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Em
uma defesa apaixonada da palavra, Alcione Araújo navega de
Homero a Norman Mailer para saudar o poder das narrativas
foto:
André Azevedo da Fonseca

Alcione Araújo esteve em Uberaba
no dia 9 de outubro de 2003 para participar do projeto Tim
Estado de Minas Grandes Escritores
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André
Azevedo da Fonseca
Alcíone
é uma ave fabulosa, que voa muito alto, normalmente sobre
vastos oceanos. Segundo a antiga mitologia grega, o mar permanece
sereno enquanto esses pássaros tecem seus ninhos nos rochedos.
Já o escritor Alcione Araújo, autor do monumental
romance Nem mesmo todo o oceano (Record, 1998), tem o dom
oposto de provocar turbulências literárias e filosóficas
em outros mares. Nessa entrevista, o autor de 12 peças teatrais
(como Há vagas para moças de fino trato; Caravana
da Ilusão) e 13 roteiros de cinema (como Pátria
Amada; Policarpo Quaresma) flutua na Poética e na Antropologia,
submerge em Sócrates e Homero, engolfa-se na arte e na cultura
de massa, mergulha na História da Educação
e navega pelas ondas da literatura e do jornalismo. O autor esteve
em Uberaba na noite de 9 de outubro para participar do projeto Tim
Estado de Minas Grandes Escritores, em parceria com os programas
Pró-ler e ArtEducação. A entrevista a seguir
foi gravada no saguão do Hotel Tamareiras, às 11h15
da manhã, na presença de Olga Frange, coordenadora
do ArtEducação em Uberaba.
Pergunta:
Com tanta coisa real acontecendo, por que ainda precisamos de inventar
histórias para refletir sobre a condição humana?
Alcione
Araújo: Pergunta interessante, não sei se você
vai ter espaço para isso. Sabe-se hoje que o homem não
se satisfaz na moldura de sua existência pessoal, de sua existência
individual. Então ele precisa de histórias. As histórias
foram e são contadas em muitos lugares e de diversas maneiras,
inicialmente pela história oral. Homero, por exemplo, foi
um poeta que criou no século 8 A.C., mas sua obra só
foi escrita no século 6 A.C. Portanto, era literatura oral,
até então. Inclusive a autoralidade do Homero, na
verdade, é uma contribuição, porque na literatura
oral você contava a Ilíada, por exemplo, e aí
as pessoas que ouviam e davam sua contribuição pessoal
na hora que contavam pra alguém. E esse processo é
cumulativo, cada pessoa tem seus filtros. Duzentos anos depois da
morte de Homero, quando a Ilíada foi publicada, ela tinha
a contribuição de todos os cantadores que a relataram.
A obra publicada é atribuída a Homero por generosidade,
por um reconhecimento tardio. Mas é uma obra de criação
coletiva, efetivamente.
Hoje
a Psicanálise me dá essa informação
de que através das narrativas de qualquer forma que
sejam feitas eu consigo agregar, à minha vida, vivências
que eu não vivi. E aí é como se eu me transformasse
em múltiplos, vivendo uma possibilidade que nunca me ocorreria
na vida. Vou te exemplificar. Imagine a situação em
que um homem mate uma pessoa. Digamos, um crime passional, o sujeito
mata a esposa. Se você fizer um filme, uma peça de
teatro ou um romance com essa situação, você
vai ver: a pessoa faz o gesto; no momento seguinte percebe que se
trata de uma pessoa que ele amava; no momento seguinte ele se depara
com a irreversibilidade do que ele fez, e o primeiro gesto é
tentar reanimar a pessoa! E ele se surpreende de que não
tem volta! Aí ele cai em um desespero profundo! E começa
inclusive a agredir a pessoa morta, para que ela volte!
Pois
bem. Uma experiência dessa, se você fizer um filme
na suposição de que você não vá
matar ninguém... (risos) você vai ter a vivência
do desespero de quem acabou de matar! E você vai viver duas
emoções: primeiro a morte da pessoa, depois o arrependimento
subsequente. Essa experiência, de matar uma pessoa, você
nunca viverá. Pelos menos nós contamos com isso. No
entanto você vai trazer para a sua existência pessoal
aquela experiência de terceiros que você leu. Portanto,
você agrega não apenas a cena e a emoção
e o impacto que você viu naquilo, como agrega também
os valores éticos que estão presentes em atitudes
tão arbitrárias como é eliminar a vida alheia.
Portanto,
é verdade que a arte te possibilita adquirir vivências
que você não viveu. Você passa a ter o sentimento
daquele momento, quer seja de quem morreu, quer seja de quem matou.
E isso é indispensável ao homem. Sempre se achou que
o homem gostava de ouvir histórias pela mera aventura, pelo
encantamento da história em si, das mil e uma noites de Sherazade,
que tinha de contar histórias para não ser morta.
