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Contador
de histórias traz relatos fantásticos do cotidiano
camponês venezuelano

Eloy Padilla
é músico e toca o "quatro", instrumento
de cordas, de grande riqueza rítmica e melódica,
fundamental na música popular venezuelana. (É
mais ou menos uma mistura do cavaquinho com viola). Ele veio
ao Brasil para visitar o filho Adrián, em Uberaba
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André
Azevedo da Fonseca
O camponês
venezuelano Eloy Padilla, 80 anos, é desses que não
perde a oportunidade de disparar um galanteio à qualquer
moça de batom que se aproxima cheia de sorrisos. Nasceu em
Guayurebo, no Estado de Yaracuy, área tradicionalmente rural
da Venezuela.
Uma
das características tradicionais dos moradores dessa região
é a habilidade na arte da boa conversa. A literatura oral
é uma expressão muito fértil nessa terra repleta
de bons contadores de história. Com sagacidade natural, os
yaracuyanos dominam aqueles jogos de revelar e esconder e, dizendo
e não dizendo, deliciam o ouvinte com os casos mais extraordinários
da Venezuela. E o velho Eloy Padilla não poderia deixar de
ser um dos melhores deles. É comum ouvir do velho camponês
relatos fabulosos de fantasmas, criaturas mágicas e animais
encantados.
"Essas
narrativas estão muito ligadas ao imaginário e à
cultura camponesa local. Pela própria paisagem, pela realidade
cultural, eles estão muito ligados aos fenômenos da
natureza", explica o jornalista e professor da Uniube, Adrián
Padilla, um dos doze filhos de Eloy. Histórias com "culebras"
(serpentes) fantásticas, por exemplo, fervilham no cotidiano
de Yaracuy. "São muito exageradas. As serpentes falam,
são exageradamente compridas, e aparecem em qualquer lugar."
Até
os vegetais rendem relatos fabulosos nessa região. "Uma
história que meu pai sempre conta é quando, caminhando
no meio de uma plantação de abóbora, perdeu
o burro de carga. Ele ficou desesperado. Se chegasse em casa sem
o burro, o pai dele ia dar uma surra. Ficou horas perdido, até
que, distraído, olhou dentro de uma abóbora. E não
é que o burro estava escondido lá dentro?!! Imagina
o tamanho da abóbora!" Histórias de perseguições
de tigres são freqüentes. "Lá existem muitos
gatos monteses, e eles costumam exagerar".
O
próprio Eloy conta um caso pitoresco que explicaria o motivo
de sua baixa estatura. "Sempre gostei de dançar. Quando
garoto, ainda pequenino, era sempre chamado para dançar com
uma mulher muito gorda, que tinha uns peitos enormes. Ela colocava
os peitos em cima da minha cabeça e dançava horas
comigo assim. É por isso que não cresci muito e fiquei
baixinho, rá rá rá rá!"
Aventuras
na capital
"Meu
pai sempre foi aventureiro, com vontade para aventuras, sempre procurando
coisas novas", diz Adrián. Um dia, Eloy foi convidado
para uma viagem de trabalho. Deveria fazer um frete de caminhão
à capital. Mas aconteceu que o jovem camponês
ele tinha 20 anos ficou deslumbrado com Caracas (a capital
da Venezuela). Eram avenidas, carros, bondes, trens maravilhas
que não existiam em Yaracuy, no distante 1945. Nessa época,
o país estava se industrializando por causa da crescente
exploração do petróleo. "Meu pai entrou
naquela diáspora interna de muitos camponeses atrás
da terra prometida, e Caracas era um desses pólos",
conta Adrián.
Em
vez de retornar para Guayurebo, Eloy inventou de procurar emprego
em uma fábrica e acabou se instalando na capital. "Foi
para Yaracuy e convenceu minha mãe, camponesa também;
e junto com o meu irmão mais velho, ainda bebê, mudaram-se
todos para Caracas." Assim que chegaram à cidade, explodiu
um golpe de Estado, uma revolução contra o regime
militar da época. "Minha mãe, camponesa ingênua,
escutou as explosões e queria saber onde estavam soltando
os fogos. Ela pensou que era uma festa da padroeira. Não
tinha referência nenhuma de guerra. A dona da casa é
que gritou: vai, se protege! Isso é a revolução!"
Eloy
fez muitas coisas em Caracas. Trabalhou como operário em
várias áreas, como lixeiro, como frentista de posto
de gasolina. "Até que um dia estavam construindo a cidade
universitária e ele foi procurar serviço. Só
tinha vaga para operador de máquinas pesadas, e ele disse:
é isso mesmo que eu sei fazer!" Mas, na verdade,
não sabia nada, nem tinha idéia. Um funcionário
foi designado para mostrar onde ficavam as máquinas e, no
caminho, Eloy admitiu: olha, eu preciso do emprego, só
que eu não sei nada disso não. Mas eu aprendo!
