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Uberaba
corre risco de virar uma cidade sem história

Arquitetura
do Palacete de Antônio Pedro Naves foi desrespeitada por
muitos anos |
André
Azevedo da Fonseca
As últimas semanas de 2002, ano das Nações
Unidas para o patrimônio cultural, foram catastróficas
para a consciência histórica de Uberaba. No domingo,
dia 8 de dezembro, um importante símbolo cultural foi destruído
ilegalmente. A casa da rua São Sebastião, nº
5/31 (ao lado do Vila Real) fazia parte do conjunto arquitetônico
dos arredores da praça Rui Barbosa e localizava-se no entorno
da Câmara Municipal. Era um precioso exemplo da arquitetura
eclética característica de um dos períodos
de grande desenvolvimento econômico da cidade, no apogeu do
gado Zebu. Esta edificação de quase setenta anos poderia
ter sido capaz de provocar nos moradores um debate sobre os caminhos
históricos da cidade, sobre os anseios e escolhas que fizeram
com que Uberaba chegasse ao atual modelo de desenvolvimento. Em
suma, era um símbolo capaz de despertar o senso de participação
coletiva na construção de uma identidade na cidade.
Lamentavelmente,
este símbolo foi destroçado, arruinado para sempre.
Foi derrubado para satisfazer fins econômicos estritamente
familiares. Mais uma vez, a dura noção de propriedade
individual foi favorecida em prejuízo da propriedade coletiva.
Nessa perspectiva, a cultura histórica de toda uma população
não significa nada diante do valor de um terreno qualquer
no mercado imobiliário. Se o bem cultural comunitário
é um entrave ao lucro pessoal, que seja destruído
então. A propriedade é tudo, a identidade cultural
é lixo.
Agora,
por causa de uma decisão judicial autorizando à demolição,
a cidade corre novamente o risco de um novo extermínio cultural*.
O futuro do palacete de Antônio Pedro Naves, edificação
histórica localizada na rua Manoel Borges (em frente ao edifício
Chapadão), localizado entre dois entornos de proteção,
está nas mãos de um proprietário que não
esconde a intenção de destruí-lo. Esse palacete
foi projetado no início do século passado pelo engenheiro
Francisco Palmério, pai de Mário Palmério e
avô de Marcelo Palmério, o reitor da Universidade de
Uberaba (Uniube). Também de estilo eclético, mostra
influências mouriscas e de outras escolas estéticas.
Há quem diga que o pináculo é inspirado em
detalhes do Taj Mahal, uma referência à Índia,
país onde os criadores de gado foram buscar a raça
Zebu.
Há
anos, a exuberância do palacete está escondida sob
placas, cartazes e cores desarranjadas, em flagrante desprezo ao
seu discurso histórico e arquitetônico. Devido à
sua relevância, a edificação é inventariada
pelo Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico
de Minas Gerais (Iepha-MG) e estava provisoriamente tombada em nível
municipal. Um parecer do Conselho Deliberativo Municipal de Patrimônio
Artístico e Cultural (Condemphau) garantiu que a estrutura
da casa encontra-se em bom estado. Não há risco de
desabamento. Mas isso não sensibiliza o proprietário,
que brigou na Justiça e obteve autorização
para destruir a cultura de Uberaba.

