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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 229, em 19 de novembro de 2002

andre.azevedo@uniube.br

 


Contador de histórias traz relatos fantásticos do cotidiano camponês venezuelano


Eloy Padilla é músico e toca o "quatro", instrumento de cordas, de grande riqueza rítmica e melódica, fundamental na música popular venezuelana. (É mais ou menos uma mistura do cavaquinho com viola). Ele veio ao Brasil para visitar o filho Adrián, em Uberaba
André Azevedo da Fonseca

O camponês venezuelano Eloy Padilla, 80 anos, é desses que não perde a oportunidade de disparar um galanteio à qualquer moça de batom que se aproxima cheia de sorrisos. Nasceu em Guayurebo, no Estado de Yaracuy, área tradicionalmente rural da Venezuela.

Uma das características tradicionais dos moradores dessa região é a habilidade na arte da boa conversa. A literatura oral é uma expressão muito fértil nessa terra repleta de bons contadores de história. Com sagacidade natural, os yaracuyanos dominam aqueles jogos de revelar e esconder e, dizendo e não dizendo, deliciam o ouvinte com os casos mais extraordinários da Venezuela. E o velho Eloy Padilla não poderia deixar de ser um dos melhores deles. É comum ouvir do velho camponês relatos fabulosos de fantasmas, criaturas mágicas e animais encantados.

"Essas narrativas estão muito ligadas ao imaginário e à cultura camponesa local. Pela própria paisagem, pela realidade cultural, eles estão muito ligados aos fenômenos da natureza", explica o jornalista e professor da Uniube, Adrián Padilla, um dos doze filhos de Eloy. Histórias com "culebras" (serpentes) fantásticas, por exemplo, fervilham no cotidiano de Yaracuy. "São muito exageradas. As serpentes falam, são exageradamente compridas, e aparecem em qualquer lugar."

Até os vegetais rendem relatos fabulosos nessa região. "Uma história que meu pai sempre conta é quando, caminhando no meio de uma plantação de abóbora, perdeu o burro de carga. Ele ficou desesperado. Se chegasse em casa sem o burro, o pai dele ia dar uma surra. Ficou horas perdido, até que, distraído, olhou dentro de uma abóbora. E não é que o burro estava escondido lá dentro?!! Imagina o tamanho da abóbora!" Histórias de perseguições de tigres são freqüentes. "Lá existem muitos gatos monteses, e eles costumam exagerar".

O próprio Eloy conta um caso pitoresco que explicaria o motivo de sua baixa estatura. "Sempre gostei de dançar. Quando garoto, ainda pequenino, era sempre chamado para dançar com uma mulher muito gorda, que tinha uns peitos enormes. Ela colocava os peitos em cima da minha cabeça e dançava horas comigo assim. É por isso que não cresci muito e fiquei baixinho, rá rá rá rá!"

Aventuras na capital

"Meu pai sempre foi aventureiro, com vontade para aventuras, sempre procurando coisas novas", diz Adrián. Um dia, Eloy foi convidado para uma viagem de trabalho. Deveria fazer um frete de caminhão à capital. Mas aconteceu que o jovem camponês – ele tinha 20 anos – ficou deslumbrado com Caracas (a capital da Venezuela). Eram avenidas, carros, bondes, trens — maravilhas que não existiam em Yaracuy, no distante 1945. Nessa época, o país estava se industrializando por causa da crescente exploração do petróleo. "Meu pai entrou naquela diáspora interna de muitos camponeses atrás da terra prometida, e Caracas era um desses pólos", conta Adrián.

Em vez de retornar para Guayurebo, Eloy inventou de procurar emprego em uma fábrica e acabou se instalando na capital. "Foi para Yaracuy e convenceu minha mãe, camponesa também; e junto com o meu irmão mais velho, ainda bebê, mudaram-se todos para Caracas." Assim que chegaram à cidade, explodiu um golpe de Estado, uma revolução contra o regime militar da época. "Minha mãe, camponesa ingênua, escutou as explosões e queria saber onde estavam soltando os fogos. Ela pensou que era uma festa da padroeira. Não tinha referência nenhuma de guerra. A dona da casa é que gritou: vai, se protege! Isso é a revolução!"

