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Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 216, em 13 de agosto de 2002

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andre.azevedo@uniube.br


Moradores do bairro Abadia fazem do espaço público um programão da manhã de domingo

Feira da Abadia, uma das mais tradicionais da cidade, é considerada folclórica por moradores do bairro

André Azevedo
da Fonseca

Domingo, 9hs da matina. O burburinho ferve mais a frente. Um pingado (café com leite) duplo e um pão de queijo enorme, daqueles que substitui almoço, R$1,40. Na padaria Hawaii um cartaz da Festa da Abadia. Rua, gente, carro, sol, música ao vivo. Uma moça canta ao microfone, seguindo a melodia de um desses teclados de músico de restaurante. É a barraquinha do projeto Cidade Viva, da prefeitura, que faz teste para diabete etc, corta cabelo etc.

Dona Aparecida deve estar por aí. Dois vendedores de picolé de marcas rivais, Tabapuã e Coelhinho, conversam amigavelmente. Algumas lojas da rua estão abertas, aproveitando o movimento. Tire aqui sua habilitação: um rapaz da autoescola resolveu estacionar o carro em frente a Xiliki Moda Infantil, e aí colocou uma mesinha de aço com um guarda sol e agora fica lá atendendo os interessados.


Açougues de feira não podem vender carne de vaca, por causa da falta de refrigeração. Só pode vender carne suína

Dois cachorros rodeiam a banca de carne. As linguiças cruas balançam apetitosas (para os cachorros, evidentemente). Costela, pernil, lombo, suan, toicinho – "Toicim é 1,50. Precisa anotar mais alguma coisa? Peraí que te atendo", diz Marquinho Açougueiro, feirante e morador do bairro. Marquinho explica que na feira não pode vender carne de vaca, só suíno. "A bovina precisa de mais refrigeração, porque não dá para abater a vaca no mesmo dia, ou no dia anterior, e já trazer pra cá. Não pode ficar exposta. Suíno pode, essa carne aí é de porco abatido ontem à noite, tá fresquinha", explica. Carne de vaca, só se for o charque (carne seca). OFERTA - RETALHO R$3,50 Kg - 3Kg por R$10.

Cláudio Alberto Souza, 27, e o filho Ítalo caminham no meio do aglomerado de gente. "Nem sempre tenho tempo para vir passear na feira nos domingos. Faço trabalho voluntário num asilo e também no centro de umbanda Caboclo Beira Mar. Participo das atividades e do atendimento social", diz. Carla Marília Menezes, estudante de Jornalismo, também gosta de passear na feira. "Venho à feira pra ficar no meio do povo no fuá", diz.


Cláudio Alberto leva seu filho Ítalo para passear na feira

Mônica Rodrigues de Oliveira diz que vai à feira quase todos os domingos, e considera a feira da Abadia folclórica. "Às vezes venho só pra passear, mas acabo comprando uma coisinha", afirma. Uma feirante, que preferiu não se identificar, disse que muitas pessoas tem vergonha de visitar esse espaço. "Feira, nas capitais, todo mundo vai! Aqui em Uberaba, as madames têm preconceito e nunca vêm. Por exemplo, às vezes vão em floricultura chique, pagam caro por flores às vezes murchas, mas não vêm comprar na feira de jeito nenhum", diz.

Um cachorro preferiu rodear a pastelaria. Dona Maria Aparecida está lá na frente, dando tapa em bunda de homem. Logo chegaremos nela. Farinha de soja, sacos de milho, feijão branco e preto, óculos de sol, laranja, baculejo (êpa!), doce de pêssego em calda, um ambulante fincou uns espetos de algodão doce e amarrou umas bexigas num pau e anda pra lá e pra cá, encontra-se com outro vendedor de algodão doce, que joga conversa fora com um vendedor de sorvete da marca Ki-sorvete, em frente à II Igreja Presbiteriana de Uberaba.

Ovos caipira - R$1,50 a dúzia. TEMOS OVOS DE PATA. Mata mosca, CD. Galinhas vivas na carroça gradeada, uma menina segura um algodão doce ainda fechado e chupa a pontinha do plástico, boné das Garotas Superpoderosas. Dois patos em uma gaiola, sentados sobre um monte de alface, observam o movimento, meio apreensivos. "Tem gente de todo tipo. Até político", diz alguém.

Um morador da avenida Prudente de Morais reclama da sujeira deixada pela feira na tarde de domingo. "Minha mãe mora bem em frente à feira. Todo domingo ela quase tem um tico-tico", diz.

Macaquinho de pelúcia, espada de plástico "Dragões do Deserto", cueca. Churrasquinho morno na churrasqueira. Bonequinho do Chapolim que faz bolinha de sabão. A feira não acaba. Calças de moleton, martelo, tamancos, roupas coloridas dispostas sobre um plástico alaranjado, cortador de legumes universal, sacas de cebola. "Ó, hoje eu tô doido! Três baldes por dois reais, hein! Hoje eu tô doido, hein! Eu tô doido!", grita o feirante. Aí está, finalmete, dona Maria Aparecida, baixinha, pedindo coisas e sorrindo para as pessoas.


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