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Lei
brasileira inclui ensino de cultura africana em escolas. Objetivo
é reconhecer importância do povo negro na formação
do país

Mariana
Costa, estudante de Letras na Uniube, não gosta de rótulos.
"Eu sou brasileira, e não afro" |
André
Azevedo da Fonseca
Descendente de guerreiros imbangalas (ou jagas), de Angola, Zumbi,
o maior líder escravo brasileiro no século XVII, nasceu
provavelmente em 1655 no quilombo dos Palmares. Quilombos eram povoamentos
de escravos fugitivos que se organizavam de forma comunitária
para viver em liberdade e se proteger das expedições
de captura. O quilombo dos Palmares, localizado em Serra da Barriga,
em Pernambuco, foi o maior e o mais resistente do Brasil: chegou
a abrigar mais de 20 mil negros e durou cerca de 100 anos
estima-se que de 1590 a 1694.
Quando
criança, Zumbi foi aprisionado por uma dessas expedições
e levado ao distrito de Porto Calvo, em Alagoas. Foi doado a um
padre chamado Antônio Melo, que o batizou como Francisco.
Documentos históricos registram que, aos 10 anos, o garoto
já sabia latim e português. Aos 15 anos, o jovem Francisco,
já com corpo de homem, conseguiu fugir do padre e sumiu na
mata. Voltou a Palmares e mudou seu nome para Zumbi palavra
que significa "morto-vivo".
Este
apelido inspiraria uma das várias lendas que sobrevoam o
mito criado em torno deste líder. Durante um derradeiro ataque
a Palmares, na iminência de ser capturado pelo mercenário
Domingos Jorge Velho, Zumbi preferiu suicidar-se. E sangrou até
a morte: era melhor morrer do que voltar a ser escravo. Mesmo assim,
um ano depois, eis que Zumbi aparece guerreando ferozmente contra
bandeirantes e capitães do mato caçadores de negros,
fortalecendo ainda mais a lenda de guerreiro imortal. No entanto,
traído por um de seus principais comandantes, o líder
de Palmares foi morto em 20 de novembro de 1695. Sua cabeça
foi decepada e pendurada em local público, até que
apodrecesse à vista de todos.

História
de Zumbi dos Palmares é pouco contada nas escolas |
Essa
história, entre tantas outras que relatam as lutas pela libertação
dos escravos, é muito mal contada nas escolas brasileiras.
O passado do povo negro raramente é visto através
da perspectiva de seus protagonistas. Num país cujo cotidiano
é fortemente influenciado pela cultura africana, e onde 46%
da população é de origem negra (segundo o IBGE),
nada se ensina sobre a História da África. Em relação
à abolição da escravidão, por exemplo,
a historiografia tradicional dos livros didáticos sustenta
que a grande redentora dos negros foi princesa Isabel herdeira
da coroa de Dom Pedro II, Imperador do Brasil ao assinar
a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, declarando extinta a
escravidão no Brasil.
Entretanto,
Frei David Santos Ofm, diretor da Educafro, uma ONG voltada à
educação de jovens descendentes de africanos, sustenta
que a lei Áurea "não passa de uma farsa", pois, quando
foi assinada, "só 5% do povo negro viviam sob regime de escravidão".
Historiadores contemporâneos, em pesquisas desenvolvidas com
apoio de movimentos negros, mostram que a abolição
da escravatura foi, na verdade, um processo longo, difícil,
repleto de lutas e resistências, mas que, em determinado momento
histórico, tornou-se inevitável o nascimento
do capitalismo liberal brasileiro, sob forte influência inglesa,
via o sistema de produção escravocrata como um obstáculo
ao seu pleno desenvolvimento.
A
liberdade dos negros tampouco foi acompanhada de sua inclusão
social. Os ex-escravos foram deixados à sua própria
sorte em uma sociedade fundamentalmente racista. Muitos continuaram
a fazer os mesmos serviços a troco de comida. Para se ter
uma idéia da estratégia de controle social da época,
em julho de 1888 - apenas dois meses depois da abolição
- foi apreciado na Câmara dos Deputados um projeto elaborado
pelo ministro Ferreira Viana estabelecendo instrumentos de repressão
à ociosidade. "O projeto prevê que os ociosos
serão conduzidos à colônia de trabalho, com
preferência para atividades agrícolas, onde serão
internados com o objetivo de adquirir o hábito do trabalho",
registrava. Dessa forma, para que a liberdade fosse admitida, os
negros teriam que, sem meias palavras, permanecer escravos.
Ainda
hoje os descendentes africanos são, em sua maioria, marginalizados,
discriminados e excluídos das atividades sociais e culturais.
A pesquisa "Mapa da População Negra no Mercado de
Trabalho", realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística
e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) em 1998, mostrou
"indicadores sistematicamente desfavoráveis aos trabalhadores
negros". De acordo com esse estudo, por exemplo, em Salvador (BA)
os negros são 86,4% dos desempregados. No Distrito Federal,
a porcentagem
chega a cerca de 68%. Mesmo assim, até hoje, o 13 de maio
data da assinatura da lei Áurea ainda é
oficialmente comemorado como a dia da libertação dos
escravos.
Há
alguns anos, ONGs e entidades de valorização da cultura
negra têm cobrado da sociedade uma revisão dessas versões
oficiais. Para elas, este é o primeiro passo para corrigir
injustiças históricas e promover políticas
de inclusão social. Em 1978, o Movimento Negro Unificado
decidiu instituir, em caráter extra-oficial, o 20 de novembro
data da morte de Zumbi como o Dia Nacional da Consciência
Negra. O objetivo declarado era contestar a comemoração
do 13 de maio, considerada por muitos quase uma ofensa. Nos últimos
anos, diversas ONGs relacionadas a questões raciais foram
criadas para prestar assistência social e enriquecer o debate
público com novas pesquisas, estudos e abordagens.
A
pressão dessas organizações tem surtido alguns
efeitos práticos. Uma lei recentemente promulgada pelo presidente
Lula tornou obrigatório o ensino de "História e Cultura
Afro-Brasileira" nas escolas do país. As disciplinas devem
incluir o estudo de História da África e dos Africanos,
a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro
na formação da sociedade nacional. O objetivo é
resgatar a contribuição do povo negro nas áreas
social, econômica e política da História do
Brasil. A lei ainda estabelece que os conteúdos devem ser
ministrados em todo o currículo escolar, "em especial nas
áreas de Educação Artística e de Literatura
e História Brasileiras". Além disso, a lei institui
ainda vinte e cinco anos depois de instituída pelo
movimento negro a inclusão do Dia Nacional da Consciência
Negra no calendário escolar.

