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Representantes da Oboré e da Radiobrás falam sobre
suas idéias e propósitos
foto: André
Azevedo da Fonseca

Da esq. para
a dir.: Henri Kobata e Giancarlo Summa, da Radiobrás;
Sérgio Gome, diretor da Oboré, Reinaldo Alves,
da equipe de comunicação do MST; e Giovanna Modé,
do Intervozes |
André
Azevedo da Fonseca
No
dia 28 de junho, 53 estudantes e recém-formados em Jornalismo
e Rádio/TV , provenientes de 24 faculdades em 9 cidades
dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Distrito
Federal participaram do processo de seleção para concorrer
às 20 vagas do Projeto Repórter do Futuro,
um curso de complementação universitária oferecido
desde 1994 pela Oboré
- Projetos Especiais em Comunicação e Artes, em São
Paulo. O primeiro módulo, De Frente para o Novo Brasil,
será realizado em parceria com a Radiobrás.
Na
reunião de apresentação, os estudantes participaram
de uma palestra com os jornalistas e diretores da Oboré,
Sérgio Gomes e Ana Luisa Zaniboni; do representante da equipe
de comunicação do MST, Reinaldo Alves; do gerente
do escritório da Radiobrás de São Paulo, Giancarlo
Summa; do diretor de planejamento e gestão da Radiobrás,
Henri Kobata; e da representante do Intervozes
- Coletivo Brasil de Comunicação Social, Giovanna
Modé.
Para
o jornalista Sérgio Gomes, a falta de jornais-laboratório
nas faculdades, o desaparecimento da imprensa alternativa e a proibição
do estágio dificultaram o exercício da prática
jornalística para as novas gerações de estudantes.
Além disso, segundo ele, ao permitir que jornalistas experientes
trabalhassem em casa, a informatização restringiu
o contato e o diálogo entre focas e veteranos, contribuindo
para a "descerebração" do ambiente interno
nos jornais. "Hoje não há debate nas redações",
afirmou.
"Com
a greve de 1978, os donos de jornal viram que era possível
fazer jornalismo com menos gente. Aí, cortaram tudo."
Gomes percebe que ainda circula entre estudantes a idéia
de que o futuro da profissão é seguir carreira no
Estadão, na Veja ou seja, trabalhar no jornal dos
outros. No entanto, afirmou, 70% dos profissionais de imprensa não
trabalham com carteira assinada, mas "se viram!".
Recentemente, as oportunidades têm surgido especialmente em
agências de notícias e rádios comunitárias.
"Há
todo um campo de trabalho que as escolas simplesmente desconhecem".
Para ele, é uma grande deficiência das faculdades a
omissão de disciplinas como Gestão e Administração
de Rádios, por exemplo. "E isso em um momento em que
os equipamentos estão bem mais baratos", o que torna
mais fácil a instalação e manutenção
de uma emissora.
A
preguiça intelectual dos profissionais também foi
um tema abordado em sua palestra. Segundo ele, em sua grande maioria,
os jornalistas são uma categoria profissional que não
estuda. "Todas as outras [categorias] têm seus congressos,
se atualizam. Jornalista, se tem tempo, ou dorme ou bebe".
Assim, citou o trabalho do Laboratório de Estudos Avançados
em Jornalismo (Labjor), da Unicamp, que se dedica a pós-graduação,
pesquisa e atualização profissional, e da Oboré,
que, desde 1994, realiza cursos de complementação
universitária "para quem realmente quer ser jornalista
de verdade".
Assim,
Gomes explicou que a Oboré foi procurada pela Radiobrás
para desenvolver o curso, cujo objetivo é estimular os estudantes
a desenvolverem habilidades em entrevista coletiva, técnica
de reportagem e produção de matérias para
rádio e agência. Além disso, a idéia
é que os futuros jornalistas conheçam os novos propósitos,
projetos e linhas estratégicas de ação
da empresa estatal.
BBC
brasileira
A
Radiobrás é uma empresa pública ligada à
Secretaria de Estado de Comunicação, cujo objetivo
é informar a sociedade sobre as ações do Governo
Federal. De acordo com dados da própria empresa na Internet,
sua estrutura conta com cinco estações de rádio,
dois canais de televisão, uma agência de notícias
e um serviço radiofônico via satélite utilizado
por mais de 600 emissoras no país.
Na
palestra para os estudantes, o gerente do escritório da Radiobrás
em São Paulo, Giancarlo Summa, afirmou que hoje existe um
grande esforço para renovar a empresa e transformá-la
em um instrumento verdadeiramente útil "para a construção
de um novo país".
