# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 264, em 14 de outubro de 2003

andre.azevedo@uniube.br


Em uma defesa apaixonada da palavra, Alcione Araújo navega de Homero a Norman Mailer para saudar o poder das narrativas

foto: André Azevedo da Fonseca

Alcione Araújo esteve em Uberaba no dia 9 de outubro de 2003 para participar do projeto Tim Estado de Minas Grandes Escritores

André Azevedo da Fonseca

Alcíone é uma ave fabulosa, que voa muito alto, normalmente sobre vastos oceanos. Segundo a antiga mitologia grega, o mar permanece sereno enquanto esses pássaros tecem seus ninhos nos rochedos. Já o escritor Alcione Araújo, autor do monumental romance Nem mesmo todo o oceano (Record, 1998), tem o dom oposto de provocar turbulências literárias e filosóficas em outros mares. Nessa entrevista, o autor de 12 peças teatrais (como Há vagas para moças de fino trato; Caravana da Ilusão) e 13 roteiros de cinema (como Pátria Amada; Policarpo Quaresma) flutua na Poética e na Antropologia, submerge em Sócrates e Homero, engolfa-se na arte e na cultura de massa, mergulha na História da Educação e navega pelas ondas da literatura e do jornalismo. O autor esteve em Uberaba na noite de 9 de outubro para participar do projeto Tim Estado de Minas Grandes Escritores, em parceria com os programas Pró-ler e ArtEducação. A entrevista a seguir foi gravada no saguão do Hotel Tamareiras, às 11h15 da manhã, na presença de Olga Frange, coordenadora do ArtEducação em Uberaba.

Pergunta: Com tanta coisa real acontecendo, por que ainda precisamos de inventar histórias para refletir sobre a condição humana?

Alcione Araújo: Pergunta interessante, não sei se você vai ter espaço para isso. Sabe-se hoje que o homem não se satisfaz na moldura de sua existência pessoal, de sua existência individual. Então ele precisa de histórias. As histórias foram e são contadas em muitos lugares e de diversas maneiras, inicialmente pela história oral. Homero, por exemplo, foi um poeta que criou no século 8 A.C., mas sua obra só foi escrita no século 6 A.C. Portanto, era literatura oral, até então. Inclusive a autoralidade do Homero, na verdade, é uma contribuição, porque na literatura oral você contava a Ilíada, por exemplo, e aí as pessoas que ouviam e davam sua contribuição pessoal na hora que contavam pra alguém. E esse processo é cumulativo, cada pessoa tem seus filtros. Duzentos anos depois da morte de Homero, quando a Ilíada foi publicada, ela tinha a contribuição de todos os cantadores que a relataram. A obra publicada é atribuída a Homero por generosidade, por um reconhecimento tardio. Mas é uma obra de criação coletiva, efetivamente.

Hoje a Psicanálise me dá essa informação de que através das narrativas — de qualquer forma que sejam feitas — eu consigo agregar, à minha vida, vivências que eu não vivi. E aí é como se eu me transformasse em múltiplos, vivendo uma possibilidade que nunca me ocorreria na vida. Vou te exemplificar. Imagine a situação em que um homem mate uma pessoa. Digamos, um crime passional, o sujeito mata a esposa. Se você fizer um filme, uma peça de teatro ou um romance com essa situação, você vai ver: a pessoa faz o gesto; no momento seguinte percebe que se trata de uma pessoa que ele amava; no momento seguinte ele se depara com a irreversibilidade do que ele fez, e o primeiro gesto é tentar reanimar a pessoa! E ele se surpreende de que não tem volta! Aí ele cai em um desespero profundo! E começa inclusive a agredir a pessoa morta, para que ela volte!

Pois bem. Uma experiência dessa, se você fizer um filme — na suposição de que você não vá matar ninguém... (risos) — você vai ter a vivência do desespero de quem acabou de matar! E você vai viver duas emoções: primeiro a morte da pessoa, depois o arrependimento subsequente. Essa experiência, de matar uma pessoa, você nunca viverá. Pelos menos nós contamos com isso. No entanto você vai trazer para a sua existência pessoal aquela experiência de terceiros que você leu. Portanto, você agrega não apenas a cena e a emoção e o impacto que você viu naquilo, como agrega também os valores éticos que estão presentes em atitudes tão arbitrárias como é eliminar a vida alheia.

