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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 198, em 11 de março de 2002

andre.azevedo@uniube.br

 


Monsenhor Juvenal celebra missa convidando estudantes à busca de novos horizontes


O tema "Universidade, novos horizntes" é audacioso; e audácia, coragem e lucidez foram palavras constantemente enfatizadas no culto. Estudantes, pais e amigos lotaram a capela.

André Azevedo da Fonseca

No dia 3 de março foi celebrada, na capela do Hospital São Domingos, a Missa dos Universitários, tradicional na cidade há 49 anos. O culto sempre teve um caráter combativo e aberto à discussões sobre questões relacionadas à vida universitária. Monsenhor Juvenal Arduini conta que nunca deixou de celebrá-la, sobretudo durante o regime militar, quando era muito vigiado. Neste período elas eram clandestinas e realizadas em outra igreja. Atualmente, a Missa dos Universitários é rezada todo mês.

Monsenhor Juvenal é querido pela comunidade por causa de suas pregações religiosas, e respeitado pela academia por seu perfil intelectual. Lecionou Sociologia e Filosofia em faculdades durante muitos anos e afirma que sua vida sempre foi muito ligada aos universitários. "Tenho por eles um respeito muito profundo, permanente, obstinado", diz.

O tema escolhido para o sermão foi "Universidade, Novos Horizontes". A celebração foi iniciada com uma parábola bíblica em que Jesus expressa sua rebeldia com relação a uma antiga lei religiosa que não permitia o trabalho aos sábados. Provocado por fariseus que queriam pegá-lo em contradição e acusá-lo, Jesus não deixou de curar um homem nesse dia. "É lícito no sábado fazer o bem, ou fazer o mal? salvar a vida, ou matar?", perguntou indignado. Em outra ocasião, chamou de hipócritas os sacerdotes que o condenavam por pregar neste dia.

Monsenhor Juvenal argumentou que universitários são jovens esclarecidos e, como Jesus, têm discernimento para deixar de lado devoções ultrapassadas, enxergar mais longe e colocar o conhecimento a favor da comunidade. Para ele, a vivência acadêmica é fundamental para o estudante ampliar os horizontes e buscar uma nova realidade, um novo mundo. Lembrou que a sociedade espera a contribuição dos universitários, pois estudantes são pessoas cultas e instruídas que conhecem maneiras de melhorar o mundo. Entretanto, não basta optar pelo bem, mas fazer o bem. "Existe algum horizonte da ciência que pode resolver os problemas da sociedade, ou não?, desafiou.

Outra questão abordada foi o espírito de realização pessoal que os estudantes esperam de suas futuras profissões. "Qual é o compromisso? Estão de fato encontrando o que buscam, com personalidade, criatividade, ou estão se tornando pessoas fechadas e narcisistas?", perguntou. Para Monsenhor Juvenal, a ética não deve ser projetada apenas na experiência profissional, mas em todas as dimensões da vida. Segundo ele, a universidade não precisa ser oficialmente cristã, mas os universitários podem ser "cristãos conscientes, alegres, decididos, sempre ousados para caminhar e ajudar a humanidade a andar, vencendo a servidão do mundo".

Luz

Uma das canções que faziam parte da celebração dizia que "a palavra é lâmpada para os pés e luz para o caminho". A ligação metafórica entre luz e conhecimento é um conceito antigo que remete aos gregos. Platão já havia feito a analogia no mito da caverna, um lugar de trevas que simbolizaria a ignorância, onde um habitante buscaria a luz para finalmente enxergar, alcançar a sabedoria e — por que não? — novos horizontes. A luz permitiria o conhecimento e traria a inquietação de buscar o que ainda deve ser concretizado. Para o culto cristão, evidentemente, a luz é a própria palavra divina. Uma canção dizia que "Deus criou o infinito para a vida ser sempre mais. (...) O espírito é vento incessante que nada há de prender. Ele sopra até no absurdo que a gente não quer ver." Como se vê, o tema Novos Horizontes é audacioso, e audácia, coragem e lucidez foram palavras constantemente enfatizadas por Monsenhor Juvenal.

Todo o repertório da missa trazia esse espírito combativo. Uma canção dizia "Eu te ofereço o que vi de belo no interior dos corações: a coragem de me transformar". O refrão de outra dizia: Comungar é tornar-se um perigo, viemos para incomodar". Uma música popular cantada no final do culto dizia que "não adianta fugir nem fingir pra si mesmo".

Em certo momento, Monsenhor Juvenal insistiu com os estudantes para participarem do sermão com suas opiniões. "Vocês trazem uma contribuição para que a missa não seja uma coisa fria. Podem falar com enorme liberdade. Eu sempre falo aos adultos que os jovens têm sabedoria. Como estão os Diretórios Acadêmicos? Há efervescência? A universidade ajuda a construir uma sabedoria para ter uma posição firme com Deus? perguntou.

A primeira Universitária que se levantou disse que percebe a falta de interesse dos próprios estudantes na organização dos D.A.s. "Poucos se engajam; a acomodação está muito impregnada", afirmou. Além disso, desabafou que a trapaça no mercado de trabalho é grande. "Não podemos fazer as pessoas de degrau", concluiu. Outro estudante disse que toda a profissão tem sua função social. "O que falta é harmonizar o lado profissional com a finalidade que Cristo mostrou", lembrou. Mais um universitário se levantou e disse que a faculdade não é apenas um local para adquirir conhecimentos científicos, mas para conhecer pessoas diferentes. "Devemos contribuir com a sociedade e transformá-la; e não ficar só pensando em dinheiro e status", disse. Uma caloura do curso de Odontologia pediu aos colegas que não vissem esse período apenas como uma festa. Outro afirmou que a universidade deve ter o compromisso de formar não apenas o profissional, mas o cidadão. Monsenhor Juvenal levantou a questão da decadência do ensino público. "Não significa que somos contra a universidade particular, mas parece que o governo está interessado que a universidade pública morra. Há um abandono irresponsável e cruel. Temos que lutar", conclamou.

Nos momentos finais, a universitária Patrícia Lírio declamou o poema Canto do Negro, de José Régio, que dizia "só vou por onde me lavam meus próprios passos". Liturgia completa, eucaristia realizada, Paz de Cristo e tudo mais, Monsenhor Juvenal despediu-se reafirmando seu respeito fraterno pelos universitários, e convidando a todos que "façam seus cursos com uma perspectiva aberta, audaciosa, sem recuo ou medo aos desafios".

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