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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 210, em 3 de junho de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Em entrevista exclusiva, Romeu Cardoso Guimarães, pesquisador de genética e evolução molecular, expõe suas idéias sobre clone, biodiversidade, vírus, felicidade, imortalidade, ciência e religião

André Azevedo da Fonseca

Romeu Cardoso Guimarães, 58, é doutor em Patologia, membro da Academia Mineira de Medicina e professor de Evolução Molecular no curso de pós-graduação em Genética do Instituto de Ciências Biológicas na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Lá coordena o grupo de pesquisa Evolução Molecular e Genética Sistêmica, cujo objetivo é investigar as origens da vida e a filosofia da ciência biológica.

O pesquisador realizou uma série de palestras na 13º Semana de Seminários da Universidade de Uberaba onde apresentou alguns dos temas mais fascinantes de seus estudos, como os sistemas de memória em hiperciclos metabólicos, as fronteiras e conceitos do que é ser vivo, o papel dos vírus na biodiversidade, entre outros. Esta entrevista foi concedida na tarde de 22 de maio, no estúdio de TV do curso de Comunicação Social.

Apesar de o assunto estar em moda, a dúvida sempre se repete: o clone é realmente idêntico ao seu original?

Romeu Guimarães: Essa identidade é praticamente impossível na natureza. A célula é muito complicada e toda vez que se reproduz, sempre sai um pouquinho diferente. Então, um clone que a gente faz obtendo um derivado de uma célula vai ser muito parecido à célula original, mas idêntico não. Inclusive, tem uma correção a ser feita: dois gêmeos univitelinos, ou monozigóticos — todo mundo conhece, são indivíduos sempre de mesmo sexo derivados de um ovo só — são muito mais parecidos entre si do que qualquer clone que a gente queira fazer. Portanto, clones idênticos são impossíveis.

Na reprodução, nos formamos a partir da divisão de uma única célula mãe. Se as células que nos constituem são cópias de uma original, podemos dizer, então, que nosso corpo é formado de bilhões de clones?


Todas as células de um indivíduo são derivadas da duplicação sucessiva de uma célula original

Guimarães: A maioria das pessoas não têm uma noção precisa disso. Nós somos constituídos de, vamos dizer assim, 70 quilos de células. Eu nem consigo imaginar quanta célula dá isso. Só o cérebro — que tem em média um quilo e meio — tem cem bilhões de neurônios. E todas essas células vêm, de fato, de um ovo só. Todas essas células têm a mesma genética, são derivadas do mesmo núcleo, daquele mesmo ovo. Portanto, esses muitos bilhões de células que nós somos, de origem única, de um ovo só, são clones. Somos uma população clonal de células com genética idêntica. Mas elas não são idênticas entre si. Como qualquer reprodução produz sempre um pouco de diferença, também nossas células vão ser diferentes por vários motivos. O motivo mais banal é que as mutações ocorrem a uma taxa de um erro a cada um bilhão de bases do DNA. Nossos cromossomos tem seis bilhões de bases. Então, a cada reprodução, vamos ter pelo menos seis mutações acontecendo. Quando um ovo divide-se em duas células filhas, cada uma vai ter seis diferenças em relação à célula original. Isso vai se acumulando ao longo do processo de divisão, até que fiquem claras grandes diferenças entre elas: uma célula vira fígado, a outra pâncreas, a outra neurônio...

Você afirma ser assustador a quantidade de defeitos cromossômicos da reprodução humana. Que defeitos assustadores são esses?

Guimarães: A gente fica imaginando que na natureza as coisas acontecem com certa regularidade, com certa qualidade. Ficamos impressionados em ver como essa qualidade é defeituosa. Parece que tem um controle de qualidade mal-feito. E um dos números que mais assustam é esse: na espécie humana — que a gente considera uma espécie altamente complexa — o processo reprodutivo tem alto nível de problemas. Por exemplo: 10% dos casais são inférteis. 10% é muito! Quando são férteis, ocorre então uma gravidez. Das fertili-zações que acontecem — junta um esperma-tozóide com um óvulo e faz um ovo — na maioria das vezes esse ovo tem defeitos sérios, graves, que impedem o prosseguimento de uma gestação legal. E isso acontece em mais da metade das gravidezes! Quanto mais cedo se observa a gravidez, ou o feto, mais defeitos são encontrados. Isso é mais ou menos a regra. Nas gravidezes precoces tem mais abortos e quanto mais avança a gravidez menos abortos têm.