Palacete
Antônio Pedro Naves, um dia antes da demolição |
Existem
diversos incentivos oficiais para empresários com responsabilidade
social, conscientes do mérito em montar seu negócio
ao mesmo tempo em que preservam o bem cultural. A prefeitura isenta
em 70% o IPTU de casas históricas reconhecidas pelo Condemphau.
O Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) mantém
uma linha de crédito especial para a instalação
de pontos comerciais que unam o interesse econômico ao desejo
de preservação. Há diversos outros mecanismos,
como a transferência do direito de construir, que podem ser
alternativas para garantir a integridade dessas edificações.
Sem contar com o fato de que existem, mesmo no centro da cidade,
dezenas de lotes vagos, ociosos por causa de especulação
imobiliária.
Qual
o sentido, então, de optar pela destruição
irreversível da memória de Uberaba, em face dessas
inúmeras alternativas economicamente sustentáveis?
Com tanto terreno vago disponível, tem que destruir casa
histórica? Proprietários dizem que querem dar emprego.
Mas é preciso mesmo destruir casa histórica para dar
emprego? O patrimônio cultural também gera empregos
de boa qualidade no comércio, nos serviços e no turismo.
Por que não adequar o projeto econômico individual
ao bem da coletividade?
Apagar
a história da cidade jamais pode ser entendida como progresso.
Ao contrário, isso é um regresso. Nada compra a alma
de um povo. Transação econômica nenhuma tem
o direito de eliminar a cultura da cidade. Quando um negócio
privado violenta o direito coletivo, mesmo com autorização
judicial, a sociedade deve exercer sua cidadania democrática
e protestar contra a falta de responsabilidade social do empresário,
pois cultura é um bem público. Se este palacete histórico
for mesmo derrubado, seja lá que tipo de loja for instalada
no terreno, eu não compro lá.
Há
uma questão importante nessa discussão: a população
de Uberaba tem noção dessa simbologia, dessa importância
histórica do seu patrimônio cultural? Certamente não,
porque um povo que conhece o valor de sua cultura não permite,
de forma alguma, essas aberrações. Um povo histórico
sabe defender sua alma, pois entende que o fracasso de sua auto-estima
é a condenação à uma vida subalterna,
vulgarizada e sem sentido.
No
entanto, é inegável que a cidade está despertando
para esse sentimento. O destaque que a imprensa deu recentemente
à demolição da rua São Sebastião
e à ameaça ao Palacete de Antônio Naves é
um indício dessa inquietação. Essas violências
simbólicas geraram preocupação na sociedade,
que se sentiu desrespeitada, ofendida. Isso não acontecia
há alguns meses atrás, quando algumas demolições
culturais passaram despercebidas ou foram vistas com apatia. Uberaba
tem forte tradição de preservação da
cultura, manifestada nas décadas de 80 e 90 com a criação
do conselho de patrimônio e através de diversas manifestações
contra a derrubada de casas históricas no centro da cidade.
Esse cultivo deixou sementes.
Cada
vez mais, as pessoas despertam para a sensação de
que viver em sociedade é muito mais que trabalhar, comer,
distrair-se e dormir. Uberaba parece estar em um momento histórico
de busca de identidade, de valorização de suas manifestações
artísticas e culturais, de elevação da auto-estima
de seus moradores. Por isso lamentou-se tanto a destruição
de nosso patrimônio cultural, na rua São Sebastião.
Por isso nos frustramos com a decisão da Justiça que
autoriza a destruição de nossa história, na
rua Manoel Borges. Enquanto nossa alma permanecer nas mãos
de proprietários sem responsabilidade social, e enquanto
a prefeitura não aplicar uma política cultural verdadeiramente
engajada e corajosa, vamos continuar empobrecendo até virar
uma cidade culturalmente indigente, sem graça, sem passado,
habitada moradores apáticos, conformistas e sem senso de
participação histórica. Vamos levar uma vida
medíocre esperando o ônibus, trabalhando, comendo,
distraindo e dormindo, até morrer. O fracasso de nossa cultura
é o desastre de nós mesmos.
*
No dia da publicação do artigo, o palacete já
havia sido demolido, na manhã de domingo

Palacete
de Antônio Pedro Naves, na manhã de 15 de dezembro |
ATIVISMO
Veja as peças de protesto produzidas por estudantes
de Comunicação
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não é progresso
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PROTESTE
Se a sociedade não se manifestar, o patrimônio cultural
de Uberaba vai continuar a ser destruído. Telefone, passe
fax, telegrama ou mande e-mail à Prefeitura de Uberaba e
à Secretaria de Obras exigindo providências para punir
os responsáveis e evitar novas demolições de
casas históricas
Secretaria
de Obras
Secretário: Osório Joaquim Guimarães
Av. Leopoldino de Oliveira, 3615
Uberaba
- MG - 38010-000
Telefone: 3332-9211 - Fax: 3333-7786
osorio@uberaba.mg.gov.br
Secretaria
Geral da Prefeitura
Carlos Nogueira
Praça Rui Barbosa, 250
Uberaba - MG - 38010-240
Telefone: 3333-6588 - Fax: 3333-6403
carlos@uberaba.mg.gov.br
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