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André Azevedo da Fonseca

Escritor conversou com leitores no auditório
da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro |
Escritores
costumam alegar que a ficção é capaz de alcançar
a verdade de forma mais intensa e profunda que o jornalismo. Por
quê?
Alcione:
Porque a ficção
tem a emoção, e eu faço na ficção
uma reconstituição criativa que é mais precisa
que a que o jornalismo faz. Você, aqui, como jornalista, pede
meu testemunho retórico. Nós estamos conversando e
o que pode haver é uma emoção de eu estar falando
com um jovem fazendo perguntas inteligentes, e você pode estar
sentindo que fala com um cara que escreve, que pensa algumas coisas
que você pode estar de acordo. Mas há um afastamento,
porque nós não criamos essa situação
intencionalmente. Quando eu crio intencionalmente, eu faço
com que essas turbulências de nosso encontro sejam também
externadas. E aí fica muito mais preciso e apreensível
o que está se passando entre nós. Porque nós
não estamos deixando transbordar tudo por causa de nosso
pacto de convivência, do cerimonial dessa relação.
Não é como eu faria em uma cena de uma obra de arte,
onde eu vou exteriorizar tudo isso que estamos ocultando
e que o texto de jornal vai ocultar. Aí a obra fica mais
verdadeira.
Lá
na obra de arte eu construo para obter esse resultado. Eu exteriorizo
essas emoções. Vamos fazer um filme que tem lá
um jornalista e um escritor: todas as nuanças eu ponho pra
fora. Eu mexo a câmera, faço um detalhe em você,
faço detalhes do que você está escrevendo, aí
eu pego o escritor, aí os olhos deles ficaram úmidos,
eu faço um close nos olhos, e mostro todas as emoções
que os envolvem. Isso é muito mais verdadeiro do que está
acontecendo aqui. Isso não é falsear!
Você
acha possível que o jornalismo se aproprie de recursos literários
para tornar a narrativa mais expressiva?
Alcione:
Os americanos fazem um jornalismo que não é exatamente
a questão da literatura, mas é de apreender a emoção
que circula. Quer dizer, se for relatar para o jornal um acidente
de automóvel, o jornalista tende a dizer a placa, a cor do
carro, quantas vítimas, etc. O outro cara, digamos que pratique
o new journalism, ele vai chegar e descrever a vítima
que está agonizando: ele começa dizendo que o cara
está assim, a boca está assim, o sangue escorria,
e no entanto notei que havia uma aliança no bolso dele, ele
estava sem um sapato, a meia vermelha, a sola furada, e vai fazendo
uma descrição humana de uma vítima do acidente,
e aí tem uma emoção porque ele singulariza
uma pessoa, quase como se desse um close, e depois passa
para outra, aí ele vai contando o acidente... quando ele
descreve que o carro estava a 90km/h, isso deixa de ser uma quantidade
e passa a ser um fato emocional! Porque a quantidade em si não
traz emoção.
A
notícia pode ter, além de informação,
qualidades literárias?
Alcione:
Eu entendo o
que você quer dizer, que isso pode ser chamado de literatura.
É verdade. Mas fica mais claro, mais objetivo, se você
dizer que quando o jornalista tem sensibilidade pode trazer a emoção
do acontecimento para o texto. Ele informa também as emoções
que estavam envolvidas, e não apenas o fato. Quando você
traz a emoção você humaniza, e o leitor adora
isso! A questão aí é verificar jornalistas
que renunciaram a esse tipo de poder descritivo, subjetivo
e portanto autoral para serem técnicos em comunicação.
E aí que está o suicídio, porque o técnico
de comunicação faz um texto pobre, direto, que ele
supõe que seja objetivo e supõe que seja imparcial
porque não existe nem objetividade nem imparcialidade,
você sabe disso. É o jornalismo da Folha: um carro
azul se chocou com um carro preto. Quatro vítimas. A polícia
foi notificada. Cabô!
Eu
sou um ser humano, cara! Não sou um computador. Eu leio e
aquilo não tem nenhum impacto em mim. Fica completamente
frio, impessoal. Eu não sei o nome de ninguém, como
foi o acidente. Eu estou falando de acidente só pra ser eloqüente.
Mas poderia ser um outro episódio.
Se
você vai lá fazer uma cobertura do Lula que foi fazer
um discurso na ONU, é claro que o discurso do Lula é
importante, mas se você agregar ao discurso do Lula que ele
estava trêmulo antes... que ele ficou olhando o tempo todo
para o George Bush... que o George Bush o ignorou... e que ele olhou
para o Kofi Annan... e o Kofi Annan piscou um olho pra ele... se
você descrever esse contexto eu vou lendo essa matéria
cada vez com mais interesse. Na hora em que eu ler o momento do
Lula subir na tribuna, eu já estou tremendo! (risos)
É
quase uma criação literária, ou é de
fato uma criação literária?
