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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 209, em 27 de maio de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Folia foi uma das atividades no aniversário de Nova Santo Inácio Ranchinho


Foliões ensaiam à tarde na casa de Antônio Munhoz

André Azevedo

"Aqui, graças a Deus, a turma está comendo desde cedo. Chega um e come, chega outro e come...", disse Antônio Munhoz, onze filhos, mais de trinta netos e alguns bisnetos. Em sua casa, o grupo de Folia de Reis "Os Filhos da Benção" ensaiava para a procissão da noite de 18 de maio.

O dia todo era de festa. Os moradores da comunidade Nova Santo Inácio Ranchi-nho, localizada no município de Campo Florido (MG), comemoravam, na véspera, os nove anos de assentamento com um grande churrasco comunitário. Munhoz acompanhou o lento processo de desapropriação, assim como a acomodação das 115 famílias a partir de 1993. "Ficamos todos, com as mulheres e os meninos, três anos e meio debaixo de lona", lembra. Hoje, quase todas as casas têm energia elétrica e boa parte delas é abastecida com rede de água. O assentamento conta também com uma escola ligada ao projeto Escola Família Agrícola (EFA).


José Messias e o filho Israel: "A folia é uma tradição da família. Meu avô passou para o meu pai e ele passou para mim. Meu filho já está aprendendo"

José Ferreira dos Santos, conhecido como José Messias, é violeiro e mestre da folia. "A procissão no aniversário era uma intenção que a gente tinha desde a beira da rodovia", conta. Por causa de diversos problemas enfrentados nos primeiros anos de assentamento, somente em 1996 conseguiram reorganizar o grupo para a comemoração. "A folia é tradição na família. Meu avô passou para o meu pai e ele passou para mim. Meu filho — o Israel, de doze anos — já está aprendendo", entusiasma-se.

José Francisco Ribeiro, o Zé Melé, é uma figura muito popular e querida na comunidade. Apresentado como o amigo mais brincalhão, há trinta anos é companheiro de folia de José Messias. Já participou como palhaço e hoje, aos 68 anos, toca pandeiro. "Quero ver essa cara pretinha no jornal", disse ao posar para a foto.


Zé Melé: "Quero ver essa cara pretinha no jornal"

Natal Martins, o Natalino, é folião há mais de vinte anos. "Eu era só o escrivão, anotava as prendas, essas coisas. Um dia o contramestre ficou rouco, fui chamado no repente... e cantei — assim meio com vergonha — mas saiu", diz. Tornou-se então o contramestre de José Messias e o acompanhou por doze anos cantando e tocando viola. Mais tarde Natalino seria mestre em seu próprio grupo, a companhia 25 de Dezembro. Seu filho, Márcio José, é integrante do grupo e toca cavaquinho. Natalino foi convidado especialmente para participar da procissão no aniversário do assentamento.

Um líder político na folia

Como é sabido, o termo sofisticado deriva de sofística. Platão era um grande inimigo dos sofistas. Considerava-os enganadores, imitadores de filósofos. A prática do sofisma caracteriza-se por raciocínios escorregadios que induzem a uma "verdade" puramente ornamental. Lourival é um dos principais líderes do assentamento. De raciocínio claro e bem articulado, não é um homem sofisticado, assim como não são sofisticados o Antônio Munhoz, o José Messias, o Zé Melé, o Natalino, ou os outros amigos de Nova Santo Inácio Ranchinho. Não é preciso se perder em emaranhados de análises para decifrá-los; descobre-se claramente suas intenções a partir do que eles mesmos dizem


Lourival e Anísio (esq.) tocaram violão. Clarice Rosa foi a bandeireira. Os palhaços foram Eurípedes Dias e Aparecida Martins. Aparecida subsituia Benedito Galante, que estava "entrevado"

Requisitado a todo momento, Lourival é chamado para ajudar a resolver quase todo tipo de assunto na comunidade. Mas o líder político fica para outra reportagem. Aqui, Lourival é um dos foliões e toca violão com os Filhos da Benção.

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