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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 273, em 16 de dezembro de 2003

andre.azevedo@uniube.br

 


Transmissão de radionovela causou pânico na população americana nos anos 30

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André Azevedo da Fonseca

Nove horas da noite, 30 de outubro de 1938. O casal de namorados se esfregava em delírios no automóvel. Um escândalo para o padrão moral dos anos trinta. Mas eles estavam perdidamente apaixonados e, nas urgências do amor, não há tempo a perder. Entre carícias e olhares ternos, temperados pelo medo de serem vistos, trocavam promessas de amor e cumplicidade eternas. Uma chuva que começava a pingar passou a compor o cenário idílico dos amantes.

No aparelho de rádio do automóvel, a Columbia Broadcasting System (rádio CBS) transmitia um ameno programa musical com sucessos da época, como La Cumparsita e Stardust. Beijos ao som da chuva e de La Cumparsita são sempre mais saborosos. Mas de repente, uma notícia extraordinária põe fim ao clima romântico.

Senhoras e senhores, interrompemos nosso programa de música de danças para levar a vocês um boletim especial da Intercontinental Radio News. Às 19h40 hora central, o professor Farewell, do Observatório do Monte Genning, Chicago, Illinois, informou ter observado sobre a superfície do planeta Marte várias explosões de gases incandescentes ocorrendo em intervalos regulares.

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Orson Welles adaptou "Guerra dos Mundos", de H. G. Wells, e dirigiu a dramatização para o rádio

Na verdade, tratava-se de um trecho da dramatização radiofônica de "A Guerra dos Mundos", uma adaptação da ficção de H. G. Wells, realizada na rádio CBS por Orson Welles, no programa Radioteatro Mercury. Desatentos ao início do programa, sem saber portanto que aquelas interrupções "jornalísticas" faziam parte do show, o apreensivo casal passou a acompanhar, relato a relato, todos os indícios que sugeriam algo muito estranho acontecendo nos Estados Unidos.

Em um novo "boletim informativo", o repórter entrevista o proprietário da fazenda na cidade de Grover's Mill, em Nova Jersey, onde acabara de cair um objeto cilíndrico e metálico. Um som "cósmico" é emitido pelo rádio, gelando o casal. O professor Pirson, um dos especialistas entrevistados, conta que o metal é extraterestre, pois não há similares no planeta Terra. A radionovela ficava cada vez mais realista.

Mas eis que alguém ou alguma coisa sai de um buraco do cilindro, narra o repórter. A comunidade local fica em polvorosa. Tudo transmitido ao vivo, pela rádio, imaginavam os ouvintes. Entre grunhidos receosos e ordens indecisas, os policiais vão ao encontro da nave e — que horror! — um jato de calor incendeia árvores, segue destruindo casas, carbonizando pessoas, e vai aproximando-se perigosamente do ponto onde se localiza o repórter, que grita de pavor e tenta dizer... e interrompe-se a transmissão.

Silêncio. Do estúdio, locutores atônitos passam a descrever a catástrofe: 40 pessoas estão mortas! O general Montgomerey Smith diz que vários condados estão sob lei marcial! Catástrofe de Grover's Mill, repete o locutor. As criaturas haviam voltado ao cilindro. Bombeiros tentam apagar as chamas. O professor Pirson diz que não há conclusões sobre o que querem as criaturas do foguete, mas admite a potência dos raios de calor emitido pelas pistolas dos alienígenas. Sem dúvida, diz o professor, eles têm armas mais poderosas que as nossas.

Novos boletins alimentam a apreensão. Da cidade de Triton, um correspondente informa que foi identificado o corpo carbonizado do repórter de Grover's Mill. A Cruz Vermelha é enviada a Nova Jersey. O incêndio é dominado, e não há sinal de vida no topo do objeto cilíndrico, que naquele momento estava cercado e sob a mira de metralhadoras de oito baterias do exército. Mas os microfones captam sons horríveis, ouvem-se urros de clemência, e o locutor finalmente sucumbe ao inacreditável.

Senhoras e senhores, tenho uma notícia muito grave para transmitir. Por mais incrível que pareça, tanto as observações da ciência como a evidência de nossos olhos conduzem à conlusão irrecusável de que aqueles estranhos seres que aterrisaram hoje à noite na região agrícola de Gersey são a vanguarda de um exército invasor vinda do planeta Marte!

