# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 199, em 18 de março de 2002

andre.azevedo@uniube.br

Eduardo Fonseca, Carlos Eduardo, Luís Carlos e Andrezza Sawan, 1º período de Biomedicina: "Quando o trote é saudável, é uma maneira legal dos estudantes se conhecerem. Mas aquelas humilhações são um preconceito, porque eles acham que por terem graduação maior têm o direito de fazer o que quiser com os calouros. Isso acaba dificultando a aproximação"

As três justificativas

Há três afirmações básicas em que veteranos se ancoram para justificar o trote. Primeiro: é tradição. Todos fazem e sempre foi feito. Segundo: é uma brincadeira. Faz-se por diversão. Terceiro: promove a integração entre calouros e veteranos. À maneira de Platão, vamos analisar uma a uma.

Sobre o trote ser uma tradição, podemos dividir as opiniões do debate, portanto, da seguinte maneira: existe quem queira conservá-la — os conservadores — e quem a abomine e deseje instituir um novo comportamento — os rebeldes, ou progressistas. Naturalmente, é difícil desvendar a psicologia de uma tradição enquanto ela ainda está vigente, pois o que se torna hábito — ou um mito, como será visto adiante — é feito de forma automática, e as intenções que o fundamentam ficam escondidas sob sua solidez.

Todo fenômeno que acompanha a inércia do hábito aparenta, de fato, ares de verdade inelutável. Pierre Bourdieu refletiu sobre este problema, que chamou de "violência oculta". Suas análises das práticas culturais utilizam essa noção de habitus — termo que designa certo sistema estável de disposições a perceber e agir, que concorrem para reproduzir uma ordem social estabelecida, em suas desigualdades.

Percebemos, entretanto, que há alguns anos manifesta-se, na comunidade acadêmica, certa inquietação sobre a legitimidade do trote. Porém, esse desconforto é expresso em um debate muito pobre entre conservadores e progressistas: estes não o querem "porque não!" e aqueles o querem "porque sim!". Alguns abusos que acabaram levando calouros à morte chamaram a atenção da opinião pública sobre os limites das "brincadeiras". Contudo, não são os excessos — ou as exceções — os objetos desta análise. O que se deseja verificar é o sentido do trote, assim como seus propósitos e motivações.

Os defensores dessa tradição não são sequer capazes de conceituá-la, pois não há qualquer reflexão sobre a prática. Essa conduta lembra a técnica do reflexo condicionado, de Pavlov. Sem nos perdermos em detalhes, o procedimento básico experimentado pelo fisiologista russo era repetir mecanicamente os temas e sugestões de forma que o conceito — qualquer que seja — alcance ares de verdade natural e fique impregnado no comportamento.

Entretanto, um outro conceito parece mais adequado. Roland Barthes esboçou, em Mitologias, uma teoria semiológica dos "mitos contemporâneos". Ele explica como o mito parece sustentar-se na linguagem cotidiana e faz passar por "naturais", ou "evidentes em si mesmos", valores parasitários do que chamou de "uma espécie de monstro: a pequena burguesia". O antropólogo Claude Lévi-Strauss também estudou os mitos como forma de linguagem e identificou os "mitemas" — mitos particulares — que, assim como os "fonemas", unidades básicas da linguagem, só adquirem sentido em sua combinação. Essas regras combinatórias formariam uma espécie de gramática que permitiria descobrir, por exemplo, o sentido desse mito. O trote, neste caso, poderia ser entendido como um mitema: no contexto de nossa sociedade, estaria servindo ao mito do direito natural de dominação.

Aí está a grande dificuldade encontrada pelos progressistas para dissuadir os conservadores que defendem a manutenção do trote. Como já observou o escritor irlandês Jonathan Swift, "você não pode dissuadir alguém pelo raciocínio de uma convicção a qual ele não foi levado pelo raciocínio". Um conceito, contudo, é ponto pacífico para as duas tendências divergentes: uma sociedade avança na medida em que tradições obsoletas desmoronam para que novos conceitos sejam erguidos e, aos poucos, solidifiquem-se em uma nova tradição.

A afirmação de que o trote é uma brincadeira, uma coisa divertida, também mostra-se perfeitamente falsa. Uma brincadeira presume conivência explícita entre os participantes. Se um não aceita, não é mais diversão: é coerção, ou, na linguagem popular, uma "brincadeira besta". A atual geração de calouros está se mostrando mais resistente ao trote. Percebe-se que brincadeirinhas estúpidas estão gerando antipatias mais ou menos profundas.

Existe, porém, o caso do jogo, onde um dos adversários ganha e o outro necessariamente perde. Entretanto, o pressuposto é que ambos concordam com as regras. Um jogo onde as normas são elaboradas para o desfrute exclusivo do mais forte — ou mais graduado — não é legítimo, e o mais fraco — ou o menos graduado — deve protestar com veemência. Sartre dizia ser detestável a vítima que respeita seu carrasco. Evidentemente, há calouros que se sujeitam aos constrangimentos do trote, mas isso vamos analisar mais a frente.

A questão da integração entre calouros e veteranos esbarra na fronteira onde esta argumentação pretende superar. Veteranos afirmam que as humilhações impostas são uma maneira de unir os estudantes. Mas esta união, como se vê, carrega um discurso muito claro: é perfeitamente realizável, desde que todos se coloquem nos seus "devidos lugares", ou seja, o veterano entende que sua graduação de número mais alto automaticamente justifica a dominação ao calouro de graduação de número mais baixo. Portanto, sente-se no "direito natural" de, por causa desta hierarquia, esculhambá-lo à vontade. A integração é feita na medida em que o calouro aceita a submissão como um fenômeno evidente em si; o rebaixamento servil está diretamente relacionado à seu "baixo grau de instrução". De acordo com essa mentalidade, os calouros que não aceitam ser diminuídos estão agindo contra a harmonia da integração.

Como se vê, é trágica a primeira lição aprendida na universidade: os que sabem mais têm o direito natural de subjugar os que sabem menos.

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