Peraí. Então quando a namorada atrasa a menstruação em três ou quatro dias, isso pode ter sido uma gravidez precoce que, por defeitos cromossômicos, foi abortada?

Guimarães: É uma possibilidade. Ela fez um embriãozinho, um ovo, ele começou a se dividir, se implantou parcialmente. Aí a menstruação atrasou porque ele passou a produzir algum hormônio, mas o defeito que apareceu não permitiu aquela gravidez progredir e então ela é abortada. São os abortos precoces. E quando a gente vai examiná-los, percebe-se que a grande maioria deles foi por causa de anomalia cromossômica. E quanto mais cedo se observa os abortamentos, mais frequentes são essas anomalias cromossômicas. E são anomalias grosseiras. E isso é meio assustador.

É muita sorte, então, termos nascido e estarmos aqui conversando?

Guimarães: É. Podemos dizer que a gente teve sorte de ser uma coisa que deu certo e por isso sobreviveu.

Se há tanta imperfeição na natureza, isso quer dizer que o erro é fundamental para a existência da vida?

Guimarães: Existem dois contextos em que a gente precisa examinar esse assunto. Enquanto estamos vivendo, não devemos esperar acontecer muito erro. Mas isso é na vida de um indivíduo. Agora, quando a gente olha a natureza na perspectiva evolutiva, quando examinamos a sucessão de gerações, a variabilidade é uma condição necessária. Desde que surgiu esse assunto de ecologia, de conservação de espé-cie, de sobrevivência das espécies, de sobre-vivência da humani-dade, um dos preceitos fundamentais é a variabilidade. Isso significa que o indivíduo tem que ser meio diferente do outro — e todos são diferentes, como a gente observa.

Então, quando a gente considera a perspectiva do indivíduo, qualquer variação pode parecer um erro, porque vai levar a uma doença. Mas quando a gente examina na perspectiva evolutiva, a variação é necessária.

Então, quando os poetas dizem que a natureza é perfeita, eles estão errados?

Guimarães: O poeta vê a coisa de outra maneira. O poeta vê a beleza, a harmonia, as associações que dão certo, o conjunto bonito, e isso ele chama de perfeito. Mas não quer dizer que seja perfeito, porque perfeição é um conceito que deriva muito de matemática, de lógica. É um pouco da permissividade poética — que a gente até valoriza. A gente não desprestigia esse tipo de falar do poeta. É até bonito, é agradável.

Até porque o que o poeta faz é poesia, e não biologia.

Guimarães: Pois é. Então não tem muito a ver com perfeição, né? Perfeição é coisa de geômetras, de religiosos que tem a imagem de Deus como perfeito.


Para Guimarães, é normal que em algum momento encontrem-se algumas analogias entre tradições religiosas e descobertas das ciências. Na foto, detalhe de estátua em bronze do século XII representando Siva Nataraja na Dança da Vida e da Morte

Você afirma não gostar de certa tendência, muito em voga nos meios acadêmicos, que sugere ligações entre ciência e misticismo. Qual é a crítica que faz?

Guimarães: Biologia com misticismo não combinam. Misticismo é uma coisa muito da pessoa, do ser humano. O misticismo aparece tardiamente na evolução quando surgiu um sistema neural complexo que deu origem à essa imaginação de coisas religiosas, místicas. Eu não tenho nada contra isso não, tem muita gente religiosa e bacana. Não se pode é querer ficar empurrando religião em todo mundo porque nem todo mundo é religioso.

