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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 217, em 20 de agosto de 2002

andre.azevedo@uniube.br


Estudante encara o desafio e, mesmo sem grana, passa seis meses vivendo no exterior

André Azevedo da Fonseca


Fabiano da Mota dormiu uma noite em Doolin. Segundo relatos de moradores, é de lá que vem a melhor música irlandesa

"No mundo de hoje é aquele esquema: o inglês é fundamental, uma segunda língua qualquer é importante", diz Fabiano da Mota, um estudante de 23 anos que, sem grana e sem saber falar inglês direito, embarcou no avião rumo a Irlanda, praticamente com uma mão na frente e outra atrás. "Eu tinha essa idéia antes de entrar na faculdade, mas nunca pintava um troco", conta.

Fabiano nasceu em Rio Grande (RS), mas foi criado em Matias Cardoso, uma cidadezinha de 10 mil habitantes, localizada no norte de Minas. Veio para o Triângulo Mineiro para estudar Tecnologia em Processamento de Dados, na Universidade de Uberaba. "Então, me formei em 1998 e comecei a trabalhar com Macintosh, na universidade", diz.

Mas mesmo depois de formado, aquela vontade de dar o fora para o exterior era sempre adiada. "A grana só dava para bancar as despesas de praxe", conta. Fabiano dividia um apartamento no bairro Olinda com alguns colegas, e todo final de mês caía no cheque especial.

Ele não parou de estudar. Dois anos depois do diploma de graduação, concluiu uma pós-graduação em Gerenciamento de Redes de Computadores, também pela Universidade de Uberaba, em 2000. Depois, partiu para outra pós-graduação. Começou a cursar Análise de Sistemas, na PUC de Campinas. Enquanto isso, ia enrolando o sonho.

Mas aquela coceira insistia, e em 2001 ele passou a coletar informações pela Internet. "Eu queria ir para os EUA, mas não con-segui visto. Se fosse para a Austrália, tinha que ficar pelo menos um ano, porque a passagem é muito cara. Não dava. A Inglaterra tem fama de as pessoas serem muito frias. Na Irlanda, tive a informação de que as pessoas eram mais amigáveis, e o custo de vida não era tão caro como na Inglaterra. É isso: Irlanda!".

Fabiano procurou uma agência de intercâmbio para fechar o pacote. Como sua intenção era ficar pelo menos quatro meses, teve que improvisar para bancar os custos. "Paguei um plano de um curso de Inglês de duas semanas, e consegui o visto de turista. Eu imaginava que, ao chegar lá, poderia procurar uma outra escola mais barata. Comprei eu mesmo a passagem (US$ 700), porque a agência negociava uma muito cara", explica. O curso ficava em 600 euros. O estudante meteu as caras: fez dívida no cartão de crédito, entrou fundo no cheque especial, e se foi.

Duro em Dublin

4 de fevereiro. "Peguei o avião em Sampa. Treze horas de viagem. Desembarquei em Londres, esperei algumas horas no aeroporto e peguei a baldeação para Dublin. Cheguei lá num frio violento. A sensação ao descer a escada do avião foi: Cheguei, e agora? Meu curso é só de duas semanas e não tenho grana para ficar muito tempo!". Fabiano foi de ônibus até o centro, e de lá pegou um taxi até o lugar da hospedagem. "Economizei metade do preço que pagaria para a escola me buscar no aeroporto. Já cheguei economizando", diz.

Lá, gastava uns 20 euros por dia, contando com acomodação e alimentação. Como combinado com a agência, ficou hospedado no esquema de casa de família (hostfamily). "Fiquei na casa de uma nigeriana muito gente boa" diz.

Fabiano sabia que tudo aquilo era uma grande aventura. "No começo foi complicado. Eu não sabia inglês, tava sem grana. Pra me virar, economizava no que pudesse. Por exemplo, pra comer, comprava coisas mais baratas em supermercado, era desse jeito", conta.

Além disso, estranhou um pouco o tratamento recebido pelas pessoas. "A gente está acostumado com calor humano. Nós brasileiros, apesar de não termos o padrão de vida elevado — aquela coisa de estarmos sempre na pindaíba — somos sempre simpáticos uns com os outros. No Brasil, a maioria já chega te abordando com um sorriso. Lá não tem esse esquema: Ôôôô, e aí, meu cumpadi! As pessoas são meio ríspidas, respondem tipo assim: que é que você quer? Pra piorar, como meu inglês era muito ruim, os gringos não tinham muita paciência. I’m sorry, I don’t understand you. Na Inglaterra, algumas vezes, antes mesmo de eu terminar de concluir uma pergunta qualquer, as pessoas já diziam: I don’t know", lembra.

Depois que o curso de duas semanas venceu, Fabiano negociou com sua hostfamily — a nigeriana gente boa — e combinaram que ele poderia ficar mais duas semanas, fazendo o pagamento direto pra ela, e ainda com um desconto de 50%. "Enquanto isso, procurava emprego, sem parar". Ele lembra que "pastou" durante o primeiro mês. Problemas financeiros, dificuldade de comunicação.

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