Montagem: André Azevedo da Fonseca. Fotos: reprodução

Radionovela sobre invasão de marcianos assombrou ouvintes que tomaram a ficção como verdade

Em seguida, informa que, naquele momento, 7 mil homens armados investiam contra uma única máquina invasora. A cada segundo, evento a evento, o repórter narra como a nave se ergue e começa a disparar raios eletrônicos, até despedaçar e transformar em cinza os corpos dos soldados. De sete mil combatentes, apenas cento e vinte sobrevivem! Era o caos, o apocalipse! Trilhos são derretidos! A população corre desesperada! Estradas estão entupidas por um frenético tráfego humano, informa a transmissão.

No susto, aquele namorado apaixonado, do casal em delírios, tenta ligar o carro, força a chave na ignição, o automóvel gagueja, tosse, mas não sai do lugar. Em um ímpeto histérico, temendo o iminente ataque de marcianos, salta do automóvel e foge correndo, largando a moça à sua própria sorte. Esta cena do casal, mais ou menos assim (recuperado de lembrança), é um trecho do filme A era do rádio, de Woody Allen. No entanto, aquela transmissão de Welles foi real; ou melhor, o pânico compartilhado pela população americana, especialmente os moradores das regiões onde estava ambientada a história, quando foi transmitida essa novela radiofônica, foi assustadoramente real.

Imaginando que estavam realmente sob ataque alienígena, boa parte da população passou a sofrer o desespero de ser atacada de verdade, a qualquer momento. Olhavam para o céu e aguardavam a esquadrilha de naves espaciais lançando os tais raios de calor. Simultaneamente, na dramatização da rádio CBS, os relatos prosseguiam tenebrosos: as autoridades dizem que não podem ocultar a catástrofe, afirmava o locutor, e conclama todos que tenham calma. Confiamos na força da população americana! Os repórteres diziam que muitas rádios estavam desativadas devido aos raios de calor.

Outro boletim! Aviões americanos encontram mais três foguetes alienígenas no céu. Esquadrilhas de bombardeiros do exército perseguem o inimigo. Um momento! Enviados especiais, embutidos nos exércitos, transmitem os bombardeios ao inimigo. O exército é atacado por uma fumaça negra! Máquinas espaciais derrubam usinas de energia e se dirigem a Nova York! Locutores se atrapalham nas transmissões! Calcula-se que três mihões de pessoas fugiram, diziam os comentaristas.

Repórteres recomendavam que a população evitasse as pontes, que já estavam destruídas. O repórter narra, como se fosse ao vivo, os momentos em que cinco grandes máquinas ultrapassam o rio, jogam fumaça negra na cidade, destróem prédios e avenidas, até se aproximar do repórter e ... mais uma vez, encerra-se a transmissão.

Nesse momento, apoteose da transmissão, ficção e realidade se encontraram. Devido o temor real da população de ouvintes, as linhas de telefone ficaram verdadeiramente congestionadas. A pesquisadora Gisela Ortiwano conta que, na época, o programa foi ouvido por pelo menos seis milhões de pessoas. No entanto, metade delas passaram a sintonizá-lo depois da introdução que informava tratar-se de obra de ficção. Calcula-se que aproximadamente 1 milhão e 200 mil pessoas tomaram a dramatização por fato, e pelo menos meio milhão de ouvintes entraram em pânico e agiram de forma a confirmar os eventos até então narrados apenas na ficção: "sobrecarga de linhas telefônicas interrompendo realmente as comunicações, aglomerações nas ruas, congestionamentos de trânsito provocados por ouvintes apavorados tentando fugir do perigo que lhes parecia real, etc".

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O medo praticamente paralisou cidades e localidades próximas a Nova Jersey, onde Welles situou a história. Moradores de Newark e Nova York saíram as ruas para fugir do anunciado ataque. Somente no final da transmissão o próprio Orson Welles avisou, mais uma vez, que tudo se tratava de uma brincadeira.

Esse evento mudou a história do rádio. Depois dessa transmissão histórica, foi evidenciada a força da exploração das técnicas jornalísticas com ambientação sonora característica da linguagem do rádio. Orson Welles cruzou elementos do radioteatro com a credibilidade do discurso dos noticiários radiofônicos e conseguiu mobilizar emocionalmente uma população inteira. Hoje, o modelo é explorado sobretudo pelo jornalismo sensacionalista e por programas políticos que usam desse cruzamento para imputar credibilidade às suas mensagens. Mas o fato é que, eepois de Welles, ficou evidente a força da influência do rádio.

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