Eduardo
Fonseca, Carlos Eduardo, Luís Carlos e Andrezza Sawan,
1º período de Biomedicina: "Quando o trote
é saudável, é uma maneira legal dos estudantes
se conhecerem. Mas aquelas humilhações são
um preconceito, porque eles acham que por terem graduação
maior têm o direito de fazer o que quiser com os calouros.
Isso acaba dificultando a aproximação" |
As três justificativas
Há
três afirmações básicas em que veteranos
se ancoram para justificar o trote. Primeiro: é tradição.
Todos fazem e sempre foi feito. Segundo: é uma brincadeira.
Faz-se por diversão. Terceiro: promove a integração
entre calouros e veteranos. À maneira de Platão, vamos
analisar uma a uma.
Sobre
o trote ser uma tradição, podemos dividir as
opiniões do debate, portanto, da seguinte maneira: existe
quem queira conservá-la os conservadores e
quem a abomine e deseje instituir um novo comportamento os
rebeldes, ou progressistas. Naturalmente, é difícil
desvendar a psicologia de uma tradição enquanto ela
ainda está vigente, pois o que se torna hábito
ou um mito, como será visto adiante é feito
de forma automática, e as intenções que o fundamentam
ficam escondidas sob sua solidez.
Todo
fenômeno que acompanha a inércia do hábito aparenta,
de fato, ares de verdade inelutável. Pierre Bourdieu refletiu
sobre este problema, que chamou de "violência oculta". Suas
análises das práticas culturais utilizam essa noção
de habitus termo que designa certo sistema estável
de disposições a perceber e agir, que concorrem para
reproduzir uma ordem social estabelecida, em suas desigualdades.
Percebemos,
entretanto, que há alguns anos manifesta-se, na comunidade
acadêmica, certa inquietação sobre a legitimidade
do trote. Porém, esse desconforto é expresso em um
debate muito pobre entre conservadores e progressistas: estes não
o querem "porque não!" e aqueles o querem "porque sim!".
Alguns abusos que acabaram levando calouros à morte chamaram
a atenção da opinião pública sobre os
limites das "brincadeiras". Contudo, não são os excessos
ou as exceções os objetos desta análise.
O que se deseja verificar é o sentido do trote, assim
como seus propósitos e motivações.
Os
defensores dessa tradição não são
sequer capazes de conceituá-la, pois não há
qualquer reflexão sobre a prática. Essa conduta lembra
a técnica do reflexo condicionado, de Pavlov. Sem
nos perdermos em detalhes, o procedimento básico experimentado
pelo fisiologista russo era repetir mecanicamente os temas e sugestões
de forma que o conceito qualquer que seja alcance
ares de verdade natural e fique impregnado no comportamento.
Entretanto,
um outro conceito parece mais adequado. Roland Barthes esboçou,
em Mitologias, uma teoria semiológica dos "mitos contemporâneos".
Ele explica como o mito parece sustentar-se na linguagem cotidiana
e faz passar por "naturais", ou "evidentes em si mesmos", valores
parasitários do que chamou de "uma espécie de monstro:
a pequena burguesia". O antropólogo Claude Lévi-Strauss
também estudou os mitos como forma de linguagem e identificou
os "mitemas" mitos particulares que, assim como os
"fonemas", unidades básicas da linguagem, só adquirem
sentido em sua combinação. Essas regras combinatórias
formariam uma espécie de gramática que permitiria
descobrir, por exemplo, o sentido desse mito. O trote, neste
caso, poderia ser entendido como um mitema: no contexto de nossa
sociedade, estaria servindo ao mito do direito natural de dominação.
Aí
está a grande dificuldade encontrada pelos progressistas
para dissuadir os conservadores que defendem a manutenção
do trote. Como já observou o escritor irlandês Jonathan
Swift, "você não pode dissuadir alguém pelo
raciocínio de uma convicção a qual ele não
foi levado pelo raciocínio". Um conceito, contudo, é
ponto pacífico para as duas tendências divergentes:
uma sociedade avança na medida em que tradições
obsoletas desmoronam para que novos conceitos sejam erguidos e,
aos poucos, solidifiquem-se em uma nova tradição.
A
afirmação de que o trote é uma brincadeira,
uma coisa divertida, também mostra-se perfeitamente falsa.
Uma brincadeira presume conivência explícita entre
os participantes. Se um não aceita, não é mais
diversão: é coerção, ou, na linguagem
popular, uma "brincadeira besta". A atual geração
de calouros está se mostrando mais resistente ao trote. Percebe-se
que brincadeirinhas estúpidas estão gerando antipatias
mais ou menos profundas.
Existe,
porém, o caso do jogo, onde um dos adversários ganha
e o outro necessariamente perde. Entretanto, o pressuposto é
que ambos concordam com as regras. Um jogo onde as normas são
elaboradas para o desfrute exclusivo do mais forte ou mais
graduado não é legítimo, e o mais fraco
ou o menos graduado deve protestar com veemência.
Sartre dizia ser detestável a vítima que respeita
seu carrasco. Evidentemente, há calouros que se sujeitam
aos constrangimentos do trote, mas isso vamos analisar mais a frente.
A
questão da integração entre calouros
e veteranos esbarra na fronteira onde esta argumentação
pretende superar. Veteranos afirmam que as humilhações
impostas são uma maneira de unir os estudantes. Mas esta
união, como se vê, carrega um discurso muito claro:
é perfeitamente realizável, desde que todos se coloquem
nos seus "devidos lugares", ou seja, o veterano entende que sua
graduação de número mais alto automaticamente
justifica a dominação ao calouro de graduação
de número mais baixo. Portanto, sente-se no "direito natural"
de, por causa desta hierarquia, esculhambá-lo à vontade.
A integração é feita na medida em que o calouro
aceita a submissão como um fenômeno evidente em si;
o rebaixamento servil está diretamente relacionado à
seu "baixo grau de instrução". De acordo com essa
mentalidade, os calouros que não aceitam ser diminuídos
estão agindo contra a harmonia da integração.
Como
se vê, é trágica a primeira lição
aprendida na universidade: os que sabem mais têm o direito
natural de subjugar os que sabem menos.
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