|
Escombros
da memória coletiva

Filhas
e vizinhos morrem de tuberculose. Mansão é demolida
no início do século XX. Nunca mais foi construído
nada no terreno desde então. Ninguém tem fotos da
casa
André Azevedo
da Fonseca
"O
passado dos homens e do mundo é vivido também no cotidiano
de todos"
Maria do Carmo
Brant de Carvalho
José Carlos Machado Borges,
o Juquita Machado, autor da árvore genealógica
dos Borges, é notório na cidade por sua memória
prodigiosa aos 91 anos
|
Em
meados do século XIX, Capitão Manoel Prata
amigo de Major Eustáquio, o fundador de Uberaba mandou
construir a casa na esquina da praça Rui Barbosa com a rua
Santo Antônio. Lá foram morar sua filha Anthonia Mathilde
Prata, a Antoninha, juntamente com o marido Wencesláu Pereira
de Oliveira, o Vença, agente executivo (cargo que hoje corresponde
ao de prefeito) de Uberaba por dois mandatos. Vença e Antoninha
tiveram nove filhos. A filha Anna Mathilde, a Quituca, casou-se
com Arthur Machado. O filho João Eusébio Prata, o
Bem Prata, chegou a ser agente executivo na década de 30.
Mas eles estão fora dessa história. A filha Anthonia
Mathilde, a Tonica, casou-se com Zacarias Borges de Araújo
e tiveram dois filhos: Lauro Borges e Zacarias, o Borgico. Foram
morar na casa vizinha, na rua Santo Antônio. Voltaremos a
falar deles. Maria Castorina, a Cotinha, casou-se com Carlos Baptista
Machado mas morreu antes dos pais. Não se sabe a causa. Três
filhas, listadas na árvore genealógica da família
apenas pelos apelidos Olivia, Bembem e Julia , não
se casaram, não geraram descendentes, continuaram a morar
na casa e, como será mostrado, terão fim trágico.

Tragédia
das filhas de Wenceslau Pereira de Oliveira foi abafada pela
alta sociedade |
A
casa do lado direito, na rua Santo Antônio, pertenceu a Zacarias
e Tonica que moravam com os filhos Lauro e Borgico. Na casa do lado
esquerdo, na praça Rui Barbosa, o porão era dividido
em dois, abrigando, de um lado, o açougue de DonAnna
Felicce, mãe de Genário Felicce, que gostava de tocar
violino; e do outro, a bicicletaria de Vitorio Varoto. DonAnna
também sofrerá pelo outro filho, o irmão de
Genário.
José
Carlos Machado Borges, 91, conhecido como Juquita Machado, lembra-se
do sucesso da bicicletaria de Vitorio Varoto. "Ele ganhou muito
dinheiro consertando bicicleta. Não sei de onde saía
tanta bicicleta", diz. O prédio imediatamente posterior
era o antigo teatro São Luiz. Juquita Machado conta que nunca
se esqueceu desse prédio porque sempre que subia o morro
e passava à porta via o buraco de bala na parede. "Gabriel
Anconi, um amigo da família, jornalista, vizinho de minha
avó, deu um tiro num jardineiro uma vez. Os Anconi eram muito
violentos", lembra. A casa mais abaixo foi de Joaquim Rodrigues
de Barcelos, o Major Quincota, mas ele também está
fora de nossa triste história. Da casa da esquina, Juquita
Machado lembra-se vagamente, pois era criança ainda quando
passava à porta para ir à Igreja. Ele imagina que
foi demolida em meados da década de 10, depois das desgraças
que atingiram as famílias. Desde então, nada foi construído
lá. O século XX mal alvorecia e as nuvens da peste
já haviam rondado a esquina da praça Rui Barbosa.
Escarrar
e cuspir
Liga
Brasileira contra a Tuberculose, fundada em 1900, realizou
intenso trabalho de propaganda para tentar minimizá-la
|
A
tuberculose foi uma moléstia que apavorou o imaginário
popular a partir do final do século XVIII. Poetas românticos
como Álvares de Azevedo, Cruz e Souza, Castro Alves, Cesário
Verde, entre outros, a idealizavam como doença de intelectuais:
morrer desse mal era tido como um charme mórbido. Entretanto,
no final do século XIX a moléstia transmitida pelo
bacilo de Koch foi qualificada como "mal social", ou "peste
branca", pois a epidemia devorava a população
em proporções assustadoras. A violência e rapidez
dos sintomas fez com que ganhasse o apelido de "galopante".
Segundo o estudo Memória da tuberculose, coordenado
pela pesquisadora Tania Maria Dias Fernandes e disponibilizado no
site da fundação Oswaldo Cruz, (www.fiocruz.br/coc/
catalogo-tuberculose) a Liga Brasileira contra a Tuberculose, fundada
em 1900, chegou a realizar intenso trabalho de propaganda para tentar
minimizá-la, mas somente com a reforma sanitária de
Carlos Chagas, em 1920, é que foi criada a Inspetoria de
Profilaxia da Tuberculose. Era muito tarde para Olivia, Bembem e
Julia.
Em
pesquisa desenvolvida no programa de pós-doutorado em História
Social do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, Tania
Andrade Lima explica que o hábito de escarrar e cuspir em
público era considerado um comportamento refinado na alta
sociedade do século XIX. As escarradeiras ou cuspideiras,
de porcelana fina, vidro ou metais nobres, foram muito utilizadas.
Nas casas, eram deixadas à disposição das visitas
no chão da sala e no gabinete de fumantes. Aquela raspada
ruidosa na garganta seguida de pressão nas bochechas para
o lançamento do jato triunfal na escarradeira da sala, no
meio de um agradável bate-papo entre senhoras, era não
apenas socialmente tolerado, mas sobretudo uma demonstração
de elegância.
"Associando
o hábito de escarrar a um dos problemas de saúde mais
freqüentes na época a tuberculose , é
bastante provável que esta prática tenha contribuído
fortemente para a rápida disseminação do bacilo
de Koch no século passado" escreve a pesquisadora no
artigo Humores e odores: ordem corporal e ordem social no Rio
de Janeiro, século XIX. Em ambientes fechados, sem ventilação,
gotículas dos escarros ficam em suspensão e favorecem
a contaminação.
De
fato, em 1934, anos depois do início das reformas de Chagas,
foi publicado um edital no Rio de Janeiro onde se proibia terminantemente
o ato de cuspir e escarrar: "Tornando-se necessário
conjurar esforços subsidiários no sentido de diminuir
as probabilidades e contaminação pelo terrível
flagelo que a Tuberculose constitui (...) Faz-se público
a seguinte determinação: É proibido escarrar
no chão, quer na via pública, quer nos edifícios
municipais (...) ou em qualquer veículo que transite nessa
cidade, bem como em hotéis, casas de pensão ou pasto,
nos cafés e em todos os estabelecimentos comerciais abertos
ao público". Muito tarde para Lauro Borges e seu
irmão, Borgico. Homens elegantes que eram, certamente não
se furtavam à fineza de dar aquela escarradinha entre os
colóquios familiares na sala de dona Antoninha. Escarradinhas
fatais, como veremos.
pág.
1 de 5 - próxima

| página
principal |
Indique
a página |
 |
|
|