
Em entrevista exclusiva, Romeu
Cardoso Guimarães, pesquisador
de genética e evolução molecular, expõe
suas idéias sobre clone, biodiversidade, vírus,
felicidade, imortalidade, ciência e religião |
André
Azevedo da Fonseca
Romeu
Cardoso Guimarães, 58, é doutor em Patologia, membro
da Academia Mineira de Medicina e professor de Evolução
Molecular no curso de pós-graduação em Genética
do Instituto de Ciências Biológicas na Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG). Lá coordena o grupo de pesquisa
Evolução Molecular e Genética Sistêmica,
cujo objetivo é investigar as origens da vida e a filosofia
da ciência biológica.
O
pesquisador realizou uma série de palestras na 13º Semana
de Seminários da Universidade de Uberaba onde apresentou
alguns dos temas mais fascinantes de seus estudos, como os sistemas
de memória em hiperciclos metabólicos, as fronteiras
e conceitos do que é ser vivo, o papel dos vírus na
biodiversidade, entre outros. Esta entrevista foi concedida na tarde
de 22 de maio, no estúdio de TV do curso de Comunicação
Social.

Apesar de o assunto estar em moda, a dúvida sempre se repete:
o clone é realmente idêntico ao seu original?
Romeu
Guimarães: Essa identidade é praticamente impossível
na natureza. A célula é muito complicada e toda vez
que se reproduz, sempre sai um pouquinho diferente. Então,
um clone que a gente faz obtendo um derivado de uma célula
vai ser muito parecido à célula original, mas idêntico
não. Inclusive, tem uma correção a ser feita:
dois gêmeos univitelinos, ou monozigóticos todo
mundo conhece, são indivíduos sempre de mesmo sexo
derivados de um ovo só são muito mais parecidos
entre si do que qualquer clone que a gente queira fazer. Portanto,
clones idênticos são impossíveis.
Na
reprodução, nos formamos a partir da divisão
de uma única célula mãe. Se as células
que nos constituem são cópias de uma original, podemos
dizer, então, que nosso corpo é formado de bilhões
de clones?

Todas as
células de um indivíduo são derivadas da
duplicação sucessiva de uma célula original
|
Guimarães:
A maioria das pessoas não têm uma noção
precisa disso. Nós somos constituídos de, vamos dizer
assim, 70 quilos de células. Eu nem consigo imaginar quanta
célula dá isso. Só o cérebro
que tem em média um quilo e meio tem cem bilhões
de neurônios. E todas essas células vêm, de fato,
de um ovo só. Todas essas células têm a mesma
genética, são derivadas do mesmo núcleo, daquele
mesmo ovo. Portanto, esses muitos bilhões de células
que nós somos, de origem única, de um ovo só,
são clones. Somos uma população clonal de células
com genética idêntica. Mas elas não são
idênticas entre si. Como qualquer reprodução
produz sempre um pouco de diferença, também nossas
células vão ser diferentes por vários motivos.
O motivo mais banal é que as mutações ocorrem
a uma taxa de um erro a cada um bilhão de bases
do DNA. Nossos cromossomos tem seis bilhões de bases. Então,
a cada reprodução, vamos ter pelo menos seis mutações
acontecendo. Quando um ovo divide-se em duas células filhas,
cada uma vai ter seis diferenças em relação
à célula original. Isso vai se acumulando ao longo
do processo de divisão, até que fiquem claras grandes
diferenças entre elas: uma célula vira fígado,
a outra pâncreas, a outra neurônio...
Você afirma ser assustador a quantidade de defeitos cromossômicos
da reprodução humana. Que defeitos assustadores são
esses?
Guimarães:
A gente fica imaginando que na natureza as coisas acontecem com
certa regularidade, com certa qualidade. Ficamos impressionados
em ver como essa qualidade é defeituosa. Parece que
tem um controle de qualidade mal-feito. E um dos números
que mais assustam é esse: na espécie humana
que a gente considera uma espécie altamente complexa
o processo reprodutivo tem alto nível de problemas. Por exemplo:
10% dos casais são inférteis. 10% é muito!
Quando são férteis, ocorre então uma gravidez.
