# Informações gerais



Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 268, em 18 de novembro de 2003

andre.azevedo@uniube.br

 


Usos do idioma reproduzem relações de poder na sociedade

reprodução

Alice Francisca, José Alexandre e o filho Sóstenes, na capa do livro "Preconceito Linguístico", de Marcos Bagno

André Azevedo da Fonseca

A língua portuguesa, assim como qualquer outro idioma, é muito mais viva, rica e colorida que sua gramática normativa. As inúmeras variedades do português falado por milhões de brasileiros de diferentes regiões, tradições, idades e classes sociais podem ser entendidas como um tesouro lingüístico, um verdadeiro patrimônio cultural de nossa diversidade. Os sabores sortidos das construções sintáticas, dos sotaques e dos vocabulários surgidos na espontaneidade do cotidiano são frutos evidentes dessa fertilidade.

No entanto, as variedades lingüísticas não-padrão são estrategicamente desprezadas por uma elite culta que, sob o pretexto de defender a língua portuguesa, carimba o diferente sob o rótulo do erro. Essa minoria elege um padrão ortográfico, fonético e gramatical e deliberadamente renega as demais variações como se fossem corpos estranhos à língua.

Assim, entende como deficiente mental o falante que diz "Cráudia"; acha que é ignorante o sujeito que fala "nóis vai"; considera ridículo o vizinho que fala "me passa a cuié"; afirma que é estúpido o moço que diz "fósfro". Contudo, estudos sociolingüisticos sugerem que este preconceito não é necessariamente contra as palavras, mas contra a própria classe social dos falantes dessas variedades.

Portanto, as expressões "ficam bonitas" quando são usadas por gente importante, rica, poderosa, mas "ficam feias" quando faladas pelas pessoas que, por fatores sociais, geográficos, raciais — ou pelo fato de não terem tido a sorte de nascer em uma família rica e poderosa — sofrem as injustiças sociais. Dessa forma, o português não-padrão é vítima do mesmo desdém a que estão submetidos os seus falantes.

Há uma furiosa desavença entre gramáticos e sociolingüistas a respeito desse tema. "Fósfro" é erro ou variedade? Mas na verdade, essa discussão se esvaziaria caso fossem compreendidos os pressupostos fundamentais de cada raciocínio:

1) Não há regras estáticas, pois as línguas estão em constante transformação e adaptação. As desobediências às normas são fenômenos coerentes e fazem com que a língua permaneça viva e não se fossilize em arcaísmos. As variedades não-padrão são, portanto, processos históricos cuja organização interna possui lógica própria, explicável do ponto de vista lingüístico, psicológico ou mesmo fisiológico.

2) O ensino da norma-padrão — ou seja, das regras do português que regem os textos técnicos, as leis, os documentos e os demais escritos formais — é uma atitude política de construção da cidadania, pois significa convidar o cidadão a interpretar e a participar do jogo da sociedade com os mesmos instrumentos lingüísticos da elite culta. Nas aulas de concordância verbal e nominal oferecidas nos cursos de extensão da Universidade de Uberaba (Uniube), o professor Décio Bragança defende que o ensino da norma-padrão é sobretudo uma atitude de libertação, pois oferece ao cidadão as chaves para interpretar as sutilezas da língua culta usadas para maquiar as relações de poder e submissão na sociedade. A propósito, essa idéia está explícita no próprio slogan impresso nas apostilas do curso: "Dominar a estrutura da língua é exercer a cidadania".

Portanto, amar as variações não significa odiar a norma, ou vice-versa. Mas apesar de parecer evidente que os dois raciocínios não se excluem, a discórdia persiste. Gramáticos seguem acusando lingüistas de supervalorizar o uso popular, de admitir indiscriminadamente qualquer vulgaridade e de empobrecer a língua. Lingüistas chamam os gramáticos de conservadores, reacionários e defensores de uma regra opressiva incapaz de trazer respostas aos desafios do português moderno.

Em A língua de Eulália (Contexto, 1997) e Preconceito lingüístico: o que é, como se faz (Loyola, 1999) o estudioso Marcos Bagno trava um diálogo com o leitor sobre a história das transformações lingüísticas e faz uma defesa apaixonada do português não-padrão, e critica de forma incisiva o "mito do idioma único no Brasil" (quando dizem que o país inteiro só fala português) ao observar que existem mais de 200 línguas faladas por sobreviventes indígenas no território nacional.

Língua e política

É preciso ter sempre em conta que, na história das transformações da língua, fatores internos e externos à própria estrutura do idioma concorrem para que determinada variação seja mais prestigiada que outras. O italiano de hoje, por exemplo, foi originado em uma região chamada Toscana — um dos mais importantes pólos comerciais e culturais no período do Renascimento. Foi nessa variedade do italiano que Dante, Petrarca e Bocaccio escreveram suas obras-primas. Na Espanha, o castellano consolidou-se como a língua-padrão porque, originária da região da Castela, alcançou enorme prestígio por ser a variação falada pelos reis que derrotaram os árabes, colocando fim a 800 anos de dominação. A propósito, foi justamente do latim-vulgar, falado por legionários e emissários coloniais, que surgiram todas as línguas chamadas românicas (provenientes de Roma), como, além do espanhol e italiano, o português, o francês e o romeno.

