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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 206, em 6 de maio de 2002

andre.azevedo@uniube.br

Escritor fala de jornalismo, literatura, realidade, ficção e da sua vontade de ser Papa


Romberto Drummond ficou mundialmente conhecido depois de publicar o romance Hilda Furacão (foto: André Azevedo)

André Azevedo da Fonseca

O escritor mineiro Roberto Drummond, autor de dez livros, ficou mundialmente famoso depois de escrever Hilda Furacão. Em 2001, lançou o romance, O Cheiro de Deus. Além disso, a editora Objetiva acaba de relançar seu primeiro livro de contos, o experimental A morte de D.J. em Paris. Em maio deste ano, o escritor esteve em Uberaba participando de um bate-papo com leitores no auditório da FMTM, atendendo a um convite do projeto Tim Estado de Minas - Grandes Escritores, em parceria com os programas Pró-ler e ArtEducação. A entrevista foi realizada às 11h da manhã de 3 de maio no hotel Shelton, na presença de Marcelo Andrade, idealizador do ArtEducação, Olga Frange, coordenadora do programa em Uberaba e Juliana Magnino, assessora de imprensa.

Roberto Drummond sofreu um ataque cardíaco e veio a falecer no início da madrugada de 21 de junho, aos 68 anos.

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A literatura fala da alma humana e o jornalismo cobre a prática humana. Será que o jornalismo deve investigar a essência do homem, ou esse papel é só da literatura?

Roberto Drummond: O Jornalismo vive sempre momentos fugazes. Por ser um jornalismo diário, de jornal, televisão ou rádio, está de acordo com o que está acontecendo naquele dia, na véspera. Ele é perecível, mais perecível que uma maçã. Muitas vezes vem dentro do jornal gêneros que são vizinhos da literatura, como a crônica. E há casos históricos. O Hemingway cobrindo a guerra civil da Espanha escreveu um texto para um jornal americano sobre um velho na ponte que depois colocou num livro como um conto. Na verdade é um conto e dura até hoje porque ele escreveu como um escritor escreveria.

Qual é a relação do jornalismo na sua obra literária?

Drummond: O jornalismo é sempre um auxiliar. Eu diria que é um trabalhador escravo da literatura quando o escritor é também jornalista.

Será que o copidesque [técnica de edição que corta o que considera excessos no texto jornalístico] mata a vida no jornalismo?

Drummond: Olha, eu fui da geração copidesque no Binômio, depois na Última Hora mineira, na revista Alterosa e depois na própria "bíblia", que era o Jornal do Brasil. Então eu fui o copidesque do Jornal do Brasil e você não imagina o meu status. Depois o Nelson Rodrigues investiu contra o copidesque — com toda a razão — fez várias críticas contra isso.

O Hilda Furacão foi escrito como um anti-copidesque, porque se eu fizesse um livro à copidesque ele não alcançaria o que eu queria e nem o sucesso que alcançou. Agora, já O cheiro de deus, eu escrevi como quem foi copidesque muito tempo porque eu precisava do texto seco, quase no osso da frase.

Como Hemingway?

Drummond: Não, não é Hemingway porque a frase é circular. Eu precisava daquela coisa do redemoinho, em plena ação. Precisava de uma coisa magra como um redemoinho. Aquele texto nervoso, tenso, do copidesque do Jornal do Brasil me ajudou muito.

O lead [primeiro parágrafo da notícia onde se coloca a informação principal] foi uma revolução que sua geração fez em relação ao nariz-de-cera [introdução repleta de rodeios e adjetivos]. Entretanto, hoje o lead é muito contestado, pois acredita-se que a realidade não cabe dentro daquela forma do quem-que-quando-onde-como-porque. O que acha disso?

Drummond: Eu aprendi uma coisa: não tem verdade absoluta nenhuma. Tem hora que você pode usar o lead. Tem hora que você não deve. E acho hoje que aquela revolução foi muito radical, como toda revolução. O chamado nariz-de-cera às vezes era sábio. Até hoje, conforme o texto, você pode fazer um nariz-de-cera misturado com aquele jornalismo mais enxuto.

Se você vai contar uma história policial "boa", você tem que criar suspense. E para criar suspense você não pode fazer lead e sublead. O Garcia Marquez tem vários livros assim — pois além de um grande escritor é um grande jornalista e um grande repórter — em que ele faz exatamente isso. Tem um sequestro na Colômbia em que ele vai descrevendo pormenorizadamente o dia-a-dia de um personagem até que aconteça o crime.

