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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 220, em 17 de setembro de 2002

andre.azevedo@uniube.br

André Azevedo

Terreiro de Jesus. Turistas tão coloridos como as casas acotovelam-se no calçamento das ladeiras. Uma desavisada foi de salto alto e trotava soltando gritinhos "ui, ui, ui" — um passo errado, despencava e saía rolando pela Alfredo de Brito. No Zitares, um bar pequeno mas apimentado, o maior som: casais dançavam e se esfregavam naquele aperto, criando lá dentro um inferninho equatorial, arremessando lufadas de ar quente na rua. Umas estudantes de Araraquara, na maior descontração do mundo, entraram no "Fantasy Drinks" para tomar uma cerveja e, quando deram por si, entenderam que estavam era no meio de um rega-bofe de afrodites mercenárias.

Qual é a primeira impressão que o turista tem do Pelourinho? "Impressão não sei, mas sei é que vai subindo um arrepio assim na gente…", disse Bianca dos Santos, estudante de Jornalismo em Taubaté. Sua amiga Scheila de Cássia, estudante de Direito na mesma cidade, em visita a Salvador para participar de um congresso na sua área, disse que arrepiou de verdade! "Aqui é bom demais, sem explicação". Só não tinha visto (ainda) o-quê-que-o-baiano-tem. "Ainda não deu tempo", explicou.

A inglesa Laura Bray, 24, veio de Londres e já está na cidade há algumas semanas. "É muito diferente. A música, as pessoas daqui são muito interessantes. As pessoas são bonitas — foi a primeira impressão que tive! — homens e mulheres bonitos, até os gringos ficam mais bonitos aqui", delicia-se. Nessa altura, Laura, bem acompanhada por seu "nativo", já tinha visto o-quê-que-o-baiano-tem. Sua amiga Ivania Bustos, 25, chilena de Antofagasta, disse que a impressão que mais marcou foi o cheiro forte de acarajé o tempo todo e em todos os lugares.


O artista Ricardo Nery pinta e expõe seus quadros na rua. "Meu ateliê é na Alfredo Brito. Aqui é minha loja"

"A Bahia é linda", disse o publicitário Leandro Araújo, 25, baiano de Salvador. Leandro explica que aparece muito gringo nessa época porque existem períodos diferentes de férias em outros países. "Aqui rola muito alemão. E tem muitos que vêm pra passear e nunca mais vão embora! A gente brinca que é perigoso ir ao morro de São Paulo, porque se você for, não quer sair de lá mais não". E qual é o relacionamento do morador de Salvador com os turistas? "Bem, eu gosto mesmo é das turistas".

"Aqui é a terra da alegria", disse Nara de Oliveira, 22, baiana de Salvador. "Aqui é a terra é da ousadia", rebateu Viviane Marcolino, 20, cearence de Juazeiro. Da alegria!, repetia Nara. Da ousadia!, insistia Viviane: "porque na rua todo mundo fica beliscando você pelas costas. É demais!" Um estudante de Araraquara disse que só naquele ambiente é que se sentiu mesmo na Bahia. "Eu via na TV aquelas casinhas coloridas, e quando cheguei em Salvador, vi é uma cidade grande, cheia de prédio e avenida. Só quando vim ao Pelourinho, aí sim! Era isso que eu estava esperando".

O dançarino Marcelo Barros, natural e morador da cidade, critica essa visão estereotipada da Bahia. "Essas excursões adolescentes, do tipo siga o mestre, esquecem que Salvador é uma cidade metropolitana. Aqui não é só a terra do folclore, tem muita arte contemporânea antenada com o mundo globalizado, tem de tudo. Aqui não é só aquilo que se vende em pacotes de turismo", desabafa.

Uma amostra da arte contemporânea baiana pode ser encontrada justamente na Pinacoteca do Museu da Cidade, localizado no largo do Pelourinho. Além do acervo de indumentárias, colares e roupas de orixás, das esculturas sagradas africanas do núcleo II do Museu Antropológico e Etnográfico Estácio de Lima (que funciona provisoriamente neste prédio) e da coleção de bonecas de pano confeccionadas por negras escravas, encontram-se obras de Carybé, Carlos Bastos, Jenner Augusto, Rescala, Preciliano Silva, entre outros.

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