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Exibições
aeróbicas no palco mostram que campeões da guitarra
largaram a música para fazer ginástica

As acrobacias
dos guitarristas Steve Vai, Joe Satriani e Yngwie Malmsteen
devem ser valorizadas da mesma forma como admiramos a arte de
Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Cafu, ou fisiculturismo
Nasser El Sombaty (foto), campeão do Arndol Classic 2000 |
André
Azevedo da Fonseca
Que
inveja dos antigos gregos! Além de ficarem o dia inteiro
curtindo um ócio, tomando sauna e filosofando, sabiam distinguir
as coisas da vida com clareza invejável, ao contrário
de nós, habitantes do século XXI, que mal sabemos
diferenciar um músico de um esportista. Vou explicar.
O
esporte, venerado pelo gregos, é a prática metódica
de exercícios físicos que eleva o domínio sobre
o próprio corpo à condição de arte.
As estripulias que os atletas são capazes de fazer mostram-se
verdadeiramente impressionantes. Como não se encantar com
o festival de tabefes de um Popó nos ringues, com os contorcionismos
de um Guga nas quadras de tênis, ou com as pescoçadas
de um Luizão nos campos de futebol? Com os avanços
da bioquímica, a destreza e agilidade dos ginastas adeptos
aos anabolizantes, energéticos e estimulantes ficam cada
vez mais extraordinárias. Esses super-heróis ultrapassam
os limites do verossímil e executam piruetas antes consideradas
definitivamente impossíveis. A cada ano, novas modalidades
são criadas, desenvolvidas ou reconhecidas pelo Comitê
Olímpico.
A
arte da música também admirada pelos antigos
é o arranjo de tons e ritmos de maneira que é
construído um corpo sonoro provido de sentido próprio,
evidentemente não-verbal, mas de intenso poder expressivo.
As verdades e sensações transmitidas através
do arranjo instrumental dificilmente conseguem materializar-se através
de outras linguagens. A técnica para adquirir habilidade
em um determinado instrumento musical exige intenso treinamento;
entretanto, o fim último desses procedimentos é servir
de suporte para que as verdades subjetivas dispersas nas profundezas
da alma sejam expressas. A técnica nunca é um fim
em si mesmo, está sempre à serviço das reivindicações
estéticas, conceituais ou sensíveis do músico.
A qualidade de uma obra está diretamente relacionada com
a autenticidade da emoção suscitada através
da experiência de sua audição.
Mas
na sociedade do entretenimento alguma coisa aconteceu que confundiu
a cabeça da minha geração e o limite entre
esporte e música tornou-se confuso, para prejuízo
desta última. Há alguns anos, apareceu uma agremiação
de guitarristas, falo só deles porque entendo um pouco,
já que toco guitarra há algum tempo que deixaram
de fazer música e passaram a pra-ticar ginástica.
Provavelmente essa transição foi feita de forma inconsciente;
entretanto, ao assistir a qualquer apresentação de
um desses campeões, percebe-se com muita clareza que as exibições
que praticam no palco tornaram-se suficientemente aeróbicas
para configurar-se, de forma indubitável, como atletismo.
Alguns ginastas estrangeiros como Steve Vai, Joe Satriani, Yngwie
Malmsteen, entre outros a propósito, muito macaqueados
por jovens guitarristas uberabenses utilizam-se de seu instrumento
da mesma forma que Guga o faz com sua raquete, ou um daqueles tunisianos
doidos faria com sua vara de pular: para exercitarem-se de maneira
poliesportiva, para superar os limites musculares de sua categoria,
enfim, para fazer ginástica localizada. A música é
apenas o pretexto para exibicionismos atléticos, a técnica
é um fim si mesmo. Como um jóquei apressado, Steve
Vai cavalga e dá cabriolas pelos trastes de sua Ibanez
rumo ao primeiro lugar. Como um aquecido praticante de aeróbica
rítmica, Joe Satriane faz contorcionismos com o mindinho,
seu vizinho, pai de todos, fura-bolo e mata-piolho, movimentando-os
e virando-os do avesso de forma positivamente acrobata. Como um
lutador de Kung Fu ou karatê, Yngwie Malmsteen ataca com a
paleta as cordas de sua Fender enquanto golpeia o braço
da guitarra com harpejos influenciados por artes marciais.
É
claro que essa exibição esportiva é empolgante.
Entretanto, o que precisa ficar claro é que essas acrobacias
não fazem parte do repertório da música, mas
do atletismo. Esses fisiculturistas não exploram suas guitarras
como um instrumento musical, mas como uma academia de musculação.
Esses campeões fazem do ato de tocar guitarra algo próximo
ao halterofilismo.
Analisando
o entusiasmo que esses esportistas inspiram nos fãs, percebe-se
um tipo de comportamento que, de certa forma, confirma essa hipótese.
Quando perguntados sobre o que os atrai no fisiculturismo de Steve
Vai, as respostas habituais dos adeptos mostram-se sempre focalizadas
no domínio técnico qualidades esportivas ,
e não na subjetividade qualidades estéticas:
"ele sobe uma escala com velocidade sem igual"
ou "ele cavalga com precisão impressionante, uau!"
ou "é incrível como ele debulha a guitarra"
(note a inclusão de qualidades agrotécnicas às
habilidades atléticas do ídolo).
Contudo,
isso não significa desmerecê-los, pois devemos admitir
que tratam-se de excelentes atletas, dignos do mesmo respeito com
o qual reverenciamos Maguila, Oscar Schmidt, Cafu, Aurélio
Miguel, Nasser El Sombaty ou a família Gracie. A propósito,
sugiro à FIFA que inclua, nas abertura da Copa, novas exibições
esportivas, como carrinho de solo em escala pentatônica, acrobacias
em acordes harpejados e maratona de dedilhados em posições
bemóis, para que a arte desses campeões seja finalmente
reconhecida pelo comitê Olímpico e eles possam então
competir, ganhar medalhas e ser aclamados como grande esportistas
que são.
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