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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 195, em 14 de fevereiro de 2002

andre.azevedo@uniube.br

 

Homem e tempo

Arduini critica duramente as mentes que embaraçam-se no fatalismo cronológico e transferem ao tempo o que é produzido pela humanidade. Ele lembra que o agente histórico é o homem, e não a sucessão dos dias no calendário. "A ilusão cronológica leva a pensar que mudanças no tempo significam mudança de vida. Entretanto, verifica-se que o tempo corre e muda, mas os sistemas políticos perversos permanecem imutáveis", escreve. Portanto, esperar que o tempo resolva os problemas da sociedade é uma grande alienação.

Esse vínculo entre mudança cronológica e mudança social trata-se de uma cilada mental. Ao difundir-se a crença da imutabilidade histórica, o tempo é transformado em fetiche e o ser humano esvaziado. A lógica é que não adiantaria lutar contra o tempo. "Por isso, os que se enriquecem com a atual sociedade injusta tentam mostrar que é inútil querer transformá-la". Arduini insiste que a mudança da socie-dade é uma questão antropológica, e não cronológica, portanto. Não de-pende do tempo, mas do homem.

O autor faz um elogio à audácia, lembrando que a verdadeira coragem não é um arroubo eufórico, mas um estado de espírito persistente. Amedrontar é tido como sinônimo de tiranizar, pois o medo encolhe o ser humano. Entretanto, coragem não é apresentada como sinônimo de violência. Ele escreve, inclusive, que o violento não é corajoso. "A coragem é aliada do amor, da vida, da criatividade. A violência é aliada do ódio, da ruína, do medo. O corajoso é audacioso, mas não violento. O corajoso acolhe, o violento expulsa. O corajoso congrega, o violento dispersa. O corajoso atrai, o violento espanta. O corajoso é solidário, o violento é individualista".

Arduini afirma que o ser humano tem sede de verdade. O homem "vai buscá-la nas encostas do mundo e nos recôncavos de seu espírito". As manifestações artísticas seriam uma forma de buscar essa essência. O autor vai mais longe. Argumenta que nas criações do homem poderíamos recorrer ao termo "inventar" - que significa ‘criar, fazer surgir o novo’. "Importa ‘inventar’ a verdade, ir à morada da verdade, encontrar a verdade. E também criar a verdade por meio das diversas atividades humanas", escreve

Em todo o livro, o ser humano é visto como um grande paradoxo: águia que recorta horizontes vastos, mas também verme que rasteja. "A fronte do ser humano roça a face de Deus, mas seus passos escorregam na lama". Por isso, "ao exaltar o ser humano, não se esqueça sua vulne-rabilidade. Ao ape-quenar o ser humano, não se esqueça sua grandeza", es-creve. Contudo, justamente por não estar totalmente determinado, o homem é essencialmente mutável. Aí está justificado sua esperança com a humanidade. Parafraseando Sartre, conclui que o homem, mais do que estar "condenado à liberdade", está "condenado a superar-se".

Antropologia, Ousar Para Reiventar a Humanidade - Juvenal Arduini
Ed. Paulus - 171 págs - R$16,00

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