Das fertili-zações que acontecem junta um esperma-tozóide
com um óvulo e faz um ovo na maioria das vezes esse
ovo tem defeitos sérios, graves, que impedem o prosseguimento
de uma gestação legal. E isso acontece em mais da
metade das gravidezes! Quanto mais cedo se observa a gravidez, ou
o feto, mais defeitos são encontrados. Isso é mais
ou menos a regra. Nas gravidezes precoces tem mais abortos e quanto
mais avança a gravidez menos abortos têm.
Peraí.
Então quando a namorada atrasa a menstruação
em três ou quatro dias, isso pode ter sido uma gravidez precoce
que, por defeitos cromossômicos, foi abortada?
Guimarães:
É uma possibilidade. Ela fez um embriãozinho, um ovo,
ele começou a se dividir, se implantou parcialmente. Aí
a menstruação atrasou porque ele passou a produzir
algum hormônio, mas o defeito que apareceu não permitiu
aquela gravidez progredir e então ela é abortada.
São os abortos precoces. E quando a gente vai examiná-los,
percebe-se que a grande maioria deles foi por causa de anomalia
cromossômica. E quanto mais cedo se observa os abortamentos,
mais frequentes são essas anomalias cromossômicas.
E são anomalias grosseiras. E isso é meio assustador.
É
muita sorte, então, termos nascido e estarmos aqui conversando?
Guimarães:
É. Podemos dizer que a gente teve sorte de ser uma coisa
que deu certo e por isso sobreviveu.
Se
há tanta imperfeição na natureza, isso quer
dizer que o erro é fundamental para a existência da
vida?
Guimarães:
Existem dois contextos em que a gente precisa examinar esse assunto.
Enquanto estamos vivendo, não devemos esperar acontecer muito
erro. Mas isso é na vida de um indivíduo. Agora, quando
a gente olha a natureza na perspectiva evolutiva, quando examinamos
a sucessão de gerações, a variabilidade é
uma condição necessária. Desde que surgiu esse
assunto de ecologia, de conservação de espé-cie,
de sobrevivência das espécies, de sobre-vivência
da humani-dade, um dos preceitos fundamentais é a variabilidade.
Isso significa que o indivíduo tem que ser meio diferente
do outro e todos são diferentes, como a gente observa.
Então,
quando a gente considera a perspectiva do indivíduo, qualquer
variação pode parecer um erro, porque vai levar a
uma doença. Mas quando a gente examina na perspectiva evolutiva,
a variação é necessária.
Então, quando os poetas dizem que a natureza é perfeita,
eles estão errados?
Guimarães:
O poeta vê a coisa de outra maneira. O poeta vê a beleza,
a harmonia, as associações que dão certo, o
conjunto bonito, e isso ele chama de perfeito. Mas não quer
dizer que seja perfeito, porque perfeição é
um conceito que deriva muito de matemática, de lógica.
É um pouco da permissividade poética que a
gente até valoriza. A gente não desprestigia esse
tipo de falar do poeta. É até bonito, é agradável.
Até
porque o que o poeta faz é poesia, e não biologia.
Guimarães:
Pois é. Então não tem muito a ver com perfeição,
né? Perfeição é coisa de geômetras,
de religiosos que tem a imagem de Deus como perfeito.

Para Guimarães,
é normal que em algum momento encontrem-se algumas analogias
entre tradições religiosas e descobertas das ciências.
Na foto, detalhe de estátua em bronze do século
XII representando Siva Nataraja na Dança da Vida e da
Morte |
Você
afirma não gostar de certa tendência, muito em voga
nos meios acadêmicos, que sugere ligações entre
ciência e misticismo. Qual é a crítica que faz?
Guimarães:
Biologia com misticismo não combinam. Misticismo é
uma coisa muito da pessoa, do ser humano. O misticismo aparece tardiamente
na evolução quando surgiu um sistema neural complexo
que deu origem à essa imaginação de coisas
religiosas, místicas. Eu não tenho nada contra isso
não, tem muita gente religiosa e bacana. Não se pode
é querer ficar empurrando religião em todo mundo porque
nem todo mundo é religioso.
No
momento atual, estamos vivendo uma angústia ao perceber que
o mundo está se estragando por causa de tecnologia, devastações
e crescimento exagerado. Nós estamos estragando o mundo e
nosso futuro está a perigo. E isso está criando um
certo tipo de movimento anti-tecnologia, anti-ciência: põem
a culpa na ciência por causa da tecnologia. E um dos modos
de reagir a isso é reavivar esses conceitos místicos.
