|

André
Azevedo
Terreiro
de Jesus. Turistas tão coloridos como as casas acotovelam-se
no calçamento das ladeiras. Uma desavisada foi de salto alto
e trotava soltando gritinhos "ui, ui, ui" um passo
errado, despencava e saía rolando pela Alfredo de Brito.
No Zitares, um bar pequeno mas apimentado, o maior som: casais dançavam
e se esfregavam naquele aperto, criando lá dentro um inferninho
equatorial, arremessando lufadas de ar quente na rua. Umas estudantes
de Araraquara, na maior descontração do mundo, entraram
no "Fantasy Drinks" para tomar uma cerveja e, quando deram
por si, entenderam que estavam era no meio de um rega-bofe de afrodites
mercenárias.
Qual
é a primeira impressão que o turista tem do Pelourinho?
"Impressão não sei, mas sei é que vai
subindo um arrepio assim na gente
", disse Bianca dos
Santos, estudante de Jornalismo em Taubaté. Sua amiga Scheila
de Cássia, estudante de Direito na mesma cidade, em visita
a Salvador para participar de um congresso na sua área, disse
que arrepiou de verdade! "Aqui é bom demais, sem explicação".
Só não tinha visto (ainda) o-quê-que-o-baiano-tem.
"Ainda não deu tempo", explicou.
A
inglesa Laura Bray, 24, veio de Londres e já está
na cidade há algumas semanas. "É muito diferente.
A música, as pessoas daqui são muito interessantes.
As pessoas são bonitas foi a primeira impressão
que tive! homens e mulheres bonitos, até os gringos
ficam mais bonitos aqui", delicia-se. Nessa altura, Laura,
bem acompanhada por seu "nativo", já tinha visto
o-quê-que-o-baiano-tem. Sua amiga Ivania Bustos, 25, chilena
de Antofagasta, disse que a impressão que mais marcou foi
o cheiro forte de acarajé o tempo todo e em todos os lugares.

O artista
Ricardo Nery pinta e expõe seus quadros na rua. "Meu
ateliê é na Alfredo Brito. Aqui é minha
loja" |
"A
Bahia é linda", disse o publicitário Leandro
Araújo, 25, baiano de Salvador. Leandro explica que aparece
muito gringo nessa época porque existem períodos diferentes
de férias em outros países. "Aqui rola muito
alemão. E tem muitos que vêm pra passear e nunca mais
vão embora! A gente brinca que é perigoso ir ao morro
de São Paulo, porque se você for, não quer sair
de lá mais não". E qual é o relacionamento
do morador de Salvador com os turistas? "Bem, eu gosto mesmo
é das turistas".
"Aqui
é a terra da alegria", disse Nara de Oliveira, 22, baiana
de Salvador. "Aqui é a terra é da ousadia",
rebateu Viviane Marcolino, 20, cearence de Juazeiro. Da alegria!,
repetia Nara. Da ousadia!, insistia Viviane: "porque na rua
todo mundo fica beliscando você pelas costas. É demais!"
Um estudante de Araraquara disse que só naquele ambiente
é que se sentiu mesmo na Bahia. "Eu via na TV
aquelas casinhas coloridas, e quando cheguei em Salvador, vi é
uma cidade grande, cheia de prédio e avenida. Só quando
vim ao Pelourinho, aí sim! Era isso que eu estava esperando".
O
dançarino Marcelo Barros, natural e morador da cidade, critica
essa visão estereotipada da Bahia. "Essas excursões
adolescentes, do tipo siga o mestre, esquecem que Salvador é
uma cidade metropolitana. Aqui não é só a terra
do folclore, tem muita arte contemporânea antenada com o mundo
globalizado, tem de tudo. Aqui não é só aquilo
que se vende em pacotes de turismo", desabafa.
Uma
amostra da arte contemporânea baiana pode ser encontrada justamente
na Pinacoteca do Museu da Cidade, localizado no largo do Pelourinho.
Além do acervo de indumentárias, colares e roupas
de orixás, das esculturas sagradas africanas do núcleo
II do Museu Antropológico e Etnográfico Estácio
de Lima (que funciona provisoriamente neste prédio) e da
coleção de bonecas de pano confeccionadas por negras
escravas, encontram-se obras de Carybé, Carlos Bastos, Jenner
Augusto, Rescala, Preciliano Silva, entre outros.
1 de
3 - próxima 
| página
principal |
|
 |
|
|