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Escombros
da memória coletiva

Patrimônio
histórico e cultural só tem sentido enquanto consciência
crítica do presente
Prédio
construído para abrigar o cine Polyteana, na rua Manoeal
Borges. Posteriormente desativado, foi ocupado por lojinhas
e bares ordinários, onde "moças de boa família"
eram proibidas de frequentar. Foi demolido depois que um incêndio
deixou sua estrutura comprometida. Localizava-se mais ou menos
no terreno onde funcionava a filial das Lojas Brasileiras, e
hoje está desocupado. |
André
Azevedo da Fonseca
Uma
questão fundamental está sempre à espreita
e invariavelmente salta aos olhos quando é discutido o problema
da preservação do patrimônio histórico:
para quê, afinal, conservar casa velha, em vez de arrebentar
tudo e construir outra? Lembro-me de um colega que achava graça
da opinião do avô, morador antigo da cidade de Ouro
Preto, reclamando do cheiro de mofo das casas: "tinham é
que bater foto de tudo quanto é jeito, pra lembrar, e então
demolir a cidade toda", dizia.
De
fato, o problema é complexo e envolve questões culturais,
históricas, econômicas, sociais e estéticas.
A argumentação que sempre vem à mente dos preservacionistas
é que o patrimônio histórico representa a valorização
da memória coletiva das sociedades em seus territórios.
No contexto da enorme velocidade das transformações
industriais e diante da ameaça de desaparecimento desses
símbolos urbanos, a conservação promoveria
a manutenção das referências que garantiriam
a identidade cultural. Assim como um indivíduo viveria mal
sem memória, também uma coletividade precisa de uma
representação constante do seu passado. Para eles,
o objetivo fundamental é garantir às gerações
futuras o direito de usufruir de um meio ambiente saudável
e de uma herança histórica que as distinga e as identifique
perante os diferentes povos.
Casa
do Coronel Geraldino Rodrigues da Cunha, demolida na década
de 80. Situava-se na praça Rui Barbosa, no terreno onde
hoje funciona o Elvira Shopping. |
Por
outro lado, a obsessão pela conservação pode
desembocar em uma nostalgia romantizada de um passado que não
existiu. Entusiastas acríticos costumam reivindicar a mera
petrificação de todos os imóveis urbanos, desejando
conservar referências mortas do passado que nada dizem ao
presente, além de relegar a segundo plano justamente o que,
na teoria, pretenderiam conservar: o imaginário social das
memórias coletivas.
Portanto,
faz-se necessário uma distinção crítica
entre o que deve ser conservado e o que deve ser destruído.
"A preservação, pura e simples, não basta;
ela deve ser estimulada por um interesse coletivo de apropriação
e de recolhimento", escreve o cientista Social Henri-Pierre Jeudy
no estudo Memória do social. Isso significa que a
conservação do patrimônio só tem sentido
se a comunidade inteira assim o desejar. Além disso, esse
desejo deve ser expresso através de propostas claras para
o usufruto do imóvel, e que sejam acessíveis a toda
a população. Para Jeudy, a cultura da conservação
só adquire sentido se inserida no desenvolvimento econômico
e social da cidade. A ação cultural, além de
enfocar os problemas existenciais, deve estar voltada para problemas
reais de trabalho, habitação, lazer, família
e comunidade.
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