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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 209, em 27 de maio de 2002

andre.azevedo@uniube.br

fotos: André Azevedo da Fonseca

Folia participa das comemorações desde o terceiro aniversário do assentamento

Tradição

A Folia de Reis é uma festa inspirada em costumes católicos com raízes que remetem ao período colonial. José Messias imagina que, em sua família, a tradição se mantém há mais de um século. A procissão reproduz a viagem dos Reis Magos a Belém. Os cortejos percorrem ruas, vilas e povoados entoando em frente às casas os cânticos de louvor. Pedem aos moradores que abram as portas, fazem a saudação ao dono da casa, cantam jornadas dos reis magos ou passagens da vida de Jesus, agradecem e despendem-se. Normalmente as folias iniciam-se em 24 de dezembro e extinguem-se em 6 de janeiro. Mas a procissão de Nova Santo Inácio Ranchinho é um festejo especial para comemorar o aniversário do assentamento.

A reportagem do Revelação acompanhou o cortejo que partiu da casa de Antônio Munhoz no final da tarde e seguiu até a sede da Associação Nova Santo Inácio Ranchinho (Ansir). De intensa expressividade simbólica, os cânticos inspiram forte devoção religiosa e provocam nos fiéis um estado de contemplação mística que se mostra profundamente autêntico.

As violas pulsam na regularidade de um organismo. E pulsam de verdade, num pulsar que quase sai sangue. Os toques nas cordas formam constelações e orientam as vozes que, humanamente mundanas, cantam para agradar os santos. O tempo da toada é circular, mais um convite ao desprendimento da meditação religiosa.

A afinação dos arranjos vocais é o que há de mais assustadoramente humano, carnal e sanguíneo na folia. As toadas carregam toda a imperfeição e toda a impureza que nos caracteriza como humanos. A voz do mestre José Messias desafiava e vencia o tom continuamente, enfrentando o cansaço de sua garganta empoeirada. Mas não desafinou, seguiu teimoso. A paleta come forte a corda seca do cavaquinho para o som ressoar no agrado dos santos. Os foliões estão ali para expressar sua devoção da forma mais bonita e humana que existe. Demasiadamente, assustadoramente humana.


Pandeiro e zabumba entram em transe: era Maria Preta, a Rainha, que dançava entre os foliões

Ai ai meu Deus do céu. As vozes clementes arrancam da alma dos foliões uma tristeza não chorada que agora quase chora na cadência da zabumba. E a tristeza dói lá no fundo da alma. "Depois eu te conto o que é tristeza", disse Zé Melé, sem contar depois. Ai ai Nossa Senhora. O que clamam os foliões? O que é aquilo no rosto de Anísio Gomes, que toca o violão? O que é aquilo no olhar de Clarice Rosa, a bandeireira? É tristeza ou alegria esse compasso tão decidido e receoso ao mesmo tempo? A folia não responde. Segue cortejo.

Já na sede da Ansir, a procissão pára no galpão e algo acontece: os pandeiros de Wederson e Zé Melé e as zabumbas de Ariclenes e Arimatéia entram em transe. Era a rainha da Companhia, Maria Aparecida, a Maria Preta, quase 100 anos, mãe de José Messias, que saudava as pessoas e dançava entre as duas colunas de foliões. O transe durou alguns minutos, enquanto a rainha caminhava e segurava a bandeira sobre rosto dos fiéis. Ela proferiu, mais tarde, um discurso louvando a coragem e o talento.

Voltam os cânticos. O trinado do pandeiro e o pulsar da zabumba sobem pela espinha e apertam o coração. A entoada triste faz florescer uma nostalgia impossível, traz uma sensação de memória longínqua, subterrânea, calada, que ninguém sabe nomear. As raízes profundas da tradição e a simbologia mística sugerem que não são apenas os fiéis que arrepiam com o trinado do pandeiro; são seus pais, suas mães, seus avós, bisavós, tataravós, toda a população que nasceu, sofreu, cruzou oceanos, enfrentou guerras e morreu para que eles estivessem ali ouvindo a folia é que arrepiam neles. Um pouco da carne e da memória de antepassados que ainda sobrevivem neles, reconhecem os cânticos e arrepiam de verdade. Daí a força religiosa e a expressividade simbólica da Folia de Reis.

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