|

Escritor
fala de jornalismo, literatura, realidade, ficção
e da sua vontade de ser Papa

Romberto
Drummond ficou mundialmente conhecido depois de publicar o romance
Hilda Furacão (foto: André Azevedo) |
André
Azevedo da Fonseca
O
escritor mineiro Roberto Drummond, autor de dez livros, ficou mundialmente
famoso depois de escrever Hilda Furacão. Em 2001,
lançou o romance, O Cheiro de Deus. Além disso,
a editora Objetiva acaba de relançar seu primeiro livro de
contos, o experimental A morte de D.J. em Paris. Em maio
deste ano, o escritor esteve em Uberaba participando de um bate-papo
com leitores no auditório da FMTM, atendendo a um convite
do projeto Tim Estado de Minas - Grandes Escritores, em parceria
com os programas Pró-ler e ArtEducação. A entrevista
foi realizada às 11h da manhã de 3 de maio no hotel
Shelton, na presença de Marcelo Andrade, idealizador do ArtEducação,
Olga Frange, coordenadora do programa em Uberaba e Juliana Magnino,
assessora de imprensa.
Roberto
Drummond sofreu um ataque cardíaco e veio a falecer no início
da madrugada de 21 de junho, aos 68 anos.
A
literatura fala da alma humana e o jornalismo cobre a prática
humana. Será que o jornalismo deve investigar a essência
do homem, ou esse papel é só da literatura?
Roberto
Drummond: O
Jornalismo vive sempre momentos fugazes. Por ser um jornalismo diário,
de jornal, televisão ou rádio, está de acordo
com o que está acontecendo naquele dia, na véspera.
Ele é perecível, mais perecível que uma maçã.
Muitas vezes vem dentro do jornal gêneros que são vizinhos
da literatura, como a crônica. E há casos históricos.
O Hemingway cobrindo a guerra civil da Espanha escreveu um texto
para um jornal americano sobre um velho na ponte que depois colocou
num livro como um conto. Na verdade é um conto e dura
até hoje porque ele escreveu como um escritor escreveria.
Qual
é a relação do jornalismo na sua obra literária?
Drummond:
O jornalismo é sempre um auxiliar. Eu diria que é
um trabalhador escravo da literatura quando o escritor é
também jornalista.
Será
que o copidesque [técnica de edição que corta
o que considera excessos no texto jornalístico] mata a vida
no jornalismo?
Drummond:
Olha, eu fui da geração copidesque no Binômio,
depois na Última Hora mineira, na revista Alterosa e depois
na própria "bíblia", que era o Jornal do
Brasil. Então eu fui o copidesque do Jornal do Brasil e você
não imagina o meu status. Depois o Nelson Rodrigues
investiu contra o copidesque com toda a razão
fez várias críticas contra isso.
O
Hilda Furacão foi escrito como um anti-copidesque,
porque se eu fizesse um livro à copidesque ele não
alcançaria o que eu queria e nem o sucesso que alcançou.
Agora, já O cheiro de deus, eu escrevi como quem foi
copidesque muito tempo porque eu precisava do texto seco, quase
no osso da frase.
Como
Hemingway?
Drummond:
Não, não
é Hemingway porque a frase é circular. Eu precisava
daquela coisa do redemoinho, em plena ação. Precisava
de uma coisa magra como um redemoinho. Aquele texto nervoso, tenso,
do copidesque do Jornal do Brasil me ajudou muito.
O
lead [primeiro parágrafo da notícia onde se
coloca a informação principal] foi uma revolução
que sua geração fez em relação ao nariz-de-cera
[introdução repleta de rodeios e adjetivos]. Entretanto,
hoje o lead é muito contestado, pois acredita-se que
a realidade não cabe dentro daquela forma do quem-que-quando-onde-como-porque.
O que acha disso?
Drummond:
Eu aprendi uma coisa: não tem verdade absoluta nenhuma. Tem
hora que você pode usar o lead. Tem hora que você
não deve. E acho hoje que aquela revolução
foi muito radical, como toda revolução. O chamado
nariz-de-cera às vezes era sábio. Até hoje,
conforme o texto, você pode fazer um nariz-de-cera misturado
com aquele jornalismo mais enxuto.
Se
você vai contar uma história policial "boa",
você tem que criar suspense. E para criar suspense você
não pode fazer lead e sublead. O Garcia Marquez
tem vários livros assim pois além de um grande
escritor é um grande jornalista e um grande repórter
em que ele faz exatamente isso. Tem um sequestro na Colômbia
em que ele vai descrevendo pormenorizadamente o dia-a-dia de um
personagem até que aconteça o crime.
