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Transmissão
de radionovela causou pânico na população americana
nos anos 30
reprodução
André
Azevedo da Fonseca
Nove horas da noite, 30 de outubro de 1938. O casal de namorados
se esfregava em delírios no automóvel. Um escândalo
para o padrão moral dos anos trinta. Mas eles estavam perdidamente
apaixonados e, nas urgências do amor, não há
tempo a perder. Entre carícias e olhares ternos, temperados
pelo medo de serem vistos, trocavam promessas de amor e cumplicidade
eternas. Uma chuva que começava a pingar passou a compor
o cenário idílico dos amantes.
No
aparelho de rádio do automóvel, a Columbia Broadcasting
System (rádio CBS) transmitia um ameno programa musical com
sucessos da época, como La Cumparsita e Stardust.
Beijos ao som da chuva e de La Cumparsita são sempre
mais saborosos. Mas de repente, uma notícia extraordinária
põe fim ao clima romântico.
Senhoras
e senhores, interrompemos nosso programa de música
de danças para levar a vocês um boletim especial
da Intercontinental Radio News. Às 19h40 hora central,
o professor Farewell, do Observatório do Monte
Genning, Chicago, Illinois, informou ter observado sobre
a superfície do planeta Marte várias explosões
de gases incandescentes ocorrendo em intervalos regulares.
reprodução

Orson Welles adaptou "Guerra
dos Mundos", de H. G. Wells, e dirigiu a dramatização
para o rádio |
Na
verdade, tratava-se de um trecho da dramatização radiofônica
de "A Guerra dos Mundos", uma adaptação da ficção
de H. G. Wells, realizada na rádio CBS por Orson Welles,
no programa Radioteatro Mercury. Desatentos ao início do
programa, sem saber portanto que aquelas interrupções
"jornalísticas" faziam parte do show, o apreensivo casal
passou a acompanhar, relato a relato, todos os indícios que
sugeriam algo muito estranho acontecendo nos Estados Unidos.
Em
um novo "boletim informativo", o repórter entrevista o proprietário
da fazenda na cidade de Grover's Mill, em Nova Jersey, onde acabara
de cair um objeto cilíndrico e metálico. Um som "cósmico"
é emitido pelo rádio, gelando o casal. O professor
Pirson, um dos especialistas entrevistados, conta que o metal é
extraterestre, pois não há similares no planeta Terra.
A radionovela ficava cada vez mais realista.
Mas
eis que alguém ou alguma coisa sai de um buraco do cilindro,
narra o repórter. A comunidade local fica em polvorosa. Tudo
transmitido ao vivo, pela rádio, imaginavam os ouvintes.
Entre grunhidos receosos e ordens indecisas, os policiais vão
ao encontro da nave e que horror! um jato de calor
incendeia árvores, segue destruindo casas, carbonizando pessoas,
e vai aproximando-se perigosamente do ponto onde se localiza o repórter,
que grita de pavor e tenta dizer... e interrompe-se a transmissão.
Silêncio.
Do estúdio, locutores atônitos passam a descrever a
catástrofe: 40 pessoas estão mortas! O general Montgomerey
Smith diz que vários condados estão sob lei marcial!
Catástrofe de Grover's Mill, repete o locutor. As criaturas
haviam voltado ao cilindro. Bombeiros tentam apagar as chamas. O
professor Pirson diz que não há conclusões
sobre o que querem as criaturas do foguete, mas admite a potência
dos raios de calor emitido pelas pistolas dos alienígenas.
Sem dúvida, diz o professor, eles têm armas mais poderosas
que as nossas.
Novos
boletins alimentam a apreensão. Da cidade de Triton, um correspondente
informa que foi identificado o corpo carbonizado do repórter
de Grover's Mill. A Cruz Vermelha é enviada a Nova Jersey.
O incêndio é dominado, e não há sinal
de vida no topo do objeto cilíndrico, que naquele momento
estava cercado e sob a mira de metralhadoras de oito baterias do
exército. Mas os microfones captam sons horríveis,
ouvem-se urros de clemência, e o locutor finalmente sucumbe
ao inacreditável.
Senhoras
e senhores, tenho uma notícia muito grave para
transmitir. Por mais incrível que pareça,
tanto as observações da ciência como
a evidência de nossos olhos conduzem à conlusão
irrecusável de que aqueles estranhos seres que
aterrisaram hoje à noite na região agrícola
de Gersey são a vanguarda de um exército
invasor vinda do planeta Marte!
