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Resenha
O conhecimento inútil
André
Azevedo da Fonseca
Hoje,
assim como antigamente, o inimigo do homem está
no fundo dele próprio. Mas não é
mais o mesmo: antes, era a ignorância; hoje, é
a mentira. (REVEL, 1991, p.24).
O
filósofo francês Jean-François Revel, autor
de O conhecimento inútil (Bertrand Brasil, 1991),
trouxe uma questão inquietante para a propalada "sociedade
do conhecimento". Vale a pena tirar o livro da estante e reler,
mais de dez anos depois, algumas de suas análises.

Jean-François
Revel critica o uso ideológico da informação |
Para
introduzir o tema, Revel observa que a civilização
do século XX, mais do que qualquer outra, propagou com entusiasmo
o discurso da disseminação de informação,
do ensino, da ciência e da cultura. No geral, o tempo de permanência
na escola aumentou, os meios de comunicação multiplicaram-se
e passaram a veicular uma quantidade de informação
inconcebível há duas ou três gerações.
Assim, ainda que a circulação de conhecimento no planeta
seja desigual, é inegável que governantes e administradores
têm melhores condições de saber sobre em que
dados apoiar suas decisões, e os cidadãos estão
mais bem informados sobre o que fazem aqueles que decidem. Mas o
autor propõe que investiguemos se essa ampla difusão
de informação ocasionou, "como seria natural esperar",
uma gestão mais acertada e justa da humanidade.
Lamentavelmente,
não é isso que mostra a história. O século
XX, um dos mais sangrentos de todos os tempos, lembra o filósofo,
"singulariza-se pela aplicação de suas opressões,
de suas perseguições, de seus extermínios".
Foi o período no qual, ao lado de grandes conquistas na área
da tecnologia, da saúde e das artes, sistematizou-se o genocídio,
o campo de concentração, a extinção
de nações inteiras pela guerra ou pela fome organizada,
o terrorismo, a escravidão e as formas mais sofisticadas
de escavidão. Foi também, de acordo com relatório
da ONU de 2002, o século que terminou com 1 bilhão
e 100 milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza, ou seja,
com menos de 1U$ por dia.
Essa
dinâmica, para Revel, inviabiliza os prognósticos de
que a "era da comunicação" teria tudo para comemorar
o triunfo da democracia. O que explica, então, que com tanta
informação, com tanta circulação de
conhecimento, ainda erramos tanto?
Talvez
seja consequência de um cálculo, em todo
caso racional, que nos abstemos de utilizar o que sabemos,
pois existem circunstâncias frequentes na vida das
sociedades, assim como na dos indivíduos, em que
se evita considerar uma verdade que se conhece muito bem,
porque, caso as consequências fossem avaliadas,
perceber-se-ia que a ação seria contra seu
próprio interesse. (REVEL, 1991, pp. 9-10).
Seria
possível que a própria abundância de informação
excitasse o desejo de ocultá-las, em vez de utilizá-las?
Será que a abordagem da verdade desencadeia mais ressentimento
que satisfação, mais sensação de perigo
do que de poder?, questiona. Para Revel, essas interrogações
apenas se aproximam das margens do verdadeiro mistério.
Tem-se
em conta que as sociedades abertas são, ao mesmo tempo, causa
e efeito da liberdade de produzir, difundir e receber informação.
A democracia, regime baseado na livre-determinação
das grandes escolhas pela maioria, caminharia inevitavelmente ao
fracasso caso os cidadãos que fazem essas escolhas se pronunciassem
na "ignorância das realidades, na cegueira de uma paixão
ou na ilusão de uma impressão passageira".
Mas
Revel observa que viver em um mundo moldado pela prática
da ciência não significa imaginar que os seres humanos
como um todo pensam de forma científica. Isso quer
dizer que, na prática, a quase totalidade dos indivíduos
utiliza os instrumentos criados pela ciência sem participar
intelectualmente do grupo de disciplinas do pensamento que geram
as invenções e organizam as descobertas. Por outro
lado, e essa é uma chave para se esboçar a compreensão
do processo, mesmo os cientistas mais brilhantes estão sujeitos
a "forjar suas opiniões políticas e morais de maneira
tão arbitrária e sob influência de considerações
tão insensatas quanto os homens que não possuem qualquer
experiência de raciocínio científico."
Revel
observa que as opiniões são estruturadas através
de diversas influências, e que o discernimento intelectual
frequentemente "ocupa o último lugar, antecedido por crenças,
meio cultural, acaso, aparências, paixões, idéias
preconcebidas e preguiça de espírito". E afirma ainda
que "cada um de nós deve saber que possui, em si, essa perigosa
capacidade de construir um sistema explicativo do mundo e, ao mesmo
tempo, uma máquina de rejeitar todos os fatos contrários
a este sistema".
Quando
o que está por trás da opinião é uma
base ideológica, a comunicação se torna ainda
mais contaminada. Revel acredita que a ideologia é a principal
fonte de desorganização da informação
pois, para sustentar-se, necessita de mentiras sistemáticas,
e não simplesmente ocasionais. Portanto, para permanecer
intacta, precisa defender-se incessantemente contra o testemunho
dos sentidos e da inteligência, e é obrigada a modificar
constantemente a imagem do mundo em função da visão
que se deseja manter.
O
problema é complexo. Um princípio fundamental da democracia
é que todas as opiniões têm o direito de serem
expressas. Mas é também inequívoco que a democracia
é também um sistema que só pode funcionar se
os cidadãos dispuserem de um mínimo de informações
corretas. Para Revel, não há contradição
entre os dois princípios. "A imprensa, repete-se incessantemente,
deve ser pluralista. Ora, é a opinião que pode ser
pluralista, não a informação. Conforme a sua
própria natureza, a informação pode ser falsa
ou verdadeira, não pluralista", escreve. Para ele, o problema
da imprensa moderna vem precisamente de que o direito amplamente
reconhecido de expressar as opiniões, "incluindo as mais
extravagantes e rancorosas, o direito de errar, mentir e ser estúpido"
influenciou a missão da informação. Em outras
palavras, o axioma 'o comentário é livre, a informação
é sagrada', acredita o autor, foi pervertida para 'o comentário
é sagrado, a informação é livre'. E
para ele, o mal mais prejudicial, e infelizmente comum, é
a "opinião disfarçada de informação".
Portanto,
em plena era da comunicação de massa, Revel defende
que as convicções da humanidade não decorrem,
de modo algum, de um maior acesso ao raciocínio científico
ou de uma compreensão aprofundada dos elementos do debate.
O
público só tem acesso às conclusões
grosseiramente simplificadas e não aos raciocínios
que as fixaram, mesmo quando se trata de problemas (o
da Aids, por exemplo) relativamente simples de se expor.
O público moderno continua a viver, como o seu
predecessor da Idade Média, sob o argumento da
autoridade: "É verdade porque um tal prêmio
Nobel o disse." (REVEL, 1991, p.232)
Enfim, um problemão.
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