# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 196, em 25 de fevereiro de 2002

A série de reportagens Escombros da Memória Coletiva recebeu Menção Especial no Prêmio Estímulo à Cidadania, modalidade Jornalismo, na 9» Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom)

andre.azevedo@uniube.br


Um dos importantes patrimônios históricos da cidade está encoberto por cartazes sujos

Casas históricas deterioradas, desfiguradas ou obstruídas escondem fragmentos de narrativas populares

André Azevedo da Fonseca

Na praça Rui Barbosa, coração de Uberaba, apodrece lentamente, aos olhos de todos, uma das casas históricas mais importantes da cidade. Construída em 1889, foi a terceira edificação inteiramente feita de tijolos no município. Anteriormente, as casas eram de pau-a-pique, ripa e barro, recobertas com uma argamassa de areia e estrume de vaca. Chegaram a dizer, na época, que as casas de Uberaba não passavam de "feias arapucas" — escreveu o historiador Hidelbrando Pontes. Foi só com a chegada da estrada de ferro que os imigrantes, arquitetos e construtores trouxeram técnicas usadas na Europa, impulsionando a modernização da cidade.

O primeiro proprietário dessa casa foi Tobias Rosa, dono do maior jornal da cidade na época, a Gazeta de Uberaba, fundado em 1876 – antes mesmo do Lavoura & Comércio. A memória popular registra que Tobias Rosa, jogador compulsivo, em certa ocasião apostou e perdeu a mansão em um jogo de cartas. Seu sogro, João Machado Quincas Borges – um dos organizadores da primeira exposição de Zebu de Uberaba – decidiu, mais tarde, comprá-la.

A mansão cuja beleza de estilo eclético é de encher a alma foi palco e testemunha de movimentos importantes na história da cidade. Chegou a sofrer diversas reformas — algumas criticadas por historiadores e arquitetos da cidade. Entretanto, hoje está lamentavelmente abandonada. Um dos mais encantadores patrimônios históricos e culturais de Uberaba está encoberto por cartazes sujos e rasgados, esconde-se envergonhado atrás de placas publicitárias e pontos de ônibus. Suas fachadas enegrecidas, sua pintura descascada e o cheiro de mofo que exala das janelas são uma verdadeira ofensa aos freqüentadores da região central.

Conhecer a casa por dentro é uma experiência que inspira profunda perplexidade pelo inexplicável desamparo. Ao andar pela casa, o pensamento que vêm à cabeça é: não é possível que isso acontece! Uma casa enorme, no centro de Uberaba, completamente abandonada! As portas dos fundos estão arrombadas. Quartos, salas e corredores, imundos. As tábuas do piso exalam vapores de urina misturado à poeira. Há vidros quebrados e fios de instalação elétrica por toda a parte. Uma escada em espiral de madeira, toda suja de terra, dá para o segundo piso do sobrado. As janelas, em sua maioria, estão permanentemente destrancadas e ficam batendo dia e noite com o vento. As madeiras dos batentes estão podres e infestadas de cupim. Um adesivo de uma empresa afixado na janela informa que a casa foi dedetizada em setembro de 1993. Em um dos quartos, lâmpadas de luz fria estão espatifadas no chão. O tapete rasgado deixa à mostra o piso de tacos infestado de musgo. A desolação dos cômodos e corredores é total, chega a ser agressiva. Nem fantasmas habitam essa casa. Há alguns anos a prefeitura chegou a alugar a mansão e instalou alguns serviços públicos – entre eles a Fundação Cultural. Mas desde meados da década de noventa está deserta. Ninguém sabe direito há quanto tempo está abandonada. Os comerciantes ao lado divergem, uns falam em três ou quatro anos, outros em sete ou oito. A casa está literalmente largada às traças e, como se tratasse de um cálculo matemático ou econômico, deteriora-se com uma velocidade que inspira demolição.

A antiga casa de Tobias Rosa é de propriedade privada. Atualmente, a área dos fundos é aproveitada como estacionamento. Fanney Humberto Fatureto, 18, cuida do negócio. "As portas dos fundos ficam abertas. Às vezes um mendigo ou outro entra e passa a noite aí. A dona quer vender, mas como é tombado, não pode demolir e nem reformar, então ninguém quer comprar", diz. Quando perguntado se pretende alugar a casa, responde: alugar pra quê

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