# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 207, em 13 de maio de 2002

A série de reportagens Escombros da Memória Coletiva recebeu Menção Especial no Prêmio Estímulo à Cidadania, modalidade Jornalismo, na 9» Expocom/Intercom, em Salvador (BA), setembro de 2002

Reportagem selecionada no Relato de Experiência do Seminário Internacional Memória, Rede e Mudança Social, promovido pelo Museu da Pessoa, em São Paulo (SP), em agosto de 2003.

Clique aqui para acessar o arquivo em power point usado na apresentação em parceria com a estudante de História, Cristiane Ferreira de Moura (tamanho: 1 MB)

andre.azevedo@uniube.br

Escombros da memória coletiva

Filhas e vizinhos morrem de tuberculose. Mansão é demolida no início do século XX. Nunca mais foi construído nada no terreno desde então. Ninguém tem fotos da casa

André Azevedo da Fonseca

"O passado dos homens e do mundo é vivido também no cotidiano de todos"
Maria do Carmo Brant de Carvalho


José Carlos Machado Borges, o Juquita Machado, autor da árvore genealógica dos Borges, é notório na cidade por sua memória prodigiosa aos 91 anos

Em meados do século XIX, Capitão Manoel Prata — amigo de Major Eustáquio, o fundador de Uberaba — mandou construir a casa na esquina da praça Rui Barbosa com a rua Santo Antônio. Lá foram morar sua filha Anthonia Mathilde Prata, a Antoninha, juntamente com o marido Wencesláu Pereira de Oliveira, o Vença, agente executivo (cargo que hoje corresponde ao de prefeito) de Uberaba por dois mandatos. Vença e Antoninha tiveram nove filhos. A filha Anna Mathilde, a Quituca, casou-se com Arthur Machado. O filho João Eusébio Prata, o Bem Prata, chegou a ser agente executivo na década de 30. Mas eles estão fora dessa história. A filha Anthonia Mathilde, a Tonica, casou-se com Zacarias Borges de Araújo e tiveram dois filhos: Lauro Borges e Zacarias, o Borgico. Foram morar na casa vizinha, na rua Santo Antônio. Voltaremos a falar deles. Maria Castorina, a Cotinha, casou-se com Carlos Baptista Machado mas morreu antes dos pais. Não se sabe a causa. Três filhas, listadas na árvore genealógica da família apenas pelos apelidos — Olivia, Bembem e Julia —, não se casaram, não geraram descendentes, continuaram a morar na casa e, como será mostrado, terão fim trágico.


Tragédia das filhas de Wenceslau Pereira de Oliveira foi abafada pela alta sociedade

A casa do lado direito, na rua Santo Antônio, pertenceu a Zacarias e Tonica que moravam com os filhos Lauro e Borgico. Na casa do lado esquerdo, na praça Rui Barbosa, o porão era dividido em dois, abrigando, de um lado, o açougue de Don’Anna Felicce, mãe de Genário Felicce, que gostava de tocar violino; e do outro, a bicicletaria de Vitorio Varoto. Don’Anna também sofrerá pelo outro filho, o irmão de Genário.

José Carlos Machado Borges, 91, conhecido como Juquita Machado, lembra-se do sucesso da bicicletaria de Vitorio Varoto. "Ele ganhou muito dinheiro consertando bicicleta. Não sei de onde saía tanta bicicleta", diz. O prédio imediatamente posterior era o antigo teatro São Luiz. Juquita Machado conta que nunca se esqueceu desse prédio porque sempre que subia o morro e passava à porta via o buraco de bala na parede. "Gabriel Anconi, um amigo da família, jornalista, vizinho de minha avó, deu um tiro num jardineiro uma vez. Os Anconi eram muito violentos", lembra. A casa mais abaixo foi de Joaquim Rodrigues de Barcelos, o Major Quincota, mas ele também está fora de nossa triste história. Da casa da esquina, Juquita Machado lembra-se vagamente, pois era criança ainda quando passava à porta para ir à Igreja. Ele imagina que foi demolida em meados da década de 10, depois das desgraças que atingiram as famílias. Desde então, nada foi construído lá. O século XX mal alvorecia e as nuvens da peste já haviam rondado a esquina da praça Rui Barbosa.

Escarrar e cuspir

Liga Brasileira contra a Tuberculose, fundada em 1900, realizou intenso trabalho de propaganda para tentar minimizá-la

A tuberculose foi uma moléstia que apavorou o imaginário popular a partir do final do século XVIII. Poetas românticos como Álvares de Azevedo, Cruz e Souza, Castro Alves, Cesário Verde, entre outros, a idealizavam como doença de intelectuais: morrer desse mal era tido como um charme mórbido. Entretanto, no final do século XIX a moléstia transmitida pelo bacilo de Koch foi qualificada como "mal social", ou "peste branca", pois a epidemia devorava a população em proporções assustadoras. A violência e rapidez dos sintomas fez com que ganhasse o apelido de "galopante". Segundo o estudo Memória da tuberculose, coordenado pela pesquisadora Tania Maria Dias Fernandes e disponibilizado no site da fundação Oswaldo Cruz, (www.fiocruz.br/coc/ catalogo-tuberculose) a Liga Brasileira contra a Tuberculose, fundada em 1900, chegou a realizar intenso trabalho de propaganda para tentar minimizá-la, mas somente com a reforma sanitária de Carlos Chagas, em 1920, é que foi criada a Inspetoria de Profilaxia da Tuberculose. Era muito tarde para Olivia, Bembem e Julia.

Em pesquisa desenvolvida no programa de pós-doutorado em História Social do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, Tania Andrade Lima explica que o hábito de escarrar e cuspir em público era considerado um comportamento refinado na alta sociedade do século XIX. As escarradeiras ou cuspideiras, de porcelana fina, vidro ou metais nobres, foram muito utilizadas. Nas casas, eram deixadas à disposição das visitas no chão da sala e no gabinete de fumantes. Aquela raspada ruidosa na garganta seguida de pressão nas bochechas para o lançamento do jato triunfal na escarradeira da sala, no meio de um agradável bate-papo entre senhoras, era não apenas socialmente tolerado, mas sobretudo uma demonstração de elegância.

"Associando o hábito de escarrar a um dos problemas de saúde mais freqüentes na época – a tuberculose –, é bastante provável que esta prática tenha contribuído fortemente para a rápida disseminação do bacilo de Koch no século passado" escreve a pesquisadora no artigo Humores e odores: ordem corporal e ordem social no Rio de Janeiro, século XIX. Em ambientes fechados, sem ventilação, gotículas dos escarros ficam em suspensão e favorecem a contaminação.

De fato, em 1934, anos depois do início das reformas de Chagas, foi publicado um edital no Rio de Janeiro onde se proibia terminantemente o ato de cuspir e escarrar: "Tornando-se necessário conjurar esforços subsidiários no sentido de diminuir as probabilidades e contaminação pelo terrível flagelo que a Tuberculose constitui (...) Faz-se público a seguinte determinação: É proibido escarrar no chão, quer na via pública, quer nos edifícios municipais (...) ou em qualquer veículo que transite nessa cidade, bem como em hotéis, casas de pensão ou pasto, nos cafés e em todos os estabelecimentos comerciais abertos ao público". Muito tarde para Lauro Borges e seu irmão, Borgico. Homens elegantes que eram, certamente não se furtavam à fineza de dar aquela escarradinha entre os colóquios familiares na sala de dona Antoninha. Escarradinhas fatais, como veremos.

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