# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 264, em 14 de outubro de 2003

andre.azevedo@uniube.br

foto: André Azevedo da Fonseca

Escritor conversou com leitores no auditório da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro

Escritores costumam alegar que a ficção é capaz de alcançar a verdade de forma mais intensa e profunda que o jornalismo. Por quê?

Alcione: Porque a ficção tem a emoção, e eu faço na ficção uma reconstituição criativa que é mais precisa que a que o jornalismo faz. Você, aqui, como jornalista, pede meu testemunho retórico. Nós estamos conversando e o que pode haver é uma emoção de eu estar falando com um jovem fazendo perguntas inteligentes, e você pode estar sentindo que fala com um cara que escreve, que pensa algumas coisas que você pode estar de acordo. Mas há um afastamento, porque nós não criamos essa situação intencionalmente. Quando eu crio intencionalmente, eu faço com que essas turbulências de nosso encontro sejam também externadas. E aí fica muito mais preciso e apreensível o que está se passando entre nós. Porque nós não estamos deixando transbordar tudo por causa de nosso pacto de convivência, do cerimonial dessa relação. Não é como eu faria em uma cena de uma obra de arte, onde eu vou exteriorizar tudo isso que estamos ocultando — e que o texto de jornal vai ocultar. Aí a obra fica mais verdadeira.

Lá na obra de arte eu construo para obter esse resultado. Eu exteriorizo essas emoções. Vamos fazer um filme que tem lá um jornalista e um escritor: todas as nuanças eu ponho pra fora. Eu mexo a câmera, faço um detalhe em você, faço detalhes do que você está escrevendo, aí eu pego o escritor, aí os olhos deles ficaram úmidos, eu faço um close nos olhos, e mostro todas as emoções que os envolvem. Isso é muito mais verdadeiro do que está acontecendo aqui. Isso não é falsear!

Você acha possível que o jornalismo se aproprie de recursos literários para tornar a narrativa mais expressiva?

Alcione: Os americanos fazem um jornalismo que não é exatamente a questão da literatura, mas é de apreender a emoção que circula. Quer dizer, se for relatar para o jornal um acidente de automóvel, o jornalista tende a dizer a placa, a cor do carro, quantas vítimas, etc. O outro cara, digamos que pratique o new journalism, ele vai chegar e descrever a vítima que está agonizando: ele começa dizendo que o cara está assim, a boca está assim, o sangue escorria, e no entanto notei que havia uma aliança no bolso dele, ele estava sem um sapato, a meia vermelha, a sola furada, e vai fazendo uma descrição humana de uma vítima do acidente, e aí tem uma emoção porque ele singulariza uma pessoa, quase como se desse um close, e depois passa para outra, aí ele vai contando o acidente... quando ele descreve que o carro estava a 90km/h, isso deixa de ser uma quantidade e passa a ser um fato emocional! Porque a quantidade em si não traz emoção.

A notícia pode ter, além de informação, qualidades literárias?

Alcione: Eu entendo o que você quer dizer, que isso pode ser chamado de literatura. É verdade. Mas fica mais claro, mais objetivo, se você dizer que quando o jornalista tem sensibilidade pode trazer a emoção do acontecimento para o texto. Ele informa também as emoções que estavam envolvidas, e não apenas o fato. Quando você traz a emoção você humaniza, e o leitor adora isso! A questão aí é verificar jornalistas que renunciaram a esse tipo de poder descritivo, subjetivo — e portanto autoral — para serem técnicos em comunicação. E aí que está o suicídio, porque o técnico de comunicação faz um texto pobre, direto, que ele supõe que seja objetivo e supõe que seja imparcial — porque não existe nem objetividade nem imparcialidade, você sabe disso. É o jornalismo da Folha: um carro azul se chocou com um carro preto. Quatro vítimas. A polícia foi notificada. Cabô!

Eu sou um ser humano, cara! Não sou um computador. Eu leio e aquilo não tem nenhum impacto em mim. Fica completamente frio, impessoal. Eu não sei o nome de ninguém, como foi o acidente. Eu estou falando de acidente só pra ser eloqüente. Mas poderia ser um outro episódio.

Se você vai lá fazer uma cobertura do Lula que foi fazer um discurso na ONU, é claro que o discurso do Lula é importante, mas se você agregar ao discurso do Lula que ele estava trêmulo antes... que ele ficou olhando o tempo todo para o George Bush... que o George Bush o ignorou... e que ele olhou para o Kofi Annan... e o Kofi Annan piscou um olho pra ele... se você descrever esse contexto eu vou lendo essa matéria cada vez com mais interesse. Na hora em que eu ler o momento do Lula subir na tribuna, eu já estou tremendo! (risos)

É quase uma criação literária, ou é de fato uma criação literária?