Se o Sultão não acreditasse na história dela,
ele a mataria! Então ela tinha que contar uma história
habilidosa, inventiva, cheia de peripécias.
Portanto,
à exceção de Sherazade, que foi colocada nessa
situação-limítrofe, todas as pessoas procuram
as histórias para enriquecer sua experiência de vida
e para ver como vive o outro. A história também revela
a alteridade que é como eu encontro o outro em mim,
como eu acolho o outro em mim. E com isso eu me enriqueço,
na minha vida, com a experiência do outro. Não do acontecimento,
da ação; mas da personagem. É por isso que
o homem precisa de histórias e precisa de histórias
de sua época, não bastam as histórias do passado.
É claro que sempre será importante contar a história
de Édipo Rei, mas é importante contar as histórias
de hoje também.
Sócrates
dizia que a escrita é prejudicial porque, ao registrar as
histórias em livro, deixaríamos de incentivar os jovens
a treinar a memória. Tanto é que ele nunca deixou
nada escrito.
Alcione:
Teria sido uma pena se Platão não resolvesse fazer
o registro, porque nós não chegaríamos a ele.
Nós teríamos perdido muito, como aconteceu com outros
filósofos, ou os pensadores das culturas ágrafas,
que não tendo registro como esses pensadores orientais,
por exemplo desapareceram completamente. E nós perdemos
essa contribuição. Por exemplo, no nosso caso, no
Brasil, nós desdenhamos a contribuição indígena
e negra. Eram duas culturas ágrafas. A contribuição
delas se diluiu.
A
que você atribui essa desvalorização da cultura
oral?
Alcione:
Deu-se no Brasil um fracasso do projeto jesuíta com os índios.
Quando os negros chegaram, os jesuítas nem olharam para eles.
Não há registro de qualquer tentativa de pedagogizar
a cultura negra nem mesmo de catequizar , porque com os índios
eles tentaram. Então nós desdenhamos essas duas culturas.
Os europeus jesuítas e os europeus seculares que vieram ao
Brasil criaram uma educação européia. E os
que estavam aqui hoje a gente sabe que a milênios esses
índios estavam aqui e mais os negros que vieram ficaram
à margem do processo educacional o por decorrência,
do processo cultural.
A
visão protestante era diferente. O Martin Lutero, nas 99
proclamações, disse que o fiel tem que ter contato
direto com a palavra de Deus. E esse contato direto é ler
a Bíblia. Então, precisa ser alfabetizado! Assim,
ao contrário daqui, um país de influência católica,
a civilização norte-americana nasce alfabetizada.
Nós não! A cultura católica tem o intermédio
de um sacerdote. Basta que você ouça o sermão,
que é a interpretação que ele faz da Bíblia.
Então isso fez com que a religião que é
na verdade a estrada por onde a cultura caminha ao não
impor a exigência de saber ler, gerasse um estado de preguiça
e falta de curiosidade em relação a leitura. Foi o
que aconteceu conosco.
Programas
de reality show pretendem fazer dramaturgia ao editar situações
criadas e encenadas por não-atores. Isso pode ser considerado
um caminho da nova dramaturgia?
Alcione:
Não. Isso é um caminho da televisão. Só
não é uma nova dramaturgia. Porque não há
construção. A dramaturgia é uma construção.
É uma coisa artificial tanto quanto a arte. A arte é
um artifício. Nada mais artificial do que a ópera:
você canta uma ária pedindo para alguém fechar
uma janela! Mas ela é arte. Então não é
reprodução da realidade, é uma ampliação
sonora, de encantamento através do som, e de uma narrativa
dramática, mas que a ênfase é sonora. Não
é reprodução realista da vida. A arte é
portanto uma criação que tem forma, tem rigor, tem
preparação. O reality show é na verdade
um comportamento espontâneo. Não tem criação
nenhuma.
Mas
o reality show tem regras de seleção, edição,
são desenvolvidos enredos...
Alcione:
Mas aí é manipulação do comportamento
espontâneo.
Essa
manipulação não pode ser criativa e artística?
Alcione:
Não creio, porque na dramaturgia, no ocidente, deu-se o seguinte:
(pausa pra pensar...) Quando Aristóteles escreveu a Poética,
todos os dramaturgos gregos já tinham morrido. Os dramaturgos
viveram todos até o século 5 A.C., e Aristóteles
é do século 4 A.C. eles já haviam morrido
há cem anos. E a Poética, na verdade, é uma
súmula das tragédias, onde Aristóteles percebeu
incidências e construções que eram comuns, e
a partir dali tirou as regras. Ele não era dramaturgo, a
Poética foi a leitura dele, o filtro dele que fez isso. Agora,
a referência de Aristóteles que serviu para a construção
dramática é uma referência equivocada.
