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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 224, em 15 de outubro de 2002

Publicado no Observatório da Imprensa edição n. 195, de 23/10//2002

andre.azevedo@uniube.br

 


Mestre em Estudos do Futuro convida estudantes para pensar os meios de comunicação como instrumentos de transformação social


Movimento ao futuro: "As nossas vidas tomam o rumo de nossas curiosidades"
André Azevedo da Fonseca

Os meios de comunicação podem ser instrumentos para um futuro melhor e devem contribuir para a construção de um mundo novo através de imagens positivas. Esse tema foi discutido por Rosa Alegria, mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston e coordenadora do movimento Mídia da Paz, em conversa com estudantes de Comunicação Social, durante a Semana de Seminários da Universidade de Uberaba.

Rosa Alegria observou que, em geral, o conteúdo veiculado na mídia tem se mostrado, por um lado, sobrecarregado de informações pessimistas e, por outro, deixado de apresentar projeções construtivas, soluções e esperança. Para ela, essa cultura que privilegia a disseminação dos problemas e despreza a repercussão das perspectivas favoráveis é prejudicial para o conjunto da sociedade. "Essa capacidade que temos de sonhar é a grande dinâmica da vida. Sociedades que idealizam um futuro melhor são capazes de projetar o amanhã e conseguem vencer crises, guerras, epidemias e revoluções."

Ela acredita que a mídia está sobrecarregada de passado, de problemas, e não tem discutido prognósticos que superem essas crises. Como exemplo, citou aquele tipo de noticiário econômico que se contenta unicamente em anunciar que nada dá certo, que o país não tem jeito, que o Brasil está permanentemente caminhando para o abismo. "Quando o futuro vai ser notícia? Quando vai haver espaço nos jornais para as possibilidades positivas da sociedade?", perguntou.

Imagens e vozes da esperança

"Nós temos uma capacidade imensa de sonhar, mas o contexto social em que vivemos nem sempre permite", afirmou. Rosa Alegria citou estudos de Fred Polak sobre os processos da imaginação do futuro, e de David Cooperrider, que trata da ação positiva através das imagens positivas, para explicar o projeto Images and voices of hope (Imagens e vozes da esperança), uma parceria do Institute for Advanced Appreciative Inquiry, da organização espiritual Brahma Kumaris e a fundação Visions of a Better World.

Essa iniciativa propõe um diálogo internacional sobre o impacto das imagens e mensagens da mídia nas pessoas, famílias, comunidades e culturas do planeta. O objetivo é chamar a atenção para o enorme poder - e, portanto, responsabilidade - que os profissionais de comunicação têm para transformar a sociedade, assim como para os perigos de vulgarizá-la. Ela afirmou que, dependendo das escolhas editoriais, a mídia pode criar um momento de descrença, ou um processo de esperança. "As pessoas precisam estar em contato com as possibilidades."

Para ela, a mais importante imagem do futuro criada na história é a obra Utopia, de Thomas Morus. Esse escritor criou a alegoria para sugerir que, num lugar distante, existe a possibilidade de uma sociedade ideal. No livro, um viajante consegue alcançar esse lugar e passa a compará-lo com sua própria sociedade. Rosa Alegria lembrou que muitas pessoas preferem ser cínicas e encarar o mundo através da idéia da distopia, ou seja, de que não é possível nada melhor do que a realidade atual.

Segundo ela, a lógica industrial dos meios de comunicação não favorece a reflexão dos profissionais para o sentido do que estão fazendo. "Nessa correria de redigir matéria, editar, vender anúncio e concluir jornal no prazo estipulado, os comunicadores esquecem de pensar sobre o impacto que seu trabalho terá na sociedade." Ela afirmou que esses profissionais devem tem urgência em buscar o significado das coisas. "O que é ser bem sucedido na carreira? Um prêmio que se ganha é mais importante do que o trabalho com a comunidade?", provocou.

Futuro

Segundo ela, a idéia de assumir a responsabilidade de encarar os meios de comunicação como instrumento de transformação social é uma proposta concreta, e não um romantismo ingênuo. "Ter essa postura não significa publicar devaneios, não é uma forma de escapismo. Mas temos que entender que onde há desastre, há reconstrução; onde há desarmonia encontramos também harmonia; onde há tragédia, encontramos também esperança."

Ela lembrou grande parte dos jornalistas tido como engajados costumam insistir exclusivamente na denúncia como forma de mudar a sociedade. "Não devemos ocultar a verdade, mas é necessário dar as devidas proporções aos fatos violentos, e não explorá-los comercialmente, como se vê hoje em dia." Ela argumentou que grande parte da indignação nos textos jornalísticos perde sua força de convencimento e mobilização porque "as pessoas estão exaustas de violência, as pessoas não aguentam mais ouvir denúncia". Para ela, a imprensa tem o dever de participar na busca de alternativas para resolver o problema da violência.

Rosa Alegria observou que a mídia deveria trabalhar não só o que é, mas o que poderia ser. "Se as nossas elites não sabem sonhar e roubam os nossos sonhos, a mídia pode sim, trazer imaginação e positividade". Ela afirmou que as perguntas têm o poder de mudança e, em muitos momentos, é mais importante buscar questionamentos do que ansiar pelas respostas. "As nossas vidas tomam o rumo de nossas curiosidades", concluiu.

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