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Sonhador
de utilidade pública
Affonso
Romano de SantAnna conversa sobre os universos paralelos
da mente do escritor
foto:
Sonia Lopes
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André
Azevedo da Fonseca
Quando
soube há duas semanas que ia conversar com Affonso Romano
de SantAnna pensei: Uau! O poeta e crítico literário
é um desses intelectuais cosmopolitas que a gente, se não
morre de inveja antes, tem que sugar ao máximo quando tem
a oportunidade de conviver por algumas horas. Ele tem mais de 30
obras publicadas; escreve semanalmente em O Estado de Minas e O
Globo; participou intensamente de movimentos literários de
vanguarda; conviveu com Clarice Lispector e muitos outros escritores
interessantíssimos; escreveu uma tese exaustivamente premiada
sobre Carlos Drummond de Andrade; dirigiu cursos e deu aulas em
universidades brasileiras, americanas, alemãs e francesas;
coordenou por várias anos a Biblioteca Nacional e acima de
tudo é casado com a escritora Marina Colasanti. Ou seja:
ele é o cara!
Confesso
que usei alguns truques para preparar a entrevista. Já que
conversaríamos sobre literatura, primeiramente li seu livro
Como se faz literatura (Vozes, 1985), onde ele fala sobre várias
etapas do processo criador. Neste texto ele dá várias
dicas de leitura que considera fundamentais, entre elas A criação
Literária (Edições de Ouro, 196-), de Cyro
dos Anjos, que também acabei lendo. Depois devorei O Canibalismo
amoroso (Rocco, 1990) e só então tive noção
precisa de sua erudição. Depois folheei Drummond,
o gauche no tempo (Record, 1990), li suas últimas crônicas
nos jornais e mergulhei em várias de suas poesias disponíveis
pela Internet, entre elas "Que país é este".
Neste meio tempo, li também A Força da Palavra (Record,
1996), um livro de entrevistas de Betty Millan, para ver se eu pegava
algum macete. E depois ainda li as crônicas de A sedução
da palavra (Letraviva, 2000). É claro que não bastava,
mas não tinha mais tempo: já eram 11h15 da manhã
de 26 de abril e Affonso Romano de SantAnna estava na minha
frente, no saguão do Uberaba Apart Hotel, onde seria gravada
a entrevista.
SantAnna
veio a Uberaba para participar do projeto Tim Estado de Minas -
Grandes Escritores, uma parceria com os programas ArtEdcuação
e Pró-Ler, coordenados em Uberaba pela incansável
Olga Frange. Na noite de 26 de abril o escritor conversou com os
leitores no auditório da Faculdade de Medicina do Triângulo
Mineiro (FMTM) e falou sobre o livro que acaba de relançar:
Música Popular e Moderna Poesia Brasileira, pela editora
Landmark. Mas o nosso diálogo, travado horas antes, começa
com a seguinte pergunta, que sempre gosto de fazer a escritores:
Com
tanta informação circulando no planeta nos veículos
de comunicação, por que ainda precisamos de literatura
para pensar sobre a condição humana?
Por
uma razão muito simples: a literatura é uma espécie
de parábola da realidade e da condição humana,
e através das parábolas você espelha muito mais
a realidade do que através de análises objetivas e
científicas. Mesmo porque um dos efeitos da parábola
ou seja, da ficção e da poesia é
solicitar da cabeça do leitor que ela se ponha também
em movimento para articular o imaginário. Então é
uma obra a muitas mãos, uma leitura a muitas mãos.
Mas
através das notícias a mídia também
parece capaz de oferecer essas parábolas. Por exemplo, a
cobertura jornalística sobre o maníaco do parque ofereceu
ao imaginário da cultura de massa um personagem quase literário,
pronto para encarnar um novo mito, ou uma atualização
de um mito. Não há uma conversa entre real e imaginário
na imprensa?
Sim,
a mídia hoje é o grande romance de folhetim. A novela
é apenas uma parte de um grande romance de folhetim que começa
no jornal de manhã, continua nos programas infantis, nos
desenhos animados, nos esporte e nas mesas redondas, no Jornal Nacional,
no Fantástico. É um mundo como espetáculo,
como representação. E isso provoca até situações
muito intrigantes, porque o indivíduo que não está
equipado para decompor esses elementos que são atabalhoadamente
jogados na telinha, ou que se amontoam no jornal, ele tem uma visão
das coisas muito surrealista. Eu tenho a impressão que grande
parte do povo brasileiro mistura o Fantástico com Jornal
Nacional, com a Bíblia, e faz um "melê" que
é difícil deslindar exatamente.