Mas, ao mesmo tempo, existem cientistas também insatisfeitos
com a ciência talvez por não verem nela a solução
de alguns problemas existenciais e ficam querendo colocar
o misticismo, que é próprio do indivíduo, dentro
de uma coisa que é ciência, que é natureza,
que não tem nada a ver com isso. Então essa mistura
não é saudável. Quando se consideram as perspectivas
adequadas pode até dar certo. Por exemplo, a gente acha muito
boas as coisas dos poetas que vão falar de Biologia. Isso
é ótimo. Um religioso pode falar de Biologia, legal.
Mas dizer que tem alguma coisa mística em um evento da natureza,
isso aí já é um exagero que às vezes
causa mais prejuízo que benefício.
A
idéia de que o planeta Terra é um organismo vivo
a hipótese de Gaia é plausível?
Guimarães:
Eu vejo como uma metáfora. É inteiramente fora de
propósito conceber a Terra como um organismo vivo. Esse pessoal
da hipótese de Gaia são pessoas até respeitáveis
no meio científico. Mas eu tenho a impressão que estão
extrapolando apesar de produzir metáforas interessantes.
Isso
acontece muito no âmbito da ciência. O cientista não
é um indivíduo isolado lá na sua torre de marfim.
Todo cien-tista gosta de atingir repercussão no mun-do. Tem
muito cientista que é provocativo, no sentido de propor algum
dito de impacto. Então ele tem suas idéias amplamente
discu-tidas, e às vezes o impacto é interessante.
Muitas
aplicações da ciência resultaram em devastações.
Por exemplo, plantações extensivas causam desertificação.
Estamos, então, em uma época de preocupações
ecológicas. Eu tenho impresão que esse pessoal da
Gaia entrou nessa aí com a intenção de fazer
da própria Terra um organismo ameaçado de extinção.
Então encontramos um benefício em propor essa coisa:
é um instrumento retórico do discurso de presevação
da natureza. Mas de forma alguma pode ser entendido de forma literal.
Entretanto,
muitas tradições religiosas têm mostrado boas
intuições sobre o que hoje se sabe na ciência.
A idéia bíblica de que viemos do pó, por exemplo,
é uma boa pista para as atuais especulações
sobre a origem da vida?
Guimarães:
É, essas são certas coisas que assustam um pouco.
A gente está observando que tem uma certa distância
entre religião e coisas da natureza, coisas da ciência.
Mas de vez em quando a gente percebe que algumas culturas, algumas
mitologias, algumas religiões têm certas intuições
que funcionam, que produzem analogias ou metáforas adequadas.
E isso nos leva a repensar: pôxa, de onde vêm essa confluência,
ou essa coincidência, ou essa sacada interessante? É
difícil saber como vêm essas coisas.
A
maioria delas são coincidências quase que obrigatórias.
Por exemplo, essa do pó: todo mundo observa que ao falecer
somos enterrados e vamos voltar para o pó mesmo. Isso é
mais ou menos óbvio. Agora, falar que a gente veio do pó,
isso aí já é meio difícil de perceber
como é que surge uma idéia dessa. Eu penso que o povo
antigo imaginava que a terra era produtora de coisas. Talvez
daí eles tenham tirado a idéia de que viemos do pó.
Na Bíblia, dizem que a primeira modelagem do homem por Deus
foi feita na argila, e argila é feita de pó, então
o homem veio do pó, volta para o pó, funciona razoavelmente,
legal.
O
interessante é que na ciência, hoje em dia, a gente
tem observado que a matéria orgânica pode também
ter vindo da poeira interestelar, aquela poeira cósmica.
E aí surge essa analogia interessante: uma parte da matéria
orgânica que passou a constituir o ser vivo veio da poeira
interestelar. Isso é uma anotação interessante
que a gente faz, e talvez isso sirva de motivo para fazer um diálogo
com as religiões, com as mitologias...
... mas cada um em suas especulações próprias?
Guimarães:
É, porque as origens das intuições e a origem
dos resultados da ciência são muito distintas. É
normal que em algum momento encontrem-se algumas analogias. Alguns
cientistas dizem que as intuições produzidas pelas
culturas são tão diversificadas que é quase
obrigatório que, em qualquer resultado da ciência,
sempre se vai encontrar alguma mitologia ou alguma religião
que já tenha dito aquilo.
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