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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 196, em 25 de fevereiro de 2002

A série de reportagens Escombros da Memória Coletiva recebeu Menção Especial no Prêmio Estímulo à Cidadania, modalidade Jornalismo, na 9» Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom)

andre.azevedo@uniube.br

Escombros da memória coletiva

Patrimônio histórico e cultural só tem sentido enquanto consciência crítica do presente

Prédio construído para abrigar o cine Polyteana, na rua Manoeal Borges. Posteriormente desativado, foi ocupado por lojinhas e bares ordinários, onde "moças de boa família" eram proibidas de frequentar. Foi demolido depois que um incêndio deixou sua estrutura comprometida. Localizava-se mais ou menos no terreno onde funcionava a filial das Lojas Brasileiras, e hoje está desocupado.

André Azevedo da Fonseca

Uma questão fundamental está sempre à espreita e invariavelmente salta aos olhos quando é discutido o problema da preservação do patrimônio histórico: para quê, afinal, conservar casa velha, em vez de arrebentar tudo e construir outra? Lembro-me de um colega que achava graça da opinião do avô, morador antigo da cidade de Ouro Preto, reclamando do cheiro de mofo das casas: "tinham é que bater foto de tudo quanto é jeito, pra lembrar, e então demolir a cidade toda", dizia.

De fato, o problema é complexo e envolve questões culturais, históricas, econômicas, sociais e estéticas. A argumentação que sempre vem à mente dos preservacionistas é que o patrimônio histórico representa a valorização da memória coletiva das sociedades em seus territórios. No contexto da enorme velocidade das transformações industriais e diante da ameaça de desaparecimento desses símbolos urbanos, a conservação promoveria a manutenção das referências que garantiriam a identidade cultural. Assim como um indivíduo viveria mal sem memória, também uma coletividade precisa de uma representação constante do seu passado. Para eles, o objetivo fundamental é garantir às gerações futuras o direito de usufruir de um meio ambiente saudável e de uma herança histórica que as distinga e as identifique perante os diferentes povos.

Casa do Coronel Geraldino Rodrigues da Cunha, demolida na década de 80. Situava-se na praça Rui Barbosa, no terreno onde hoje funciona o Elvira Shopping.

Por outro lado, a obsessão pela conservação pode desembocar em uma nostalgia romantizada de um passado que não existiu. Entusiastas acríticos costumam reivindicar a mera petrificação de todos os imóveis urbanos, desejando conservar referências mortas do passado que nada dizem ao presente, além de relegar a segundo plano justamente o que, na teoria, pretenderiam conservar: o imaginário social das memórias coletivas.

Portanto, faz-se necessário uma distinção crítica entre o que deve ser conservado e o que deve ser destruído. "A preservação, pura e simples, não basta; ela deve ser estimulada por um interesse coletivo de apropriação e de recolhimento", escreve o cientista Social Henri-Pierre Jeudy no estudo Memória do social. Isso significa que a conservação do patrimônio só tem sentido se a comunidade inteira assim o desejar. Além disso, esse desejo deve ser expresso através de propostas claras para o usufruto do imóvel, e que sejam acessíveis a toda a população. Para Jeudy, a cultura da conservação só adquire sentido se inserida no desenvolvimento econômico e social da cidade. A ação cultural, além de enfocar os problemas existenciais, deve estar voltada para problemas reais de trabalho, habitação, lazer, família e comunidade.

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