Como
Truman Capote fez em A sangue frio. Um crime que teve repercussão
enorme, ele foi descrevendo aquilo lentamente, enxutamente, criando
um suspense danado. No fim do primeiro capítulo, mesmo conhecendo
o crime, você está doido para ler.
Se
você for descrever os grandes crimes, se você for contar
uma história sobre o Louco do Triângulo, que é...
Louco
do Triângulo?
Drummond:
É um personagem famosérrimo. Você não
conhece ele não?
Não.
O que ele fez?
Drummond:
Louco do Triângulo era um "louco
do Triângulo Mineiro". O único escritor que fez
referência a ele fui eu. Ele não foi ainda personagem
de livro nenhum. Era um louco que ficava assustando muita gente,
apavorando o Triângulo. O Governador era o Francelino [Pereira]
ou o Rondom Pacheco. E então a Polícia Militar veio
prendê-lo. Fez o cerco ao Louco do Triângulo. E ele
já tinha virado lenda. E não o prendiam, e o Estado
de Minas falando, o Diário da Tarde também, todos
em pânico com o Louco do Triângulo. Aí o governador
convocou o chefe da Polícia Militar, e ele explicou que não
podia prender o Louco do Triângulo porque: Governador,
na hora que a gente dá voz de prisão ele vira um passarinho.
A gente põe numa gaiola ele vira uma onça pintada.
Na hora que a gente prepara para dar aquele tiro para fazer a onça
dormir ele vira um charuto. E é um perigo, governador, a
gente pegar aquele charuto: e se ele virar um tigre na mão
da gente?
Isso
foi dito para o governador e saiu nos jornais. Então, se
você for contar a história do Louco do Triângulo
assim: era um louco que fez isso, isso, isso... não
dá! Você tem que começar lentamente... descrevendo
tudo...
A
realidade é mais o que percebemos ou mais o que imaginamos?
Drummond:
Eu acho que a realidade, no Brasil, é
uma ficção. Em qualquer país, também
é, mas no Brasil a gente conhece. O Brasil é uma ficção.
Minas Gerais foi escrita por Deus, Diabo, Shakespeare, Tolstoi e
por aí. Para você ver, aqui mesmo em Uberaba o Chico
Xavier recebe, do além, textos do Machado de Assis e Dostoievski
já traduzido para o português. E é verdade!
Você compara o texto. E ele conversa com o além, dá
recado, essa coisa toda. E você vai contestar? Vai contestar
o Louco do Triângulo, o Zé Arigó que recebia
o espírito do Dr. Fritz? Os lobisomens, as mulas-sem-cabeça,
essas coisas todas?
Parece
que essa realidade mágica está muito ligada à
percepção de mundo que todos tivemos na infância.
Percebi que todo personagem seu, quando sente uma emoção
muito forte, normalmente se infantiliza. Será que com esse
mundo de fadas, Papai Noel e Bicho-papão, o encantamento
da infância é o paraíso mágico que perdemos
e buscamos a vida toda?
Drummond:
Eu gosto muito dessa sua leitura do problema
da infantilização. Eu acho que o homem feliz e a mulher
feliz viram crianças. Têm um comportamento de infantilismo.
Isso ninguém tinha dito sobre minha obra. Já disseram
tudo, tem tese de mestrado, tem coisa inclusive fora do Brasil,
mas isso ninguém viu.
Eu
acho até que tenho um problema. Quando viajo eu estou alimentarmente
infantilizado. Tenho que tomar cuidado senão desando a comer
chocolate, tudo que me proíbo eu faço (risos). E quando
vou ao Mineirão ver jogo e eu tenho que escrever sobre
jogos eu acabo chupando picolé, comendo chocolate,
uma série de coisas. Agora, nisso aí é uma
verdade. O personagem é infantilizado e liberto. É
a infantilização como libertação.
Freud explica?
Drummond:
Olha, o Freud tem uma análise antológica como
tudo dele sobre o problema da infantilização
que vários psicanalistas retomaram. Um deles é que
a pessoa infantiliza como uma proteção, para se fortalecer
para enfrentar as coisas pela frente.
Como
a Dôia? [personagem de um conto em A morte de D.J. em Paris]
Drummond:
Ali ela nem infantilizava, ela tem um surto
mesmo. Ali eu fui derrotado em uma entrevista, certa vez. Porque
a minha análise era política: ela viu um Cristo
sendo crucificado. Ninguém aceitou. Ainda bem. Mas tem isso,
a infantilização libertadora e protetora, como em
Freud.
E
sobre a infantilização como forma de reencantamento
do mundo, sua obra tem mesmo essa visão?
Drummond:
Talvez, talvez... aí é uma
leitura sua que é melhor do que a minha.
pág. 1 de 2 - próxima
| página
principal |
|
 |
|
|