Às
vezes, quando penso em livros, me vem a idéia que o leitor
e o escritor não passam de sujeitos covardes que, por não
ter coragem de experimentar a vida de forma carnal e se entregar
às aventuras reais, se contentam em ser voyeurs de
personagens fictícios. Paulo Freire ensinava que nos alfabetizamos
não apenas na leitura das palavras, mas na leitura do mundo.
Será que um dia conseguiremos nos livrar da mediação
dos livros e aprender a ler o mundo diretamente, sem esse intermédio
simbólico?

"Jorge
Luis Borges vivia dizendo: enquanto outros se orgulham dos livros
que escreveram, eu me orgulho dos livros que eu li" |
Eu
colocaria de outra maneira. A escritura e a leitura são modos
de extensão da vida, de complementação da vida.
Eu não posso ir à Lua. Julio Verne também não
podia. Mas ele descreveu a viagem à Lua. Julio Verne não
podia fazer uma viagem submarina. Mas ele imaginou como seriam as
20 mil léguas submarinas. José de Alencar, ou um dos
autores românticos, não viveram na Idade Média
mas viajaram lá através da imaginação.
Mesmo o romancista que narra histórias fantásticas
está dilatando o seu universo e dilatando o universo dos
outros. As pessoas não cabem dentro do seu próprio
corpo. Por isso elas sonham de noite. Como elas não cabem
dentro do próprio corpo elas têm que ler livros e ver
novelas. E têm que amar os outros.
O
que têm a ver o amor e a idéia de extensão da
vida?
O
amor é um ato de transferência de você para o
outro. Você se muda para dentro do ser alheio. E no caso dos
místicos, eles tentam imigrar de vez para a humanidade inteira
se fundir com a figura de Deus.
Lembro-me
de Schopenhauer quando ele diz que nós, antes de nos materializarmos
enquanto animais biológicos, na verdade já começamos
a existir quando ainda somos um mero desejo expresso na troca de
olhares de nossos pais. Na verdade ele diz que as idéias
e pensamentos se esforçam para apoderar-se da matéria
para se transformar em algo físico, pois no instante mesmo
do desejo o real já está sendo construído.
A literatura faz isso, não?
É.
O real é uma construção. Assim como em um teatro
de arena, onde cada espectador está vendo a cena de um ângulo
diferente, o real é algo sempre construído e desconstruído.
O que a arte faz sistematicamente é destruir e reconstruir
a realidade. Veja as peças de Shakespeare: de repente, como
tem no Rio agora, e ocorre de vez em quando em várias partes
do mundo, vem um diretor e apresenta um Hamlet, um McBeth totalmente
diferente e às vezes até oposto e contraditório
ao que seria o Shakespeare original. Não existe um Shakespeare
original, assim como a realidade em si é uma coisa que nós
temos que aprender a construir e ler diariamente.
Gostaria
que você falasse um pouco das diferenças que no livro
A sedução da palavra (Letraviva, 2000) você
estabelece entre o autor e o escritor.
Todo
mundo pode ser autor. Qualquer pessoa pode dizer: ah, vou escrever
a vida no meu sítio, ou escrever a história da minha
tia, ou a história da minha cidade, do meu cachorro; um médico
pode fazer um livro de medicina
todos são autores.
Agora, o escritor é alguém que, além de ser
autor, se dá ao luxo de ter heterônimos, pseudônimos,
pode multiplicar a sua personalidade. O escritor é alguém
que tem um trato com a linguagem muito especial. Ele constrói
as coisas a partir da linguagem. Ele sabe que as coisas não
existem antes da linguagem dar consistência a elas. Ou seja,
a diferença entre um escritor e uma pessoa comum é
que a pessoa comum diz: minha vida daria um romance; e o escritor
faz um romance. Porque vida de ninguém é um romance.
A vida das pessoas é interessantíssima, mas só
viram romance não se forem simplesmente escritas, mas se
forem muito bem escritas. E para isso tem que ser escritor.
No
processo de formação do escritor é preciso
que ele leia porcaria?
O
escritor lê porcaria até sem querer, né? Assim
como a gente assiste a filme ruim propositalmente, e há alguns
filmes ruins que são ótimos, como há romances
e poemas kitsch
que são ótimos, volta e meia você se surpreende
cantando tangos e boleros, né? O kitsch e o mau gosto
fazem parte da realidade. E a formação nossa, tanto
na hora de colocar um vestido, escolher um sapato, quanto na hora
de escolher um bom livro, um bom concerto, é saber distinguir
o que é a coisa kitsch e o que é a coisa mais
bem elaborada, o que é o chamado mau gosto e o que é
um gosto mais sofisticado. Então essa questão passa
por tudo. Da escolha do que se vai comer no restaurante ao livro
de poemas que vamos ler.
