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Mostra na Fundação
Cultural pretende despertar a reflexão sobre o processo criativo

Oráculo
e Abismo, escultura em papel de José Eduardo de Araújo,
carregam
forte carga mítica e espiritual |
André
Azevedo da Fonseca
A
manhã está serena, a quietude das árvores não
indica qualquer vestígio de ventania. Mas uma profusão
de telhas avança, expande, multiplica-se, ameaça rebentar
repentinamente em ondas de maré incontrolável, mas
mantém-se firme, imóvel, inabalável na moldura.
"E telha é uma coisa complicadíssima! Ninguém
gosta de fazer telha", diz o artista plástico Hélio
Siqueira, referindo-se à qualidade das obras de Ricardo Rocha
Goiás 1 e Goiás 2. Rocha é um dos 56
artistas selecionados para o 2º Panorama das Artes Plásticas
de Uberaba, na galeria de arte da Fundação Cultural.
A exposição pretende ser anual, e em 2002 ficou disponível
ao público no período de 6 a 30 de setembro.
O
artista plástico Hélio Siqueira, idealizador e coordenador
geral da mostra, espera que, além de projetar os artistas,
o evento acenda o debate e provoque discussões que levem
ao amadurecimento da produção e da crítica
de arte na cidade. Segundo ele, apesar da evidente renovação
do campo artístico uberabense, demonstrada pela considerável
presença de jovens criadores, ainda falta reflexão
sistemática sobre os significados das escolhas estéticas.
Siqueira
tem muitas dúvidas em relação à didática
das chamadas escolinhas de arte. Ele percebe que, em geral,
privilegiam o manejo de técnicas básicas em detrimento
à plena educação artística, deixando
de despertar no aluno a compreensão ampla do sentido
do que estão fazendo. "É um ensino ultrapassado.
Ao invés de mudar a cabeça das pessoas, elas enfatizam
aquilo que as pessoas já gostam", critica.
Este
equívoco, para Siqueira, está ligado a outros vícios.
Ele considera, por exemplo, a arte-terapia, uma distorção.
Admite que é válido utilizar-se de procedimentos artísticos
como instrumento de reabilitação mental, mas a produção
não deve, necessariamente, ser vista como obra de arte.
Da mesma forma, um trabalho resultado de um simples exercício
didático de reprodução de estilos ou obras
consagradas, se funciona como instrumento de aprendizado, não
pode ser considerado uma obra artística. "Tem coisa
que não é nem releitura, é cópia mesmo.
E cópia é pouca vergonha!", afirma.
Outra
carência apontada é a ausência de compromisso
artístico, o que leva a uma produção inconstante
dos criadores, prejudicando o amadurecimento estético. "A
produção daqui não é regular. Normalmente
são artistas de fim-de-semana, fazem por mera ocupação
de tempo", observa.
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