# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 195, em 14 de fevereiro de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Iniciativa pretende enterrar de vez a tradição estúpida do "trote" — felizmente proibida no Campus — e despertar uma nova tradição

André Azevedo da Fonseca

As atividades de recepção aos alunos — calouros e veteranos — são uma grande oportunidade para despertar o espírito de cidadania e responsabilidade social nos futuros profissionais. Algumas iniciativas de "calouradas solidárias" foram realizadas nos últimos anos como alternativa aos trotes tradicionais — lamentavelmente associado a abusos e hostilidades. Entretanto, o caráter eminentemente assistencialista dessas ações (doação de roupas, alimentos, etc) ainda não foi capaz de mobilizar e integrar os estudantes, pois não há vinculação direta entre as habilidades dos cursos e as atividades propostas. Além disso, o assistencialismo puro e simples deve ser visto com ressalvas, pois essas ações, ainda que bem-intencionadas, devem ser emergenciais e de curto prazo; caso contrário, correm o risco de gerar uma dependência inviável que, além de não resolver o problema essencial, desestimulam as comunidades a criar, elas mesmas, de acordo com sua história e seu contexto, soluções permanentes.

Há ainda outro problema. Ao centrar os esforços no assistencialismo, a universidade corre o risco de deixar de cumprir seu papel fundamental perante a sociedade, que é estudar os problemas, desenvolver pesquisas, produzir conhecimento e oferecer soluções que garantam a conquista e a continuidade do exercício da cidadania.

Neste sentido, um novo conceito de "trote" pode ser gradualmente implantado pelos cursos: a Atitude Cidadã. De acordo com suas habilidades, dentro de suas atribuições, calouros e veteranos podem agir juntos para orientar creches, asilos, escolas e entidades carentes em procedimentos básicos que necessariamente farão parte do universo de suas profissões. Muitas necessidades fundamentais, como instruções de higiene, cuidados na alimentação e prevenção de doenças epidêmicas, podem ser feitos com eficiência por alunos que terminaram de cursar o 2º grau acompanhados de veteranos da área de Saúde, por exemplo. Estudantes de Direito podem levar seus calouros a visitar entidades que necessitem de orientações jurídicas básicas; alunos de Comunicação Social podem editar, revisar e produzir um informativo feito por veteranos e calouros sobre problemas e soluções de uma associação de bairro; estudantes de Pedagogia podem, acompanhados dos novos colegas, sugerir atividades em creches e escolas; os exemplos seria infindáveis.

Diretores de curso, professores e estudantes podem iniciar esse projeto ainda nesta calourada, sugerindo aos DAs dos cursos que tomem a iniciativa na visita dessas entidades, para então estudar suas necessidades e, junto aos calouros voluntários, realizar o "trote". Esse tipo de ação social, ainda que restrito a conhecimentos básicos da competência de cada curso, é muito importante para associações que com freqüência estão carentes justamente do básico. O exercício de responsabilidade social, associado às atividades de calourada, respeita as vocações profissionais, cria a possibilidade de intervenção social, estimula desde os primeiros momentos o nascimento do profissional-cidadão, insere o aluno no universo de seu curso, além de contribuir com soluções de longo prazo para problemas fundamentais da comunidade. Muitos cursos já realizam projetos sociais de relevância no decorrer do ano. O que o Atitude Cidadã sugere é envolver o calouro nessas atividades desde seus primeiros momentos na Universidade. Esse envolvimento é uma iniciativa importante para enterrar de uma vez por todas a tradição estúpida do "trote" — felizmente proibida dentro do Campus — e plantar as sementes de uma nova tradição de calourada que incentive a participação social, a solidariedade e a consciência do papel dos futuros profissionais na comunidade.

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