
Escritora mineira
vê com tristeza pessoas "comendo umas às outras" pela
vaga do morto na Academia de Letras
André
Azevedo da Fonseca

A escritora
observa que textos canônicos nunca são escritos
numa "linguagem comum" |
Adélia
Luzia Prado Freitas nasceu em Divinópolis (MG). Apresentada
ao editor por Carlos Drummond de Andrade que avaliou seus
versos como "fenomenais" teve seu primeiro livro, Bagagem,
publicado em 1976. Em 1978 lançou O coração
disparado, conquistando o Prêmio Jabuti, o principal prêmio
literário do país.
Adélia
Prado escreveu seis livros de poesia, entre eles Faca no Peito,
em 1988, e Oráculos de maio, em 1999. Além
disso, lançou seis obras em prosa, como Solte os cachorros,
em 1979; e Cacos para um vitral, em 1989. Seu último
livro é Filandras, lançado em 2001 pela editora
Record.
A
escritora mineira esteve em Uberaba a convite da livraria Alternativa
Cultural, em parceria com a escola Criativa. De manhã fez
uma passeata poética com os alunos da escola, para
quem leu trechos de suas obras. À noite participou de um
sarau no auditório da Faculdade de Medicina do Triângulo
Mineiro, onde declamou alguns de seus poemas. Esta entrevista foi
realizada na manhã de 11 de setembro, no café da Alternativa
Cultural.
As
leituras que fazia do evangelho na adolescência, que a senhora
já chamou de "furor católico", eram vocação
mística, ou na verdade um deslumbramento estético?
Adélia
Prado: As
duas coisas. No texto sagrado, no bíblico e no canônico
das celebrações etc eu via uma beleza
poética. Os textos da missa são textos poéticos,
independente de ser religiosos. A função deles, vamos
dizer, é uma revelação de uma verdade teológica,
religiosa. Mas eles são poéticos, e só por
isso eles guardam essas verdades: a verdade teológica nunca
é vazada numa linguagem comum.
Então
eu vi que o texto era muito poético, e aquilo me encantava
duplamente: pela energia espiritual e pela beleza das palavras.
A
senhora sempre se refere à poesia como uma experiência
religiosa. Deus, para a poeta Adélia Prado, é uma
realidade transcedental, ou é uma elaboração
da cultura humana?
Adélia:
Não, de jeito nenhum. Eu acho que Ele é também
uma projeção humana. É um desejo infinito que
nós temos de adoração, e de algo que nos suspende
com o sentido absoluto. Nós somos finitos e relativos, e
queremos sempre uma coisa absoluta: que esse café maravilhoso
não acabe, que a minha paixão não acabe, que
essa casa bonita permaneça. A gente tem sede de infinito
e de permanência. Então, esse ser que assegura a permanência
das coisas, é que eu chamo de Deus. É o absoluto.
Como
poeta, registrar seus textos em livros, e garantir a posteridade
de seus poemas, é também uma maneira de se sentir
imortal?
Adélia:
No sentido de que a poesia é melhor do que eu e é
mais perene do que eu
mais perene não, ela é
perene. Eu sou mortal, e ela não. Nesse sentido sim. Os "imortais"
morrem mas a poesia fica. O que é imortal é a obra.
Só por analogia é que se chama alguém de imortal,
mas isso é uma bobagem.
Por
falar nisso, o que acha da Academia Brasileira de Letras? Qual é
o seu sentido nos dias de hoje?
Adélia:
Eu não sei, porque a Academia acolhe pessoas que não
são do meio literário. E ela é uma academia
de letras! Quando eu vejo as pessoas se comendo umas às outras
para ocupar a vaga do morto, eu acho aquilo uma tristeza, um sarcófago.
Pelo jeito, você não tem vontade de ser mais uma
"imortal".
Adélia:
Não dá o menor desejo de Academia não.
A
senhora começou de verdade! a escrever poesia
depois da morte de sua mãe, e passou a escrever "torrencialmente"
depois da morte do pai. Há beleza na dor?
