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Usos do idioma
reproduzem relações de poder na sociedade
reprodução

Alice
Francisca, José Alexandre e o filho Sóstenes,
na capa do livro "Preconceito Linguístico",
de Marcos Bagno |
André
Azevedo da Fonseca
A
língua portuguesa, assim como qualquer outro idioma, é
muito mais viva, rica e colorida que sua gramática normativa.
As inúmeras variedades do português falado por milhões
de brasileiros de diferentes regiões, tradições,
idades e classes sociais podem ser entendidas como um tesouro lingüístico,
um verdadeiro patrimônio cultural de nossa diversidade. Os
sabores sortidos das construções sintáticas,
dos sotaques e dos vocabulários surgidos na espontaneidade
do cotidiano são frutos evidentes dessa fertilidade.
No
entanto, as variedades lingüísticas não-padrão
são estrategicamente desprezadas por uma elite culta que,
sob o pretexto de defender a língua portuguesa, carimba o
diferente sob o rótulo do erro. Essa minoria elege um padrão
ortográfico, fonético e gramatical e deliberadamente
renega as demais variações como se fossem corpos estranhos
à língua.
Assim,
entende como deficiente mental o falante que diz "Cráudia";
acha que é ignorante o sujeito que fala "nóis
vai"; considera ridículo o vizinho que fala "me
passa a cuié"; afirma que é estúpido o
moço que diz "fósfro". Contudo, estudos
sociolingüisticos sugerem que este preconceito não é
necessariamente contra as palavras, mas contra a própria
classe social dos falantes dessas variedades.
Portanto,
as expressões "ficam bonitas" quando são
usadas por gente importante, rica, poderosa, mas "ficam feias"
quando faladas pelas pessoas que, por fatores sociais, geográficos,
raciais ou pelo fato de não terem tido a sorte de
nascer em uma família rica e poderosa sofrem as injustiças
sociais. Dessa forma, o português não-padrão
é vítima do mesmo desdém a que estão
submetidos os seus falantes.
Há
uma furiosa desavença entre gramáticos e sociolingüistas
a respeito desse tema. "Fósfro" é erro ou
variedade? Mas na verdade, essa discussão se esvaziaria caso
fossem compreendidos os pressupostos fundamentais de cada raciocínio:
1)
Não há regras estáticas, pois as línguas
estão em constante transformação e adaptação.
As desobediências às normas são fenômenos
coerentes e fazem com que a língua permaneça viva
e não se fossilize em arcaísmos. As variedades não-padrão
são, portanto, processos históricos cuja organização
interna possui lógica própria, explicável do
ponto de vista lingüístico, psicológico ou mesmo
fisiológico.
2)
O ensino da norma-padrão ou seja, das regras do português
que regem os textos técnicos, as leis, os documentos e os
demais escritos formais é uma atitude política
de construção da cidadania, pois significa convidar
o cidadão a interpretar e a participar do jogo da sociedade
com os mesmos instrumentos lingüísticos da elite culta.
Nas aulas de concordância verbal e nominal oferecidas nos
cursos de extensão da Universidade de Uberaba (Uniube), o
professor Décio Bragança defende que o ensino da norma-padrão
é sobretudo uma atitude de libertação, pois
oferece ao cidadão as chaves para interpretar as sutilezas
da língua culta usadas para maquiar as relações
de poder e submissão na sociedade. A propósito, essa
idéia está explícita no próprio slogan
impresso nas apostilas do curso: "Dominar a estrutura da língua
é exercer a cidadania".
Portanto,
amar as variações não significa odiar a norma,
ou vice-versa. Mas apesar de parecer evidente que os dois raciocínios
não se excluem, a discórdia persiste. Gramáticos
seguem acusando lingüistas de supervalorizar o uso popular,
de admitir indiscriminadamente qualquer vulgaridade e de empobrecer
a língua. Lingüistas chamam os gramáticos de
conservadores, reacionários e defensores de uma regra opressiva
incapaz de trazer respostas aos desafios do português moderno.
Em
A língua de Eulália (Contexto, 1997) e Preconceito
lingüístico: o que é, como se faz (Loyola,
1999) o estudioso Marcos Bagno trava um diálogo com o leitor
sobre a história das transformações lingüísticas
e faz uma defesa apaixonada do português não-padrão,
e critica de forma incisiva o "mito do idioma único no Brasil"
(quando dizem que o país inteiro só fala português)
ao observar que existem mais de 200 línguas faladas por sobreviventes
indígenas no território nacional.
Língua
e política
É
preciso ter sempre em conta que, na história das transformações
da língua, fatores internos e externos à própria
estrutura do idioma concorrem para que determinada variação
seja mais prestigiada que outras. O italiano de hoje, por exemplo,
foi originado em uma região chamada Toscana um dos
mais importantes pólos comerciais e culturais no período
do Renascimento. Foi nessa variedade do italiano que Dante, Petrarca
e Bocaccio escreveram suas obras-primas. Na Espanha, o castellano
consolidou-se como a língua-padrão porque, originária
da região da Castela, alcançou enorme prestígio
por ser a variação falada pelos reis que derrotaram
os árabes, colocando fim a 800 anos de dominação.
A propósito, foi justamente do latim-vulgar, falado por legionários
e emissários coloniais, que surgiram todas as línguas
chamadas românicas (provenientes de Roma), como, além
do espanhol e italiano, o português, o francês e o romeno.
