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Expressões populares revelam
racismo dissimulado na cultura brasileira

Raika Julie Moisés, contrariando
as estatísticas, faz Jornalismo no curso de Comunicação
Social na Uniube. Ela sabe da importância de exigir sua
cidadania |
André Azevedo da Fonseca
Nossa herança escravocrata persiste
tão enraizada nos costumes que convém denunciá-la,
especialmente nos locais onde ela se apresenta sem dizer o nome.
O raciocínio racista, quando formulado de forma cordial,
com sorrisos simpáticos, torna-se particularmente perigoso,
pois domestica a rebeldia, amansa a indignação e enraíza
ainda mais essa mentalidade no espírito coletivo.
Chamados de "sabedoria popular", os
ditos populares e expressões idiomáticas, devido à
sua natural e imediata aceitação, podem servir de
canal para impregnar na cultura o preconceito racial. O caso clássico
do "preto de alma branca", por exemplo, já não é
admitido com a mesma ingenuidade de antes. Disfarçado em
elogio, no "preto de alma branca" está embutido um racismo
ordinário, que só é capaz de admitir dignidade
no negro se este apresentar em si a cor do branco. O negro seria
naturalmente incapaz de comportar-se educadamente, e só seria
admitido pelos brancos caso se portasse como "um deles". O dominador
confirmaria seu racismo através da indulgência ao negro
adestrado que, obedientemente, imita os valores do branco. O negro
"preto de alma branca" é tido como uma exceção,
é tolerado desde que negue sua própria alma para admitir
a "superioridade natural" do outro. Os movimentos negros já
não admitem essa distorção e hoje demonstram
elevada auto estima ao se orgulhar da riqueza da "alma negra" na
diversidade cultural do país.
Serviço de preto
Outra expressão muito popular
em nosso racismo cordial é atribuir a qualidade de "serviço
de preto" a um serviço malfeito. Provavelmente esse ditado
vem da época da escravidão oficializada, quando os
negros eram obrigados a trabalhar debaixo da chibata. Convenhamos,
o escravo não tinha nenhum motivo para fazer o trabalho bem-feito,
não tinha a mínima vontade de ser um bom e eficiente
serviçal. Pelo contrário, o dever de qualquer ser
humano submetido à escravidão é justamente
fazer o serviço da pior forma possível. Uma maneira
de expressar resistência era faz malfeito propositadamente
para driblar a violência do excesso do trabalho escravo.
Essa atitude pode ser interpretada
como uma tática da rebeldia no xadrez da dominação.
Os mais corajosos rebelavam-se, lutavam e fugiam. Os menos impetuosos
sabotavam a produtividade do branco da maneira possível.
"Trabalho de preto", portanto, deveria ser sinônimo de resistência,
indignação, protesto. Na organização
dos quilombos é que os ex-escravos faziam o verdadeiro serviço
de preto: eficiente, disciplinado e coletivista.
A professora de História da
Uniube, Eliane Mendonça, lembra que, desde o período
de escravidão, o trabalho pesado, braçal e de baixa
remuneração é destinado aos negros. Nesse sentido,
a expressão racista carrega consigo também o sentido
de trabalho árduo, de baixa qualificação. Dados
da pesquisa Mapa da população negra no mercado
de trabalho realizada pelo DIEESE em seis capitais brasileiras
durante o ano de 1998, demonstra "indicadores sistematicamente desfavoráveis
aos trabalhadores negros". De acordo com o estudo, "os rendimentos
dos trabalhadores e trabalhadoras negros são sistematicamente
inferiores aos rendimentos dos não-negros, quaisquer que
sejam as situações ou os atributos considerados".
(Dados disponíveis no sítio www.dieese.org.br)
Quem mandou?
Quando alguém faz alguma coisa
que sai errada, é muito comum ouvir a repreensão:
bem feito, quem mandou?. Nesta expressão está
embutida uma reprovação à livre iniciativa.
De acordo com o raciocínio implícito nessa pergunta,
se ninguém mandou fazer, a ação está
necessariamente errada e seria naturalmente condenada ao fracasso,
pois o erro já nasceu na vontade da iniciativa própria.
Quem mandou? Se alguém tivesse "mandado fazer", teria dado
certo ou então, o interlocutor submisso teria o conforto
de atribuir a responsabilidade do erro a quem ordenou, assumindo
sua condição de mero cumpridor de ordens.
A expressão é um misto
de paternalismo patológico com certa mentalidade escravocrata.
Ela existe para castrar o espírito empreendedor diante a
primeira falha, e impedir a aprendizagem por tentativa e erro. Aqueles
que temem o "quem mandou" tornam-se conformistas, pois a expressão
induz à percepção do erro como tragédia,
como incompetência, e não como um resíduo fundamental
do processo de aprendizagem. Essa fórmula provoca baixa auto
estima e incentiva a pedagogia do medo, levando o indivíduo
ao conformismo perante a submissão.
- No
dia 20 de novembro comemora-se o Dia Nacional da Consciência
Negra
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