No Brasil de hoje, a hegemonia político-econômica do Sul-sudeste faz com que as variações do português falado nessas regiões seja mais prestigiada e privilegiada na configuração das normas-padrão a que todos os falantes, independente das regiões, são levados a se submeter. Essa arrogância costuma fazer com que alguns preconceitos sejam solidificados. Para dizer que certa fala nordestina é "ridícula", por exemplo, falantes de outras regiões apontam o quanto é engraçado aquela variação onde as pessoas dizem "oitcho" e "muitcho" referindo-se às palavras "oito" e "muito".

No entanto, consideram normal quando um carioca, um mineiro ou um capixaba diz "tchia", "tchico-tchico" e "tchigre" quando a grafia registra tia, tico-tico e tigre. Por que, então, a ocorrência desse fenômeno fonético no "i" é normal mas no "o" é ridículo? Para os linguistas, a questão é política.

Lógica do não-padrão

Marcos Bagno lista uma série de exemplos para mostrar algumas construções lógicas do português não-padrão. Por tratar-se de uma variação enxuta, econômica, modesta e menos vaidosa, o português popular articula-se em construções mais diretas, funcionais e livres, ao contrário da norma culta, que é cultivada, redundante e regrada.

Nas frases em plural, por exemplo, a variação popular costuma utilizar apenas uma marcação de pluralidade, por entender que assim é suficiente para mostrar que os demais termos também são plural. Portanto, se na norma-padrão temos que flexionar diversos elementos para fazer as devidas concordâncias e enfim dizer "As meninas usam biquinis coloridos", no português de rua podemos dizer tranquilamente "As menina usa biquini colorido", sem qualquer prejuízo para a compreensão — pois ninguém tem dúvidas que "As menina usa" se refere a várias garotas. Contudo, mesmo aí há um acordo: a marcação é feita sempre no primeiro termo da frase. Ninguém diz: "A meninas usa", ou: "A menina usam" para marcar plural. Há lógica nessas construções, assim como há uma regra regendo a construção: "Ques moleque mais levado", muito usada e aceita pelos mineiros.

A simples compreensão dos fenômenos fonéticos é capaz de demonstrar a falta de critérios dos preconceitos lingüísticos. Em algumas variedades do português, por exemplo, o fonema "lhê" simplesmente não existe. Assim, a palavra "calha" é pronunciada "cáia"; "colher" fala-se "cuié"; e "telha" diz-se "têia". Esse fenômeno chama-se assimilação, e ocorre porque os fonemas "lhê" e /y/ (símbolo usado para reprentar o i, como em saia) são produzidos quase na mesma zona de articulação na boca. Isso se chama yeísmo, e acontece em muitas línguas, como no espanhol e no francês.

Mas se essa variação é ridicularizada, outras são aceitas mesmo entre falantes cultos. Por exemplo, é perfeitamente comum a ocorrência da redução do ditongo EI em E quando está diante das consoantes J e X. Isso também acontece por causa da mesma zona de articulação entre a semivogal /y/ e aquelas consoantes. Assim, falamos "quêjo" e "dêxo" quando as palavras registram "queijo" e "deixo". É isso que faz "beijo" e "desejo" rimarem com tanta tranquilidade nas canções populares. Por uma divertida ironia, a ansiedade em "falar certo" provoca muitas vezes um excesso de correção, levando falantes cultos se atrapalhem ao dizer "carangueijo", "bandeija" e "prazeiroso", quando o registro escrito marca caranguejo, bandeja e prazeroso.

O caso do "chicrete", "pranta" e "Cráudia" é muito curioso. Ridicularizado à exaustão por falantes cultos que atribuem a substituição do L pelo R a uma espécie de atraso mental do falante, esse fenômeno histórico, chamado rotacismo, acontece constantantemente e contribui até mesmo para a formação de novas línguas. Muitas palavras do português foram originadas por causa disso. A palavra "branco", por exemplo, deriva do germânico blank. Das derivadas do latim, podemos citar "cravo", que veio de clavu; "dobro", de duplu; "escravo", de sclavu; "fraco", de flaccu, "obrigar", de obligare; "praga", de plaga, entre inúmeros termos. Essa mudança acontece quando a história fonética da comunidade de falantes não usa a zona de articulação que produz o fonema daquele encontro consonantal com a letra L — assim como nós, brasileiros, não usamos o fonema TH, do inglês, usado com a língua entre os dentes, como em thieve. A propósito, em "Os Lusíadas", Camões escreve, entre outras coisas, "ingrês", "pubricar", "frauta", "frecha" etc. Evidentemente ninguém tem coragem de dizer que Camões, o patriarca da língua portuguesa, sofria de deficiência mental.

A psicologia social nos diz que, no cotidiano, somos capazes de usar várias máscaras de acordo com as circunstâncias. Assim, a apropriação consciente das variedades do português nos oferecem instrumentos para adequar a nossa fala a todos os encontros e exigências sociais, tornando assim nossa comunicação mais eficiente e humana.

Portanto, para Marcos Bagno, os professores de português deveriam explicar esses fenômenos e destacar o valor social atribuído aos usos da língua. E isso não significa deixar de ensinar a norma-padrão, que goza de prestígio social e, por isso, abre portas para a ascensão social. Mas o autor afirma que o ensino da gramática deve ser um estudo crítico, capaz de apontar as contradições, os arcaísmos e as inadequações da própria norma, assim como de abrir as possibilidades de estudo para as demais variações.

pág. 1 de 1

página principal