No momento atual, estamos vivendo uma angústia ao perceber que o mundo está se estragando por causa de tecnologia, devastações e crescimento exagerado. Nós estamos estragando o mundo e nosso futuro está a perigo. E isso está criando um certo tipo de movimento anti-tecnologia, anti-ciência: põem a culpa na ciência por causa da tecnologia. E um dos modos de reagir a isso é reavivar esses conceitos místicos. Mas, ao mesmo tempo, existem cientistas também insatisfeitos com a ciência — talvez por não verem nela a solução de alguns problemas existenciais — e ficam querendo colocar o misticismo, que é próprio do indivíduo, dentro de uma coisa que é ciência, que é natureza, que não tem nada a ver com isso. Então essa mistura não é saudável. Quando se consideram as perspectivas adequadas pode até dar certo. Por exemplo, a gente acha muito boas as coisas dos poetas que vão falar de Biologia. Isso é ótimo. Um religioso pode falar de Biologia, legal. Mas dizer que tem alguma coisa mística em um evento da natureza, isso aí já é um exagero que às vezes causa mais prejuízo que benefício.

A idéia de que o planeta Terra é um organismo vivo — a hipótese de Gaia — é plausível?

Guimarães: Eu vejo como uma metáfora. É inteiramente fora de propósito conceber a Terra como um organismo vivo. Esse pessoal da hipótese de Gaia são pessoas até respeitáveis no meio científico. Mas eu tenho a impressão que estão extrapolando — apesar de produzir metáforas interessantes.

Isso acontece muito no âmbito da ciência. O cientista não é um indivíduo isolado lá na sua torre de marfim. Todo cien-tista gosta de atingir repercussão no mun-do. Tem muito cientista que é provocativo, no sentido de propor algum dito de impacto. Então ele tem suas idéias amplamente discu-tidas, e às vezes o impacto é interessante.

Muitas aplicações da ciência resultaram em devastações. Por exemplo, plantações extensivas causam desertificação. Estamos, então, em uma época de preocupações ecológicas. Eu tenho impresão que esse pessoal da Gaia entrou nessa aí com a intenção de fazer da própria Terra um organismo ameaçado de extinção. Então encontramos um benefício em propor essa coisa: é um instrumento retórico do discurso de presevação da natureza. Mas de forma alguma pode ser entendido de forma literal.

Entretanto, muitas tradições religiosas têm mostrado boas intuições sobre o que hoje se sabe na ciência. A idéia bíblica de que viemos do pó, por exemplo, é uma boa pista para as atuais especulações sobre a origem da vida?

Guimarães: É, essas são certas coisas que assustam um pouco. A gente está observando que tem uma certa distância entre religião e coisas da natureza, coisas da ciência. Mas de vez em quando a gente percebe que algumas culturas, algumas mitologias, algumas religiões têm certas intuições que funcionam, que produzem analogias ou metáforas adequadas. E isso nos leva a repensar: pôxa, de onde vêm essa confluência, ou essa coincidência, ou essa sacada interessante? É difícil saber como vêm essas coisas.

A maioria delas são coincidências quase que obrigatórias. Por exemplo, essa do pó: todo mundo observa que ao falecer somos enterrados e vamos voltar para o pó mesmo. Isso é mais ou menos óbvio. Agora, falar que a gente veio do pó, isso aí já é meio difícil de perceber como é que surge uma idéia dessa. Eu penso que o povo antigo imaginava que a terra era produtora de coisas. Talvez daí eles tenham tirado a idéia de que viemos do pó. Na Bíblia, dizem que a primeira modelagem do homem por Deus foi feita na argila, e argila é feita de pó, então o homem veio do pó, volta para o pó, funciona razoavelmente, legal.

O interessante é que na ciência, hoje em dia, a gente tem observado que a matéria orgânica pode também ter vindo da poeira interestelar, aquela poeira cósmica. E aí surge essa analogia interessante: uma parte da matéria orgânica que passou a constituir o ser vivo veio da poeira interestelar. Isso é uma anotação interessante que a gente faz, e talvez isso sirva de motivo para fazer um diálogo com as religiões, com as mitologias...

... mas cada um em suas especulações próprias?

Guimarães: É, porque as origens das intuições e a origem dos resultados da ciência são muito distintas. É normal que em algum momento encontrem-se algumas analogias. Alguns cientistas dizem que as intuições produzidas pelas culturas são tão diversificadas que é quase obrigatório que, em qualquer resultado da ciência, sempre se vai encontrar alguma mitologia ou alguma religião que já tenha dito aquilo.

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