# Informações gerais

Adaptado de trabalho realizado para a disciplina Introdução ao Jornalismo

Publicado no Observatório da Imprensa, em 24/04/02

andre.azevedo@uniube.br


André Azevedo da Fonseca

A trama de O Nome da Rosa, romance de Umberto Eco, traz metáforas luminosas sobre o problema do controle de informação, questão chave para tentar entender, por exemplo, o noticiário em situações e excessão — como a recente cobertura da invasão do Iraque.

Ambientada no auge da Inquisição, o romance narra um episódio da vida de padre William (o personagem principal), quando é chamado para investigar mortes misteriosas em um mosteiro. Todos os sacerdotes assassinados tinham em comum a ligação com a difusão de informação. Um tradutor de grego por exemplo, que se dedicava à obra de Aristóteles, é uma das vítimas mais simbólicas.

A obra daquele filósofo era especialmente temida porque atribuía à comédia o status de expressão máxima da verdade. Essa idéia confrontava fortemente o código de comportamento da ordem religiosa responsável pela guarda dos livros, que considerava o riso uma conduta inadmissível para um sacerdote. Um religioso exemplar deveria manter-se sempre sério, impassível, carrancudo. Portanto, em face de um livro que reconhecia a potência filosófica do deboche enquanto revelação da essência, a atitude do bibliotecário-chefe consistia basicamente em negar a existência da obra.

Uma questão surge, entretanto: por que simplesmente os sacerdotes não destruíam esses livros proibidos? Não o faziam justamente por ter noção de sua preciosidade e, talvez, até mesmo admitissem, em segredo, a validade dessas teorias. Além disso, dominar esses conhecimentos seria condição fundamental para detectá-los ainda no nascedouro — caso surgissem de forma espontânea nas discussões teológicas no mosteiro. Portanto, a importância da informação não estava no valor em si, mas na agilidade da repressão que seu domínio garantiria. Não era a "verdade" o que os sacerdotes buscavam, mas a racionalização teórica que justificasse e garantisse a manutenção de seu poder.

Inimigo a favor

O filósofo Jean-François Revel, em O conhecimento inútil, lembra que, nos regimes totalitários, os dirigentes e a imprensa do Estado enganam a sociedade, mas os governos não conduzem sua política segundo suas próprias mentiras. "Eles estão diante de outros documentos". Da mesma forma, os padres que conheciam o teor do livro sabiam do potencial iconoclasta ali guardado e, por isso mesmo, estudavam-no secretamente e dificultavam o acesso a ele.

Um personagem do escritor Alexandre Zinoviev refletiu que, na arte de enganar pela desinformação, a melhor estratégia é fazer com que o inimigo passe a agir como nós desejamos, completamente convencido de que age segundo sua própria vontade e contra nossos interesses. Para Revel, uma das maneiras de alcançar essa estratégia é fazer com que seja o próprio adversário — ou então alguém neutro — quem primeiro torne pública a falsa notícia ou sustente a tese que se deseja propagar.

Essa estratégia tem se mostrado historicamente mais eficiente que a censura explícita nas táticas de controle da informação. Nilson Lage, em A Estrutura da Notícia parece reforçar essa tese ao escrever: "a censura não elimina o fato cuja divulgação proíbe, nem impede que ele se repita ou tenha consequências, quando é determinado por estruturas sociais. No máximo, pode protelar o processo".

De fato, todas as iniciativas do poder para censurar as informações mostraram-se ineficientes a longo prazo. Onde há coerção há resistência. Uma informação negada leva à mais investigação, à procura de fontes alternativas e à proliferação de boatos. Na obra de Eco, por exemplo, a negação da existência do livro só fez atiçar a curiosidade do investigador. A notícia do fato censurado fatalmente seguirá por outras vias clandestinas e, mais cedo ou mais tarde, acabam revelados.

Nova censura

Quando o Estado, ou os grupos econômicos, tornam-se conscientes da ineficiência desses métodos coercivos duros, desenvolvem novas formas de censura, mais sofisticadas e eficientes, que garantam efetivamente, e à longo prazo, o sigilo desejado. E talvez a forma mais eficiente consiste em, paradoxalmente, estimular mais e mais e mais e mais informações na selva louca de notícias, artigos, opiniões, comunicados oficiais, boatos, notinhas, fofocas, verdades, mentiras, meias verdades e desmentidos na imprensa.