A
Radiobrás é a responsável, junto aos órgãos
de comunicação do Legislativo e Judiciário,
pela produção de A Voz do Brasil, um radiojornal
cuja retransmissão é obrigatória às
19hs. Summa admitiu que o programa tem "péssima fama
entre os donos de rádio", mas, para ele, isso acontece
por interesses comerciais, já que o horário é
considerado o pico para a venda de anúncios. Ele acredita
que a Voz do Brasil é um instrumento importante da
democracia "porque conta o que o governo faz".
Além
disso, explicou que a Agência Brasil é uma das principais
fontes de informação do país. Ele afirmou que
o sítio na Internet contabiliza mais de 5 milhões
de acessos mensais. "Muitos jornais o usam, apesar de nem sempre
dar os créditos". Ele disse também que a Radiobrás
é constantemente acusada de ser um veículo essencialmente
"chapa-branca". Para ele, "possivelmente a imagem
era verdadeira", pois os governos não se preocupavam
com a democratização da informação e,
também por causa do interesse das emissoras comerciais, a
empresa foi negligenciada. Isso se traduzia em profissionais mal
pagos e desmotivados.
Assim,
reafirmou que a meta da Radiobrás, hoje sob o comando do
jornalista Eugenio Bucci, é realizar um jornalismo público
inteligente e bem escrito, através de uma empresa comprometida
com o interesse público, e não com propaganda do governo.
"O grande sonho é ter uma BBC brasileira".
"Mas
é claro que, entre os desejos, tem a realidade". Para
ele, a qualidade é dada também pela competência
e liberdade editorial oferecida aos jornalistas. Para exemplificar
a dificuldade, citou o caso da "autocensura" que percebeu
nos profissionais da Radiobrás quando ninguém da equipe
de Brasília fez a cobertura do recente protesto dos servidores
públicos na capital federal. Ele garantiu que não
havia qualquer determinação da direção
para não cobrir o evento, mas os repórteres não
tinham certeza se podiam fazer, já que estavam em uma empresa
do governo. "Nós assumimos uma autocrítica e
modificamos os procedimentos internos". Para ele, autocensura
é mau jornalismo. "Não é possível
que uma empresa de jornalismo não cubra isso. Isso é
notícia!"
Novas
abordagens
Giancarlo
Summa afirmou que a imprensa em geral dá um tratamento "muito
avacalhado" ao programa Fome Zero. Para ele, a mídia
é pautada "por uma idéia de política de
gabinete, com uma idéia da realidade que não é
a que vivemos no dia-a-dia". Segundo ele, é uma grande
deficiência, por exemplo, resumir a cobertura política
às articulações partidárias e aos jogos
de poder.
Assim,
a idéia do curso em parceria com a Oboré é
colaborar para que os estudantes entendam os assuntos "de forma
menos superficial", e aprendam "como perguntar, o quê
perguntar", e como transformar informação em
bom jornalismo. Para Summa, é preciso "ajudar a entender
e a dar voz a aspectos da realidade que não são muito
conhecidos" para ele, a "razão de ser do
jornalismo público".
Ele
acredita que o curso proporcionará aos estudantes aquela
vivência e aprendizado com jornalistas experientes que as
redações já não mais oferecem. A metodologia
envolve entrevistas coletivas ou "conferências
de imprensa" com diversas personalidades da política,
de organizações não-governamentais e da mídia.
Summa disse que a Radiobrás pretende também fortalecer
a sucursal paulista. "Não é a curto prazo, mas
queremos selecionar jovens jornalistas para estagiar na Radiobrás
de São Paulo".
O
diretor de planejamento e gestão da Radiobrás, Henri
Kobata, falou da importância da "emoção
de se fazer jornalismo" como grande diferencial para uma profissão
cada vez mais burocratizada. "Tem gente que diz: minha vida
é uma coisa, minha profissão é outra. No jornalismo,
não tem disso." Para ele, jornalismo não é
só um emprego, é um instrumento da sociedadade. Assim,
para ser um grande jornalista, "não basta ser um bom
profissional, é preciso ser uma boa pessoa". Sérgio
Gomes completou dizendo que "a ótica depende da ética",
ou seja, cada um vê as coisas de acordo com sua concepção
de mundo. Se não é uma boa pessoa, não fará
um bom jornalismo.
O
resultado da seleção dos 20 estudantes que irão
cursar o primeiro módulo do Projeto Repórter do
Futuro será divulgado no dia 7 de julho no sítio
da Oboré.
Reinaldo Alves, da equipe de comunicação do MST, convidará
os selecionados a uma visita aos acampamentos de sem-terra para
que os estudantes conheçam de perto o cotidiano do movimento.
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