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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 215, em 6 de agosto de 2002

andre.azevedo@uniube.br

 


Mostra na Fundação Cultural pretende despertar a reflexão sobre o processo criativo


Oráculo e Abismo, escultura em papel de José Eduardo de Araújo, carregam forte carga mítica e espiritual

André Azevedo da Fonseca

A manhã está serena, a quietude das árvores não indica qualquer vestígio de ventania. Mas uma profusão de telhas avança, expande, multiplica-se, ameaça rebentar repentinamente em ondas de maré incontrolável, mas mantém-se firme, imóvel, inabalável na moldura. "E telha é uma coisa complicadíssima! Ninguém gosta de fazer telha", diz o artista plástico Hélio Siqueira, referindo-se à qualidade das obras de Ricardo Rocha – Goiás 1 e Goiás 2. Rocha é um dos 56 artistas selecionados para o 2º Panorama das Artes Plásticas de Uberaba, na galeria de arte da Fundação Cultural. A exposição pretende ser anual, e em 2002 ficou disponível ao público no período de 6 a 30 de setembro.

O artista plástico Hélio Siqueira, idealizador e coordenador geral da mostra, espera que, além de projetar os artistas, o evento acenda o debate e provoque discussões que levem ao amadurecimento da produção e da crítica de arte na cidade. Segundo ele, apesar da evidente renovação do campo artístico uberabense, demonstrada pela considerável presença de jovens criadores, ainda falta reflexão sistemática sobre os significados das escolhas estéticas.

Siqueira tem muitas dúvidas em relação à didática das chamadas escolinhas de arte. Ele percebe que, em geral, privilegiam o manejo de técnicas básicas em detrimento à plena educação artística, deixando de despertar no aluno a compreensão ampla do sentido do que estão fazendo. "É um ensino ultrapassado. Ao invés de mudar a cabeça das pessoas, elas enfatizam aquilo que as pessoas já gostam", critica.

Este equívoco, para Siqueira, está ligado a outros vícios. Ele considera, por exemplo, a arte-terapia, uma distorção. Admite que é válido utilizar-se de procedimentos artísticos como instrumento de reabilitação mental, mas a produção não deve, necessariamente, ser vista como obra de arte. Da mesma forma, um trabalho resultado de um simples exercício didático de reprodução de estilos ou obras consagradas, se funciona como instrumento de aprendizado, não pode ser considerado uma obra artística. "Tem coisa que não é nem releitura, é cópia mesmo. E cópia é pouca vergonha!", afirma.

Outra carência apontada é a ausência de compromisso artístico, o que leva a uma produção inconstante dos criadores, prejudicando o amadurecimento estético. "A produção daqui não é regular. Normalmente são artistas de fim-de-semana, fazem por mera ocupação de tempo", observa.

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