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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 232, em 10 de dezembro de 2002

andre.azevedo@uniube.br

 


Casa do Artesão exibe obras do artista plástico Mizac Limírio, feitas a partir de estrume de vaca

André Azevedo da Fonseca

O artista plástico francês Marchel Duchamp (1887-1968) é tido por muitos críticos como o detonador da crise da arte no século XX. Fundador do Dadaísmo (movimento marcado por uma atitude antiartística) e membro ativo do Surrealismo (ligado aos conceitos de sonho e inconsciente freudiano), Duchamp debochava do conceito humanista de arte e dizia que a apreciação estética é uma questão de convenção, de acordo cultural. "Será arte o que eu disser que é arte", provocava.

Algumas de suas criações, que ainda hoje inquietam a crítica, foram os chamados readymake (algo como obras prontamente feitas). O artista transportava objetos industriais de utilidade prática (como uma roda de bicicleta) para ambientes fora de seu contexto (sob um banco de cozinha, por exemplo), levava ao museu e afirmava: isso é arte! Sua mais célebre provocação foi a obra intitulada "A fonte". Em 1917, Duchamp enviou um mictório (peça de banheiro masculino usado para urinar) à Sociedade Americana dos Artistas Independentes e garantiu: é arte!

O mictório não tinha nada de especial, era uma peça comum, encontrada em qualquer banheiro. A elaboração artística estava no sarcasmo em apresentá-la em um museu. Ele dizia que, ao incorporar no objeto a intenção do artista, essa peça passava a ter um conceito artístico. Essa idéia acabou ampliando a noção de obra de arte. Evidentemente, o objetivo implícito também era chocar e desafiar o espectador, rompendo com os dogmas acadêmicos.

Quase um século depois, reverenciando e ecoando os readymakes de Duchamp, o artista plástico uberabense Mizac Limírio desceu mais fundo no ralo. Em 2002 ele teve a coragem de expôr, na Casa do Artesão, a mostra Dejeções Anônimas, onde apresentou seu conceito de evacuarte. Nessas obras, o artista utiliza-se de uma das matérias-primas mais abundantes da cidade: o estrume de boi.

Estrume é cultura

"Por viver em uma cidade cuja história é dominada pelo Zebu, o excremento do gado faz parte do contexto de Uberaba. Por isso, a matéria-prima estrume acaba sendo muito ligada à minha realidade. A questão é: isso pode ser utilizado como matéria-prima para a arte?", questiona. Para ele, é aí que entra o preconceito. O esterco sempre foi um material amplamente utilizado pelo homem. Até o começo do século XX servia, por exemplo, como uma espécie de cimento artesanal na construção de casas. Em muitas localidades rurais isso ainda acontece. É comum também, nos bairros da cidade, ver aposentados pagando gorjetas a garotos da vizinhança para recolherem esterco do asfalto, que serão utilizados como adubo em hortas caseiras. Apesar dos poucos tostões, os meninos costumam fazer o serviço com naturalidade, pois pegar em cocô de boi não é visto com repugnância. "As fezes são um processo natural. Se você não passa por esse processo, você está enrolado! É engraçado o ser humano ter nojo. O lado racional não percebe que isso faz parte do ciclo de vida", diz o artista.

Mizac mora no bairro Jardim Espírito Santo e afirma que sempre vê gado passeando pelo asfalto. "É normal passar vaca na porta da minha casa. O pessoal tenta prender as bichinhas no pasto, mas elas são teimosas". Entretanto, ele observa que isso é parte da cultura local. Por isso, quando admite que vive em uma cidade onde vacas passeiam pela rua, isso não significa, de maneira nenhuma, que pretende ridicularizar Uberaba. "Minha irmã viveu em Santos durante 30 anos e veio morar em Uberaba. Um dia foi trabalhar de manhã e se assustou terrivelmente ao ver uma vaca passeando tranquila pela rua. Aquilo, para ela, foi como se tivesse visto um tigre, um rinoceronte, um bicho perigoso! Para a relação de mundo dela pode ser exótico. Mas para nós, isso é normal. Pode acontecer é acidente de trânsito, mas isso é outra questão".

Como se sabe, vaca não tem cerimônia e libera todos os seus instintos pelo asfalto. O artista plástico passou a sair pelas ruas e pastos para observar e coletar essa matéria-prima, imaginando coisas… "Eu me tornei um crítico de bosta. Não era qualquer uma que eu pegava. Teve um processo de escolha, uma seleção. Eu tentei observar a plasticidade, as peças que, na minha opinião, tinham textura, formato. Só eu mesmo, vianjandão, para tirar proveito dessas coisas", admite.

A coleta foi feita no inverno, aproveitando a estação seca para garantir o formato das peças. "As que já estavam mais ou menos no jeito eu já levava. As que ainda estavam moles, eu marcava o lugar e pegava depois. Levava pra casa, deixava secando e dava o tratamento final." Mizac garante que os formatos originais moldados pela natureza da vaca foram mantidos nas obras. "Do jeito que a bichinha soltou, foi para o quadro."

As obras

O artista plástico afirma que o conceito da evacuarte é um conjunto de arte e provocação, estética e questionamento. "São as leituras possíveis de um objeto: para quais fins o esterco pode ser usado?" A mostra Dejeções Anônimas é composta por 18 quadros com medida de 34x28cm, com as peças envernizadas sob um fundo trabalhado com pigmentos naturais (terra e pó de arenito), e esmalte sintético. "É muito louco o encontro do material sintético e do natural. O desenho de fundo foi meio aleatório, reforçando a idéia da espontaneidade da produção do excremento, simbolizando a naturalidade do processo de excreção."

Mas apesar do aspecto aleatório, Mizac admite que buscou, em suas obras, certa figuração (tendência em criar formas semelhantes a objetos ou coisas, para evitar a abstração total). "Eu busquei ser figurativo. É a necessidade que o ser humano tem do figurativo. Deixei uma pista para as pessoas enxergarem alguma coisa. Mas não quero que as pessoas vejam só o que eu vi. Cada um vê e projeta a imagem que está em si mesmo. Em um dos quadros, uma pessoa enxergou uma coisa de santidade, meio de maternidade, ou feto. Você pode olhar e dizer: olha, é a cara do meu chefe, é a cara do meu vizinho. Tem esse lado também".

E as obras finais ficaram belas? "Aí é que está. Ficaram interessantes. Ficaram belas no sentido de eu ter conseguido resolver o que eu queria. Eu resolvi a questão, e isso é belo". Um dos quadros que mais o instigou foi a obra feita a partir de uma pelotona encontrada na sua rua. Na hora da coleta, o artista percebeu um pedaço de asfalto incrustrado. "Tem gente que não acredita nesse encontro da civilização com o natural, mas não fui eu quem inseri esse pedaço de asfalto, ele veio pronto. É a vaca interferindo também na cidade, de forma involuntária, é claro, mas registrando sua existência", filosofa.



Veja algumas evacuartes de Mizac Limírio

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