Sentido
dessa "tradição" é reforçar
a idéia de que os mais escolarizados têm o direito
natural de esculhambar os menos instruídos |
Trote
universitário favorece lógica de opressão social
André
Azevedo da Fonseca
Na
idade média havia uma debochada tradição de
festas carnavalescas que deixavam claro o ridículo da vaidade
e das pretensões de superioridade dos homens. Esses rituais
cômicos ocupavam um lugar muito importante no cotidiano medieval,
pois cumpriam o papel de nivelar os estratos sociais dos habitantes
de uma comunidade, independente do ofício de cada um. As
Festas do Asno, as Festas dos Loucos e a Festa dos Bobos, por exemplo,
eram momentos nos quais as pessoas saíam pelas ruas praticando
bobagens e maluquices. Um ingrediente tornava esse deboche ainda
mais hilário: a entusiasmada participação da
igreja. O antropólogo José Carlos Rodrigues, no livro
O corpo na história, assim descreve essa festividade:
"Nela,
em lugar de incenso, os padres usavam excrementos; em vez de
benzer com água-benta, abençoava-se com urina.
Terminada a missa, saía-se em uma espécie de cortejo,
durante o qual os sacerdotes eram transportados em uma carroça
carregada de excrementos, onde afundavam as mãos para
retirar porções que atiravam sobre a população
cometimento que alternavam com o gesto de urinar escancarada
e debochadamente por cima das pessoas". (Rodrigues, 1997: 87)
Nós,
contemporâneos do século XXI, evidentemente encaramos
esse hábito como o contrário de tudo aquilo que pode
ser tido como "civilizado". O autor admite que essa tradição
materializa até mesmo o inverso do que pensamos ser "humano".
Apesar disso, argumenta que é um erro procurar entender costumes
do passado através de uma psicologia baseada na mentalidade
atual, pois a relação lógica que o homem medieval
mantinha com os excrementos, com o lixo e a morte era, evidentemente,
diferente da que temos hoje. A putrefação, os dejetos,
os cadáveres que nos causam repulsão e espanto
eram entendidos como parte natural do ciclo da vida e morte,
e a visão carnavalesca do mundo transformava essas coisas
"ameaçadoras" em algo "inofensivo, alegre e luminoso". Trata-se,
portanto, de uma questão eminentemente cultural.
Mesmo
assim, é difícil admitir, no século XXI, uma
tradição festiva caracterizada por esparramos de urina
e excremento nos foliões. Definitivamente, não condiz
ao momento cultural da dita civilização ocidental.
Naturalmente, isso não quer dizer que superamos todas as
tradições inadequadas, ou mesmo que tenhamos nos livrado
sequer de todos os costumes que se mostram abomináveis. Persiste
com certa vitalidade nos meios acadêmicos, por exemplo, uma
prática que talvez seja a semente da justificativa moral
do odioso desejo de dominação social. Trata-se do
trote universitário.
Para
alcançar esta hipótese, entretanto, é preciso
analisar, primeiramente, três pontos chaves.
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