# Informações gerais

Matéria publicada no Jornal de Uberaba, em 15 de dezembro de 2002

andre.azevedo@uniube.br

 


Uberaba corre risco de virar uma cidade sem história


Arquitetura do Palacete de Antônio Pedro Naves foi desrespeitada por muitos anos

André Azevedo da Fonseca

As últimas semanas de 2002, ano das Nações Unidas para o patrimônio cultural, foram catastróficas para a consciência histórica de Uberaba. No domingo, dia 8 de dezembro, um importante símbolo cultural foi destruído ilegalmente. A casa da rua São Sebastião, nº 5/31 (ao lado do Vila Real) fazia parte do conjunto arquitetônico dos arredores da praça Rui Barbosa e localizava-se no entorno da Câmara Municipal. Era um precioso exemplo da arquitetura eclética característica de um dos períodos de grande desenvolvimento econômico da cidade, no apogeu do gado Zebu. Esta edificação de quase setenta anos poderia ter sido capaz de provocar nos moradores um debate sobre os caminhos históricos da cidade, sobre os anseios e escolhas que fizeram com que Uberaba chegasse ao atual modelo de desenvolvimento. Em suma, era um símbolo capaz de despertar o senso de participação coletiva na construção de uma identidade na cidade.

Lamentavelmente, este símbolo foi destroçado, arruinado para sempre. Foi derrubado para satisfazer fins econômicos estritamente familiares. Mais uma vez, a dura noção de propriedade individual foi favorecida em prejuízo da propriedade coletiva. Nessa perspectiva, a cultura histórica de toda uma população não significa nada diante do valor de um terreno qualquer no mercado imobiliário. Se o bem cultural comunitário é um entrave ao lucro pessoal, que seja destruído então. A propriedade é tudo, a identidade cultural é lixo.

Agora, por causa de uma decisão judicial autorizando à demolição, a cidade corre novamente o risco de um novo extermínio cultural*. O futuro do palacete de Antônio Pedro Naves, edificação histórica localizada na rua Manoel Borges (em frente ao edifício Chapadão), localizado entre dois entornos de proteção, está nas mãos de um proprietário que não esconde a intenção de destruí-lo. Esse palacete foi projetado no início do século passado pelo engenheiro Francisco Palmério, pai de Mário Palmério e avô de Marcelo Palmério, o reitor da Universidade de Uberaba (Uniube). Também de estilo eclético, mostra influências mouriscas e de outras escolas estéticas. Há quem diga que o pináculo é inspirado em detalhes do Taj Mahal, uma referência à Índia, país onde os criadores de gado foram buscar a raça Zebu.

Há anos, a exuberância do palacete está escondida sob placas, cartazes e cores desarranjadas, em flagrante desprezo ao seu discurso histórico e arquitetônico. Devido à sua relevância, a edificação é inventariada pelo Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG) e estava provisoriamente tombada em nível municipal. Um parecer do Conselho Deliberativo Municipal de Patrimônio Artístico e Cultural (Condemphau) garantiu que a estrutura da casa encontra-se em bom estado. Não há risco de desabamento. Mas isso não sensibiliza o proprietário, que brigou na Justiça e obteve autorização para destruir a cultura de Uberaba.


Palacete Antônio Pedro Naves, um dia antes da demolição

Existem diversos incentivos oficiais para empresários com responsabilidade social, conscientes do mérito em montar seu negócio ao mesmo tempo em que preservam o bem cultural. A prefeitura isenta em 70% o IPTU de casas históricas reconhecidas pelo Condemphau. O Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) mantém uma linha de crédito especial para a instalação de pontos comerciais que unam o interesse econômico ao desejo de preservação. Há diversos outros mecanismos, como a transferência do direito de construir, que podem ser alternativas para garantir a integridade dessas edificações. Sem contar com o fato de que existem, mesmo no centro da cidade, dezenas de lotes vagos, ociosos por causa de especulação imobiliária.

