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Estudantes,
professores e políticos discutem estratégias para
a construção da escola democrática
André
Azevedo da Fonseca
"Ninguém
ensina nada a ninguém; todos aprendemos juntos em um processo".
Com esta frase atribuída a Paulo Freire, o deputado estadual
Adelmo Carneiro Leão (PT) abriu o Primeiro Simpósio
de Educação para a Cidadania, realizado no dia 1º
de dezembro no Centro Cultural Cecília Palmério, em
Uberaba (MG).
Nesse
dia, estudantes, educadores e políticos do Partido dos Trabalhadores
(PT) discutiram formas de transformar as práticas de educação
para que possam, de fato, construir um país livre e soberano.
Adelmo defendeu que, se o crime organizado conseguiu se infiltrar
em todos os segmentos sociais, como na política, no judiciário
e na polícia, a sociedade é igualmente capaz de se
organizar em redes de solidariedade. E evidentemente, a educação
se coloca como um instrumento fundamental para o desenvolvimento
da consciência crítica e consolidação
plena da democracia.
A
primeira rodada de discussões analisou o tema "a democracratização
da educação brasileira: da educação
básica à superior novos tempos em tempo presente".
O geógrafo e professor universitário, Renato Muniz
Barreto de Carvalho, iniciou os debates lançando uma série
de questões: "Que escola queremos? Quando podemos dizer
que o aluno aprendeu? O professor tem o poder de abrir a cabeça
do aluno?" Para ele, deixar de identificar os problemas inviabiliza
o avanço das políticas educacionais.
Renato
Muniz observou que administradores chegaram a atribuir o fracasso
do sistema de ensino à falta de espaço físico
(salas, prédios), de materiais básicos (cadernos,
uniformes), de merenda, ou até mesmo ao próprio desinteresse
dos alunos. No entanto, apesar de todas essas questões serem
importantes, ele acredita que o problema crucial "é
a desvalorização do educador".
Ele
lembrou que há anos os professores não têm mais
a primazia sobre a formação intelectual do cidadão.
Hoje as informações circulam sobretudo na imprensa,
nas ONGs e nos novos meios de comunicação. Mas se
por um lado essa profusão de conhecimento é importante,
ao mesmo tempo levou ao fortalecimento de uma cultura extremamente
individualista. Assim, para ele, um dos papéis fundamentais
dos educadores profissionais cuja atribuição
inerente é pensar o conhecimento junto aos alunos
é fortalecer a concepção comunitária
do conhecimento. "A essência do professor é um
projeto coletivo", defendeu.
O
geógrafo afirmou que os professores são hoje uma categoria
profissional extremamente desvalorizada. Os currículos disciplinares,
por exemplo, são elaborados em instâncias nacionais,
de forma que os educadores não participam, ou sequer são
ouvidos nos processos de decisão. Diante as diretrizes totalmente
impostas, ao professor de hoje resta apenas obedecer. Além
disso, essa usurpação de sua autonomia em relação
aos próprios conteúdos de sala-de-aula o desqualifica
e o aliena.
Muniz
acredita que é urgente colocar em pauta as discussões
sobre os "famigerados 200 dias letivos", cuja estrutura
leva professores a se desdobrarem em casa, fora do horário
de serviço, para preparar aulas, elaborar provas e corrigir
trabalhos. Para ele, escola "não é extensão
do lar, nem igreja", da mesma forma que professores "não
são tios ou tias, e nem estão nos colégios
por sacerdócio". Ele defendeu que professores devem
ter consciência de seus direitos de trabalhadores e lutar
por condições de emprego que não os desqualifiquem
como profissionais.
Educação
e apartheid
social
O
assessor especial do Ministério da Educação
(MEC), Edson Pistori, contou um caso que presenciou em Brasília
para ilustrar o grau de desigualdade da sociedade e, consequentemete,
da educação brasileira: dois jovens de classe média-alta
compraram um lanche no McDonalds e saíram no carro
importado, vagarosamente. Dois garotos pobres, que mendigavam na
porta da lanchonete, pediram a eles algumas batatinhas fritas. Os
que dirigiam passaram então, divertidamente, a jogar as batatatinhas
no chão, uma a uma, fazendo uma trilha no asfalto, enquanto
os pequenos mendigos, feito dois cães, seguiam o carro, recolhendo-as
do chão e comendo. Algumas pessoas que viam a cena lamentavam
a falta de dignidade dos quatro envolvidos. Outras se divertiam
com o caso. Os garotos pobres pareciam aceitar a humilhação
com naturalidade, pois toparam a "brincadeira" e prosseguiram
recolhendo e mastigando as batatas do asfalto. Para Pistori, a naturalização
da desigualdade é o que há de mais escandaloso na
história. E infelizmente, essa distribuição
de migalhas persiste nas políticas públicas.
Segundo
ele, na formação educacional de um jovem de classe
média alta, do primário ao ensino superior, gasta-se
em média, entre despesas públicas e particulares,
200 mil reais. Para jovens pobres, a média de gasto é
de 8 mil reais, na maioria recursos públicos. Esse é
outro dado do que Pistori chama de "apartação",
que, como o apartheid da África do Sul, divide de
forma brutal as oportunidades entre as classes.
