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Realizações
históricas caracterizam a originalidade de cada população
e permitem que os moradores se identifiquem com seu cotidiano
fotos:
André Azevedo

Durante
a Oficina de Cultura, os estudantes fizeram trabalho prático
de cartografia. Idéia era identificar, na planta cadastral
de setores de Uberaba, bens inventariados, tombados e conjuntos
urbanísticos que necessitam de proteção
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André
Azevedo da Fonseca
"A maneira
mais eficaz de proteção é a educação."
Essa foi uma das principais conclusões da Oficina de Cultura,
curso que ocorreu de 23 a 27 de setembro na Semana de Patrimônio
Histórico, Artístico e Cultural
de Uberaba. Ângela Dolabela Cânfora, coordenadora
de inventários do Instituto Estadual de Patrimônio
Histórico de Minas Gerais (Iepha-MG), e Marília Machado
Rangel, superintendente de desenvolvimento e promoção
do mesmo Instituto, explicaram conceitos de educação
patrimonial, legislação e mecanismos oficiais de proteção
do patrimônio cultural para estudantes, professores e representantes
da prefeitura.
Para elas, o
ponto fundamental para a efetiva preservação da cidade
é o despertar da consciência histórica dos próprios
moradores para o sentido de seu patrimônio cultural. Ângela
Dolabela explicou que o conceito de cultura é amplo e envolve
diretamente o cotidiano das pessoas. Quando se fala em preservação,
não se trata apenas de edificações históricas,
mas de todas as manifestações que dão sentido
à vida de uma população.
O trabalho do
Iepha-MG é identificar e promover ações de
proteção ao conjunto de bens culturais de todo o Estado.
Segundo Dolabela, esse trabalho é sempre um grande desafio.
Primeiro, porque é muito difícil conhecer o que foi
construído ao longo do tempo, mas, sobretudo porque o conceito
de bens intangíveis ainda é muito novo (a lei que
regulamenta essa questão é de 2000). "Ainda es-tamos
aprendendo a inventariar bens imateriais, como festas religiosas
regionais, a feitura do queijo do serro (segundo ela, o primeiro
registro desse tipo no Brasil), as badaladas dos sinos de São
João del Rei, as serestas de Diamantina etc".
Para a coordenadora,
a importância cultural dessas manifestações
para a vida das pessoas, e a constante ameaça de desaparecimento,
devido a interesses econômicos individuais, justifica o esforço
em preservá-las. Essas realizações caracterizam
a originalidade de cada população, fazem com que os
moradores se identifiquem com seu cotidiano e estabeleçam
ligações afetivas com a cidade. Esses bens culturais,
repletos de significados, são as referências que fazem
com que as comunidades se sintam participantes de sua própria
história, se percebam integrados na vida de seu município.
Daí o sentido da conservação. O que se pretende
preservar, portanto, é a própria vivência cultural
dos moradores da cidade.

Estudantes
visitaram a Câmara Municipal de Uberaba. Prédio
é tombado pelo Patrimônio Histórico Municipal |
Patrimônio
universal
As representantes
do Iepha explicaram que as ações de proteção
ao patrimônio cultural realizadas pelo órgão
federal (Iphan), estadual (Iepha-MG) e municipal (Codemphau), são
fundamentadas em diversas conferências internacionais sobre
o tema. De acordo com a Recomendação relativa à
salvaguarda dos conjuntos históricos e sua função
na vida contemporânea, documento redigido na 19º
Conferência Geral da Unesco, em Nairobi, 1976, os conjuntos
históricos são considerados patrimônio universal
insubstituível, e sua "salvaguarda e integração
na vida coletiva de nossa época deveriam ser uma obrigação
para os governos e para os cidadãos em cujo território
se encontram".
Esse documento
alerta para o fato de, sob pretexto de expansão ou modernização,
estarem ocorrendo "destruições que ignoram o
que destroem e reconstruções irracionais e inadequadas".
Além disso, critica os perigos da uniformização
e despersonalização do meio ambiente urbano, argumentando
que a variedade é necessária para responder à
diversidade da sociedade. Os conjuntos históricos são
considerados testemunhos vivos da riqueza cultural, religiosa e
social da humanidade. Sua destruição significa, portanto,
o empobrecimento da cultura humana, o desaparecimento das referências
simbólicas faz com que as pessoas percam sua sensibilidade
histórica.
A Carta internacional
para a salvaguarda das cidades históricas, redigida pelo
Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), em
Washington, 1986, trouxe um conceito importante para a consciência
da defesa do patrimônio cultural. De acordo com a carta, não
há sentido em determinar que um ou outro município
seja considerado uma "cidade histórica", pois todas
as cidades são históricas. O próprio conjunto
urbano é visto como documento histórico. Nessa perspectiva,
a carta critica a destruição da cidade-documento
devido a um tipo de urbanização, nascido na era industrial,
que tem provocado perdas irreversíveis de caráter
cultural, social e mesmo econômico. O documento sugere, entre
outras medidas, a conservação e restauração
dos conjuntos históricos, adaptando-os ao desenvolvimento
coerente com a cidade. Ângela Dolabela brinca que essas e
outras cartas internacionais são a bíblia dos técnicos
do Instituto. "Tem que estar no braço o tempo todo."
Acompanhados
por Marília Rangel e a historiadora Sônia Fontoura,
assessora do Conselho Deliberativo Municipal do Patrimônio
Histórico e Artístico de Uberaba (Codemphau), os estudantes
fizeram um passeio de ônibus pelo centro e bairros representativos,
e puderam observar, na prática, o que significa entender
a cidade como um documento histórico. Através da comparação
entre os estilos arquitetônicos predominantes de cada série
de quarteirões é possível determinar, por exemplo,
as direções de crescimento da cidade, os estilos de
ocupação e a própria história do município,
ou seja, os motivos que levaram Uberaba ao modelo de desenvolvimento
urbano atual.
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