Metade
do autor é o leitor?
Metade.
E às vezes há casos até curiosíssimos
de autor que é um leitor voraz, um leitor insaciável,
como é o caso do Borges, que vivia dizendo: enquanto outros
se orgulham dos livros que escreveram, eu me orgulho dos livros
que eu li. Porque para ele escrever é uma forma de ler e
reler.

A obra
de Marquês de Sade, que arreganha elogios à depravação
total, inspira a questão: a literatura pode ser perigosa? |
Nas
obras deles, Marquês de Sade arreganhava elogios à
depravação total; Thomas de Quincey defendia que assassinatos
eram obras de arte; os poetas da beat generation faziam apologia
ao uso desenfreado de drogas. A literatura pode ser perigosa como
dizem que é a TV? Ou, pelo contrário, num outro extremo,
não há perigo algum nesses atrevimentos literários?
Tudo
pode ser perigoso ou não. A palavra farmácia vem do
grego farmakon, que significa ao mesmo tempo veneno e remédio.
Então quando você entra na farmácia, você
acha veneno e remédio. Se tomar alguma coisa errada você
pode morrer, se tomar a coisa certa você pode se curar. Nesse
sentido a literatura, como a música, não é
em si nem boa nem má. Pode potencializar nas pessoas aquilo
que elas têm numa ou noutra direção. Por exemplo,
na música você pode pensar assim: Mozart é uma
coisa sublime, rock é coisa pesada; uma é angelical,
outra é diabólica. Isso é um estereótipo,
porque se algumas pessoas já cometeram violência e
crime "por causa" do rock, nem todas as pessoas cometem
crime e violência por causa do rock. E ao contrário,
muitos dos carrascos nazistas gostavam de Bach, de Mozart. Então...
é o farmakon.
Essa
do farmakon foi boa! Vamos a próxima. Livro é muito
caro. Hoje a média é R$30, ou seja, uns 10% do salário
mínimo isso se o Lula passasse o mínimo para
R$300. Você defende o direito de que quem não tem grana
possa "xerocar" os seus livros?
Realmente,
o livro dentro dos padrões brasileiros é muito caro.
Até na China, que tem 400 milhões de leitores, o livro
custa entre R$2 e R$3. A questão do xerox tem sido debatida
no mundo inteiro. Eu participei de vários seminários
internacionais, sobretudo quando dirigi a Biblioteca Nacional. Cada
país tenta defender uma estratégia determinada: alguns
colocam uma taxa na produção da máquina que
vai reverter como direito autoral para os autores, outros têm
outras estratégias. No caso brasileiro especificamente, não
há como impedir, por mais que se aconselhe. O professor quer
dar um livro, ainda que ele recomende a compra, mas o livro está
esgotado. Como fazer? O professor não vai dar aula sobre
aquele livro? Por outro lado, em muitos livros você precisa
só de um capítulo. Não precisa do livro inteiro.
Então é uma questão muito complexa. Não
de trata de proibir. Trata-se de estabelecer uma política
mais ampla disso.
Você
deu aulas nas Universidades da Califórnia e do Texas, nos
EUA; na Universidade de Colônia, na Alemanha; e na Universidade
Aix-en-Provence, na França. Como essas coisas são
discutidas por lá?
Você
entra numa universidade americana e em cada andar da biblioteca
tem máquinas de xerox. Você compra um cartãozinho
na entrada e copia quantos livros quiser, quantas páginas
quiser. É só comprar e renovar o cartão. Eu
já saí de bibliotecas americanas com "toneladas"
de xerox.
Mas
como eles lidam com a questão dos direitos autorais neste
caso?
Eles
têm um processo. Aquele dinheiro cobrado pelo xerox vai reverter
de alguma maneira para uma política do livro, para o autor.
É
uma boa idéia.
É
necessário rever isso tudo. Por exemplo, em alguns países
da Europa o autor ganha pelo fato de em uma biblioteca pública
alguém tirar o livro dele para ler. Cada leitor da biblioteca
pública é computado e o autor ganha uma comissão.
É uma coisa interessante.
Você
conhece um conceito que se chama copyleft?
[SantAnna
me olhou meio de lado e vi surgir uma interrogação
sobre sua cabeça.]
Esse
termo inventado por um hacker americano é uma inversão
da idéia de copyright.
[O
escritor percebe imediatamente a idéia e se diverte com o
trocadilho, soltando uma risadinha. Mesmo assim prefiro explicar
melhor]
É
um tipo especial de licença que ao mesmo tempo em que garante
a propriedade intelectual, autoriza expressamente que os leitores
reproduzam a obra à vontade, desde que não seja para
fins comerciais. Se uma editora quer comercializar a obra, paga
os direitos autorais. Se é para uso pessoal você pode
comprar o livro ou então copiá-lo gratuitamente. A
idéia é que, na verdade, quanto mais a obra circula,
mesmo que seja através de cópias, mais ela vende.
