
Casa do Artesão
exibe obras do artista plástico Mizac Limírio, feitas
a partir de estrume de vaca

André
Azevedo da Fonseca
O artista plástico
francês Marchel Duchamp (1887-1968) é tido por muitos
críticos como o detonador da crise da arte no século
XX. Fundador do Dadaísmo (movimento marcado por uma atitude
antiartística) e membro ativo do Surrealismo (ligado aos
conceitos de sonho e inconsciente freudiano), Duchamp debochava
do conceito humanista de arte e dizia que a apreciação
estética é uma questão de convenção,
de acordo cultural. "Será arte o que eu disser que é
arte", provocava.
Algumas
de suas criações, que ainda hoje inquietam a crítica,
foram os chamados readymake (algo como obras prontamente
feitas). O artista transportava objetos industriais de utilidade
prática (como uma roda de bicicleta) para ambientes fora
de seu contexto (sob um banco de cozinha, por exemplo), levava ao
museu e afirmava: isso é arte! Sua mais célebre
provocação foi a obra intitulada "A fonte".
Em 1917, Duchamp enviou um mictório (peça de banheiro
masculino usado para urinar) à Sociedade Americana dos Artistas
Independentes e garantiu: é arte!
O
mictório não tinha nada de especial, era uma peça
comum, encontrada em qualquer banheiro. A elaboração
artística estava no sarcasmo em apresentá-la em um
museu. Ele dizia que, ao incorporar no objeto a intenção
do artista, essa peça passava a ter um conceito artístico.
Essa idéia acabou ampliando a noção de obra
de arte. Evidentemente, o objetivo implícito também
era chocar e desafiar o espectador, rompendo com os dogmas acadêmicos.
Quase
um século depois, reverenciando e ecoando os readymakes
de Duchamp, o artista plástico uberabense Mizac Limírio
desceu mais fundo no ralo. Em 2002 ele teve a coragem de expôr,
na Casa do Artesão, a mostra Dejeções Anônimas,
onde apresentou seu conceito de evacuarte. Nessas obras,
o artista utiliza-se de uma das matérias-primas mais abundantes
da cidade: o estrume de boi.
Estrume
é cultura
"Por
viver em uma cidade cuja história é dominada pelo
Zebu, o excremento do gado faz parte do contexto de Uberaba. Por
isso, a matéria-prima estrume acaba sendo muito ligada à
minha realidade. A questão é: isso pode ser utilizado
como matéria-prima para a arte?", questiona. Para ele,
é aí que entra o preconceito. O esterco sempre foi
um material amplamente utilizado pelo homem. Até o começo
do século XX servia, por exemplo, como uma espécie
de cimento artesanal na construção de casas. Em muitas
localidades rurais isso ainda acontece. É comum também,
nos bairros da cidade, ver aposentados pagando gorjetas a garotos
da vizinhança para recolherem esterco do asfalto, que serão
utilizados como adubo em hortas caseiras. Apesar dos poucos tostões,
os meninos costumam fazer o serviço com naturalidade, pois
pegar em cocô de boi não é visto com repugnância.
"As fezes são um processo natural. Se você não
passa por esse processo, você está enrolado! É
engraçado o ser humano ter nojo. O lado racional não
percebe que isso faz parte do ciclo de vida", diz o artista.
Mizac
mora no bairro Jardim Espírito Santo e afirma que sempre
vê gado passeando pelo asfalto. "É normal passar
vaca na porta da minha casa. O pessoal tenta prender as bichinhas
no pasto, mas elas são teimosas". Entretanto, ele observa
que isso é parte da cultura local. Por isso, quando admite
que vive em uma cidade onde vacas passeiam pela rua, isso não
significa, de maneira nenhuma, que pretende ridicularizar Uberaba.
"Minha irmã viveu em Santos durante 30 anos e veio morar
em Uberaba. Um dia foi trabalhar de manhã e se assustou terrivelmente
ao ver uma vaca passeando tranquila pela rua. Aquilo, para ela,
foi como se tivesse visto um tigre, um rinoceronte, um bicho perigoso!
Para a relação de mundo dela pode ser exótico.
Mas para nós, isso é normal. Pode acontecer é
acidente de trânsito, mas isso é outra questão".
Como
se sabe, vaca não tem cerimônia e libera todos os seus
instintos pelo asfalto. O artista plástico passou a sair
pelas ruas e pastos para observar e coletar essa matéria-prima,
imaginando coisas
"Eu me tornei um crítico de
bosta. Não era qualquer uma que eu pegava. Teve um processo
de escolha, uma seleção. Eu tentei observar a plasticidade,
as peças que, na minha opinião, tinham textura, formato.
Só eu mesmo, vianjandão, para tirar proveito dessas
coisas", admite.
A
coleta foi feita no inverno, aproveitando a estação
seca para garantir o formato das peças. "As que já
estavam mais ou menos no jeito eu já levava. As que ainda
estavam moles, eu marcava o lugar e pegava depois. Levava pra casa,
deixava secando e dava o tratamento final." Mizac garante que
os formatos originais moldados pela natureza da vaca foram mantidos
nas obras. "Do jeito que a bichinha soltou, foi para o quadro."
As
obras
O
artista plástico afirma que o conceito da evacuarte
é um conjunto de arte e provocação, estética
e questionamento. "São as leituras possíveis
de um objeto: para quais fins o esterco pode ser usado?" A
mostra Dejeções Anônimas é composta
por 18 quadros com medida de 34x28cm, com as peças envernizadas
sob um fundo trabalhado com pigmentos naturais (terra e pó
de arenito), e esmalte sintético. "É muito louco
o encontro do material sintético e do natural. O desenho
de fundo foi meio aleatório, reforçando a idéia
da espontaneidade da produção do excremento, simbolizando
a naturalidade do processo de excreção."
Mas
apesar do aspecto aleatório, Mizac admite que buscou, em
suas obras, certa figuração (tendência em criar
formas semelhantes a objetos ou coisas, para evitar a abstração
total). "Eu busquei ser figurativo. É a necessidade
que o ser humano tem do figurativo. Deixei uma pista para as pessoas
enxergarem alguma coisa. Mas não quero que as pessoas vejam
só o que eu vi. Cada um vê e projeta a imagem que está
em si mesmo. Em um dos quadros, uma pessoa enxergou uma coisa de
santidade, meio de maternidade, ou feto. Você pode olhar e
dizer: olha, é a cara do meu chefe, é a cara do
meu vizinho. Tem esse lado também".
E as obras finais
ficaram belas? "Aí é que está. Ficaram
interessantes. Ficaram belas no sentido de eu ter conseguido resolver
o que eu queria. Eu resolvi a questão, e isso é belo".
Um dos quadros que mais o instigou foi a obra feita a partir de
uma pelotona encontrada na sua rua. Na hora da coleta, o artista
percebeu um pedaço de asfalto incrustrado. "Tem gente
que não acredita nesse encontro da civilização
com o natural, mas não fui eu quem inseri esse pedaço
de asfalto, ele veio pronto. É a vaca interferindo também
na cidade, de forma involuntária, é claro, mas registrando
sua existência", filosofa.
Veja algumas evacuartes de Mizac Limírio
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