
Foto do largo da Matriz em 1916 é um dos três
registros encontrados que indicariam a existência da
casa (clique para visualizar ampliado
em outra janela)
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Vomitando
sangue
O
principal sintoma da tuberculose é a tosse, no início
seca e depois com secreção. Em estágios avançados
o doente costuma tossir sangue. A febre é moderada e costuma
aparecer à tarde. O tuberculoso também sofre de anorexia,
dor no peito, suores noturnos e forte sensação de
cansaço.
A
condição terminal é lamentavelmente repulsiva.
O doente assemelha-se àquelas caveiras cobertas de pele podre
que ficam se arrastando e gemendo nos piores filmes de horror. Juquita
Machado não conheceu pessoalmente as filhas de Wencesláu,
mas lembra-se do caso. "Eram moças fortes e de repente
é uma morte muito violenta começaram
a vomitar sangue e páf!", diz.
O
drama da família de Wencesláu e Tonica foi completamente
abafado na sociedade. Há apenas uma sutil referência,
na imprensa da época, sobre a agonia familiar com a tuberculose
de Olivia, Bebem e Julia: um texto de Hidelbrando Pontes republicado
no Almanaque Uberabense de 1911, escrito por ocasião da morte
de Wencesláu. Mas isso será falado mais adiante.
Algum
tempo depois dessa tragédia na casa da esquina, os vizinhos
da rua Santo Antônio passaram a tossir seco... Eram Lauro
Borges, então um jovem advogado e jornalista, e o irmão
Borgico. Lauro formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais
pela faculdade de Direito de São Paulo e escrevia regularmente
na Gazeta de Uberaba, de Tobias Rosa. Com seu primo, Dr.
Alaor Prata Soares, fundou e dirigiu o jornal O Tempo por
cinco anos. Jovem ainda, tinha fama de ser brilhante. Para a angústia
de Tonica, a mãe, (Zacarias, o pai, havia morrido em 1897)
aquelas tosses assemelhavam-se cada vez mais com os sintomas daquela
doença que não ousavam sequer dizer o nome; a "insidiosa
moléstia". As suspeitas foram confirmadas quando os
rapazes, entre uma escarrada e outra, tossiram sangue. A mãe,
desesperada, decidiu levá-los à Suíça
para que respirassem o ar das montanhas na época,
acreditava-se que o clima montanhês, aliado ao repouso e à
boa alimentação, proporcionasse cura espontânea.
Juquita Machado lembra que, no Brasil, a cidade de Campos do Jordão
abrigava sanatórios procurados por tuberculosos de todo o
país. Em Memória da tuberculose, o médico
Raphael de Paula Souza relata em depoimento: "Alguns morriam
logo que chegavam na estação de Campos do Jordão.
(...) Morriam ali no próprio pátio onde se descia,
ali na estação. Isso era freqüente. Era coisa
diária, uma coisa trágica".
Juquita
Machado guarda histórias do sofrimento de Tonica, que é
sua tia-avó. "Ela perdeu uma das asas do nariz por causa
da geada na Suíça. Depois colocou um enxerto, mas
ficou escuro, de modo que a gente olhava e via a diferença",
conta. Lauro Borges foi devorado pela tuberculose e morreu na Europa
aos 26 anos em 31 de janeiro de 1913. Para acompanhar a agonia do
outro filho, Tonica decidiu permanecer no velho continente. Lá
passou o Natal e Ano Novo. Enquanto isso, o corpo de Lauro ficou
depositado em um caixão de chumbo. O tempo foi passando e
uma outra bomba relógio na vida da sofrida mãe estava
prestes a explodir...
Em
28 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando, sucessor
do Império Austro-Húngaro, e sua esposa são
assassinados durante visita a Sarajevo, na Bósnia-Herzegóvina.
Borgico não apresentava melhoras e continuava em tratamento
na Suíça. A mãe cada vez mais aflita...
No
dia 3 de agosto de 1914, o mundo entra em guerra. O Reino Unido
alia-se à França; a Turquia, do lado dos alemães,
ataca os portos russos no mar Negro; o Japão, interessado
nos domínios germânicos no Extremo Oriente, engrossa
o bloco contra a Alemanha: é a Primeira Guerra Mundial. Em
22 de agosto de 1914, Borgico falece na Suíça consumido
pela tuberculose. Segundo a historiadora Eliane Marquez, uma versão
dessa história que ainda circula em relatos orais conta que
Tonica teve grande dificuldade para voltar a Uberaba com os corpos
dos filhos por causa da agitação no Atlântico.
Não se sabe direito como conseguiu. A aluna de História
da Universidade de Uberaba, Cristiane Ferreira, foi ao cemitério
municipal conferir, no jazigo da família, as datas de morte
de Lauro Borges e Borgico. Os registros conferem com os relatos
de memória de Juquita Machado, assim como a hipótese
relatada por Eliane Marquez, de que Tonica pode ter tido problemas
para retornar: Lauro Borges faleceu de fato em 31 de janeiro de
1913; Borgico em 22 de agosto de 1914. Tonica, que viu as irmãs
e os filhos consumidos pela tuberculose, só veio a falecer
em 30 de abril de 1941.
Vamos
voltar alguns anos e observar a casa da esquina. Desolada com a
morte das filhas, desconsolada com a morte do marido em 1910, Antoninha
decidiu vender a casa. Há relatos sugerindo que o poder público
dedetizou os cômodos, mas mesmo assim ninguém quis
comprá-la. Juquita Machado diz que é o "medo
do micróbio". Em outra versão, diz-se
que uma família chegou a comprar a casa. Alguns relatos genéricos
contam que essa família não viveu muito tempo para
desfrutá-la, pois os membros teriam morrido todos de tuberculose.
Entretanto, não foi encontrado nenhum indício ou relato
detalhado sobre essa suposta família. Juquita Machado lembra-se
que um filho de DonAnna, irmão de Genário, o
que gostava de tocar violino, também morreu de tuberculose.
A casa da esquina foi finalmente demolida, provavelmente na primeira
década do século. E aí está, então,
o primeiro fenômeno que torna esse nosso mistério definitivamente
intrigante: nunca mais nada, desde a década de 10, foi construída
qualquer edificação neste terreno.
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