Portanto, é verdade que a arte te possibilita adquirir vivências que você não viveu. Você passa a ter o sentimento daquele momento, quer seja de quem morreu, quer seja de quem matou. E isso é indispensável ao homem. Sempre se achou que o homem gostava de ouvir histórias pela mera aventura, pelo encantamento da história em si, das mil e uma noites de Sherazade, que tinha de contar histórias para não ser morta. Se o Sultão não acreditasse na história dela, ele a mataria! Então ela tinha que contar uma história habilidosa, inventiva, cheia de peripécias.

Portanto, à exceção de Sherazade, que foi colocada nessa situação-limítrofe, todas as pessoas procuram as histórias para enriquecer sua experiência de vida e para ver como vive o outro. A história também revela a alteridade — que é como eu encontro o outro em mim, como eu acolho o outro em mim. E com isso eu me enriqueço, na minha vida, com a experiência do outro. Não do acontecimento, da ação; mas da personagem. É por isso que o homem precisa de histórias — e precisa de histórias de sua época, não bastam as histórias do passado. É claro que sempre será importante contar a história de Édipo Rei, mas é importante contar as histórias de hoje também.

Sócrates dizia que a escrita é prejudicial porque, ao registrar as histórias em livro, deixaríamos de incentivar os jovens a treinar a memória. Tanto é que ele nunca deixou nada escrito.

Alcione: Teria sido uma pena se Platão não resolvesse fazer o registro, porque nós não chegaríamos a ele. Nós teríamos perdido muito, como aconteceu com outros filósofos, ou os pensadores das culturas ágrafas, que não tendo registro — como esses pensadores orientais, por exemplo — desapareceram completamente. E nós perdemos essa contribuição. Por exemplo, no nosso caso, no Brasil, nós desdenhamos a contribuição indígena e negra. Eram duas culturas ágrafas. A contribuição delas se diluiu.

A que você atribui essa desvalorização da cultura oral?

Alcione: Deu-se no Brasil um fracasso do projeto jesuíta com os índios. Quando os negros chegaram, os jesuítas nem olharam para eles. Não há registro de qualquer tentativa de pedagogizar a cultura negra — nem mesmo de catequizar , porque com os índios eles tentaram. Então nós desdenhamos essas duas culturas. Os europeus jesuítas e os europeus seculares que vieram ao Brasil criaram uma educação européia. E os que estavam aqui — hoje a gente sabe que a milênios esses índios estavam aqui — e mais os negros que vieram ficaram à margem do processo educacional — o por decorrência, do processo cultural.

A visão protestante era diferente. O Martin Lutero, nas 99 proclamações, disse que o fiel tem que ter contato direto com a palavra de Deus. E esse contato direto é ler a Bíblia. Então, precisa ser alfabetizado! Assim, ao contrário daqui, um país de influência católica, a civilização norte-americana nasce alfabetizada. Nós não! A cultura católica tem o intermédio de um sacerdote. Basta que você ouça o sermão, que é a interpretação que ele faz da Bíblia. Então isso fez com que a religião — que é na verdade a estrada por onde a cultura caminha — ao não impor a exigência de saber ler, gerasse um estado de preguiça e falta de curiosidade em relação a leitura. Foi o que aconteceu conosco.

Programas de reality show pretendem fazer dramaturgia ao editar situações criadas e encenadas por não-atores. Isso pode ser considerado um caminho da nova dramaturgia?

Alcione: Não. Isso é um caminho da televisão. Só não é uma nova dramaturgia. Porque não há construção. A dramaturgia é uma construção. É uma coisa artificial tanto quanto a arte. A arte é um artifício. Nada mais artificial do que a ópera: você canta uma ária pedindo para alguém fechar uma janela! Mas ela é arte. Então não é reprodução da realidade, é uma ampliação sonora, de encantamento através do som, e de uma narrativa dramática, mas que a ênfase é sonora. Não é reprodução realista da vida. A arte é portanto uma criação que tem forma, tem rigor, tem preparação. O reality show é na verdade um comportamento espontâneo. Não tem criação nenhuma.

Mas o reality show tem regras de seleção, edição, são desenvolvidos enredos...

Alcione: Mas aí é manipulação do comportamento espontâneo.

Essa manipulação não pode ser criativa e artística?

Alcione: Não creio, porque na dramaturgia, no ocidente, deu-se o seguinte: (pausa pra pensar...) Quando Aristóteles escreveu a Poética, todos os dramaturgos gregos já tinham morrido. Os dramaturgos viveram todos até o século 5 A.C., e Aristóteles é do século 4 A.C. — eles já haviam morrido há cem anos. E a Poética, na verdade, é uma súmula das tragédias, onde Aristóteles percebeu incidências e construções que eram comuns, e a partir dali tirou as regras. Ele não era dramaturgo, a Poética foi a leitura dele, o filtro dele que fez isso. Agora, a referência de Aristóteles que serviu para a construção dramática é uma referência equivocada.