Qual o sentido, então, de optar pela destruição irreversível da memória de Uberaba, em face dessas inúmeras alternativas economicamente sustentáveis? Com tanto terreno vago disponível, tem que destruir casa histórica? Proprietários dizem que querem dar emprego. Mas é preciso mesmo destruir casa histórica para dar emprego? O patrimônio cultural também gera empregos de boa qualidade no comércio, nos serviços e no turismo. Por que não adequar o projeto econômico individual ao bem da coletividade?

Apagar a história da cidade jamais pode ser entendida como progresso. Ao contrário, isso é um regresso. Nada compra a alma de um povo. Transação econômica nenhuma tem o direito de eliminar a cultura da cidade. Quando um negócio privado violenta o direito coletivo, mesmo com autorização judicial, a sociedade deve exercer sua cidadania democrática e protestar contra a falta de responsabilidade social do empresário, pois cultura é um bem público. Se este palacete histórico for mesmo derrubado, seja lá que tipo de loja for instalada no terreno, eu não compro lá.

Há uma questão importante nessa discussão: a população de Uberaba tem noção dessa simbologia, dessa importância histórica do seu patrimônio cultural? Certamente não, porque um povo que conhece o valor de sua cultura não permite, de forma alguma, essas aberrações. Um povo histórico sabe defender sua alma, pois entende que o fracasso de sua auto-estima é a condenação à uma vida subalterna, vulgarizada e sem sentido.

No entanto, é inegável que a cidade está despertando para esse sentimento. O destaque que a imprensa deu recentemente à demolição da rua São Sebastião e à ameaça ao Palacete de Antônio Naves é um indício dessa inquietação. Essas violências simbólicas geraram preocupação na sociedade, que se sentiu desrespeitada, ofendida. Isso não acontecia há alguns meses atrás, quando algumas demolições culturais passaram despercebidas ou foram vistas com apatia. Uberaba tem forte tradição de preservação da cultura, manifestada nas décadas de 80 e 90 com a criação do conselho de patrimônio e através de diversas manifestações contra a derrubada de casas históricas no centro da cidade. Esse cultivo deixou sementes.

Cada vez mais, as pessoas despertam para a sensação de que viver em sociedade é muito mais que trabalhar, comer, distrair-se e dormir. Uberaba parece estar em um momento histórico de busca de identidade, de valorização de suas manifestações artísticas e culturais, de elevação da auto-estima de seus moradores. Por isso lamentou-se tanto a destruição de nosso patrimônio cultural, na rua São Sebastião. Por isso nos frustramos com a decisão da Justiça que autoriza a destruição de nossa história, na rua Manoel Borges. Enquanto nossa alma permanecer nas mãos de proprietários sem responsabilidade social, e enquanto a prefeitura não aplicar uma política cultural verdadeiramente engajada e corajosa, vamos continuar empobrecendo até virar uma cidade culturalmente indigente, sem graça, sem passado, habitada moradores apáticos, conformistas e sem senso de participação histórica. Vamos levar uma vida medíocre esperando o ônibus, trabalhando, comendo, distraindo e dormindo, até morrer. O fracasso de nossa cultura é o desastre de nós mesmos.

* No dia da publicação do artigo, o palacete já havia sido demolido, na manhã de domingo


Palacete de Antônio Pedro Naves, na manhã de 15 de dezembro

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PROTESTE
Se a sociedade não se manifestar, o patrimônio cultural de Uberaba vai continuar a ser destruído. Telefone, passe fax, telegrama ou mande e-mail à Prefeitura de Uberaba e à Secretaria de Obras exigindo providências para punir os responsáveis e evitar novas demolições de casas históricas

Secretaria de Obras
Secretário: Osório Joaquim Guimarães
Av. Leopoldino de Oliveira, 3615
Uberaba - MG - 38010-000
Telefone: 3332-9211 - Fax: 3333-7786
osorio@uberaba.mg.gov.br

Secretaria Geral da Prefeitura
Carlos Nogueira
Praça Rui Barbosa, 250
Uberaba - MG - 38010-240
Telefone: 3333-6588 - Fax: 3333-6403
carlos@uberaba.mg.gov.br


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