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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 195, em 14 de fevereiro de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Juvenal Arduini confia no olhar libertário da juventude

André Azevedo da Fonseca

Monsenhor Juvenal Arduini é filósofo, antropólogo, escritor e conferencista. É membro efetivo da "International Society for Metaphysics", "World Phenomenology Institute", entre outros. Foi professor de Filosofia Geral e de Antropologia Filosófica na Faculdade de Filosofia de Santo Tomás de Aquino, em Uberaba. Publicou várias obras, entre elas "Horizonte de Esperança", "Destinação Antropológica" e "O Marxismo". Hoje, realiza missas na Capela do Hospital São Domingos, dá assistência religiosa aos enfermos e acaba de lançar o livro Antropologia, Ousar para Reiventar a Humanidade. Esta entrevista foi concedida no dia 22 de março em uma sala do Hospital São Domingos.

No livro o senhor cita um autor que disse "o mal muito propagado hoje é a apatia". O senhor diria que a apatia é justamente o grande mal da humanidade?

Juvenal Arduini: Dizer que a apatia é o grande mal pode ser um pouco exagerado. Pode não ser o maior, porque há outros mais graves. Mas é um grande mal. Porque a apatia imobiliza, ela é estéril, torna a vida fixada, sem movimento. A apatia dificulta demais a movimentação da sociedade. Devemos eliminar a apatia porque é um ponto de partida totalmente negativo; aliás, nem é ponto de partida.

O senhor alerta também para o ousar maduro. Como é isso?

Arduini:É claro que não é todo ativismo que é a solução. A apatia é uma falha. O apático cruza os braços e deixa que as pessoas, mais atrevidas até, possam ir mais longe. Por outro lado, quando a gente condena a apatia, não se está justificando todo tipo de ativismo. Por isso devemos refletir em vários ângulos, porque há ativistas que são salteadores, estupradores, ou outras coisas também.

O senhor considera contra-senso de ecologistas medíocres, quando falam de preservação da natureza mas negligenciam o ser humano. O senhor vê esse tipo de comportamento nos atuais movimentos ecológicos, como o Greenpeace, por exemplo?

Arduini:Eu não queria indicar casos concretos, mas nós podemos perceber que às vezes há uma desproporção nessa questão de causas ecológicas. A ecologia é um grande valor. Eu mesmo a defendo. Só que a ecologia é vista muitas vezes como ambiente, o cosmos... — que também beneficia o ser humano, não há dúvidas nessa parte. Mas se nós formos fazer uma verdadeira hierarquia de valores — e quando falamos nisso, não estamos dizendo que um ideal é valor e outro não tem valor; a hierarquia diz que há vários valores, mas às vezes não vão ter o mesmo peso — então eu posso ter um valor importante, mas há um mais importante ainda. Ou posso ter um valor muito importante e outro menor. Bem, nós precisamos da água, precisamos do ar, da natureza e uma série de coisas. São valores. Pessoas dizem: mas sem eles a humanidade não vive. É mesmo. Só que eles são os instrumentos. A humanidade como tal é o valor máximo.

Mas não dependemos totalmente da natureza?

Arduini:É aí que nós temos que refletir inteligentemente. Muita gente fala: mas sem a água, sem o ar, o ser humano não vive. Mas todos nós entendemos que o ser "ar" — que é importante — jamais tem uma complexidade ou um valor que tem o ser "humano", com toda a inteligência, a criatividade, a liberdade — que é capaz, até mesmo, de trazer outras soluções que não as do ar.

Então é isso que nós queremos mostrar. Quer dizer, a ecologia é importante, é meritório o trabalho, é necessário, só que coloco uma prioridade. Essa ecologia tem um valor muito grande e ela é necessária para o ser humano. Agora, o ser humano — se formos colocar uma hierarquia — é a primazia. Mas por ter primazia, não pode abusar da natureza.

Vivemos há pouco tempo sob censura feroz do regime militar. Atualmente, gozamos de certa democracia. Entretanto, o senhor afirma que sofremos hoje sob uma tirania difusa, sigilosa. Que tirania é essa?

Arduini:Existem muitas formas de tirania. Tirania é um domínio forte sobre a humanidade. Então, nem só a tirania das armas, da ditadura política, que é verdade. Há outras, e hoje há tiranias muito disfarçadas. Há tiranias até simpáticas.

Quando políticos saem por aí à fora proclamando democracia, proclamando certa grandeza, às vezes ele está apenas defendendo interesses dele e de um grupo. Isso é muito comum. Porque aí nós entramos muito na área do poder.

O poder é uma força muito grande, uma força tremenda. Muitas vezes aparece de modo cruel, brutal, selvagem, que vai arrasando, que vai estragando a vida. A tirania disfarçada é aquela que vai atraindo as pessoas, envolvendo a mentalidade. É uma tirania porque as pessoas ficam "acreditando" numa proposta que, na verdade, é do poder — a proposta não é da sociedade, dos direitos humanos, da dignidade e mesmo da democracia.

Por isso hoje critico muito — não é bem criticar, mas nós precisamos de espírito crítico perante a democracia. A democracia, que nós entendemos em geral como um ideal, é importante. Mas nós temos que perguntar de que democracia nós falamos. Vemos que há "atitudes democráticas", ou chamadas de democráticas, que são totalitárias.

Por exemplo?

Arduini:Por exemplo: um ministro quis negar por aí à fora, aos poderosos, que a globalização é anti-democrática. Eles falam até que a globalização é eminentemente democrática. Eles nos dizem isso. Mas não é! O mundo poderoso — países ricos, grandes corporações — aparecem como democracia, mas que democracia é esta? Os Estados Unidos, por exemplo, foram aliados de Pinochet. Foram aliados também de Somoza. E então eles dizem: precisamos defendê-los porque são nossos aliados. Ora, ser aliado é uma coisa muito relativa e uma coisa ambígua. Porque nós podemos ter aliados autênticos, humanos, com desejo de justiça, e podemos ter aliados tiranos, que enganam, que derramam sangue.

Nosso atual governo é constituído por intelectuais de esquerda dos anos 60 aliados a tradicionais representan-tes da oligarquia. O poder no Brasil finalmente colocou a razão à sua mercê?

Arduini:Percebemos que se faz muito disso. Submete-se a razão ao poder. E isso às vezes é feito não por forma violenta, mas por forma capciosa, envolvente, e aí a razão começa a ficar dominada, controlada pelo poder. Mas não aparece como uma ditadura, como um poder violento. Vivemos muito isso hoje.

Como enxergamos isso?

Arduini:Por exemplo, temos um governo que aumentou a verba para a publicidade. O que ele vai fazer com isso? Vai ser uma publicidade que vai ajudar a consciência crítica, que vai ajudar a educação, que vai favorecer efetivamente a saúde? Ou é uma publicidade que vai projetar a figura daqueles que têm o poder para que sejam aceitos pela sociedade? E sejam eleitos pela própria sociedade? Então nós temos que pensar muito nisso. Aliás eu tenho sempre muita reserva com relação ao poder. Nós devemos lutar para passar de uma era de muito menos poder e com muito mais a razão.

Então o senhor é anarquista?

Arduini:Não sou anarquista não. Mas acho que a verdade é uma grande força, e muitas vezes tem que discordar do poder.

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