O
representante do MEC afirmou que o Ministro da Educação,
Cristóvão Buarque, tem lutado por verbas e defendido
a idéia de que "sem escola é impossível
um país se desenvolver". [A propósito, no decorrer
do ano, o ministro já se pronunciou diversas vezes sobre
o contingenciamento de verbas realizado pelo próprio governo
Lula, que tem priorizado metas de superávit primário,
adiando investimentos na educação e outras áreas
sociais. Alguns dos pronunciamentos causaram incômodo no chamado
núcleo duro do governo.]
Pistori contou que, nos anos 70, a Espanha, a Irlanda e a Coréia
tinham patamares educacionais muito semelhantes ao Brasil. No entanto,
em um momento de sua história, os políticos desses
países decidiram fazer um "pacto nacional pela educação".
Isto significava que, a despeito das discordâncias partidárias
ou ideológicas, todos os governantes e legisladores concordariam
com a premissa de que o investimento em educação é
prioritário. Assim, comprometeram-se a aumentar gradativamente
os gastos, independente das alternâncias de poder, e a prosseguir
nas políticas de educação, encarando-as como
questão de Estado. Hoje, os três países são
considerados desenvolvidos, com estruturas educacionais avançadas
e populações altamente escolarizadas.
"O
Brasil precisa fazer um grande pacto pela educação",
afirmou. Ele acredita que esse pacto pode ser realizado em Uberaba.
Pistori sugeriu que os políticos da cidade, de todos os partidos,
se reúnam, reconheçam a urgência em aumentar
os gastos com educação e acertem planos para os próximos
15 anos. Uma utopia e tanto, haja visto o nível de disputas
políticas entre lideranças regionais, mesmo entre
companheiros da mesma legenda, como é o caso do próprio
PT local. Um pacto assim não sai do papel se não houver
pressão popular.
O
representante do MEC falou também sobre os programas e projetos
do ministério, como o Escola Ideal, que promete prestar
assistência especial, primeiramente a 100 municípios,
para que sejam efetivadas políticas de ensino exemplares,
com todas as crianças das cidades na escola e todos os adultos
alfabetizados. Segundo Pistori, a promessa do governo é estender
o programa a mil municípios, até o final do governo
Lula.
Em
relação à valorização dos professores,
Pistori falou sobre três planos do governo. O primeiro trata-se
da criação do Exame Nacional de Certificação,
uma prova voluntária que os professores podem fazer e, se
alcançarem boa pontuação, recebem automaticamente
um bônus mensal no salário. A segunda é uma
linha de crédito da Caixa Econômica Federal que, a
partir de fevereiro, promete financiar casa própria para
professores, com juros subsidiados pelo governo. A terceira será
um programa de turismo facilitado para a categoria.
Metas
de educação
O
professor e deputado federal Gilmar Machado (PT-MG) lembrou da importância
da valorização de todos os profissionais envolvidos
com a educação, que vão de professores e supervisores
aos técnicos e zeladores. Ele lembrou também que a
educação é um direito social garantido constitucionalmente.
Assim, cabe ao legislador fiscalizar as políticas públicas,
sobretudo as metas do Plano Nacional de Educação (PNE),
sancionado em 2001, e que em 9 de janeiro completa três anos.
"Como anda o cumprimento dessas metas?", questionou (veja
as metas no quadro da pág. 4). "Para ele, essa cobrança
deve se feita por toda a sociedade. "É preciso conhecer
a legislação e fazer com que ela seja cumprida".
O
deputado defendeu a regularização do fluxo escolar,
argumentando que a atual distorção na relação
entre idade e série cursada deve ser resolvida. De acordo
com o documento É possível um Brasil bem educado,
divulgado no 9º Fórum nacional dos dirigentes municipais
de educação, citando dados do Inep, se nenhuma
criança fosse repetente (em 2002 foram 8 milhões),
o Brasil pouparia cerca de R$8 bilhões por ano. No entanto,
Machado disse que o atual modelo de promoção automática
não funcionou, e deve ser discutido.
O
deputado defendeu também que a futura Universidade Federal
de Saúde do Triângulo Mineiro, uma ampliação
da atual Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM),
cujo projeto já chegou na Câmara dos Deputados, tem
o dever de servir toda a região, e não se ater apenas
a comunidade de Uberaba. O assessor especial do MEC, Edson Pistori,
sugeriu que futuramente se discutissem a união entre a Universidade
Federal de Uberlândia (UFU) e a Universidade Federal de Saúde,
criando assim, em vez de duas, uma grande universidade regional
provavelmente a segunda maior do interior do país.
Adelmo disse que essa discussão é válida, mas
desde que não crie qualquer obstáculo para o atual
estágio de transformação da FMTM em universidade.
Consumidor
e cidadão
A
segunda rodada de discussões teve como tema "a educação
como mobilidade social e a construção da cidadania".
