# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 199, em 18 de março de 2002

Alterado e revisado em julho de 2002

andre.azevedo@uniube.br

Sentido dessa "tradição" é reforçar a idéia de que os mais escolarizados têm o direito natural de esculhambar os menos instruídos


Trote universitário favorece lógica de opressão social

André Azevedo da Fonseca

Na idade média havia uma debochada tradição de festas carnavalescas que deixavam claro o ridículo da vaidade e das pretensões de superioridade dos homens. Esses rituais cômicos ocupavam um lugar muito importante no cotidiano medieval, pois cumpriam o papel de nivelar os estratos sociais dos habitantes de uma comunidade, independente do ofício de cada um. As Festas do Asno, as Festas dos Loucos e a Festa dos Bobos, por exemplo, eram momentos nos quais as pessoas saíam pelas ruas praticando bobagens e maluquices. Um ingrediente tornava esse deboche ainda mais hilário: a entusiasmada participação da igreja. O antropólogo José Carlos Rodrigues, no livro O corpo na história, assim descreve essa festividade:

"Nela, em lugar de incenso, os padres usavam excrementos; em vez de benzer com água-benta, abençoava-se com urina. Terminada a missa, saía-se em uma espécie de cortejo, durante o qual os sacerdotes eram transportados em uma carroça carregada de excrementos, onde afundavam as mãos para retirar porções que atiravam sobre a população — cometimento que alternavam com o gesto de urinar escancarada e debochadamente por cima das pessoas". (Rodrigues, 1997: 87)

Nós, contemporâneos do século XXI, evidentemente encaramos esse hábito como o contrário de tudo aquilo que pode ser tido como "civilizado". O autor admite que essa tradição materializa até mesmo o inverso do que pensamos ser "humano". Apesar disso, argumenta que é um erro procurar entender costumes do passado através de uma psicologia baseada na mentalidade atual, pois a relação lógica que o homem medieval mantinha com os excrementos, com o lixo e a morte era, evidentemente, diferente da que temos hoje. A putrefação, os dejetos, os cadáveres — que nos causam repulsão e espanto — eram entendidos como parte natural do ciclo da vida e morte, e a visão carnavalesca do mundo transformava essas coisas "ameaçadoras" em algo "inofensivo, alegre e luminoso". Trata-se, portanto, de uma questão eminentemente cultural.

Mesmo assim, é difícil admitir, no século XXI, uma tradição festiva caracterizada por esparramos de urina e excremento nos foliões. Definitivamente, não condiz ao momento cultural da dita civilização ocidental. Naturalmente, isso não quer dizer que superamos todas as tradições inadequadas, ou mesmo que tenhamos nos livrado sequer de todos os costumes que se mostram abomináveis. Persiste com certa vitalidade nos meios acadêmicos, por exemplo, uma prática que talvez seja a semente da justificativa moral do odioso desejo de dominação social. Trata-se do trote universitário.

Para alcançar esta hipótese, entretanto, é preciso analisar, primeiramente, três pontos chaves.

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