De cada vinte leitores que copiam, seguramente uns três ou
quatro vão acabar comprando, porque ao gostar do texto não
vão querer guardar as folhas grampeadas do xerox, mas sim
a cópia durável e de bom acabamento do livro.
Claro.
O
que acha dessa idéia?
É
uma proposta interessante. Agora, embutida nessa questão
tem um outro problema que acho riquíssimo e que foi exposto
implicitamente num filme que se chama "O Homem que copiava".
Eu até escrevi duas crônicas sobre isso, dentro de
um conjunto de análise que eu estava fazendo da arte contemporânea,
sobre a questão da cópia. O problema da cópia
é interessantíssimo, porque a sociedade em que vivemos,
que é chamada de pós-moderna, instituiu perversamente
a idéia de que o autor não existe. Qualquer um pode
se apoderar de qualquer coisa. O sujeito não existe. Isso,
filosoficamente, redunda em uma tragédia epistemológica,
porque se o sujeito não existe somos todos objetos. Eu não
gosto de uma cultura onde todos são objetos. O esforço
é para que as pessoas se transformem em sujeitos.
Conheço
outra linha de discussão: o autor não existe porque
o que ele faz é pouco mais do que copiar e cruzar vários
outros autores que estão dentro de seu universo mental. Tom
Zé chama isso de estética do plágio, ou estética
do arrastão. Para ele, nós somos o nosso contexto,
somos a nossa circunstância. [a observação
ia ficando longa, e o entrevistado já ficava inquieto para
falar]. Não será por mero acidente que conseguimos
escrever algo novo?
Aí
tem várias coisas interessantíssimas. Tem um lado
que é verdade: na natureza nada se cria, tudo se transforma.
É uma lei da Química. Por outro lado, dentro do folclore,
da literatura, as histórias são recriadas. Você
encontra pedaços da lenda do Rei Arthur em Mil e Uma Noites,
em Decameron e em vários lugares. Agora, isso é uma
coisa, é um fato real o processo de metamorfose, de
transformação que existe na natureza, na cultura.
Outra coisa é a cultura da leviandade que a pós-modernidade
cultiva. Ou então certas coisas que são veiculadas
através da chamada estética do falso.
O
que é isso?
Autores
que fazem romance jogando com a idéia da falsidade, levantando
uma questão que em última instância é
a seguinte: alegam que numa sociedade se mente muito, numa sociedade
tudo é falso, tudo é fake. Então a pessoa produz
uma obra falsa, uma obra fake. Então eu digo: é juntando
mentira a mentira que vamos combater a mentira? É juntando
falsidade a falsidade que nós vamos combater a falsidade?
Em termos de arte e escatologia, é juntando merda a merda
que nós vamos sair da merda?
O
que é uma obra falsa?
Pois
é. O que é uma obra falsa?
Ou
o que seria a estética do falso?
A
estética do falso pretende que não há autoria.
Há um deslizamento constante através do qual todos
participam, que tem seu lado verdadeiro. Quando entra na moda usar
um tipo de calça, de camisa, todo mundo se apropria daquilo.
Mas estou desenvolvendo já há algum tempo um raciocínio
que, ao lado de reconhecer o que há de natural nisso, há
um outro lado perverso: a questão da apropriação.
Em arte se usa muita técnica de apropriação,
mas os bandidos também usam. Como um caso de um artista na
França que resolveu fazer uma exposição chamada
"Tudo Aquilo que Roubei de Vocês". Ele roubou vários
objetos dos amigos e fez uma exposição. Os amigos
não gostaram e chamaram a polícia.
Rá
rá rá.
Aí
surgiu uma discussão, que envolveu Ministro da Cultura e
Ministro da Justiça na França, se roubar é
um ato artístico, um gesto estético. Até que
ponto é apropriação, ou quem sabe, que é
a minha ótica, a gente não deve analisar isso tudo
dentro de um contexto? Analisando dentro de um contexto gestaltiano
mais amplo, você entende Fernandinho Beira-Mar, o narcotráfico,
a violência da nossa sociedade e a falta de caráter
geral.
Entende
ou justifica?
Entende.
Justificar jamais. A grande ansiedade do ser humano é entender
as coisas, pelo menos. Chega alguém e mata outra pessoa,
você fica horrorizado, você quer entender por que matou,
tem que ter uma causa, tem que ter uma razão! Não
vai justificar, mas tem que entender.
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