Alcione: É uma descrição objetiva de um fato real. Porque não se trata de nenhum fato imaginário. Aconteceu de fato! Mas o negócio é você ter talento de descrever o fato real. Aí ele fica literário. Literário no bom sentido.

Você gosta do termo jornalismo-literário?

Alcione: Eu acho que ficaria mais objetivo, pra você levar aos editores — porque jornalistas têm pavor de literatura — se você disser que fez uma matéria "emocionante". Assim eles gostam, porque o leitor gosta. Mas eles odeiam literatura.

Você disse literário "no bom sentido". Há literário no mau sentido?

Alcione: Para alguns repórteres. Eles supõem que literário é um arranjo de palavras que vêm com frases feitas; e não é isso que nós estamos falando. Estamos falando do repórter que tem sensibilidade para capturar as emoções que estão em torno e os detalhes que estão em volta. É isso que humaniza os fatos. Olha só como ficou extraordinário o fato de o Gilberto Gil convencer o Kofi Annan a bater tambor! Remete aos antepassados de Kofi Annan na tribo dele na África!

A ambos. Seus tataravós poderiam ter sido colegas!

Alcione: Pois é, sem fronteiras musicais! E hoje ocupando cargos de representação importante! E de repente estavam lá, dois negros com sua pujança, com sua cultura de bater tambor, etc. Quanta emoção há nisso! E se o repórter diz assim: na cerimônia o secretário Geral da ONU tocou tambor e o Ministro da Cultura tocou violão, ele simplesmente não me disse o que aconteceu. (pausa retórica)

Nesse caso, a sorte é que tinha televisão, e eu sei decodificar a imagem da televisão. Aí aparece outra vez a escolaridade. A imagem solta, quando não sabemos interpretá-la, não significa muito. Porque interpretar uma imagem exige de você uma correlação de conhecimentos interpretativos, significativos, que a baixa escolaridade não dá instrumentos para isso.

Essa relação entre ficção e jornalismo está em debate, especialmente por causa da farsa Gugu-PCC. Mas independente desse caso, a pergunta é a seguinte: é legítimo que o jornalismo se utilize de algumas "criações" dentro do texto para tornar a verdade mais explícita?

Alcione: Absolutamente legítimo. É não só legítimo como muito importante! Os grandes jornalistas fazem isso. Uma vez incumbiram o Norman Mailer de cobrir uma luta de boxe. [Nota: o livro A Luta (Cia das Letras, 1999), de Norman Mailer, narra a disputa de boxe entre Muhammad Ali e George Foreman, realizada no Zaire, em 1974]. O Norman Mailer ia para o hotel onde estava o lutador, contava o que acontecia na véspera, na preparação... e aquilo era literatura? Era. Mas era jornalismo! Ele não estava lá fazendo frases-feitas, adornos verbais. Ele estava descrevendo como o cara estava emocionado, o que havia comido na véspera, a preocupação do técnico, o medo, todas essas coisas. Eu acho isso fundamental!

Você diz isso como escritor ou leitor?

Alcione: Eu, como leitor, eu... pô! Se o cara te dá como foi a véspera daquela luta histórica, depois vai me contando o que se passava na cabeça do lutador, do treinador, me faz ver o público urrando nas arquibancadas, vai me levando ao ringue... é tudo o que eu quero! Uma vez chamaram o Gore Vidal para ir reportar uma eleição no Memphis. Ele vai lá e conta. Só que o olhar dele não está interessado só no que é explosivo da notícia, mas em tudo que cerca o acontecimento.

Nesse momento, ainda no saguão do hotel, Alcione se despede e brinca com uma colega que saía para o almoço. "Eu vou almoçar sozinho?? Vou ligar para o seu marido! Você me abandonou! (risos)". E continua...

Tem muito jornalista que tem potencialidade para escrever, mas que tem uma visão de jornalismo acanhada, de técnico em comunicação, que diz que não toca na emoção porque só pode se ater ao fato objetivo. Ora, a emoção não é um fato objetivo?

Vou te deixar almoçar. Mas fala só mais uma coisa. Você foi convidado a fazer o roteiro do filme da vida do Betinho. Como está o projeto?

