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Presidente da Federação
das Associações de Bairro de Salvador aponta vícios
na cobertura policial da imprensa

Estudantes
e profissionais da Comunicação lotaram o Auditório
Xangô 2, no Centro de Convenções da Bahia,
onde pesquisadores apresentavam trabalhos no painel Violência:
do real às imagens |
André Azevedo
da Fonseca
"O que mais choca
quando se vê a forma que jornalistas tratam a vida humana,
especialmente os pobres, é quando a gente pensa: onde é
que esses caras se formaram?" Essa questão foi instigada
por Tânia Maria Gonçalves Palma, presidente da Federação
das Associações de Bairro de Salvador (Fabs), durante
o painel Violência: do real às imagens, que
aconteceu na manhã de 3 de setembro, no 25º Congresso
Brasileiro de Ciências da Comunicação da Sociedade
Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação
(Intercom), em Salvador.
Um dos problemas apresentados
foi a diferença na cobertura que a imprensa dá para
fatos semelhantes em contextos sociais diferentes. "A gente
tem que brigar bastante com a mídia. Até o tipo de
linguagem que usam, quando se referem aos pobres, vira uma coisa
tão violenta quanto a que já sofremos no dia-a-dia".
Ela observa que, quando um crime ocorre na classe média,
a vítima tem nome, residência, profissão, amigos,
"mas quando é pobre não! A pessoa não
tem identidade, não tem residência, não tem
parentes. É menos gente". Mas quando é para apontar
culpados, a coisa é diferente (veja entrevista).
Ela disse que os moradores
se espantam muito quando, de repente, abrem o jornal e se deparam
com a foto de um conhecido do bairro, às vezes sem qualquer
identificação, nas páginas policiais. "Nós
não conseguimos chegar aos meios de comunicação
para dizer que, nos bairros, as pessoas trabalham, vivem suas vidas,
têm diversas atividades, e não são só
aquilo que sai nos jornais". Para ela, a imprensa precisa aprender
a cultivar e não, estragar a vida das pessoas.
Tânia defendeu
que o jornalista tem papel importante em traduzir os discursos das
classes sociais para que se torne possível, pelo menos, conversar.
"O problema é sério, não pode ser banalizado.
O jornalista pode ajudar, dizer que as pessoas têm uma vida".
Para ela, matéria bem escrita é aquela em que os leitores
de jornal, quando terminam o texto, passam a se perguntar: "caramba,
o que posso fazer para ajudar?"
"A gente fica
decepcionado com os profissionais da imprensa. Claro que há
pessoas dedicadas, comprometidas, que se envolvem, e isso é
bom". Ela afirma que bairros pobres se ressentem muito quando
são citados apenas quando acontecem crimes. "Os jornalistas
têm que repensar isso, especialmente na editoria de polícia.
O repórter chega lá, em 5 minutos quer terminar a
matéria, e aí pede para o suspeito, às vezes
um garoto, tirar a foto com a arma na mão! Isso não
pode! Informação mexe com as pessoas. Temos que ter
responsabilidade!", cobra.
Tânia lembrou
que é muito clara a existência de duas Bahias: a do
turista, bonita, limpa, com policiais risonhos; e a outra, onde
o povo mora, sem escola, sem coleta de lixo, onde a polícia
arrebenta. "Mas nós, descendentes de escravos, somos
resistentes e vamos ocupando o lado bom da cidade também".
Ela reafirmou a importância da imprensa em relatar também
o que está fora do cartão postal, mas lembrando-se
sempre que esses personagens frequentemente estereotipados
são seres humanos.
A palestrante concluiu
sua fala com um texto que o pensador uruguaio Eduardo Galeano apresentou
no Fórum Social Mundial, onde ele convida a um mundo onde
"a comida não será uma mercadoria e nem a comunicação
um negócio, porque a comida e a comunicação
serão direitos humanos".
O painel, que aconteceu
no auditório Xangô 2 no Centro de Convenções
de Bahia, contou com a apresentação de trabalhos das
professoras Heloiza Oliveira Gonçalves Costa (FCCV/UFBA),
Patrícia Portela (Unicef), Suzana Varjão (Moviment
Estado de Paz), Ceci Vilar (ISC-UFBA), Tânia Cordeiro (UNEB),
e foi mediado pela professora Sônia Serra (UFBA-FTC). A sócia-proponente
do painel foi a prfessora Maria Aparecida Viviane Ferraz (UNEB).
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