A obsessão do homem urbano — estimulada pelos meios de comunicação — de que o sujeito bem informado deve estar "por dentro de tudo" que circula na mídia, além de se mostrar como um fetiche ideológico, inspira a análise de dois fenômenos cujas características parecem ser muito semelhantes à censura. Primeiro: desinformação – pois a metástase de versões, opiniões, análises, contradições e interpretações superficiais frequentemente se contradizem e anulam a tomada de posição individual fundamentada acerca de qualquer assunto. Essa dispersão aleatória de informação, ao invés de oferecer referências sólidas para embasar o conhecimento, estaria criando labirintos indevassáveis. Sabe-se pouco ou quase nada de muito ou quase tudo. Impedidos de conhecer qualquer coisa com profundidade, nos contentamos com as pontas de iceberg e ficamos satisfeitos com a racionalização que fazemos a partir desses fragmentos.

O excesso de informação pode estar causando, por outro lado, um relativismo absoluto, ou, como escreveu o filósofo Gilles Deleuze, uma moral volúvel, o que levaria ao segundo fenômeno comum ao estado de censura: sentimento de impotência, que costuma levar o indivíduo à apatia, ao conformismo, ao cinismo ou mesmo niilismo – pois a constelação de informações inviabiliza a hierarquia de valores do receptor, impossibilitando-o de avaliar o que é de fato fundamental e o que é supérfluo. Futilidades circulam ao lado de grandes questões da humanidade com idênticos formatos, espaços editoriais e repercussão. A notícia importante desaparece encolhida sob a multiplicação infinita de fofocas sobre celebridades, rusguinhas teatrais entre políticos, declarações oficiais, etc. O viciado em informação precisa saber tanto sobre a nova tecnologia de aparelhos de mp3 quanto o resultado do campeonato mundial de ping-pong, tanto sobre as oscilações da bolsa em Kuala Lampur quanto a nova safra de desenhos animados do Cartoon Network, independente da necessidade real de saber tais coisas.

A nova censura entranha-se na esfera individual da hierarquia de valores do receptor, que fica incapaz de qualquer opinião segura e se põe simplesmente a se conformar de que tudo é mesmo muito complexo e ele não pode fazer nada — até porque seu eventual protesto certamente se dissolveria no oceano de informações da mídia e se mostraria estéril. Uma denúncia social, lançada nesse maremoto de informação, de fato esvai-se como uma gota e é esquecida para que, amanhã, o mesmo espaço editorial noticie a namorada nova do governador, ou outra bobagem qualquer.

A censura do poder torna-se, portanto, contraproducente, pois serviria como uma anti-referência axiológica, um contra-exemplo, trazendo ao assunto censurado uma visibilidade inconveniente. A nova censura não oferece resistência. Pelo contrário, agrega, inclui, hipertrofia, quer mais e mais, até encobrir a informação indesejável sob um mar de informação supérflua. Se a antiga censura dava um tapa na cara, a nova oferece quitutes irresistíveis.

Uma eficiente técnica de marketing, muito utilizada para alcançar visibilidade, é justamente provocar algum tipo de proibição. Há pouco tempo, uma associação de enfermeiras entrou com um pedido na Justiça para vetar, em uma revista masculima, a publicação de fotos de uma mulher nua que tinha o apelido de "enfermeira". Poucas pessoas conheciam essa personagem até então. Resultado: a revista esgotou. O processo foi um grande salto na carreira da modelo. A repercussão perdurou mais do que se o fato tivesse seguido seu curso natural de instantaneidade midiática, tanto que aqui estamos falando dela. Um caso mais ou menos recente foi o desejo manifestado pela Riotur de processar os criadores do desenho animado Os Simpsons, por considerarem um dos episódios da série uma ofensa ao Brasil. Quem nunca havia ouvido falar desse desenho agora está ansioso para vê-lo. Irônico os novos tempos. Para censurar, informe ao infinito. Para divulgar, faça com que queiram censurá-lo!

Ler notícias de guerra exigem cuidados especiais, devido às manobras estratégicas da circulação da informação. É evidente que a maior parte são informações inúteis, pois são falsas, servindo apenas de propaganda. Outras tantas são supérfluas e dizem pouco — ou nada — para a verdadeira compreensão de mundo que um caso deste é capaz de revelar. Em coberturas de conflitos, o leitor desatento passa a ser apenas mais um alvo da guerra de propaganda.

Texto originalmente escrito para o Observatório da Imprensa, adapatado pelo autor para o Revelação

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