Eloy fez muitas coisas em Caracas. Trabalhou como operário em várias áreas, como lixeiro, como frentista de posto de gasolina. "Até que um dia estavam construindo a cidade universitária e ele foi procurar serviço. Só tinha vaga para operador de máquinas pesadas, e ele disse: é isso mesmo que eu sei fazer!" Mas, na verdade, não sabia nada, nem tinha idéia. Um funcionário foi designado para mostrar onde ficavam as máquinas e, no caminho, Eloy admitiu: olha, eu preciso do emprego, só que eu não sei nada disso não. Mas eu aprendo! "O funcionário, vendo a coragem dele, decidiu ensinar." Eloy aprendeu direito e fez carreira como motorista de caminhão e operador de maquinária pesada, relata Adrián.

Histórias na cidade

Nesse período, o yaracuyano viajou por toda a Venezuela. Evidentemente, aí são montes de histórias de estrada, de fantasmas, de damas de branco que aparecem para os mulherengos nas horas mais inadequadas, e coisas assim. "Uma história que ele conta, entre outras, é de uma estrada bem isolada, de interior, onde aconteceu um caso bem estranho". Eloy levava um carregamento de refrigerante e, no meio da estrada, em plena madrugada, ele e o ajudante viram uma mulher no acostamento. Imaginando a possibilidade de alguma aventura amorosa, pararam. O ajudante desceu pra conversar com a moça, e começou a demorar... e demorava… e demorava… Eloy, conivente, ficou esperando, achando que já deveria estar acontecendo "alguma coisa" entre os dois…

Subitamente, o colega aparece esbaforido à porta do caminhão, quase que engatinhando, sem respirar direito, branco e gelado feito defunto, olhos esbugalhados, dizendo "é horrível, é horrível". Eloy preferiu nem descer do carro. Puxou o amigo à força e tentou arrancar com o caminhão. O colega não dizia mais nada além daquela engasgado "é horrível, é horrível".

Pela cara de espanto do companheiro, ele começou a imaginar mil coisas que poderiam ter acontecido e ficou tão assustado quanto o amigo. No momento em que começou a mexer na embrenhagem, percebeu que suas pernas não conseguiam se movimentar direito. Sentiu que alguma coisa roçava em seus pés e, traiçoeiramente, o agarrava com força. Mas Eloy não tinha coragem de olhar para baixo e ver o que estava acontecendo: e se fosse a defunta com suas mãos podres, esqueléticas segurando minhas pernas e querendo me levar para o purgatório? Mas chegou um momento que tinha que olhar. E olhou!

Na época, as estradas normalmente eram de terra batida. Era comum usar máscaras para se proteger da poeira. Em dias em que não havia muito vento, caminhoneiros costumavam dependurar as máscaras no painel. O que estava puxando seus pés, na verdade, eram os elásticos da máscara que haviam caído e se enroscado na embrenhagem.

Sobre a horrível moça da estrada, o ajudante não falou mais dela. Dizia ter visto uma coisa horrível, saindo fogo, mas nunca explicou direito.

Outra dessas histórias ocorreu no nascimento de um dos filhos. Todos os meninos – exceto um, o único que nasceu em hospital, entre os doze irmãos – vieram ao mundo pelas mãos de uma parteira. Que berçário que nada, nasceram nos quartos mesmo. "Certa vez, meu pai chegou em casa às 2 da manhã, e minha mãe já estava em trabalho de parto. Ele foi correndo buscar a madrinha Maria, a parteria da família", conta Adrián. Eloy ficou com medo porque Maria morava exatamente ao lado do cemitéro do bairro, na primeira casa depois do muro. "Ele ficou com medo, mas foi".

Chegando próximo ao muro, o medo bateu mais forte. Eloy ficou um tempo parado, pensando e tomando coragem: tenho que atravessar, minha mulher vai dar à luz". Então viu algumas sombras que subitamente passaram a deslizar pelos tijolos. Elas começaram a crescer e formaram uma mão gigante que o chamava com o dedo: venha… venha... venha... Seu coração gelou! Eram as falangetas da morte querendo levá-lo ao abismo! Ao olhar para trás, percebeu que essa sombra era, na verdade, de uma folha de bananeira que, com a lua cheia ao fundo, estava se mexendo com o vento.

Nesse exato momento, aparece um sujeito que caminhava por aquelas bandas. Eloy ficou mais corajoso, já que agora tinha companhia, e voltou a caminhar pelo muro em direção ao novo "amigo". Apresentou-se ao homem, puxou conversa, contou o caso do parto da mulher e o acompanhou na lenta caminhada pela madrugada. Quase no ponto de chegada, para ganhar intimidade, Eloy colocou a mão no ombro do sujeito e perguntou: puxa, você não fica com medo de caminhar no cemitério, nesse horário? E o homem, sem virar o rosto, respondeu: eu ficava antigamente… quando era vivo!


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