# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 208, em 20 de maio de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Exibições aeróbicas no palco mostram que campeões da guitarra largaram a música para fazer ginástica


As acrobacias dos guitarristas Steve Vai, Joe Satriani e Yngwie Malmsteen devem ser valorizadas da mesma forma como admiramos a arte de Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Cafu, ou fisiculturismo Nasser El Sombaty (foto), campeão do Arndol Classic 2000

André Azevedo da Fonseca

Que inveja dos antigos gregos! Além de ficarem o dia inteiro curtindo um ócio, tomando sauna e filosofando, sabiam distinguir as coisas da vida com clareza invejável, ao contrário de nós, habitantes do século XXI, que mal sabemos diferenciar um músico de um esportista. Vou explicar.

O esporte, venerado pelo gregos, é a prática metódica de exercícios físicos que eleva o domínio sobre o próprio corpo à condição de arte. As estripulias que os atletas são capazes de fazer mostram-se verdadeiramente impressionantes. Como não se encantar com o festival de tabefes de um Popó nos ringues, com os contorcionismos de um Guga nas quadras de tênis, ou com as pescoçadas de um Luizão nos campos de futebol? Com os avanços da bioquímica, a destreza e agilidade dos ginastas adeptos aos anabolizantes, energéticos e estimulantes ficam cada vez mais extraordinárias. Esses super-heróis ultrapassam os limites do verossímil e executam piruetas antes consideradas definitivamente impossíveis. A cada ano, novas modalidades são criadas, desenvolvidas ou reconhecidas pelo Comitê Olímpico.

A arte da música — também admirada pelos antigos — é o arranjo de tons e ritmos de maneira que é construído um corpo sonoro provido de sentido próprio, evidentemente não-verbal, mas de intenso poder expressivo. As verdades e sensações transmitidas através do arranjo instrumental dificilmente conseguem materializar-se através de outras linguagens. A técnica para adquirir habilidade em um determinado instrumento musical exige intenso treinamento; entretanto, o fim último desses procedimentos é servir de suporte para que as verdades subjetivas dispersas nas profundezas da alma sejam expressas. A técnica nunca é um fim em si mesmo, está sempre à serviço das reivindicações estéticas, conceituais ou sensíveis do músico. A qualidade de uma obra está diretamente relacionada com a autenticidade da emoção suscitada através da experiência de sua audição.

Mas na sociedade do entretenimento alguma coisa aconteceu que confundiu a cabeça da minha geração e o limite entre esporte e música tornou-se confuso, para prejuízo desta última. Há alguns anos, apareceu uma agremiação de guitarristas, — falo só deles porque entendo um pouco, já que toco guitarra há algum tempo — que deixaram de fazer música e passaram a pra-ticar ginástica. Provavelmente essa transição foi feita de forma inconsciente; entretanto, ao assistir a qualquer apresentação de um desses campeões, percebe-se com muita clareza que as exibições que praticam no palco tornaram-se suficientemente aeróbicas para configurar-se, de forma indubitável, como atletismo. Alguns ginastas estrangeiros como Steve Vai, Joe Satriani, Yngwie Malmsteen, entre outros — a propósito, muito macaqueados por jovens guitarristas uberabenses — utilizam-se de seu instrumento da mesma forma que Guga o faz com sua raquete, ou um daqueles tunisianos doidos faria com sua vara de pular: para exercitarem-se de maneira poliesportiva, para superar os limites musculares de sua categoria, enfim, para fazer ginástica localizada. A música é apenas o pretexto para exibicionismos atléticos, a técnica é um fim si mesmo. Como um jóquei apressado, Steve Vai cavalga e dá cabriolas pelos trastes de sua Ibanez rumo ao primeiro lugar. Como um aquecido praticante de aeróbica rítmica, Joe Satriane faz contorcionismos com o mindinho, seu vizinho, pai de todos, fura-bolo e mata-piolho, movimentando-os e virando-os do avesso de forma positivamente acrobata. Como um lutador de Kung Fu ou karatê, Yngwie Malmsteen ataca com a paleta as cordas de sua Fender enquanto golpeia o braço da guitarra com harpejos influenciados por artes marciais.

É claro que essa exibição esportiva é empolgante. Entretanto, o que precisa ficar claro é que essas acrobacias não fazem parte do repertório da música, mas do atletismo. Esses fisiculturistas não exploram suas guitarras como um instrumento musical, mas como uma academia de musculação. Esses campeões fazem do ato de tocar guitarra algo próximo ao halterofilismo.

Analisando o entusiasmo que esses esportistas inspiram nos fãs, percebe-se um tipo de comportamento que, de certa forma, confirma essa hipótese. Quando perguntados sobre o que os atrai no fisiculturismo de Steve Vai, as respostas habituais dos adeptos mostram-se sempre focalizadas no domínio técnico — qualidades esportivas —, e não na subjetividade — qualidades estéticas: "ele sobe uma escala com velocidade sem igual" ou "ele cavalga com precisão impressionante, uau!" ou "é incrível como ele debulha a guitarra" (note a inclusão de qualidades agrotécnicas às habilidades atléticas do ídolo).

Contudo, isso não significa desmerecê-los, pois devemos admitir que tratam-se de excelentes atletas, dignos do mesmo respeito com o qual reverenciamos Maguila, Oscar Schmidt, Cafu, Aurélio Miguel, Nasser El Sombaty ou a família Gracie. A propósito, sugiro à FIFA que inclua, nas abertura da Copa, novas exibições esportivas, como carrinho de solo em escala pentatônica, acrobacias em acordes harpejados e maratona de dedilhados em posições bemóis, para que a arte desses campeões seja finalmente reconhecida pelo comitê Olímpico e eles possam então competir, ganhar medalhas e ser aclamados como grande esportistas que são.

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