Alcione: Olha, eu nem sei sobre o futuro desse filme. Aconteceu o seguinte: eu pretendia que o filme enfocasse toda a vida do Betinho. Mas depois o produtor achou que o enfoque deveria ser em cima da campanha da fome, que foi um momento importante e tal. Eu disse que não! A vida do Betinho como um todo é que é importante. Porque o Betinho venceu inúmeras doenças, era uma pessoa com uma fragilidade enorme, e no entanto uma pessoa que teve o poder de mobilizar o país. É isso que me interessa. O episódio da fome, na verdade, o que importa não é propriamente a mobilização, mas é colocar o tema na agenda nacional. E hoje, com o governo assumindo o Fome Zero, tornou-se um programa institucional. O que confirma que isso não é o mais importante.

Agora, o Betinho teve exílio, teve hemofilia; portanto, sua vida, desde criança, foi cheia de restrições — ele não podia andar de bicicleta, não podia andar a cavalo, não podia fazer quase nada. Depois Betinho teve um problema de um acidente na perna, depois descobriu que era soropositivo após uma transfusão de sangue; ele experimentou o exílio; antes de entrar na clandestinidade trabalhou de operário em São Paulo; isso tudo é uma trajetória de vida importantíssima! No Chile ele quase foi morto! Foi expulso do Chile, foi ao México, ao Canadá, a Estocolmo, tudo correndo!

Você não pensa em fazer uma biografia do Betinho, em jornalismo-literário, por exemplo?

Alcione: Uma editora uma vez me propôs isso. Mas eu achava que o filme seria mais interessante. Mas o produtor ficou em torno da família... aliás, há uns dias atrás ele me ligou. Eu discuti isso até com o Frei Beto, discuti com o filho do Betinho, com a Maria (última a mulher de Betinho)... Já pensou uma vida como essa, cheia dessas coisas? Eu imagino o Betinho, que adorava futebol, na pelada das crianças. Ele ficava do lado de fora! Imagina, ele era criança ainda e viu o irmão mais velho cair do armário, sofrer uma hemorragia e morrer, porque era também hemofílico. Então aquilo estava dentro dele. A mesma doença que tinha o Henfil e os irmãos. Foi morrendo um, foi morrendo outro, o Betinho ficou por último, sabendo que ia morrer disso. Sabendo que ia morrer ele fez a campanha contra a fome. Sabendo que ia morrer ele fez a lei de circulação de sangue, impedindo a comercialização de sangue.

Assim, centrar na mobilização da fome só porque ela é "espetaculosa", eu não acho relevante. Acho que deveria ser parte do filme, mas o roteiro não pode ficar só em torno disso. Mas o produtor tinha idéia de envolver os artistas, e tal. E na verdade esse foi um momento em que, como o Betinho era muito esperto, conseguiu a adesão da mídia e chamou os artistas, pessoas que tinham simpatia popular. Foi uma estratégia inteligente que ele teve. Mas eu acho que a nossa participação, como artista, era inteiramente secundária, era só pra fazer o auê mesmo. E fazer um filme sobre isso não é relevante. Agora a vida do Betinho... Eu ainda discuto com o produtor, eu penso que com o tempo ele possa mudar.

Você citou a família. O que eles acham?

Alcione: Olha, todo personagem que tem dois ou três casamentos, com filhos nesses casamentos... essas ex-mulheres, viúvas, têm visões diferentes... E eu não queria fazer um filme com o Betinho "santo"! Eu queria fazer um filme com o Betinho "homem".

O Betinho fez uma puta sacanagem com a mulher dele no Chile. Ele abandonou a mulher em Santiago e casou com outra. Os dois estavam na clandestinidade. E ele largou o filho com a mulher. Casou com outra e se mandou para o México. Isso é uma puta sacanagem e eu acho que isso tinha que estar no filme. Porque ele era homem, como o Santo Agostinho, entendeu? Santo Agostinho tinha fé, mas escorregava. Mas era um homem! Nas confissões ele diz: há momentos em que perco a fé, eu peco, eu sou um homem! A igreja de Santo Agostinho é do século 4, e só no século 5 ele vira santo. A igreja ficou 300 anos discutindo se ele seria santo ou não, porque ele era um mero professor de teologia. Nas Confissões ele diz tudo da vida dele. Por que não vamos dizer da vida do Betinho?

Betinho era um homem! Eu convivia com ele, nós tomávamos cerveja. Ele era imprudente, em muitas coisas. Em negócio de correr de carro, ele enfiava o pé no acelerador! E ele próprio não gostava dessa imagem de santo. Entendeu? Eu acho que até humaniza. Ninguém é santo. Então eu acho uma bobagem filmes como esse do padre Rossi, isso é uma tolice! Misturar padre com Xuxa, com Gugu... isso é palhaçada!

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