Alcione:
É uma descrição objetiva de um fato real. Porque
não se trata de nenhum fato imaginário. Aconteceu
de fato! Mas o negócio é você ter talento de
descrever o fato real. Aí ele fica literário. Literário
no bom sentido.
Você
gosta do termo jornalismo-literário?
Alcione:
Eu acho que ficaria mais objetivo, pra você levar aos editores
porque jornalistas têm pavor de literatura se
você disser que fez uma matéria "emocionante".
Assim eles gostam, porque o leitor gosta. Mas eles odeiam literatura.
Você
disse literário "no bom sentido". Há literário
no mau sentido?
Alcione:
Para alguns repórteres. Eles supõem que literário
é um arranjo de palavras que vêm com frases feitas;
e não é isso que nós estamos falando. Estamos
falando do repórter que tem sensibilidade para capturar as
emoções que estão em torno e os detalhes que
estão em volta. É isso que humaniza os fatos. Olha
só como ficou extraordinário o fato de o Gilberto
Gil convencer o Kofi Annan a bater tambor! Remete aos antepassados
de Kofi Annan na tribo dele na África!
A
ambos. Seus tataravós poderiam ter sido colegas!
Alcione:
Pois é, sem fronteiras musicais! E hoje ocupando cargos de
representação importante! E de repente estavam lá,
dois negros com sua pujança, com sua cultura de bater tambor,
etc. Quanta emoção há nisso! E se o repórter
diz assim: na cerimônia o secretário Geral da ONU
tocou tambor e o Ministro da Cultura tocou violão, ele
simplesmente não me disse o que aconteceu. (pausa retórica)
Nesse
caso, a sorte é que tinha televisão, e eu sei decodificar
a imagem da televisão. Aí aparece outra vez a escolaridade.
A imagem solta, quando não sabemos interpretá-la,
não significa muito. Porque interpretar uma imagem exige
de você uma correlação de conhecimentos interpretativos,
significativos, que a baixa escolaridade não dá instrumentos
para isso.
Essa
relação entre ficção e jornalismo está
em debate, especialmente por causa da farsa Gugu-PCC. Mas independente
desse caso, a pergunta é a seguinte: é legítimo
que o jornalismo se utilize de algumas "criações"
dentro do texto para tornar a verdade mais explícita?
Alcione:
Absolutamente
legítimo. É não só legítimo como
muito importante! Os grandes jornalistas fazem isso. Uma vez incumbiram
o Norman Mailer de cobrir uma luta de boxe. [Nota: o livro A
Luta (Cia das Letras, 1999), de Norman Mailer, narra a disputa
de boxe entre Muhammad Ali e George Foreman, realizada no Zaire,
em 1974]. O Norman Mailer ia para o hotel onde estava o lutador,
contava o que acontecia na véspera, na preparação...
e aquilo era literatura? Era. Mas era jornalismo! Ele não
estava lá fazendo frases-feitas, adornos verbais. Ele estava
descrevendo como o cara estava emocionado, o que havia comido na
véspera, a preocupação do técnico, o
medo, todas essas coisas. Eu acho isso fundamental!
Você
diz isso como escritor ou leitor?
Alcione:
Eu, como leitor, eu... pô! Se o cara te dá como foi
a véspera daquela luta histórica, depois vai me contando
o que se passava na cabeça do lutador, do treinador, me faz
ver o público urrando nas arquibancadas, vai me levando ao
ringue... é tudo o que eu quero! Uma vez chamaram o Gore
Vidal para ir reportar uma eleição no Memphis. Ele
vai lá e conta. Só que o olhar dele não está
interessado só no que é explosivo da notícia,
mas em tudo que cerca o acontecimento.
Nesse
momento, ainda no saguão do hotel, Alcione se despede e brinca
com uma colega que saía para o almoço. "Eu vou
almoçar sozinho?? Vou ligar para o seu marido! Você
me abandonou! (risos)". E continua...
Tem
muito jornalista que tem potencialidade para escrever, mas que tem
uma visão de jornalismo acanhada, de técnico em comunicação,
que diz que não toca na emoção porque só
pode se ater ao fato objetivo. Ora, a emoção não
é um fato objetivo?
Vou
te deixar almoçar. Mas fala só mais uma coisa. Você
foi convidado a fazer o roteiro do filme da vida do Betinho. Como
está o projeto?
Alcione:
Olha, eu nem sei sobre o futuro desse filme. Aconteceu o seguinte:
eu pretendia que o filme enfocasse toda a vida do Betinho. Mas depois
o produtor achou que o enfoque deveria ser em cima da campanha da
fome, que foi um momento importante e tal. Eu disse que não!
