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Crônica publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 218, em 27 de agosto de 2002

andre.azevedo@uniube.br

CRÔNICA


André Azevedo da Fonseca

Deus ajuda a quem cedo madruga. O Respeitável Chefe de Setor acorda cedo, faz sua higiene, senta-se à mesa para tomar café e, finalmente, olha para a esposa. Pede, com um franzir de testa, que seja respeitado e admirado; afinal, trabalhara honestamente a vida toda e aposentara-se com dignidade. Lembra, com um gesto de mão, que graças ao seu esforço e dedicação, fruto de trabalho árduo e incessante, cumpre todas as obrigações de pai e esposo. Nunca falta às atribuições de chefe de família. Olha com ar grave para seus filhos e exige, através de um esgar, reverência e consideração.

O trabalho dignifica o homem. O Respeitável Chefe de Setor sempre encarou o trabalho como a forma sublime de realização humana. Acredita em religião: faz o sinal da cruz em porta de igreja, comparece às missas de 7º dia — com certo fastio, é verdade — mas sempre respeitosamente. Contudo, não se engana: a transcendência, ou o mais próximo que se sente capaz de chegar da plenitude existencial, é o trabalho.

Mente ociosa, oficina do diabo. Por isso, alguns meses depois de aposentar-se e proporcionar momentos de convivência constante aos entes queridos, o Respeitável Chefe de Setor arrumou outro emprego. Ei-lo agora, de expressão grave, sensação de dever a cumprir — confere o ponto morto, engata a primeira, upa, upa — dirigindo-se ao trabalho, sob olhares aliviados da família.

Um homem prevenido vale por dois. O Respeitável Chefe de Setor é metódico, responsável, organizado, exigente, infalível, um administrador nato, um gerente, o dirigente, o gestor, o comandante. Orgulha-se de sua conduta de forma quase voluptuosa: quando está no exercício do cargo, sente uma espécie de uma ereção moral, seguida de um gozo contido, asséptico, secreto. Longe de ser sacrifício, o trabalho é a razão de sua existência. Entre as funções que exerce, as que lhe concedem maior prazer são os frequentes discursos sobre os procedimentos morais que devem ser aplicados para que o serviço funcione de forma excelente. E o melhor momento para isso, evidentemente, é quando o subordinado acaba de cometer um pequeno erro. E se o subordinado é daqueles que, por precisarem muito do emprego, são totalmente submissos, melhor ainda!

Aqui se faz, aqui se paga. O Respeitável Chefe de Setor tem uma forma padrão de repreender: começa detalhando todos os problemas que tem de administrar para que o modelo de organização funcione; ressalta que a estrutura que está à sua disposição é precária, exigindo dele labuta diária para manter o serviço em ordem; lembra que, quando um erro acontece, tem que desestruturar toda a agenda para que a irresponsabilidade seja remediada; conta que sempre trabalhou com pessoas competentes e que não sabe trabalhar com bagunça; confessa que está esgotado e que não é possível que isso aconteça; reafirma que é um sujeito muito justo, mas será obrigado a tomar as providências necessárias — demonstrando que, no seu entender, há incompatibilidade entre ser justo e tomar providências. Não satisfeito com essa interminável ladainha — que por si só já é uma tortura, ou, no mínimo, uma forma de punição mental — ameaça, esbraveja, grita, faz cenas etc; porém, sempre toma o cuidado de manter o nível da chantagem no limite aquém da ofensa pessoal — a despeito de tratar com seres humanos, a questão é sempre estritamente profissional. Evidentemente, o discurso muda quando o trato se dá com superiores. Meu amigo, satisfação em revê-lo!, erros acontecem, estamos sempre sujeitos a falhas, estamos aqui para trabalhar etc.

Olho por olho, dente por dente. É fácil concluir que o Respeitável Chefe de Setor cumpre todas as obrigações, mais para justificar seu direito de espinafrar os subalternos do que pela boa execução do serviço em si. Todas as pequenas falhas, insignificantes que sejam, merecem o longo discurso de reprovação, proferido com ânimo que, apesar de seu aparente mal-humor, não esconde seu íntimo prazer. Priapismo moral.

Os últimos serão os primeiros. Seus subalternos o odeiam — não há como ser diferente. Mas o Respeitável Chefe de Setor é imperturbável. Atribui o ódio alheio ao rigor responsável de seus métodos. Agrada-lhe profundamente sentir-se como uma espécie de mártir da burocracia. Lembra-se que todo cargo de chefia é, na verdade, um fardo pesado. Não é para qualquer um. Quando ouve dizer que consideram-no "insuportável", enche-se de júbilo, pois interpreta como elogio supremo. Funcionário em geral não gosta de serviço e odeia chefe que exige trabalho. Ser chamado de "insuportável" significa, portanto, que é chefe exigente. Com o tempo, os conceitos de "insuportável" e "exigente" fundiram-se em seu código de valores, e agora ele aplaude a si mesmo ao saber-se odiado pelas costas, pois sente-se indiretamente enaltecido. Essa inversão em seu juízo fez com que redobrasse o esforço mental para tornar-se um chefe incansável, definitivamente insuportável.

Nada como um dia após o outro. O Respeitável Chefe de Setor vai embora às 18h15. Às terças e quintas vai direto para a sauna. Freqüentar os banhos é um dos poucos prazeres solitários que sua índole lhe permite. Segundas, quartas e sextas são reservadas aos jogos de peteca no clube. Chega em casa às 20h15 e irrita-se profundamente quando a janta não está disposta à mesa. Que absurdo! Logo ele, que se sacrifica, que faz tudo, que vive pela família. É bastante razoável, afinal de contas, que a esposa lhe prepare, na hora certa, um jantar simples — arroz, feijão, bife — como lhe apetece. Esbraveja que, pelo menos esse prazer, ninguém tem o direito de furtar-lhe. Lembra-lhe que sua vida inteira foi marcada pelo trabalho e dedicação à família etc.

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Mas toda regra tem exceção. É impossível contradizer o Respeitável Chefe de Setor. Ele é uma fortaleza moral, imune a qualquer tipo de persuasão. Não sabe o que é a dúvida. Tudo em sua vida é extremamente claro e certo. Preto no branco. Um mais um igual a dois. Isso é isso e aquilo é aquilo! E olhe lá! Condena veementemente qualquer perversão alheia, pois reprime com igual veemência as suas. É um homem justo, correto, sempre trabalhou etc. Quando jazer no caixão no seu velório, exibirá um sorriso satisfeito, de serviço cumprido, vida honesta etc, enquanto sua família, trocando olhares insuspeitos, se prestará a servir bolinhos e café aos comensais.

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