fotos:
André Azevedo da Fonseca

Estudantes
ficaram impressionados com o abandono da antiga casa de Tobias
Rosa, edificação histórica localizada na
praça Rui Barbosa (detalhe). Acúmulo de sujeira
e cupim está estragando a casa aos poucos. Alunos encaminharam
um documento à prefeitura, pedindo a proteção
do bem cultural |
Desenvolvimento
da cidade
"Temos
que parar com essa idéia de que preservar é estagnar.
Mas, o que temos visto, é que edificações importantes
têm sido substituídas por construções
de má qualidade, sem integração com a cidade",
afirmou Ângela Dolabela. Essa questão foi amplamente
discutida durante o curso, pois uma das dificuldades percebidas
nas políticas de preservação é a inserção
das edificações históricas no ciclo econômico
da cidade. O que vê, são proprietários que preferem
devastar as casas, em vez de preservá-las e aproveitá-las
economicamente. Lamentavelmente, para prejuízo definitivo
dos moradores da cidade, é o que tem acontecido em Uberaba.
Como em uma doença degenerativa, a memória da população
vai sendo apagada aos poucos, e de forma irreversível.
Proprietários
costumam alegar motivos econômicos pessoais quando pretendem
destruir o patrimônio cultural das pessoas. Entretanto, de
acordo com representantes do Codemphau, muitos deles não
conhecem os incentivos fiscais que o município e o Estado
oferecem para estimular a preservação, como isenção
de IPTU, financiamentos através do programa Credi-Memória
do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), além
de assessoria para uso sustentável dos imóveis.
Marília
Machado Rangel citou um trecho da palestra do Secretário
de Estado da Cultura de Minas Gerais, Ângelo Oswaldo de Araújo
Santos, em que ele explicou o equívoco de derrubar um bem
histórico que, a cada ano, agrega mais valor quando bem conservado.
"É a velha história de matar a galinha dos ovos
de ouro e, no final, ficar sem a galinha e sem os ovos", argumentou.
Rangel disse que, em Belo Horizonte, edificações históricas
tem sido valorizadas e procuradas por comerciantes, donos de bares
e restaurantes. Uma reportagem publicada no jornal Estado de
Minas relata que os clientes passaram a preferir esses locais
por causa do charme das edificações históricas.
O aproveitamento econômico responsável, além
de garantir a preservação cultural, gera lucros aos
proprietários.
Segundo a superintendente,
ocupação urbana não é uma questão
individual. O contexto da cidade não pode ser desprezado
quando se pretende construir ou destruir uma edificação
na cidade. Nessa perspectiva o proprietário não pode
fazer o que quiser. De acordo a lei que organiza a proteção
do patrimônio histórico e artístico nacional
(decreto-lei n. 25 de 30 de novembro de 1937), quando o proprietário
se recusa a garantir a integridade da edificação considerada
patrimônio cultural, o Estado tem o dever de fazer o tombamento
de forma compulsória. Em muitos casos, os próprios
donos procuram voluntariamente o Estado para que seu imóvel
seja tombado. Outros, entretanto, ainda não se conscientizaram.
Ângela
Dolabela diz que a lei, hoje, está muito centrada no tombamento,
e isso às vezes é traumático. Marília
Rangel explicou que "antigamente, não tinha muita conversa;
o Estado decretava: tombe-se. E pronto!" Hoje, os órgãos
de proteção são mais sensíveis aos direitos
individuais e todo o processo é feito através de negociações.
O tombamento só é compulsório quando os proprietários
insistem em querer derrubar o patrimônio cultural da sociedade.
Segundo Rangel,
essas pessoas, muitas vezes por ignorarem a lei, ainda mantêm
resistência à idéia de tombamento. Ela explica
que essa medida não altera o direito de propriedade e tampouco
significa um "congelamento" da edificação.
O compromisso do proprietário com a sociedade é a
garantia das características culturais deste bem através
de uma ocupação sustentável.
Para a superintendente,
o tombamento é necessário enquanto a população
ainda desperta para a importância do seu patrimônio
cultural. "Na Europa essa consciência é forte
e eles não precisam disso." Para ela, conscientização
da sociedade é fundamental, pois são os moradores
que devem indicar o que consideram importante na sua cidade. "Da
mesma forma que estamos envolvidos emocionalmente no assunto, precisamos
envolver emocionalmente as pessoas", concluiu.
As aulas foram
ministradas durante toda a semana e envolveram, além das
exposições teóricas, debates e trabalhos práticos
de cartografia, visitas aos bens tombados e vistorias em conjuntos
urbanísticos representativos da cidade. No final do curso,
os alu-nos redigiram um documento, que foi encaminhado à
prefeitura, à Fundação Cultural e ao Codemphau,
pedindo a proteção de uma edificação
histórica abandonada, localizada na praça Rui Barbosa,
a antiga casa de Tobias Rosa, o dono do primeiro jornal da cidade.
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