"O funcionário, vendo a coragem dele, decidiu ensinar."
Eloy aprendeu direito e fez carreira como motorista de caminhão
e operador de maquinária pesada, relata Adrián.
Histórias
na cidade
Nesse
período, o yaracuyano viajou por toda a Venezuela. Evidentemente,
aí são montes de histórias de estrada, de fantasmas,
de damas de branco que aparecem para os mulherengos nas horas mais
inadequadas, e coisas assim. "Uma história que ele conta,
entre outras, é de uma estrada bem isolada, de interior,
onde aconteceu um caso bem estranho". Eloy levava um carregamento
de refrigerante e, no meio da estrada, em plena madrugada, ele e
o ajudante viram uma mulher no acostamento. Imaginando a possibilidade
de alguma aventura amorosa, pararam. O ajudante desceu pra conversar
com a moça, e começou a demorar... e demorava
e demorava
Eloy, conivente, ficou esperando, achando que já
deveria estar acontecendo "alguma coisa" entre os dois
Subitamente,
o colega aparece esbaforido à porta do caminhão, quase
que engatinhando, sem respirar direito, branco e gelado feito defunto,
olhos esbugalhados, dizendo "é horrível, é
horrível". Eloy preferiu nem descer do carro. Puxou
o amigo à força e tentou arrancar com o caminhão.
O colega não dizia mais nada além daquela engasgado
"é horrível, é horrível".
Pela
cara de espanto do companheiro, ele começou a imaginar mil
coisas que poderiam ter acontecido e ficou tão assustado
quanto o amigo. No momento em que começou a mexer na embrenhagem,
percebeu que suas pernas não conseguiam se movimentar direito.
Sentiu que alguma coisa roçava em seus pés e, traiçoeiramente,
o agarrava com força. Mas Eloy não tinha coragem de
olhar para baixo e ver o que estava acontecendo: e se fosse a
defunta com suas mãos podres, esqueléticas segurando
minhas pernas e querendo me levar para o purgatório?
Mas chegou um momento que tinha que olhar. E olhou!
Na
época, as estradas normalmente eram de terra batida. Era
comum usar máscaras para se proteger da poeira. Em dias em
que não havia muito vento, caminhoneiros costumavam dependurar
as máscaras no painel. O que estava puxando seus pés,
na verdade, eram os elásticos da máscara que haviam
caído e se enroscado na embrenhagem.
Sobre
a horrível moça da estrada, o ajudante não
falou mais dela. Dizia ter visto uma coisa horrível, saindo
fogo, mas nunca explicou direito.
Outra
dessas histórias ocorreu no nascimento de um dos filhos.
Todos os meninos exceto um, o único que nasceu em
hospital, entre os doze irmãos vieram ao mundo pelas
mãos de uma parteira. Que berçário que nada,
nasceram nos quartos mesmo. "Certa vez, meu pai chegou em casa
às 2 da manhã, e minha mãe já estava
em trabalho de parto. Ele foi correndo buscar a madrinha Maria,
a parteria da família", conta Adrián. Eloy ficou
com medo porque Maria morava exatamente ao lado do cemitéro
do bairro, na primeira casa depois do muro. "Ele ficou com
medo, mas foi".
Chegando
próximo ao muro, o medo bateu mais forte. Eloy ficou um tempo
parado, pensando e tomando coragem: tenho que atravessar, minha
mulher vai dar à luz". Então viu algumas
sombras que subitamente passaram a deslizar pelos tijolos. Elas
começaram a crescer e formaram uma mão gigante que
o chamava com o dedo: venha
venha... venha... Seu coração
gelou! Eram as falangetas da morte querendo levá-lo ao abismo!
Ao olhar para trás, percebeu que essa sombra era, na verdade,
de uma folha de bananeira que, com a lua cheia ao fundo, estava
se mexendo com o vento.
Nesse
exato momento, aparece um sujeito que caminhava por aquelas bandas.
Eloy ficou mais corajoso, já que agora tinha companhia, e
voltou a caminhar pelo muro em direção ao novo "amigo".
Apresentou-se ao homem, puxou conversa, contou o caso do parto da
mulher e o acompanhou na lenta caminhada pela madrugada. Quase no
ponto de chegada, para ganhar intimidade, Eloy colocou a mão
no ombro do sujeito e perguntou: puxa, você não
fica com medo de caminhar no cemitério, nesse horário?
E o homem, sem virar o rosto, respondeu: eu ficava antigamente
quando era vivo!
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