
Casa histórica
foi demolida na calada do domingo
fotos:
André Azevedo

Pedreiro
trabalha nos escombos onde, até sábado, existia
uma importante edificação do patrimônio
cultural de Uberaba
|
André
Azevedo da Fonseca
Na
calada da manhã de 8 de novembro, um chuvoso domingo, mais
uma casa histórica foi destruída no centro de Uberaba.
A edificação localizava-se na rua São Sebastião,
5, ao lado do antigo Solar dos Mendes, atual Vila Real. Era uma
construção de 1933, considerada uma expressão
representativa do estilo de arquitetura eclética que predominou
em um período histórico da cidade.
Devido
à sua importância cultural, a casa tinha sido inventariada
pelo Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico
de Minas Gerais (Iepha-MG) em 1987. O inventário é
o primeiro passo para a proteção legal do bem cultural.
Esse documento, disponível na Fundação Cultural,
é constituído de descrição do imóvel,
levantamento histórico e registro fotográfico. Apesar
de não ser uma garantia tão rigorosa quanto o tombamento,
o inventário pode ser utilizado em processos no Ministério
Público para alegar judicialmente seu valor histórico.
Os arquitetos responsáveis por esse inventário, Carlos
Henrique Rangel e Viderval de Oliveira Dias, avaliaram a estrutura
do imóvel e concluíram: "seu estado de conservação
é bom".
Heladir
Silva, professora do curso de História da Uniube, lamentou
essa destruição. "Isso é terrível. É
uma falta de consciência sobre a importância da preservação
da memória", disse. Ela lembrou da admiração
que o historiador da USP Nelson Schapochnik (um dos autores da série
História da Vida Privada no Brasil) demonstrou por
essa casa quando veio a Uberava, em maio deste ano, durante a Semana
de Seminários. "Foi uma das construções que
mais chamaram sua atenção", disse Heladir.

Cidade perdeu casa
histórica, localizada na rua São Sebastião
|
De
acordo com a assessora do Conselho Deliberativo Municipal de Patrimônio
Histórico de Artístico de Uberaba (Condemphau), a
historiadora Sônia Fontoura, os proprietários não
podiam ter feito isso. Mesmo não sendo individualmente tombada,
a casa localizava-se na área de entorno (vizinhanças
de bens tombados) da Câmara Municipal, o que pressupõe
proteção legal. Essa área protegida engloba
a praça Rui Barbosa e mais sete quarteirões que a
circundam. A casa compunha um conjunto urbanístico do centro
histórico da cidade e ficava na rua de outro importante bem
tombado pelo município: o Palácio do Bispo. Todas
as intervenções nessa região devem ser autorizadas,
portanto, pelo Condemphau.
Destruição
ilegal
Em
entrevista por telefone ao Revelação, Miriam
Isaque Fleming, mãe de Daniela Isaque Fleming, a proprietária
do imóvel, disse que nada foi feito de forma ilegal. "Na
semana passada, demos entrada em um projeto de reforma, mantendo
as características do imóvel. Considero que foi feito
uma reforma, e não demolição". Segundo ela,
engenheiros contratados pela família haviam realizado uma
pesquisa e constatado que não havia impedimento algum. "O
imóvel não estava tombado. Só se tombaram hoje!
Eles gostam só de atrapalhar o progresso". Ela alega que
a casa estava descaracterizada. "Não tinha estilo nenhum,
era uma miscelânea", observou. Além disso, garantiu
que o piso de madeira estava muito antigo, e havia cedido em parte.
Segundo ela, a intenção foi evitar um desabamento.
"A caracterização serve pra quê? Pra colocar
em risco de vida para a população?", justifica-se.

