|
Homem
e tempo
Arduini critica
duramente as mentes que embaraçam-se no fatalismo cronológico
e transferem ao tempo o que é produzido pela humanidade.
Ele lembra que o agente histórico é o homem, e não
a sucessão dos dias no calendário. "A ilusão
cronológica leva a pensar que mudanças no tempo significam
mudança de vida. Entretanto, verifica-se que o tempo corre
e muda, mas os sistemas políticos perversos permanecem imutáveis",
escreve. Portanto, esperar que o tempo resolva os problemas da sociedade
é uma grande alienação.
Esse vínculo
entre mudança cronológica e mudança social
trata-se de uma cilada mental. Ao difundir-se a crença da
imutabilidade histórica, o tempo é transformado em
fetiche e o ser humano esvaziado. A lógica é que não
adiantaria lutar contra o tempo. "Por isso, os que se
enriquecem com a atual sociedade injusta tentam mostrar que é
inútil querer transformá-la". Arduini insiste
que a mudança da socie-dade é uma questão antropológica,
e não cronológica, portanto. Não de-pende do
tempo, mas do homem.
O autor faz
um elogio à audácia, lembrando que a verdadeira coragem
não é um arroubo eufórico, mas um estado de
espírito persistente. Amedrontar é tido como sinônimo
de tiranizar, pois o medo encolhe o ser humano. Entretanto, coragem
não é apresentada como sinônimo de violência.
Ele escreve, inclusive, que o violento não é corajoso.
"A coragem é aliada do amor, da vida, da criatividade.
A violência é aliada do ódio, da ruína,
do medo. O corajoso é audacioso, mas não violento.
O corajoso acolhe, o violento expulsa. O corajoso congrega, o violento
dispersa. O corajoso atrai, o violento espanta. O corajoso é
solidário, o violento é individualista".
Arduini afirma
que o ser humano tem sede de verdade. O homem "vai buscá-la
nas encostas do mundo e nos recôncavos de seu espírito".
As manifestações artísticas seriam uma forma
de buscar essa essência. O autor vai mais longe. Argumenta
que nas criações do homem poderíamos recorrer
ao termo "inventar" - que significa criar, fazer
surgir o novo. "Importa inventar a verdade,
ir à morada da verdade, encontrar a verdade. E também
criar a verdade por meio das diversas atividades humanas",
escreve
Em todo o livro,
o ser humano é visto como um grande paradoxo: águia
que recorta horizontes vastos, mas também verme que rasteja.
"A fronte do ser humano roça a face de Deus, mas seus
passos escorregam na lama". Por isso, "ao exaltar o ser
humano, não se esqueça sua vulne-rabilidade. Ao ape-quenar
o ser humano, não se esqueça sua grandeza", es-creve.
Contudo, justamente por não estar totalmente determinado,
o homem é essencialmente mutável. Aí está
justificado sua esperança com a humanidade. Parafraseando
Sartre, conclui que o homem, mais do que estar "condenado à
liberdade", está "condenado a superar-se".
Antropologia,
Ousar Para Reiventar a Humanidade - Juvenal Arduini
Ed. Paulus - 171 págs - R$16,00
anterior - pág. 2 de 2
Leia também
A utopia pode e deve acontecer
Entrevista com Juvenal Arduini
Universitários devem ousar sempre
página principal

|