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O chorinho diz
tudo sobre nossa alma. Por isso mesmo, morremos medo dele

Grupo
de chorinho apresentou-se na Universidade de Uberaba em fevereiro,
durante as atividades da Calourada 2002 |
André
Azevedo da Fonseca
A
apresentação que o grupo Chorocultura realizou durante
os eventos da calourada na Universidade de Uberaba de 2002 foi tão
assustadoramente autêntica que nos fez lamentar a vergonha
que temos de nós mesmos.
Não
é que não gostamos de ser brasileiros lá
no fundo, existe até um certo orgulho, assim meio constrangido
mas somos acanhados, vacilantes; dificilmente temos coragem
de confessar que o chorinho é a coisa mais certa e mais gostosa
para acender alguma coisa indefinível dentro da gente.
A
cadência maliciosa de vai-não-vai em que o chorinho
se esbalda é uma delícia porque representa todas as
características de nossa alma brasileira. Está tudo
lá. O bandolim tropeça feito bêbado em uma escala
e, através de malabarismos impossíveis, faz tudo dar
certo quando o improviso parecia desembestar para a mais tremenda
confusão. O sax finge sua manha elegante enquanto o pandeiro
disfarça em uma cadência hipnótica. O cavaquinho,
naquela de quem não quer nada, cutuca o violão que
de repente descamba para a gafieira e o pau come solto.
Mas
é por isso que temos medo de gostar do chorinho. Como em
um espelho mágico, nos vemos nus, enxergamos nossa alma tal
qual, sem ornamentos, sem maquiagem.
O
seresteiro canta como se estivesse nos convencendo que todas as
suas estórias de sedutor são verdadeiras. Mas ele
sabe que não são, mente até mandar parar! Nós
sabemos que é tudo papo, mas fingimos acreditar, só
pra dar corda. Ele sabe que nós sabemos disso, mas continua
fingindo que acredita que nós não sabemos. Nos trata
como se estivéssemos fascinados com seus causos fajutos.
E o pior é que a gente acaba ficando!
O
saxofone ali atrás, amigo da onça, finge contentar-se
com seu humilde papel de figurante, mas logo dá um suspiro
e admite melancólico, num gemido malicioso (de lágrimas
de crocodilo), que estava na verdade era tramando uma estratégia
para passar a perna no cantor e roubar a cena, comovendo a todos
com um solo irresistivelmente encantador.
Enquanto
isso, o cavaquinho e o bandolim, como dois moleques de rua, fingiam
se esconder para então nos surpreender em uma, duas, cinco,
dez notinhas coloridas, uma após a outra. Subitamente, o
bandolim e o cavaquinho param!
e tocam a bola para o sax que
mata no peito mas, como Garrincha, não faz logo o gol: enrola,
sacaneia, dribla todo mundo, dá chapéu, joga entre
as pernas, colocando a partida em risco, enfartando a torcida, descabelando
técnico, adiando o gol só pelo prazer de jogar gostoso.
E suspira num sol metálico, e a gente suspira junto.
A
conversa de cordas da composição de Jacó do
Bandolim, lindamente interpretada pelo Chorocultura, é a
própria balbúrdia de uma cambada de feirantes tagarelas
negociando aos gritos seus hortifrutigranjeiros. Dessa vez, todas
as notas parecem querer passar a perna uma nas outras. Evidentemente,
é fácil perceber que, neste caso, trata-se daqueles
encontros fortuitos de velhos amigos que brincam de ofender-se entre
si com todos aqueles nomes sujos que aprenderam na adolescência
nos anos 40.
Para
terminar, a malandragem come-quieta do cavaquinho abriu as comportas
para uma torrente de notinhas de "Brasileirinho", o hino
nacional dos chorões que, apesar de arroz-de-festa em qualquer
evento cívico, sempre dá água na boca, pois
tem uma melodiazinha muito é esperta e saborosa.
Entretanto,
quem observou o comportamento do público durante a apresentação
percebeu um fenômeno que, por si só, diz quase tudo
que essa crônica pretende fazer: que inibição
neurótica é essa que nos impede de sair dançando
e pulando e se esfregando e esfolando os sovacos feito loucos nessa
gafieira canalha? Em vez disso, todos ficaram lá, parados,
braços cruzados, como se assistissem a uma palestra ou estivessem
esperando o ônibus. No palco, o pau comendo, o cavaquinho
alucinado, o pandeiro pegando fogo, o sax mandando ver, e a turma
lá de baixo naquela pose de guarda de trânsito. O chorinho
é entusiástico, contagiante, mas ninguém se
deixou levar pelo inevitável arrasta-pé. O chorinho
é enternecedor. Um professor chorou de verdade!
em "Saudade". Mas ninguém teve coragem de pegar
uma dama nos braços e levá-la para as alcovas da suavidade
da música... só os dois... esquecendo o mundo
esquecendo até da banda
ninguém!
Por
que somos tão travados assim? O que aconteceu conosco que
ficamos com vergonha de coreografar todas aquelas verdades sobre
nós mesmos, que o chorinho expressa lindamente? Não
há nenhuma dignidade nessa timidez mórbida
se é que alguém considera indigno sair dançando
e se esfregando feito patife nas gafieiras da vida. A festança
do Chorocultura tem toda a força e autenticidade para provocar
uma catarse, uma epifania, mas não aconteceu. Ficamos lá,
maravilhados por dentro, mas estacionados, parados feito besta,
com cara de hidrante. Que insegurança é essa que nos
faz ter vergonha de nossa própria alma? Uma das respostas
eu sei, mas, evidentemente, não vou dizer pra qualquer um,
assim de graça...
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