# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 207, em 13 de maio de 2002

A série de reportagens Escombros da Memória Coletiva recebeu Menção Especial no Prêmio Estímulo à Cidadania, modalidade Jornalismo, na 9» Exposição da Pesquisa Experimental em Comunicação (Expocom)

andre.azevedo@uniube.br


Foto do largo da Matriz em 1916 é um dos três registros encontrados que indicariam a existência da casa (clique para visualizar ampliado em outra janela)


Vomitando sangue

O principal sintoma da tuberculose é a tosse, no início seca e depois com secreção. Em estágios avançados o doente costuma tossir sangue. A febre é moderada e costuma aparecer à tarde. O tuberculoso também sofre de anorexia, dor no peito, suores noturnos e forte sensação de cansaço.

A condição terminal é lamentavelmente repulsiva. O doente assemelha-se àquelas caveiras cobertas de pele podre que ficam se arrastando e gemendo nos piores filmes de horror. Juquita Machado não conheceu pessoalmente as filhas de Wencesláu, mas lembra-se do caso. "Eram moças fortes e de repente — é uma morte muito violenta — começaram a vomitar sangue e páf!", diz.

O drama da família de Wencesláu e Tonica foi completamente abafado na sociedade. Há apenas uma sutil referência, na imprensa da época, sobre a agonia familiar com a tuberculose de Olivia, Bebem e Julia: um texto de Hidelbrando Pontes republicado no Almanaque Uberabense de 1911, escrito por ocasião da morte de Wencesláu. Mas isso será falado mais adiante.

Algum tempo depois dessa tragédia na casa da esquina, os vizinhos da rua Santo Antônio passaram a tossir seco... Eram Lauro Borges, então um jovem advogado e jornalista, e o irmão Borgico. Lauro formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela faculdade de Direito de São Paulo e escrevia regularmente na Gazeta de Uberaba, de Tobias Rosa. Com seu primo, Dr. Alaor Prata Soares, fundou e dirigiu o jornal O Tempo por cinco anos. Jovem ainda, tinha fama de ser brilhante. Para a angústia de Tonica, a mãe, (Zacarias, o pai, havia morrido em 1897) aquelas tosses assemelhavam-se cada vez mais com os sintomas daquela doença que não ousavam sequer dizer o nome; a "insidiosa moléstia". As suspeitas foram confirmadas quando os rapazes, entre uma escarrada e outra, tossiram sangue. A mãe, desesperada, decidiu levá-los à Suíça para que respirassem o ar das montanhas — na época, acreditava-se que o clima montanhês, aliado ao repouso e à boa alimentação, proporcionasse cura espontânea. Juquita Machado lembra que, no Brasil, a cidade de Campos do Jordão abrigava sanatórios procurados por tuberculosos de todo o país. Em Memória da tuberculose, o médico Raphael de Paula Souza relata em depoimento: "Alguns morriam logo que chegavam na estação de Campos do Jordão. (...) Morriam ali no próprio pátio onde se descia, ali na estação. Isso era freqüente. Era coisa diária, uma coisa trágica".

Juquita Machado guarda histórias do sofrimento de Tonica, que é sua tia-avó. "Ela perdeu uma das asas do nariz por causa da geada na Suíça. Depois colocou um enxerto, mas ficou escuro, de modo que a gente olhava e via a diferença", conta. Lauro Borges foi devorado pela tuberculose e morreu na Europa aos 26 anos em 31 de janeiro de 1913. Para acompanhar a agonia do outro filho, Tonica decidiu permanecer no velho continente. Lá passou o Natal e Ano Novo. Enquanto isso, o corpo de Lauro ficou depositado em um caixão de chumbo. O tempo foi passando e uma outra bomba relógio na vida da sofrida mãe estava prestes a explodir...

Em 28 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Ferdinando, sucessor do Império Austro-Húngaro, e sua esposa são assassinados durante visita a Sarajevo, na Bósnia-Herzegóvina. Borgico não apresentava melhoras e continuava em tratamento na Suíça. A mãe cada vez mais aflita...

No dia 3 de agosto de 1914, o mundo entra em guerra. O Reino Unido alia-se à França; a Turquia, do lado dos alemães, ataca os portos russos no mar Negro; o Japão, interessado nos domínios germânicos no Extremo Oriente, engrossa o bloco contra a Alemanha: é a Primeira Guerra Mundial. Em 22 de agosto de 1914, Borgico falece na Suíça consumido pela tuberculose. Segundo a historiadora Eliane Marquez, uma versão dessa história que ainda circula em relatos orais conta que Tonica teve grande dificuldade para voltar a Uberaba com os corpos dos filhos por causa da agitação no Atlântico. Não se sabe direito como conseguiu. A aluna de História da Universidade de Uberaba, Cristiane Ferreira, foi ao cemitério municipal conferir, no jazigo da família, as datas de morte de Lauro Borges e Borgico. Os registros conferem com os relatos de memória de Juquita Machado, assim como a hipótese relatada por Eliane Marquez, de que Tonica pode ter tido problemas para retornar: Lauro Borges faleceu de fato em 31 de janeiro de 1913; Borgico em 22 de agosto de 1914. Tonica, que viu as irmãs e os filhos consumidos pela tuberculose, só veio a falecer em 30 de abril de 1941.

Vamos voltar alguns anos e observar a casa da esquina. Desolada com a morte das filhas, desconsolada com a morte do marido em 1910, Antoninha decidiu vender a casa. Há relatos sugerindo que o poder público dedetizou os cômodos, mas mesmo assim ninguém quis comprá-la. Juquita Machado diz que é o "medo do micróbio". Em outra versão, diz-se que uma família chegou a comprar a casa. Alguns relatos genéricos contam que essa família não viveu muito tempo para desfrutá-la, pois os membros teriam morrido todos de tuberculose. Entretanto, não foi encontrado nenhum indício ou relato detalhado sobre essa suposta família. Juquita Machado lembra-se que um filho de Don’Anna, irmão de Genário, o que gostava de tocar violino, também morreu de tuberculose. A casa da esquina foi finalmente demolida, provavelmente na primeira década do século. E aí está, então, o primeiro fenômeno que torna esse nosso mistério definitivamente intrigante: nunca mais nada, desde a década de 10, foi construída qualquer edificação neste terreno.

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