
Moradores
do bairro Abadia fazem do espaço público
um programão da manhã de domingo

Feira
da Abadia, uma das mais tradicionais da cidade, é considerada
folclórica por moradores do bairro |
André Azevedo
da Fonseca
Domingo, 9hs
da matina. O burburinho ferve mais a frente. Um pingado (café
com leite) duplo e um pão de queijo enorme, daqueles que
substitui almoço, R$1,40. Na padaria Hawaii um cartaz da
Festa da Abadia. Rua, gente, carro, sol, música ao vivo.
Uma moça canta ao microfone, seguindo a melodia de um desses
teclados de músico de restaurante. É a barraquinha
do projeto Cidade Viva, da prefeitura, que faz teste para diabete
etc, corta cabelo etc.
Dona Aparecida
deve estar por aí. Dois vendedores de picolé de marcas
rivais, Tabapuã e Coelhinho, conversam amigavelmente. Algumas
lojas da rua estão abertas, aproveitando o movimento. Tire
aqui sua habilitação: um rapaz da autoescola resolveu
estacionar o carro em frente a Xiliki Moda Infantil, e aí
colocou uma mesinha de aço com um guarda sol e agora fica
lá atendendo os interessados.

Açougues
de feira não podem vender carne de vaca, por causa da
falta de refrigeração. Só pode vender carne
suína |
Dois cachorros
rodeiam a banca de carne. As linguiças cruas balançam
apetitosas (para os cachorros, evidentemente). Costela, pernil,
lombo, suan, toicinho "Toicim é 1,50. Precisa anotar
mais alguma coisa? Peraí que te atendo", diz Marquinho Açougueiro,
feirante e morador do bairro. Marquinho explica que na feira não
pode vender carne de vaca, só suíno. "A bovina precisa
de mais refrigeração, porque não dá
para abater a vaca no mesmo dia, ou no dia anterior, e já
trazer pra cá. Não pode ficar exposta. Suíno
pode, essa carne aí é de porco abatido ontem à
noite, tá fresquinha", explica. Carne de vaca, só
se for o charque (carne seca). OFERTA - RETALHO R$3,50 Kg - 3Kg
por R$10.
Cláudio
Alberto Souza, 27, e o filho Ítalo caminham no meio do aglomerado
de gente. "Nem sempre tenho tempo para vir passear na feira nos
domingos. Faço trabalho voluntário num asilo e também
no centro de umbanda Caboclo Beira Mar. Participo das atividades
e do atendimento social", diz. Carla Marília Menezes, estudante
de Jornalismo, também gosta de passear na feira. "Venho à
feira pra ficar no meio do povo no fuá", diz.

Cláudio
Alberto leva seu filho Ítalo para passear na feira
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Mônica
Rodrigues de Oliveira diz que vai à feira quase todos os
domingos, e considera a feira da Abadia folclórica. "Às
vezes venho só pra passear, mas acabo comprando uma coisinha",
afirma. Uma feirante, que preferiu não se identificar, disse
que muitas pessoas tem vergonha de visitar esse espaço. "Feira,
nas capitais, todo mundo vai! Aqui em Uberaba, as madames têm
preconceito e nunca vêm. Por exemplo, às vezes vão
em floricultura chique, pagam caro por flores às vezes murchas,
mas não vêm comprar na feira de jeito nenhum", diz.
Um cachorro
preferiu rodear a pastelaria. Dona Maria Aparecida está lá
na frente, dando tapa em bunda de homem. Logo chegaremos nela. Farinha
de soja, sacos de milho, feijão branco e preto, óculos
de sol, laranja, baculejo (êpa!), doce de pêssego em
calda, um ambulante fincou uns espetos de algodão doce e
amarrou umas bexigas num pau e anda pra lá e pra cá,
encontra-se com outro vendedor de algodão doce, que joga
conversa fora com um vendedor de sorvete da marca Ki-sorvete, em
frente à II Igreja Presbiteriana de Uberaba.
Ovos caipira
- R$1,50 a dúzia. TEMOS OVOS DE PATA. Mata mosca, CD. Galinhas
vivas na carroça gradeada, uma menina segura um algodão
doce ainda fechado e chupa a pontinha do plástico, boné
das Garotas Superpoderosas. Dois patos em uma gaiola, sentados sobre
um monte de alface, observam o movimento, meio apreensivos. "Tem
gente de todo tipo. Até político", diz alguém.
Um morador da
avenida Prudente de Morais reclama da sujeira deixada pela feira
na tarde de domingo. "Minha mãe mora bem em frente à
feira. Todo domingo ela quase tem um tico-tico", diz.
Macaquinho de
pelúcia, espada de plástico "Dragões do Deserto",
cueca. Churrasquinho morno na churrasqueira. Bonequinho do Chapolim
que faz bolinha de sabão. A feira não acaba. Calças
de moleton, martelo, tamancos, roupas coloridas dispostas sobre
um plástico alaranjado, cortador de legumes universal, sacas
de cebola. "Ó, hoje eu tô doido! Três baldes
por dois reais, hein! Hoje eu tô doido, hein! Eu tô
doido!", grita o feirante. Aí está, finalmete, dona
Maria Aparecida, baixinha, pedindo coisas e sorrindo para as pessoas.
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