Adélia:
Há sim, há sim. Todo ser é belo, já
falava São Thomás de Aquino. Aquilo que é,
é belo. A dor é bela sim. Para você ver, é
tão bela que aqui em Minas Gerais se cultua mais a paixão
de Cristo do que a ressurreição (risos). Em Minas
somos todos quaresmais né, naquelas procissões
de Ouro preto, e em Minas inteira. É a Paixão, a Semana
Santa, Sexta-feira Santa, Procissão do Enterro. E a hora
que chega na ressurreição a gente quase esquece. Há
uma espécie de estética da dor. É quase como
estetizar as favelas, a miséria. Você faz fotografias
maravilhosas da pobreza, né? Então a dor é
bonita sim.
Mas
isso me parece um grande problema moral. Se conseguimos enxergar
beleza na pobreza, começaríamos então a tolerá-la,
ou mesmo desejar que a miséria se perpetue para saciar nossa
sensibilidade estética?
Adélia:
Há beleza e beleza. Por exemplo, quando Goya pinta aquele
quadro O assassinato, é horrível: estão
lá o condenado e os três soldados com os fuzis. Aquilo
é horrível
mas é belo. Não significa
que eu vou querer a pena de morte só para gozar aquela beleza.
Não é isso. Mas não posso ser impedida também
de ver beleza na forma como ele retrata o fuzilamento. É
quase horrível falar, mas é verdade. Picasso pintando
Guernica, figuras de monstros
na arte você admira
a beleza.
É
aquela história, detesto o pecado e amo o pecador. É
por aí (risos).
Faço
essa pergunta para todo escritor: a literatura diz mais sobre a
realidade do que o jornalismo?
Adélia:
Evidente! O jornalismo é factual, né? Fulano matou
ciclano. O ladrão roubou não sei o quê na favela.
Agora a arte, por vias e por um estatuto muito próprio dela,
falando a mesma coisa, revela o que está por trás
disso. Revela, desvela uma outra coisa que o simples fato jornalístico
não chega lá. Daí que se você lê,
por exemplo, a literatura de qualquer país, você conhece
muito mais daquele povo do que se você for ler os relatos
jornalísticos. Isso não tem dúvida. Apesar
de que você é estudante de jornalismo
mas a gente
precisa de jornalistas também. (risos)
Bondade
sua
Adélia:
Precisa, é claro. É uma das formas, uma das.
Agora, se for falar em forma mais completa, eu digo que é
a literatura.
O
cotidiano de cidades pequenas normalmente é tido como monótono.
Às vezes têm-se a impressão que só nas
cidades grandes "as coisas acontecem". Mas sabemos que você
adora morar em Divinópolis, sua cidade natal. É função
da poesia reencantar o dia-a-dia para torná-lo mais interessante?
Adélia:
Não, a literatura não tem essa função.
Decorre dela esse encantamento. Eu não escrevo um
livro para que as pessoas vejam como as coisas encantadoras. Não
é isso não. É claro que quando você faz
um poema bom, a pessoa fala: mas que coisa, como isso é
bonito eu não percebia!
A
literatura e a poesia é só expressiva, é igual
flor no pé, cachoeira caindo, é um fenômeno
natural. Então eu não posso manipular, nem dar uma
intenção nisso não. A poesia escapa a essas
manipulações.
Mas, enquanto seres culturais, nós não enxergamos
melhor as coisas quando conseguimos nomeá-las?
Adélia:
Claro. Nós somos animais simbólicos. Uma galinha come
um milho e ela não precisa saber que milho é milho
(risos), nem dar nome ao milho. Mas eu preciso saber: estou comendo
arroz com feijão. Por causa da minha natureza simbólica
eu preciso de significados. E nomear é justamente dar significado
às coisas. Já está na Bíblia isso, né?
Deus entregou a criação a Adão e falou: nomeie
as coisas, dê nome. Eu criei para você agora dar nome.
Isso é função humana.
Escritor
se sente meio Deus quando cria um mundo imaginário?
Adélia:
Nossa senhora!, ele se sente, às vezes, a última das
criaturas. Porque ele é muito pior que o livro dele. É
verdade. O dia que eu for igual a um livro meu, eu estou perdida,
não dou conta de escrever mais nenhuma palavra. Eu sempre
tenho que ser melhor do que eu mesma para ir atrás do livro.
Deus nada, quê que é isso! (risos). Tadinho de nós.
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