a escrita alfabética estabilizou-se sobre e devido a um suporte
estático, não é um despropósito questionar
se o desenvolvimento de um suporte dinâmico, como são
as redes de computadores, não poderia naturalmente reinvidicar
a estuturação de novos sistemas de escrita. Estaríamos
então em um tempo de reconfiguração mental,
cujo objetivo é integrar o espírito do homem ao labirinto
sináptico da Intenet extensão tecnológica
de nossos próprios sistemas nervosos. Lévy chega a
entusiasmar-se, como se acabássemos de saír da escrita
pré-história e a aventura do texto estivesse apenas
começando. "Como se acabássemos de inventar a
escrita".
Em
eXistenz, o cineasta canadense David Cronemberg sonhou a história
de um grupo que joga um vídeo-game com conexão orgânica.
Para entrar no ambiente virtual, os jogadores primeiro fazem uma
cirurgia para ligar o cabo do equipamento diretamente na medula.
Quando começam a jogar, todos os sentidos biológicos
são "transportados" para dentro do jogo
ou melhor, a realidade sensorial externa é substituída
pela realidade virtual interna através de estímulos
eletrônicos diretamente enviados ao cérebro que mimetizam
em todo o corpo a ambientação, os sons e o cheiro
do jogo. Aqueles jogos tridimensionais com capacete parecem pré-históricos,
pois em eXistenz o vídeo-game é vivenciado fisiologicamente
pela visão, tato, olfato, audição e paladar.
Durante as peripécias do jogo é possível caminhar
na rua, ir a um restaurante, comer um besouro exótico e experimentar
seu gosto, sentir suas perninhas roçando na língua.
Este filme, como todos do Cronemberg, é repleto de ambigüidades,
pois depois de algumas idas e voltas, nem o espectador nem os personagens
sabem direito o que é realidade e o que é virtual,
pois ambas são idênticas. Surge aí um infinito
novelo filosófico que, evidentemente, esse ensaio não
pretende desembaraçar.
Apesar
de ainda ser pura ficção científica, e apesar
de ainda necessitar de exaustivos debates sobre bioética,
passo-a-passo essa parece ser a tendência de desenvolvimento
dos jogos eletrônicos que, por sua vez, têm influenciado
decisivamente o paradigma de recepção da tecnologia
digital. A geração anterior de "analfabites"
talvez não esteja preparada para isso. A atual geração
lida com mais naturalidade com computadores, conexões em
rede e intervenções cirúrgicas no próprio
corpo. Quando as pessoas estarão dispostas a conectar a própria
alma na Internet, a fazer downloads de sonhos, a transitar
nas mentes de multidões, eis uma boa questão.
Portanto,
em um exercício de ficção científica
nada despropositado (lembremo-nos que muitas banalidades cotidianas
de hoje não passavam de loucas utopias no passado) poderíamos
reordenar as reflexões anteriores para sonhar um sistema
biotecnológico profundamente integrado à fisiologia
humana, pronto para estabelecer com a literatura em rede uma conexão
aberta e dessacralizada, capaz de aniquilar o culto ao objeto e
proporcionar a total imersão nas vísceras do texto.
Efetivando a utopia simbiótica de McLuhan, essa biotecnologia
faria os textos fluírem não para uma superfície
de um objeto exterior, mas diretamente para o pensamento. Como em
uma alucinação transcendental, de olhos fechados,
repousados em uma velha poltrona no jardim, deixaríamos as
células do corpo deliciarem-se na fagocitose das texturas
de narrativas tridimensionais e mergulharíamos nas experiências
exponenciais das articulações do texto em toda a sua
plenitude.
A
partir desse novo paradigma no conceito de memória, em um
atrevimento insolente, poderíamos sugerir que desta vez estaria
sendo levado a efeito a utopia de Sócrates. Com a extensão
de nosso sistema nervoso em rede, poderemos finalmente, em tributo
ao desejo do filósofo, ler o conhecimento não através
de um suporte físico, mas virtualizado nos recantos do próprio
espírito.
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