No
Brasil de hoje, a hegemonia político-econômica do Sul-sudeste
faz com que as variações do português falado
nessas regiões seja mais prestigiada e privilegiada na configuração
das normas-padrão a que todos os falantes, independente das
regiões, são levados a se submeter. Essa arrogância
costuma fazer com que alguns preconceitos sejam solidificados. Para
dizer que certa fala nordestina é "ridícula",
por exemplo, falantes de outras regiões apontam o quanto
é engraçado aquela variação onde as
pessoas dizem "oitcho" e "muitcho" referindo-se
às palavras "oito" e "muito".
No
entanto, consideram normal quando um carioca, um mineiro ou um capixaba
diz "tchia", "tchico-tchico" e "tchigre"
quando a grafia registra tia, tico-tico e tigre. Por que, então,
a ocorrência desse fenômeno fonético no "i"
é normal mas no "o" é ridículo? Para
os linguistas, a questão é política.
Lógica
do não-padrão
Marcos
Bagno lista uma série de exemplos para mostrar algumas construções
lógicas do português não-padrão. Por
tratar-se de uma variação enxuta, econômica,
modesta e menos vaidosa, o português popular articula-se em
construções mais diretas, funcionais e livres, ao
contrário da norma culta, que é cultivada, redundante
e regrada.
Nas
frases em plural, por exemplo, a variação popular
costuma utilizar apenas uma marcação de pluralidade,
por entender que assim é suficiente para mostrar que os demais
termos também são plural. Portanto, se na norma-padrão
temos que flexionar diversos elementos para fazer as devidas concordâncias
e enfim dizer "As meninas usam biquinis
coloridos", no português de rua podemos dizer
tranquilamente "As menina usa biquini colorido",
sem qualquer prejuízo para a compreensão pois
ninguém tem dúvidas que "As menina usa"
se refere a várias garotas. Contudo, mesmo aí há
um acordo: a marcação é feita sempre no primeiro
termo da frase. Ninguém diz: "A meninas usa",
ou: "A menina usam" para marcar plural. Há
lógica nessas construções, assim como há
uma regra regendo a construção: "Ques
moleque mais levado", muito usada e aceita pelos mineiros.
A
simples compreensão dos fenômenos fonéticos
é capaz de demonstrar a falta de critérios dos preconceitos
lingüísticos. Em algumas variedades do português,
por exemplo, o fonema "lhê" simplesmente não
existe. Assim, a palavra "calha" é pronunciada
"cáia"; "colher" fala-se "cuié";
e "telha" diz-se "têia". Esse fenômeno
chama-se assimilação, e ocorre porque os fonemas
"lhê" e /y/ (símbolo usado para reprentar
o i, como em saia) são produzidos quase na mesma zona
de articulação na boca. Isso se chama yeísmo,
e acontece em muitas línguas, como no espanhol e no francês.
Mas
se essa variação é ridicularizada, outras são
aceitas mesmo entre falantes cultos. Por exemplo, é perfeitamente
comum a ocorrência da redução do ditongo EI
em E quando está diante das consoantes J e X. Isso também
acontece por causa da mesma zona de articulação entre
a semivogal /y/ e aquelas consoantes. Assim, falamos "quêjo"
e "dêxo" quando as palavras registram "queijo"
e "deixo". É isso que faz "beijo" e "desejo"
rimarem com tanta tranquilidade nas canções populares.
Por uma divertida ironia, a ansiedade em "falar certo"
provoca muitas vezes um excesso de correção, levando
falantes cultos se atrapalhem ao dizer "carangueijo",
"bandeija" e "prazeiroso", quando
o registro escrito marca caranguejo, bandeja e prazeroso.
O
caso do "chicrete", "pranta" e "Cráudia"
é muito curioso. Ridicularizado à exaustão
por falantes cultos que atribuem a substituição do
L pelo R a uma espécie de atraso mental do falante, esse
fenômeno histórico, chamado rotacismo, acontece constantantemente
e contribui até mesmo para a formação de novas
línguas. Muitas palavras do português foram originadas
por causa disso. A palavra "branco", por exemplo, deriva
do germânico blank. Das derivadas do latim, podemos
citar "cravo", que veio de clavu; "dobro",
de duplu; "escravo", de sclavu; "fraco",
de flaccu, "obrigar", de obligare; "praga",
de plaga, entre inúmeros termos. Essa mudança
acontece quando a história fonética da comunidade
de falantes não usa a zona de articulação que
produz o fonema daquele encontro consonantal com a letra L
assim como nós, brasileiros, não usamos o fonema TH,
do inglês, usado com a língua entre os dentes, como
em thieve. A propósito, em "Os Lusíadas",
Camões escreve, entre outras coisas, "ingrês",
"pubricar", "frauta", "frecha" etc.
Evidentemente ninguém tem coragem de dizer que Camões,
o patriarca da língua portuguesa, sofria de deficiência
mental.
A
psicologia social nos diz que, no cotidiano, somos capazes de usar
várias máscaras de acordo com as circunstâncias.
Assim, a apropriação consciente das variedades do
português nos oferecem instrumentos para adequar a nossa fala
a todos os encontros e exigências sociais, tornando assim
nossa comunicação mais eficiente e humana.
Portanto,
para Marcos Bagno, os professores de português deveriam explicar
esses fenômenos e destacar o valor social atribuído
aos usos da língua. E isso não significa deixar de
ensinar a norma-padrão, que goza de prestígio social
e, por isso, abre portas para a ascensão social. Mas o autor
afirma que o ensino da gramática deve ser um estudo crítico,
capaz de apontar as contradições, os arcaísmos
e as inadequações da própria norma, assim como
de abrir as possibilidades de estudo para as demais variações.
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