Aristóteles estava equivocado?

Alcione: Não, mas quem o seguiu. Porque Aristóteles era um filósofo. E ele colheu uma experiência da Grécia num determinado momento exclusivo do século 5 A.C. Na verdade, todo o pensamento grego foi formulado naquele século — um tempo meio mágico na História do homem, absolutamente excepcional! Foi esse período que sedimentou todo um legado da cultura ocidental.

Mas deixar um filósofo como sendo a referência para as construções dramáticas até hoje — a-té-ho-je! — consagrou-se um erro. Porque na verdade as construções dramáticas deveriam surgir não da Filosofia, mas da Antropologia.

Por que?

Alcione: Porque a Antropologia é que estuda as crenças, os valores e como se dão os pactos de convivência social. Cada cultura tem o seu pacto. Em uma determinada cultura há ciúmes — que é um sentimento de posse. Fazem-se inúmeras construções dramáticas a partir do ciúme. Uma outra cultura não tem ciúmes, mas tem uma outra característica no pacto de convivência, e então você vai usar outras referências na construção dramática. Portanto é a Antropologia que nos informa sobre isso.

Então, o que vemos no reality show? Não há nenhuma construção que tenha vindo da Antropologia. É uma produção de entretenimento! Tenha sempre em conta que televisão não é arte. É parte da indústria de entretenimento. Ela é capaz de gerar cultura de massa, mas ela não gera arte. O processo de produção dela é a negação da arte.

Qual é a incompatibilidade?

Alcione: A arte vem de um gesto livre, expontâneo e gratuito do artista. Eu escrevo por absoluta necessidade de escrever. Porque se eu não escrever, eu feneço. Eu passei essa semana viajando e fico escrevendo à mão no hotel, até de madrugada, porque eu não consigo deixar de escrever. Mas é gratuito esse gesto! É uma observação pessoal!

A indústria de entretenimento não é gratuita. É uma receita que persegue uma audiência, que tem regras fixas. Ele quer chegar à classe A, B, C, e D, e E, conhece seus valores, esses dados estão lastreados em 25 anos de pesquisas onde a emissora sabe perfeitamente o comportamento de cada classe, em cada dia da semana e que tipo de programa vai atender a ele. A televisão funciona como um intermediário entre a agência de propaganda, que quer anunciar o seu produto, e a audiência. Então ela vai compatibilizar o produto a ser vendido, daquele mercado. Ele vai produzir um programa que atenda ao produto e que atenda ao consumidor. Então é completamente fechado.

Esse discurso não está muito apocalíptico?

Alcione: Não, não...

...você acha mesmo que não é possível fazer arte nenhuma sob os sistemas de condicionamento da cultura de massa?

Alcione: Sim, acho que pode. Eu estou me referindo aos reality shows, uma produção concreta, de emissoras concretas, que estão numa competição brutal por audiência. Mas é possível fazer arte na televisão sim. O canal Arté, na França tem coisas geniais. Mas seu propósito não é disputar audiência, mas buscar uma forma de fazer arte na televisão. Então eles fazem coisas extraordinárias.

Por que não se pode fazer uma televisão melhor e mais criativa? Não é porque a TV seja algo ruim, e os caras perversos. É porque nas franjas da sociedade, a baixa escolarização faz com que a sua sensibilidade seja muito grosseira, uma sensibilidade de baixo instinto. Então é uma questão mercadológica, e não de natureza estética. Nem é um preconceito contra o veículo, mas é isso que acontece. E olhe como é grave: um dos pilares fundamentais do capitalismo é que a concorrência melhora a qualidade do produto. Não é assim? O que se passa no Brasil com a televisão? Tínhamos um canal hegemônico. Quando se começa a esboçar uma competição, tendo uma audiência de baixa escolarização, na verdade a programação do baixo instinto é que chega a essa audiência. Então você acaba de destruir um pilar do capitalismo, porque a concorrência piora a qualidade do produto!

Desde os gregos, desde Shakespeare — desde sempre! — a arte é um aprofundamento da experiência de estar no mundo. É você descer no ser humano até onde for possível, é um mergulho na vida. O ser humano é um ser complexo, cheio de sutilezas. É um ser que deve ser valorizado em sua singularidade. Cada ser é único, essa é sua riqueza, por isso somos todos tão preciosos. Essa banalização do amor, da violência, do sexo, da solidão, essa banalização da vida que a gente vê na TV é a própria negação da arte. A vida passa a perder importância.

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