Para o
estudioso Adrián Padilla, lei tem caráter emergencial
de inclusão social |
Para
o Doutor em Ciências da Comunicação e estudioso
de movimentos sociais, o venezuelano Adrián Padilla, essas
medidas, juntamente com outras mais polêmicas como
a instituição de cotas reservadas para negros em universidades
públicas funcionam como uma forma de pagamento da
dívida social que o Brasil deveria assumir com os descendentes
de escravos, devido aos séculos de usurpação
e violência. "Evidentemente, uma lei não é capaz
de resolver um problema social tão complexo, que envolve
desde o acesso à educação fundamental até
a distribuição de renda. Mas essa medida, em caráter
provisório, pode ser um instrumento emergencial de inclusão",
afirma.
No
entanto, mesmo entre as pessoas supostamente beneficiadas
os descendentes de escravos a lei não é consenso.
A estudante do curso de Letras na Universidade de Uberaba (Uniube),
Mariana Costa, de 21 anos, considera a lei "desnecessária".
Para ela, essa cultura deve ser debatida e implantada gradualmente,
de acordo com a evolução das discussões na
sociedade. "Os grupos de hip-hop, por exemplo, já incluem
esses temas em suas músicas". Apesar de também concordar
que a História nos livros está mal contada, Mariana
não acredita que a solução esteja na imposição
de leis. Segundo a estudante, isso pode levar a mais divisão,
discriminação, preconceito e racismo. "Vivemos em
um país racista, de um racismo camuflado. Temos é
que quebrar paradigmas, acabar com essa idéia de que o branco
deve ser sempre o líder, enquanto os negros são uns
coitados que dependem da caridade, da esmola dos brancos."
De
modo geral, Mariana Costa, bisneta de um português e de uma
mucama (escrava que cuidava da casa e costumeiramente servia de
amante aos proprietários) não é simpática
à idéia de rotular as pessoas por suas características
étnicas. "Não gosto dessas coisas que vêm entre
parênteses 'afro'. Acho essas coisas dispensáveis.
Você é brasileiro, e nao afro. Eu sou modelo, e não
afro-modelo. O que te faz melhor que os outros? Nada! Essa separação
também é uma forma de gerar racismo".
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aqui para ler a versão em espanhol
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