O doutor em Educação e professor da Faculdade de Educação
da UFU, Marcelo Soares Pereira Silva, questionou os obstáculos
que a atual estrutura econômica oferece ao exercício
da democracia. Observando que dez empresas sozinhas controlam a
exploração de petróleo no planeta; que apenas
quatro dominam a produção mundial de pneus; e que
apenas uma detém a patente das caixinhas tetrapark
(aquelas de leites tipo longa-vida), questionou: "como pensar
na cidadania numa sociedade transnacionalizada?", ou seja:
"quando o cidadão pode mesmo influenciar e participar
de forma efetiva dos rumos da cidade?".
Para
ele, é preciso que as reivindicações superem
os interesses individuais e passem a vislumbrar os direitos coletivos,
"ou corremos o risco de ver os direitos sendo colocados
como benefícios". Para ele, é fundamental
fazer a distinção, pois possibilitar a todos a vivência
plena da cidadania é um dever do Estado, uma premissa básica
da democracia, e não um benefício adicional.
Além
disso, afirmou que a educação não pode ser
tratada como um comércio cujo objetivo é simplesmente
"atender às necessidades da clientela", fazendo
dos estudantes meros fregueses. Ele defendeu que garantir os direitos
de cidadão não consiste apenas na transformação
do indivíduo em consumidor, mas vai muito além disso.
Para ele cidadania significa "o direito de sermos agentes da
própria história", ou seja, sujeitos plenamente
capazes de participar dos rumos da sociedade.
Assim,
Marcelo Soares acredita que para se construiur uma educação
cidadã é fundamental trabalhar para o fortalecimento
das instâncias colegiadas e dos conselhos municipais de educação.
Os
colegiados são órgãos formados por diversos
representantes da instituição de ensino. Suas atribuições
incluem pareceres sobre aspectos relativos ao curso, tais como alterações
curriculares, critérios de avaliação, etc.
Já os conselhos municipais são formados por representantes
do governo e da sociedade, e têm entre seus objetivos o estabelecimento
de um fórum de discussão para influir na elaboração
do plano municipal de educação. Além disso,
os conselhos também acompanham e fiscalizam a aplicação
dos recursos públicos da área. Portanto, a idéia
é que a democracia se fortale quando são abertos os
canais de participação para a comunidade: ao convidar
o cidadão a participar e assumir responsabilidades nas políticas
de educação, cria-se uma cultura propícia ao
desenvolvimento da cidadania.
No
entanto, o próprio Soares observou que os pais deixam de
participar das reuniões porque muitos colegiados viraram
"espaços de referendar aquilo que á foi deliberado".
Para ele, é preciso recuperar o sentido das organizações
coletivas.
O
ex-secretário municipal de educação e atual
secretário dos direitos da cidadania da prefeitura de Belo
Horizonte, Antônio David de Souza Júnior, alertou que
ainda prevalece no senso comum a idéia de cidadania como
uma construção que só será materializada
no futuro. Mas para ele, a cidadania deve ser exercida como uma
ação já no presente. É a própria
experiência da instalação de um espaço
de convivência democrático que promove a cultura cidadã.
A
professora e coordenadora do programa de Educação
à Distância da Universidade de Uberaba (Uniube), Ivanilda
Barbosa, disse que o processo de educação é
muito mais complexo que a educação escolar. Para ela,
é preciso pensar de que forma a universalização
do ensino vai respeitar as especificidades regionais. "Não
vejo outra alternativa a não ser despir de preconceitos".
Com isso, ela quis dizer que percebe na comunidade acadêmica
um clima de preconceito por parte dos professores de instituições
públicas em relação aos do ensino privado.
Em
relação à diversidade, a professora também
não deixou de mencionar que, no próprio Simpósio
de Educação para a Cidadania, ela era a única
mulher convidada entre sete homens, contrastando com a porcentagem
de mulheres do público, que era visivelmente bem maior. Isso
mostra que ainda há muito a se fazer pela universalização
da cidadania.
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Homens
brancos dominam mundo empresarial
Quase
totalidade dos diretores (97,2%) possuem formação
superior
A
pesquisa Perfil social, racial e de gênero das 500
maiores empresas do Brasil, coordenada pelo Instituto
Ethos, mostra que o mundo empresarial ainda é dos
homens brancos e com alto grau de instrução.
Mulheres e negros não têm a mesma equivalência
no mercado de trabalho empresarial brasileiro. Em cargos de
alta hierarquia, a situação é ainda mais
disparatada. Apenas 1,8% dos negros e 9% das mulheres estão
em cargos de diretoria.
A
pesquisa mostra que a quase totalidade dos diretores (97,2%)
e a maioria absoluta dos gerentes (81,5%) possuem formação
superior. "Apesar da clara correlação entre
nível hierárquico e grau de formação,
verifica-se que há 2% dos diretores e 14,5% dos gerentes
no nível médio e 0,8% dos diretores e 4% dos
gerentes no fundamental." Por outro lado, mais da metade
dos supervisores e um quarto do quadro funcional têm
formação superior.
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