|
Crônica

André
Azevedo da Fonseca
Nesses
diversos congressos, seminários e simpósios que tenho
participado pelo país, observei alguns comportamentos muito
curiosos de determinada estirpe de intelectual acadêmico.
Evidentemente, anotei algumas peculiaridades para compor um personagem
encantador.
Diploma
de 1º grau, 2º grau, graduação, pós-graduação,
mestrado, doutorado, PhD e upa, upa, lá vem o Prof. Dr.!
Ele não vem sozinho. Carrega consigo uma maletinha onde guarda
sua coleção de diplomas para o caso de emergência:
nunca se sabe quando precisará de um. Prudência e uma
citação qualquer de Wittgenstein não fazem
mal a ninguém.
O
Prof. Dr. detesta conversar com pessoas que se recusam a ficar imediatamente
fascinadas com seus comentários. Considera estúpido
qualquer indivíduo incapaz de perceber que, por trás
de seu bom dia, há anos e anos de estudo. Acha indecente
colegas que, em sua presença, tratam de assuntos que não
dizem respeito à sua tese. Um desperdício de tempo
inadmissível para um PhD como ele.
Irrita-se
profundamente quando uma balconista, um taxista ou um garçom
dirige-lhe qualquer comentário, ou mesmo uma pergunta. Ouvir
a voz de pessoas estúpidas pode intoxicar sua consciência,
da mesma forma que comida estragada intoxicaria seu organismo. E
sem um diploma, como o sujeito vai provar que não é
um deficiente mental?
Porém,
o Prof. Dr. não demonstra mau-humor, por entender que todos
os seres vivos merecem consideração. Por isso, desenvolveu
uma técnica pantomímica que simula expressão
facial de intenso interesse em qualquer circunstância. Enquanto
o ignorante fala, ele procura dispersar o pensamento, ou direcioná-lo
para a reflexão de conceitos abstratos. Só fica atento
na movimentação da boca do sujeito. Quando eventualmente
o intelectual se distrai de suas abstrações e se vê
diante a ameaça de prestar a atenção ao interlocutor
boçal, interrompe com um meio-sorriso, diz "muito
bem" ou "que ótimo!", finge que
o celular vibrou e escapole daquela situação em contorções
impossíveis. Sofre náuseas, labirintite, falta de
ar, e só melhora quando repete para si mesmo: razão,
consciência e hermenêutica, sou Prof. Dr.; razão,
consciência e hermenêutica, sou Prof. Dr.!
Na
verdade, o Prof. Dr. tem até alguma simpatia pelos raros
iletrados que se põem a admirá-lo; porém, nunca
dirige mais do que duas ou três palavras a eles, pois sabe
que não vão entender mesmo. Quando ouve uma pergunta,
desconversa dizendo: "é isso mesmo". Depois
sai de fininho.
O
Prof. Dr. invariavelmente se aborrece quando participa de simpósios,
pois sempre aparece um retrógrado que contesta suas afirmações
incontestáveis, especialmente aquelas baseadas nos dogmas
da nova ciência. Mas ele não se intimida. Acaricia
sua pasta de diplomas e, quando se sente encurralado no meio da
argumentação, fuzila: "escute rapaz, isso
que você diz é ridículo, você está
errado, pois sou Dr!" Com um argumento desses, de fato,
encerra-se a discussão.
O
Prof. Dr. tem várias cartas na manga para vencer pelejas
acadêmicas. Quando alguém expõe um assunto que
ele não domina, o Prof. Dr. diz que isso não tem a
mínima relevância. Quando apontam nele falhas de raciocínio,
O Prof. Dr. atribui a um pensador consagrado na bibliografia e exime-se
da responsabilidade da argumentação. Quando percebe
que o interlocutor está prestes a fazer uma conclusão
perspicaz, o Prof. Dr. interrompe bruscamente, expõe objeções
fictícias, faz rodeio e conclui, triunfante, exatamente aquilo
que o interlocutor estava prestes a concluir.
O
Prof. Dr. esforça-se de forma sobre-humana para exibir-se
em sociedade como um ser humano igual a qualquer um. Treina no espelho
um olhar que pareça, ao mesmo tempo, cúmplice e superior,
sincero e blasé, atento e descontraído. Cultiva
uma extravagância inofensiva porque entende que é de
bom-tom ter estilo. Amante da sociologia e da antropologia, idealiza
e diz amar, com alma terna, a ingenuidade da sabedoria popular.
Não perde a oportunidade de demostrar afeto aos iletrados
quando o tema é debatido na universidade. Amante da música,
obriga-se a ouvir os clássicos por pelo menos vinte minutos
na semana. Quando falha, na semana seguinte ouve quarenta minutos.
Admite
que ser doutor não significa, necessariamente, ser sempre
racional: "é preciso sentir emoções
de vez em quando". O Prof. Dr. não gosta muito de
sexo, mas não se sente incomodado, porque Kant também
não gostava. De qualquer maneira, faz para cumprir obrigações
conjugais, quando necessário.
O
Prof. Dr., evidentemente, odeia autodidatas. Tem uma ofensa na ponta
da língua para esses atrevidos, citando Mário Quintana:
"autodidata é um ignorante por conta própria".
O Prof. Dr. prefere ser um pós-graduado, um mestre, um doutor.
pág.
1 de 1
| página
principal |
|
 |
|
|