A vida do Betinho como um todo é que é importante.
Porque o Betinho venceu inúmeras doenças, era uma
pessoa com uma fragilidade enorme, e no entanto uma pessoa que teve
o poder de mobilizar o país. É isso que me interessa.
O episódio da fome, na verdade, o que importa não
é propriamente a mobilização, mas é
colocar o tema na agenda nacional. E hoje, com o governo assumindo
o Fome Zero, tornou-se um programa institucional. O que confirma
que isso não é o mais importante.
Agora,
o Betinho teve exílio, teve hemofilia; portanto, sua vida,
desde criança, foi cheia de restrições
ele não podia andar de bicicleta, não podia andar
a cavalo, não podia fazer quase nada. Depois Betinho teve
um problema de um acidente na perna, depois descobriu que era soropositivo
após uma transfusão de sangue; ele experimentou o
exílio; antes de entrar na clandestinidade trabalhou de operário
em São Paulo; isso tudo é uma trajetória de
vida importantíssima! No Chile ele quase foi morto! Foi expulso
do Chile, foi ao México, ao Canadá, a Estocolmo, tudo
correndo!
Você
não pensa em fazer uma biografia do Betinho, em jornalismo-literário,
por exemplo?
Alcione:
Uma editora uma
vez me propôs isso. Mas eu achava que o filme seria mais interessante.
Mas o produtor ficou em torno da família... aliás,
há uns dias atrás ele me ligou. Eu discuti isso até
com o Frei Beto, discuti com o filho do Betinho, com a Maria (última
a mulher de Betinho)... Já pensou uma vida como essa, cheia
dessas coisas? Eu imagino o Betinho, que adorava futebol, na pelada
das crianças. Ele ficava do lado de fora! Imagina, ele era
criança ainda e viu o irmão mais velho cair do armário,
sofrer uma hemorragia e morrer, porque era também hemofílico.
Então aquilo estava dentro dele. A mesma doença que
tinha o Henfil e os irmãos. Foi morrendo um, foi morrendo
outro, o Betinho ficou por último, sabendo que ia morrer
disso. Sabendo que ia morrer ele fez a campanha contra a fome. Sabendo
que ia morrer ele fez a lei de circulação de sangue,
impedindo a comercialização de sangue.
Assim,
centrar na mobilização da fome só porque ela
é "espetaculosa", eu não acho relevante.
Acho que deveria ser parte do filme, mas o roteiro não pode
ficar só em torno disso. Mas o produtor tinha idéia
de envolver os artistas, e tal. E na verdade esse foi um momento
em que, como o Betinho era muito esperto, conseguiu a adesão
da mídia e chamou os artistas, pessoas que tinham simpatia
popular. Foi uma estratégia inteligente que ele teve. Mas
eu acho que a nossa participação, como artista, era
inteiramente secundária, era só pra fazer o auê
mesmo. E fazer um filme sobre isso não é relevante.
Agora a vida do Betinho... Eu ainda discuto com o produtor, eu penso
que com o tempo ele possa mudar.
Você
citou a família. O que eles acham?
Alcione:
Olha, todo personagem que tem dois ou três casamentos, com
filhos nesses casamentos... essas ex-mulheres, viúvas, têm
visões diferentes... E eu não queria fazer um filme
com o Betinho "santo"! Eu queria fazer um filme com o
Betinho "homem".
O
Betinho fez uma puta sacanagem com a mulher dele no Chile. Ele abandonou
a mulher em Santiago e casou com outra. Os dois estavam na clandestinidade.
E ele largou o filho com a mulher. Casou com outra e se mandou para
o México. Isso é uma puta sacanagem e eu acho que
isso tinha que estar no filme. Porque ele era homem, como o Santo
Agostinho, entendeu? Santo Agostinho tinha fé, mas escorregava.
Mas era um homem! Nas confissões ele diz: há momentos
em que perco a fé, eu peco, eu sou um homem! A igreja
de Santo Agostinho é do século 4, e só no século
5 ele vira santo. A igreja ficou 300 anos discutindo se ele seria
santo ou não, porque ele era um mero professor de teologia.
Nas Confissões ele diz tudo da vida dele. Por que
não vamos dizer da vida do Betinho?
Betinho
era um homem! Eu convivia com ele, nós tomávamos cerveja.
Ele era imprudente, em muitas coisas. Em negócio de correr
de carro, ele enfiava o pé no acelerador! E ele próprio
não gostava dessa imagem de santo. Entendeu? Eu acho que
até humaniza. Ninguém é santo. Então
eu acho uma bobagem filmes como esse do padre Rossi, isso é
uma tolice! Misturar padre com Xuxa, com Gugu... isso é palhaçada!
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