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CRÔNICA
André Azevedo da Fonseca
Deus
ajuda a quem cedo madruga. O Respeitável Chefe de Setor acorda
cedo, faz sua higiene, senta-se à mesa para tomar café
e, finalmente, olha para a esposa. Pede, com um franzir de testa,
que seja respeitado e admirado; afinal, trabalhara honestamente
a vida toda e aposentara-se com dignidade. Lembra, com um gesto
de mão, que graças ao seu esforço e dedicação,
fruto de trabalho árduo e incessante, cumpre todas as obrigações
de pai e esposo. Nunca falta às atribuições
de chefe de família. Olha com ar grave para seus filhos e
exige, através de um esgar, reverência e consideração.
O trabalho dignifica
o homem. O Respeitável Chefe de Setor sempre encarou o trabalho
como a forma sublime de realização humana. Acredita
em religião: faz o sinal da cruz em porta de igreja, comparece
às missas de 7º dia com certo fastio, é
verdade mas sempre respeitosamente. Contudo, não se
engana: a transcendência, ou o mais próximo que se
sente capaz de chegar da plenitude existencial, é o trabalho.
Mente ociosa,
oficina do diabo. Por isso, alguns meses depois de aposentar-se
e proporcionar momentos de convivência constante aos entes
queridos, o Respeitável Chefe de Setor arrumou outro emprego.
Ei-lo agora, de expressão grave, sensação de
dever a cumprir confere o ponto morto, engata a primeira,
upa, upa dirigindo-se ao trabalho, sob olhares aliviados
da família.
Um homem prevenido
vale por dois. O Respeitável Chefe de Setor é metódico,
responsável, organizado, exigente, infalível, um administrador
nato, um gerente, o dirigente, o gestor, o
comandante. Orgulha-se de sua conduta de forma quase voluptuosa:
quando está no exercício do cargo, sente uma espécie
de uma ereção moral, seguida de um gozo contido, asséptico,
secreto. Longe de ser sacrifício, o trabalho é a razão
de sua existência. Entre as funções que exerce,
as que lhe concedem maior prazer são os frequentes discursos
sobre os procedimentos morais que devem ser aplicados para que o
serviço funcione de forma excelente. E o melhor momento para
isso, evidentemente, é quando o subordinado acaba de cometer
um pequeno erro. E se o subordinado é daqueles que, por precisarem
muito do emprego, são totalmente submissos, melhor ainda!
Aqui se faz,
aqui se paga. O Respeitável Chefe de Setor tem uma forma
padrão de repreender: começa detalhando todos os problemas
que tem de administrar para que o modelo de organização
funcione; ressalta que a estrutura que está à sua
disposição é precária, exigindo dele
labuta diária para manter o serviço em ordem; lembra
que, quando um erro acontece, tem que desestruturar toda a agenda
para que a irresponsabilidade seja remediada; conta que sempre trabalhou
com pessoas competentes e que não sabe trabalhar com bagunça;
confessa que está esgotado e que não é possível
que isso aconteça; reafirma que é um sujeito muito
justo, mas será obrigado a tomar as providências
necessárias demonstrando que, no seu entender, há
incompatibilidade entre ser justo e tomar providências.
Não satisfeito com essa interminável ladainha
que por si só já é uma tortura, ou, no mínimo,
uma forma de punição mental ameaça,
esbraveja, grita, faz cenas etc; porém, sempre toma o cuidado
de manter o nível da chantagem no limite aquém da
ofensa pessoal a despeito de tratar com seres humanos, a
questão é sempre estritamente profissional. Evidentemente,
o discurso muda quando o trato se dá com superiores. Meu
amigo, satisfação em revê-lo!, erros acontecem,
estamos sempre sujeitos a falhas, estamos aqui para trabalhar etc.
Olho por olho,
dente por dente. É fácil concluir que o Respeitável
Chefe de Setor cumpre todas as obrigações, mais para
justificar seu direito de espinafrar os subalternos do que pela
boa execução do serviço em si. Todas as pequenas
falhas, insignificantes que sejam, merecem o longo discurso de reprovação,
proferido com ânimo que, apesar de seu aparente mal-humor,
não esconde seu íntimo prazer. Priapismo moral.
Os últimos
serão os primeiros. Seus subalternos o odeiam não
há como ser diferente. Mas o Respeitável Chefe de
Setor é imperturbável. Atribui o ódio alheio
ao rigor responsável de seus métodos. Agrada-lhe profundamente
sentir-se como uma espécie de mártir da burocracia.
Lembra-se que todo cargo de chefia é, na verdade, um fardo
pesado. Não é para qualquer um. Quando ouve dizer
que consideram-no "insuportável", enche-se de júbilo,
pois interpreta como elogio supremo. Funcionário em geral
não gosta de serviço e odeia chefe que exige trabalho.
Ser chamado de "insuportável" significa, portanto,
que é chefe exigente. Com o tempo, os conceitos de "insuportável"
e "exigente" fundiram-se em seu código de valores,
e agora ele aplaude a si mesmo ao saber-se odiado pelas costas,
pois sente-se indiretamente enaltecido. Essa inversão em
seu juízo fez com que redobrasse o esforço mental
para tornar-se um chefe incansável, definitivamente insuportável.
Nada como um
dia após o outro. O Respeitável Chefe de Setor vai
embora às 18h15. Às terças e quintas vai direto
para a sauna. Freqüentar os banhos é um dos poucos prazeres
solitários que sua índole lhe permite. Segundas, quartas
e sextas são reservadas aos jogos de peteca no clube. Chega
em casa às 20h15 e irrita-se profundamente quando a janta
não está disposta à mesa. Que absurdo! Logo
ele, que se sacrifica, que faz tudo, que vive pela família.
É bastante razoável, afinal de contas, que a esposa
lhe prepare, na hora certa, um jantar simples arroz, feijão,
bife como lhe apetece. Esbraveja que, pelo menos esse prazer,
ninguém tem o direito de furtar-lhe. Lembra-lhe que sua vida
inteira foi marcada pelo trabalho e dedicação à
família etc.
Água
mole em pedra dura tanto bate até que fura. Mas toda regra
tem exceção. É impossível contradizer
o Respeitável Chefe de Setor. Ele é uma fortaleza
moral, imune a qualquer tipo de persuasão. Não sabe
o que é a dúvida. Tudo em sua vida é extremamente
claro e certo. Preto no branco. Um mais um igual a dois. Isso é
isso e aquilo é aquilo! E olhe lá! Condena veementemente
qualquer perversão alheia, pois reprime com igual veemência
as suas. É um homem justo, correto, sempre trabalhou etc.
Quando jazer no caixão no seu velório, exibirá
um sorriso satisfeito, de serviço cumprido, vida honesta
etc, enquanto sua família, trocando olhares insuspeitos,
se prestará a servir bolinhos e café aos comensais.
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