Como Truman Capote fez em A sangue frio. Um crime que teve repercussão enorme, ele foi descrevendo aquilo lentamente, enxutamente, criando um suspense danado. No fim do primeiro capítulo, mesmo conhecendo o crime, você está doido para ler.

Se você for descrever os grandes crimes, se você for contar uma história sobre o Louco do Triângulo, que é...

Louco do Triângulo?

Drummond: É um personagem famosérrimo. Você não conhece ele não?

Não. O que ele fez?

Drummond: Louco do Triângulo era um "louco do Triângulo Mineiro". O único escritor que fez referência a ele fui eu. Ele não foi ainda personagem de livro nenhum. Era um louco que ficava assustando muita gente, apavorando o Triângulo. O Governador era o Francelino [Pereira] ou o Rondom Pacheco. E então a Polícia Militar veio prendê-lo. Fez o cerco ao Louco do Triângulo. E ele já tinha virado lenda. E não o prendiam, e o Estado de Minas falando, o Diário da Tarde também, todos em pânico com o Louco do Triângulo. Aí o governador convocou o chefe da Polícia Militar, e ele explicou que não podia prender o Louco do Triângulo porque: Governador, na hora que a gente dá voz de prisão ele vira um passarinho. A gente põe numa gaiola ele vira uma onça pintada. Na hora que a gente prepara para dar aquele tiro para fazer a onça dormir ele vira um charuto. E é um perigo, governador, a gente pegar aquele charuto: e se ele virar um tigre na mão da gente?

Isso foi dito para o governador e saiu nos jornais. Então, se você for contar a história do Louco do Triângulo assim: era um louco que fez isso, isso, isso... não dá! Você tem que começar lentamente... descrevendo tudo...

A realidade é mais o que percebemos ou mais o que imaginamos?

Drummond: Eu acho que a realidade, no Brasil, é uma ficção. Em qualquer país, também é, mas no Brasil a gente conhece. O Brasil é uma ficção. Minas Gerais foi escrita por Deus, Diabo, Shakespeare, Tolstoi e por aí. Para você ver, aqui mesmo em Uberaba o Chico Xavier recebe, do além, textos do Machado de Assis e Dostoievski já traduzido para o português. E é verdade! Você compara o texto. E ele conversa com o além, dá recado, essa coisa toda. E você vai contestar? Vai contestar o Louco do Triângulo, o Zé Arigó que recebia o espírito do Dr. Fritz? Os lobisomens, as mulas-sem-cabeça, essas coisas todas?

Parece que essa realidade mágica está muito ligada à percepção de mundo que todos tivemos na infância. Percebi que todo personagem seu, quando sente uma emoção muito forte, normalmente se infantiliza. Será que com esse mundo de fadas, Papai Noel e Bicho-papão, o encantamento da infância é o paraíso mágico que perdemos e buscamos a vida toda?

Drummond: Eu gosto muito dessa sua leitura do problema da infantilização. Eu acho que o homem feliz e a mulher feliz viram crianças. Têm um comportamento de infantilismo. Isso ninguém tinha dito sobre minha obra. Já disseram tudo, tem tese de mestrado, tem coisa inclusive fora do Brasil, mas isso ninguém viu.

Eu acho até que tenho um problema. Quando viajo eu estou alimentarmente infantilizado. Tenho que tomar cuidado senão desando a comer chocolate, tudo que me proíbo eu faço (risos). E quando vou ao Mineirão ver jogo — e eu tenho que escrever sobre jogos — eu acabo chupando picolé, comendo chocolate, uma série de coisas. Agora, nisso aí é uma verdade. O personagem é infantilizado e liberto. É a infantilização como libertação.

Freud explica?

Drummond: Olha, o Freud tem uma análise antológica — como tudo dele — sobre o problema da infantilização que vários psicanalistas retomaram. Um deles é que a pessoa infantiliza como uma proteção, para se fortalecer para enfrentar as coisas pela frente.

Como a Dôia? [personagem de um conto em A morte de D.J. em Paris]

Drummond: Ali ela nem infantilizava, ela tem um surto mesmo. Ali eu fui derrotado em uma entrevista, certa vez. Porque a minha análise era política: ela viu um Cristo sendo crucificado. Ninguém aceitou. Ainda bem. Mas tem isso, a infantilização libertadora e protetora, como em Freud.

E sobre a infantilização como forma de reencantamento do mundo, sua obra tem mesmo essa visão?

Drummond: Talvez, talvez... aí é uma leitura sua que é melhor do que a minha.

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