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Monsenhor
Juvenal celebra missa convidando estudantes à busca de novos
horizontes

O tema
"Universidade, novos horizntes" é audacioso;
e audácia, coragem e lucidez foram palavras constantemente
enfatizadas no culto. Estudantes, pais e amigos lotaram a capela. |
André
Azevedo da Fonseca
No
dia 3 de março foi celebrada, na capela do Hospital São
Domingos, a Missa dos Universitários, tradicional na cidade
há 49 anos. O culto sempre teve um caráter combativo
e aberto à discussões sobre questões relacionadas
à vida universitária. Monsenhor Juvenal Arduini conta
que nunca deixou de celebrá-la, sobretudo durante o regime
militar, quando era muito vigiado. Neste período elas eram
clandestinas e realizadas em outra igreja. Atualmente, a Missa dos
Universitários é rezada todo mês.
Monsenhor
Juvenal é querido pela comunidade por causa de suas pregações
religiosas, e respeitado pela academia por seu perfil intelectual.
Lecionou Sociologia e Filosofia em faculdades durante muitos anos
e afirma que sua vida sempre foi muito ligada aos universitários.
"Tenho por eles um respeito muito profundo, permanente, obstinado",
diz.
O
tema escolhido para o sermão foi "Universidade, Novos
Horizontes". A celebração foi iniciada com uma
parábola bíblica em que Jesus expressa sua rebeldia
com relação a uma antiga lei religiosa que não
permitia o trabalho aos sábados. Provocado por fariseus que
queriam pegá-lo em contradição e acusá-lo,
Jesus não deixou de curar um homem nesse dia. "É
lícito no sábado fazer o bem, ou fazer o mal? salvar
a vida, ou matar?", perguntou indignado. Em outra ocasião,
chamou de hipócritas os sacerdotes que o condenavam por pregar
neste dia.
Monsenhor
Juvenal argumentou que universitários são jovens esclarecidos
e, como Jesus, têm discernimento para deixar de lado devoções
ultrapassadas, enxergar mais longe e colocar o conhecimento a favor
da comunidade. Para ele, a vivência acadêmica é
fundamental para o estudante ampliar os horizontes e buscar uma
nova realidade, um novo mundo. Lembrou que a sociedade espera a
contribuição dos universitários, pois estudantes
são pessoas cultas e instruídas que conhecem maneiras
de melhorar o mundo. Entretanto, não basta optar pelo
bem, mas fazer o bem. "Existe algum horizonte da ciência
que pode resolver os problemas da sociedade, ou não?, desafiou.
Outra
questão abordada foi o espírito de realização
pessoal que os estudantes esperam de suas futuras profissões.
"Qual é o compromisso? Estão de fato encontrando
o que buscam, com personalidade, criatividade, ou estão se
tornando pessoas fechadas e narcisistas?", perguntou. Para
Monsenhor Juvenal, a ética não deve ser projetada
apenas na experiência profissional, mas em todas as dimensões
da vida. Segundo ele, a universidade não precisa ser oficialmente
cristã, mas os universitários podem ser "cristãos
conscientes, alegres, decididos, sempre ousados para caminhar e
ajudar a humanidade a andar, vencendo a servidão do mundo".
Luz
Uma
das canções que faziam parte da celebração
dizia que "a palavra é lâmpada para os pés
e luz para o caminho". A ligação metafórica
entre luz e conhecimento é um conceito antigo que remete
aos gregos. Platão já havia feito a analogia no mito
da caverna, um lugar de trevas que simbolizaria a ignorância,
onde um habitante buscaria a luz para finalmente enxergar, alcançar
a sabedoria e por que não? novos horizontes.
A luz permitiria o conhecimento e traria a inquietação
de buscar o que ainda deve ser concretizado. Para o culto cristão,
evidentemente, a luz é a própria palavra divina. Uma
canção dizia que "Deus criou o infinito para
a vida ser sempre mais. (...) O espírito é vento incessante
que nada há de prender. Ele sopra até no absurdo que
a gente não quer ver." Como se vê, o tema Novos
Horizontes é audacioso, e audácia, coragem e lucidez
foram palavras constantemente enfatizadas por Monsenhor Juvenal.
Todo
o repertório da missa trazia esse espírito combativo.
Uma canção dizia "Eu te ofereço o que
vi de belo no interior dos corações: a coragem de
me transformar". O refrão de outra dizia: Comungar é
tornar-se um perigo, viemos para incomodar". Uma música
popular cantada no final do culto dizia que "não adianta
fugir nem fingir pra si mesmo".
Em
certo momento, Monsenhor Juvenal insistiu com os estudantes para
participarem do sermão com suas opiniões. "Vocês
trazem uma contribuição para que a missa não
seja uma coisa fria. Podem falar com enorme liberdade. Eu sempre
falo aos adultos que os jovens têm sabedoria. Como estão
os Diretórios Acadêmicos? Há efervescência?
A universidade ajuda a construir uma sabedoria para ter uma posição
firme com Deus? perguntou.
A
primeira Universitária que se levantou disse que percebe
a falta de interesse dos próprios estudantes na organização
dos D.A.s. "Poucos se engajam; a acomodação está
muito impregnada", afirmou. Além disso, desabafou que
a trapaça no mercado de trabalho é grande. "Não
podemos fazer as pessoas de degrau", concluiu. Outro estudante
disse que toda a profissão tem sua função social.
"O que falta é harmonizar o lado profissional com a
finalidade que Cristo mostrou", lembrou. Mais um universitário
se levantou e disse que a faculdade não é apenas um
local para adquirir conhecimentos científicos, mas para conhecer
pessoas diferentes. "Devemos contribuir com a sociedade e transformá-la;
e não ficar só pensando em dinheiro e status",
disse. Uma caloura do curso de Odontologia pediu aos colegas que
não vissem esse período apenas como uma festa. Outro
afirmou que a universidade deve ter o compromisso de formar não
apenas o profissional, mas o cidadão. Monsenhor Juvenal levantou
a questão da decadência do ensino público. "Não
significa que somos contra a universidade particular, mas parece
que o governo está interessado que a universidade pública
morra. Há um abandono irresponsável e cruel. Temos
que lutar", conclamou.
Nos momentos
finais, a universitária Patrícia Lírio declamou
o poema Canto do Negro, de José Régio, que dizia "só
vou por onde me lavam meus próprios passos". Liturgia
completa, eucaristia realizada, Paz de Cristo e tudo mais, Monsenhor
Juvenal despediu-se reafirmando seu respeito fraterno pelos universitários,
e convidando a todos que "façam seus cursos com uma
perspectiva aberta, audaciosa, sem recuo ou medo aos desafios".
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