Apesar
da destruição total, proprietária insiste
em afirmar que fez uma "reforma" |
Mirian
Fleming disse que pretende construir lojas e salas comerciais no
local. "A pessoa que compra, como comprei, quer fazer um investimento.
E tem que dar retorno. O que fiz foi similar ao projeto da esquina
[o Vila Real]". Ela reclamou que, "além de querer construir
para o progresso de Uberaba, gerar empregos novos, sou taxada de
ter agido de forma irresponsável, sendo que eu estou agindo
de forma correta e transparente, pois meu programa de reforma está
sendo cumprido. Em momento algum pleiteou-se demolição".
Entretanto,
em entrevista ao Revelação, o Procurador Geral
do Município, Dr. Paulo Eduardo Salge, afirmou que essa demolição
não havia sido autorizada pela Secretaria de Obras da Prefeitura,
ou seja, os proprietários não haviam obtido o alvará
de demolição. "Essa destruição foi feita
de forma afrontosa, desrespeitosa, sorrateira e criminosa, pois
descumpriu um regulamento administrativo", afirmou. O Procurador
disse que o caso será levado ao Ministério Público
para instauração imediata de sanções
administrativas, além de processo jurídico e criminal.
Para ele, a proprietária causou um dano coletivo. "Depois
desse ato, a área é praticamente um objeto de litígio.
Os proprietários não vão conseguir alvará
de construção até que a situação
se resolva".
Salge
afirma que pode haver um agravante neste caso: a reincidência.
Sônia Fontoura afirmou ter percebido, há alguns dias,
que o telhado estava sendo derrubado. Ela avisou a Secretaria de
Obras, que enviou um fiscal para fazer a notificação
e registrar a impugnação. Segundo ela, o proprietário
deveria formalizar o pedido de demolição pra continuar.
Mas ela afirma que isso não foi feito. No domingo, Sônia
foi subitamente avisada que a casa estava sendo derrubada e, de
acordo com ela, sem o conhecimento da Secretaria de Obras. Ela foi
ao local e chamou a Polícia Militar para registrar o boletim
de ocorrência, (nº 77844) acusando a demolição.
Mas a casa já havia sido destruída. "Foi muito rápido",
lamentou Sônia. Setenta anos de história no lixo, em
apenas algumas horas.
Conscientização
Sônia
Fontoura disse que Uberaba "ainda" pode ser considerada uma cidade
monumento. "Uberaba possui edificações de estilo eclético
muito representativas e em bom estado de conservação.
Ainda há memória a ser preservada, mas temos que trabalhar
muito". Segundo ela, atualmente há doze processos de tombamento,
entre edificações históricas e patrimônio
natural, que estão em fases conclusivas. Paralelamente, o
Condemphau realiza um estudo para tombar conjuntos arquitetônicos
inteiros, em vez de tomar as casas individualmente.
Sônia
lembra que é fundamental a conscientização
de toda a sociedade, no sentido de valorizar e respeitar a história
da cidade, representada em suas edificações históricas.
Para ela, a destruição dessas casas faz com que os
moradores percam as referências que os identificam com o município.
Além disso, lembra que um direito individual jamais deve
prevalecer sobre o direito coletivo, "que é o direito, de
toda a população de Uberaba, de participar de sua
cultura histórica". Ela acredita que, quando as pessoas perceberem
o valor do patrimônio cultural, o recurso ao tombamento será
desnecessário, pois a própria sociedade e sobretudo
os proprietários vão se encarregar de sua proteção.
PROTESTE
Se a sociedade não se manifestar, o patrimônio cultural
de Uberaba vai continuar a ser destruído. Telefone, passe
fax, telegrama ou mande e-mail à Prefeitura de Uberaba e
à Secretaria de Obras exigindo providências para punir
os responsáveis e evitar novas demolições de
casas históricas
Secretaria
de Obras
Secretário: Osório Joaquim Guimarães
Av. Leopoldino de Oliveira, 3615
Uberaba
- MG - 38010-000
Telefone: 3332-9211 - Fax: 3333-7786
osorio@uberaba.mg.gov.br
Secretaria
Geral da Prefeitura
Carlos Nogueira
Praça Rui Barbosa, 250
Uberaba - MG - 38010-240
Telefone: 3333-6588 - Fax: 3333-6403
carlos@uberaba.mg.gov.br
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enigma da conservação
Patrimônio histórico e cultural só tem sentido
enquanto consciência crítica do presente
Patrimônio
cultural dá sentido à vida da cidade
Realizações históricas caracterizam a originalidade
de cada população e permitem que os moradores se identifiquem
com seu cotidiano
Casa da esquina assombrou imaginário
popular
Filhas e vizinhos morrem de tuberculose. Mansão é
demolida no início do século XX. Nunca mais foi construído
nada no terreno desde então. Ninguém tem fotos da
casa
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