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Sinfonia da Metrópole faz
da cidade um organismo pulsante
André
Azevedo da Fonseca
Uma locomotiva alucinada
leva a uma cidade assustadoramente vazia e silenciosa. Enquadramentos
simétricos passeiam sobre as estruturas de concreto. Pássaros
bicam o asfalto. Um sujeito aparece minúsculo, ridículo,
um inseto perante a imponência de um edifício. Desde
os primeiros momentos, fica claro quem é o verdadeiro protagonista
de Sinfonia da metrópole, filme do diretor alemão
Walter Ruttmann, realizado em 1927: a própria cidade, ou
melhor, sua vísceras, suas engrenagens.
A obra mostra uma visão
impressionista de Berlim, da aurora do dia até a madrugada.
Para marcar a coreografia do organismo da cidade, uma sinfonia,
executada por uma orquestra de 75 músicos, determinou a sucessão
das impressões visuais. Dividida em cinco atos, esse "documentário
sinfônico" registra as principais relações que
caracterizam o fenômeno urbano.
Depois do sono da madrugada,
a cidade acorda, enfim. Soldados, bois e trabalhadores marcham por
Berlim, seguindo a cadência industrial da partitura.
A fábrica aparece
como o próprio sentido da civilização, tudo
parece existir para que sua mecânica funcione. As máquinas,
ao contrário dos homens, parecem ser as estruturas vivas,
os verdadeiros organismos da metrópole. Operários
são menos que células, funcionam como meras enzimas
que catalizam a roda da engrenagem, o bate-estaca, o vai-e-volta
do pistão.
Donas de casa lavam
as calçadas; comerciantes, estudantes, ambulantes e lixeiros
são empurrados pela lógica urbana; crianças
vão à escola para aprender o funcionamento da máquina
e garantir, futuramente, sua manutenção.
Estruturas
móveis transformam constantemente as fisionomias da cidade,
conferem-lhe humores, feições, estados de espírito.
Amontoados de pessoas acotovelam-se em elevadores, portas giratórias,
escadas, túneis, metrôs, bondes, automóveis.
Locomotivas urbanas investem contra conjuntos habitacionais populares
e penetram rasgando túneis entre as casas. A cidade aparente
estar sempre em trabalho de parto. Construções em
todos os lugares fazem nascer mais edifícios, mais trilhos,
mais postes.
Além do rigor
estético na construção e edição
de cenas, o filme pode ser admirado como um documento histórico
ou como uma encenação precisa da máquina do
cotidiano de uma metrópole industrial.
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