Montagem:
André Azevedo da Fonseca. Fotos: reprodução

Radionovela sobre invasão
de marcianos assombrou ouvintes que tomaram a ficção
como verdade |
Em
seguida, informa que, naquele momento, 7 mil homens armados investiam
contra uma única máquina invasora. A cada segundo,
evento a evento, o repórter narra como a nave se ergue e
começa a disparar raios eletrônicos, até despedaçar
e transformar em cinza os corpos dos soldados. De sete mil combatentes,
apenas cento e vinte sobrevivem! Era o caos, o apocalipse! Trilhos
são derretidos! A população corre desesperada!
Estradas estão entupidas por um frenético tráfego
humano, informa a transmissão.
No
susto, aquele namorado apaixonado, do casal em delírios,
tenta ligar o carro, força a chave na ignição,
o automóvel gagueja, tosse, mas não sai do lugar.
Em um ímpeto histérico, temendo o iminente ataque
de marcianos, salta do automóvel e foge correndo, largando
a moça à sua própria sorte. Esta cena do casal,
mais ou menos assim (recuperado de lembrança), é um
trecho do filme A era do rádio, de Woody Allen. No
entanto, aquela transmissão de Welles foi real; ou melhor,
o pânico compartilhado pela população americana,
especialmente os moradores das regiões onde estava ambientada
a história, quando foi transmitida essa novela radiofônica,
foi assustadoramente real.
Imaginando
que estavam realmente sob ataque alienígena, boa parte da
população passou a sofrer o desespero de ser atacada
de verdade, a qualquer momento. Olhavam para o céu e aguardavam
a esquadrilha de naves espaciais lançando os tais raios de
calor. Simultaneamente, na dramatização da rádio
CBS, os relatos prosseguiam tenebrosos: as autoridades dizem que
não podem ocultar a catástrofe, afirmava o locutor,
e conclama todos que tenham calma. Confiamos na força da
população americana! Os repórteres diziam que
muitas rádios estavam desativadas devido aos raios de calor.
Outro
boletim! Aviões americanos encontram mais três foguetes
alienígenas no céu. Esquadrilhas de bombardeiros do
exército perseguem o inimigo. Um momento! Enviados especiais,
embutidos nos exércitos, transmitem os bombardeios ao inimigo.
O exército é atacado por uma fumaça negra!
Máquinas espaciais derrubam usinas de energia e se dirigem
a Nova York! Locutores se atrapalham nas transmissões! Calcula-se
que três mihões de pessoas fugiram, diziam os comentaristas.
Repórteres
recomendavam que a população evitasse as pontes, que
já estavam destruídas. O repórter narra, como
se fosse ao vivo, os momentos em que cinco grandes máquinas
ultrapassam o rio, jogam fumaça negra na cidade, destróem
prédios e avenidas, até se aproximar do repórter
e ... mais uma vez, encerra-se a transmissão.
Nesse
momento, apoteose da transmissão, ficção e
realidade se encontraram. Devido o temor real da população
de ouvintes, as linhas de telefone ficaram verdadeiramente congestionadas.
A pesquisadora Gisela Ortiwano conta que, na época, o programa
foi ouvido por pelo menos seis milhões de pessoas. No entanto,
metade delas passaram a sintonizá-lo depois da introdução
que informava tratar-se de obra de ficção. Calcula-se
que aproximadamente 1 milhão e 200 mil pessoas tomaram a
dramatização por fato, e pelo menos meio milhão
de ouvintes entraram em pânico e agiram de forma a confirmar
os eventos até então narrados apenas na ficção:
"sobrecarga de linhas telefônicas interrompendo realmente
as comunicações, aglomerações nas ruas,
congestionamentos de trânsito provocados por ouvintes apavorados
tentando fugir do perigo que lhes parecia real, etc".
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O
medo praticamente paralisou cidades e localidades próximas
a Nova Jersey, onde Welles situou a história. Moradores de
Newark e Nova York saíram as ruas para fugir do anunciado
ataque. Somente no final da transmissão o próprio
Orson Welles avisou, mais uma vez, que tudo se tratava de uma brincadeira.
Esse
evento mudou a história do rádio. Depois dessa transmissão
histórica, foi evidenciada a força da exploração
das técnicas jornalísticas com ambientação
sonora característica da linguagem do rádio. Orson
Welles cruzou elementos do radioteatro com a credibilidade do discurso
dos noticiários radiofônicos e conseguiu mobilizar
emocionalmente uma população inteira. Hoje, o modelo
é explorado sobretudo pelo jornalismo sensacionalista e por
programas políticos que usam desse cruzamento para imputar
credibilidade às suas mensagens. Mas o fato é que,
eepois de Welles, ficou evidente a força da influência
do rádio.
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