fotos:
André Azevedo da Fonseca

Folia
participa das comemorações desde o terceiro aniversário
do assentamento |
Tradição
A Folia de Reis
é uma festa inspirada em costumes católicos com raízes
que remetem ao período colonial. José Messias imagina
que, em sua família, a tradição se mantém
há mais de um século. A procissão reproduz
a viagem dos Reis Magos a Belém. Os cortejos percorrem ruas,
vilas e povoados entoando em frente às casas os cânticos
de louvor. Pedem aos moradores que abram as portas, fazem a saudação
ao dono da casa, cantam jornadas dos reis magos ou passagens da
vida de Jesus, agradecem e despendem-se. Normalmente as folias iniciam-se
em 24 de dezembro e extinguem-se em 6 de janeiro. Mas a procissão
de Nova Santo Inácio Ranchinho é um festejo especial
para comemorar o aniversário do assentamento.
A reportagem
do Revelação acompanhou o cortejo que partiu
da casa de Antônio Munhoz no final da tarde e seguiu até
a sede da Associação Nova Santo Inácio Ranchinho
(Ansir). De intensa expressividade simbólica, os cânticos
inspiram forte devoção religiosa e provocam nos fiéis
um estado de contemplação mística que se mostra
profundamente autêntico.
As violas pulsam
na regularidade de um organismo. E pulsam de verdade, num pulsar
que quase sai sangue. Os toques nas cordas formam constelações
e orientam as vozes que, humanamente mundanas, cantam para agradar
os santos. O tempo da toada é circular, mais um convite ao
desprendimento da meditação religiosa.
A afinação
dos arranjos vocais é o que há de mais assustadoramente
humano, carnal e sanguíneo na folia. As toadas carregam toda
a imperfeição e toda a impureza que nos caracteriza
como humanos. A voz do mestre José Messias desafiava e vencia
o tom continuamente, enfrentando o cansaço de sua garganta
empoeirada. Mas não desafinou, seguiu teimoso. A paleta come
forte a corda seca do cavaquinho para o som ressoar no agrado dos
santos. Os foliões estão ali para expressar sua devoção
da forma mais bonita e humana que existe. Demasiadamente, assustadoramente
humana.

Pandeiro
e zabumba entram em transe: era Maria Preta, a Rainha, que dançava
entre os foliões |
Ai ai meu
Deus do céu. As vozes clementes arrancam da alma dos
foliões uma tristeza não chorada que agora quase chora
na cadência da zabumba. E a tristeza dói lá
no fundo da alma. "Depois eu te conto o que é tristeza",
disse Zé Melé, sem contar depois. Ai ai Nossa Senhora.
O que clamam os foliões? O que é aquilo no rosto de
Anísio Gomes, que toca o violão? O que é aquilo
no olhar de Clarice Rosa, a bandeireira? É tristeza ou alegria
esse compasso tão decidido e receoso ao mesmo tempo? A folia
não responde. Segue cortejo.
Já na
sede da Ansir, a procissão pára no galpão e
algo acontece: os pandeiros de Wederson e Zé Melé
e as zabumbas de Ariclenes e Arimatéia entram em transe.
Era a rainha da Companhia, Maria Aparecida, a Maria Preta, quase
100 anos, mãe de José Messias, que saudava as pessoas
e dançava entre as duas colunas de foliões. O transe
durou alguns minutos, enquanto a rainha caminhava e segurava a bandeira
sobre rosto dos fiéis. Ela proferiu, mais tarde, um discurso
louvando a coragem e o talento.
Voltam os cânticos.
O trinado do pandeiro e o pulsar da zabumba sobem pela espinha e
apertam o coração. A entoada triste faz florescer
uma nostalgia impossível, traz uma sensação
de memória longínqua, subterrânea, calada, que
ninguém sabe nomear. As raízes profundas da tradição
e a simbologia mística sugerem que não são
apenas os fiéis que arrepiam com o trinado do pandeiro; são
seus pais, suas mães, seus avós, bisavós, tataravós,
toda a população que nasceu, sofreu, cruzou oceanos,
enfrentou guerras e morreu para que eles estivessem ali ouvindo
a folia é que arrepiam neles. Um pouco da carne e da memória
de antepassados que ainda sobrevivem neles, reconhecem os cânticos
e arrepiam de verdade. Daí a força religiosa e a expressividade
simbólica da Folia de Reis.
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