Aristóteles
estava equivocado?
Alcione:
Não, mas quem o seguiu. Porque Aristóteles era um
filósofo. E ele colheu uma experiência da Grécia
num determinado momento exclusivo do século 5 A.C. Na verdade,
todo o pensamento grego foi formulado naquele século
um tempo meio mágico na História do homem, absolutamente
excepcional! Foi esse período que sedimentou todo um legado
da cultura ocidental.
Mas
deixar um filósofo como sendo a referência para as
construções dramáticas até hoje
a-té-ho-je! consagrou-se um erro. Porque na verdade
as construções dramáticas deveriam surgir não
da Filosofia, mas da Antropologia.
Por que?
Alcione:
Porque a Antropologia
é que estuda as crenças, os valores e como se dão
os pactos de convivência social. Cada cultura tem o seu pacto.
Em uma determinada cultura há ciúmes que é
um sentimento de posse. Fazem-se inúmeras construções
dramáticas a partir do ciúme. Uma outra cultura não
tem ciúmes, mas tem uma outra característica no pacto
de convivência, e então você vai usar outras
referências na construção dramática.
Portanto é a Antropologia que nos informa sobre isso.
Então,
o que vemos no reality show? Não há nenhuma
construção que tenha vindo da Antropologia. É
uma produção de entretenimento! Tenha sempre em conta
que televisão não é arte. É parte da
indústria de entretenimento. Ela é capaz de gerar
cultura de massa, mas ela não gera arte. O processo de produção
dela é a negação da arte.
Qual
é a incompatibilidade?
Alcione:
A arte vem de
um gesto livre, expontâneo e gratuito do artista. Eu escrevo
por absoluta necessidade de escrever. Porque se eu não escrever,
eu feneço. Eu passei essa semana viajando e fico escrevendo
à mão no hotel, até de madrugada, porque eu
não consigo deixar de escrever. Mas é gratuito esse
gesto! É uma observação pessoal!
A
indústria de entretenimento não é gratuita.
É uma receita que persegue uma audiência, que tem regras
fixas. Ele quer chegar à classe A, B, C, e D, e E, conhece
seus valores, esses dados estão lastreados em 25 anos de
pesquisas onde a emissora sabe perfeitamente o comportamento de
cada classe, em cada dia da semana e que tipo de programa vai atender
a ele. A televisão funciona como um intermediário
entre a agência de propaganda, que quer anunciar o seu produto,
e a audiência. Então ela vai compatibilizar o produto
a ser vendido, daquele mercado. Ele vai produzir um programa que
atenda ao produto e que atenda ao consumidor. Então é
completamente fechado.
Esse discurso não está muito apocalíptico?
Alcione:
Não, não...
...você
acha mesmo que não é possível fazer arte nenhuma
sob os sistemas de condicionamento da cultura de massa?
Alcione:
Sim, acho que
pode. Eu estou me referindo aos reality shows, uma produção
concreta, de emissoras concretas, que estão numa competição
brutal por audiência. Mas é possível fazer arte
na televisão sim. O canal Arté, na França
tem coisas geniais. Mas seu propósito não é
disputar audiência, mas buscar uma forma de fazer arte na
televisão. Então eles fazem coisas extraordinárias.
Por
que não se pode fazer uma televisão melhor e mais
criativa? Não é porque a TV seja algo ruim, e os caras
perversos. É porque nas franjas da sociedade, a baixa escolarização
faz com que a sua sensibilidade seja muito grosseira, uma sensibilidade
de baixo instinto. Então é uma questão mercadológica,
e não de natureza estética. Nem é um preconceito
contra o veículo, mas é isso que acontece. E olhe
como é grave: um dos pilares fundamentais do capitalismo
é que a concorrência melhora a qualidade do produto.
Não é assim? O que se passa no Brasil com a televisão?
Tínhamos um canal hegemônico. Quando se começa
a esboçar uma competição, tendo uma audiência
de baixa escolarização, na verdade a programação
do baixo instinto é que chega a essa audiência. Então
você acaba de destruir um pilar do capitalismo, porque a concorrência
piora a qualidade do produto!
Desde
os gregos, desde Shakespeare desde sempre! a arte
é um aprofundamento da experiência de estar no mundo.
É você descer no ser humano até onde for possível,
é um mergulho na vida. O ser humano é um ser complexo,
cheio de sutilezas. É um ser que deve ser valorizado em sua
singularidade. Cada ser é único, essa é sua
riqueza, por isso somos todos tão preciosos. Essa banalização
do amor, da violência, do sexo, da solidão, essa banalização
da vida que a gente vê na TV é a própria negação
da arte. A vida passa a perder importância.
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