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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 227, em 5 de novembro de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Sinfonia da Metrópole faz da cidade um organismo pulsante

André Azevedo da Fonseca

Uma locomotiva alucinada leva a uma cidade assustadoramente vazia e silenciosa. Enquadramentos simétricos passeiam sobre as estruturas de concreto. Pássaros bicam o asfalto. Um sujeito aparece minúsculo, ridículo, um inseto perante a imponência de um edifício. Desde os primeiros momentos, fica claro quem é o verdadeiro protagonista de Sinfonia da metrópole, filme do diretor alemão Walter Ruttmann, realizado em 1927: a própria cidade, ou melhor, sua vísceras, suas engrenagens.

A obra mostra uma visão impressionista de Berlim, da aurora do dia até a madrugada. Para marcar a coreografia do organismo da cidade, uma sinfonia, executada por uma orquestra de 75 músicos, determinou a sucessão das impressões visuais. Dividida em cinco atos, esse "documentário sinfônico" registra as principais relações que caracterizam o fenômeno urbano.

Depois do sono da madrugada, a cidade acorda, enfim. Soldados, bois e trabalhadores marcham por Berlim, seguindo a cadência industrial da partitura.

A fábrica aparece como o próprio sentido da civilização, tudo parece existir para que sua mecânica funcione. As máquinas, ao contrário dos homens, parecem ser as estruturas vivas, os verdadeiros organismos da metrópole. Operários são menos que células, funcionam como meras enzimas que catalizam a roda da engrenagem, o bate-estaca, o vai-e-volta do pistão.

Donas de casa lavam as calçadas; comerciantes, estudantes, ambulantes e lixeiros são empurrados pela lógica urbana; crianças vão à escola para aprender o funcionamento da máquina e garantir, futuramente, sua manutenção.

Estruturas móveis transformam constantemente as fisionomias da cidade, conferem-lhe humores, feições, estados de espírito. Amontoados de pessoas acotovelam-se em elevadores, portas giratórias, escadas, túneis, metrôs, bondes, automóveis. Locomotivas urbanas investem contra conjuntos habitacionais populares e penetram rasgando túneis entre as casas. A cidade aparente estar sempre em trabalho de parto. Construções em todos os lugares fazem nascer mais edifícios, mais trilhos, mais postes.

Além do rigor estético na construção e edição de cenas, o filme pode ser admirado como um documento histórico ou como uma encenação precisa da máquina do cotidiano de uma metrópole industrial.


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