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No dia 10
de março de 2001, faleceu o personagem mais ilustre do centro
da cidade
André
Azevedo da Fonseca
arquivo
da família

Na pose
ao lado do prefeito de Uberaba, o sorridente Nestor experimenta
o "ápice político". No verso da foto,
a dedicatória escrita à mão: "Ao presidente
Nestor, um abraço do prefeito Marcos Montes."
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Além
do aniversário de Uberaba, festejado no dia 2 de março,
neste mês a cidade comemora o aniversário de morte
do personagem mais ilustre da praça Rui Barbosa do final
do século XX: seu Nestor, o orador.
Ostentando
na blusa alguns pares de crachás que o identificavam ora
como Imperador, ora como Presidente da República Federativa
do Brasil, Ministro de Estado, Governador, etc, Nestor Alves Ribeiro
metia a Folha de S. Paulo e o Jornal da Manhã debaixo do
sovaco e passava as tardes proferindo discursos alucinados, denunciando
a corrupção, o nepotismo, a malversação
do dinheiro público e outras mazelas da política brasileira.
"A Câmara de Vereadores é esta vergonha porque
muitos deles entraram lá sem prestar concurso público",
dizia.
Ninguém
parava muito tempo para ouvi-lo. Só os que, surpreendidos,
o viam pela primeira vez além, é claro, das
pessoas que aguardavam o coletivo, taxistas e fiscais de ônibus
que estavam por lá à serviço. Mas seu Nestor
não se importava: era furioso e contundente em sua oratória.
"É preciso acabar com a bandalheira dos poderes
executivo, legislativo, judiciário e imperial do Brasil!".
Seu vocabulário correto, típico de leitor de jornal,
indicava certa erudição apesar das idéias
meios estabanadas. Ficava horas ao sol, gesticulando, lendo trechos
de jornal e comentando as partes importantes.
Seu
Nestor costumava discursar em três lugares: em frente à
agência do Banco do Brasil, na avenida Leopoldino de Oliveira;
na calçada da Câmara Municipal e nos arredores do ponto
de ônibus em frente à casa de Tobias Rosa patrimônio
cultural da cidade, na praça Rui Barbosa.
O
jornalista e professor da Uniube, Francisco Marcos Reis, lembra-se
que, quando foi editor do Jornal de Uberaba, publicou uma entrevista
"pingue-pongue" (perguntas e respostas) com Seu Nestor,
realizado pela jornalista Rose Dutra. "Ele falava do problema
da corrupção no país, que a corrupção
gerava a pobreza. Era um discurso daqueles bem nacionalistas, valorizando
as coisas do país, etc. Ele falava, por exemplo, que o Banco
do Brasil tinha que ajudar o povo." Um Policarpo Quaresma uberabense,
poderíamos dizer.

Nestor, em pose de galã: "A minha prezada
sogra, ofereço-te esta fotografia em prova de minha
amizade . Seu genro. Nestor Ribeiro"
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Leitor inveterado
Pedreiro
famoso, segundo os familiares, estudou poucos anos em um escola
rural, mas sempre foi leitor inveterado de jornais e livros de Direito.
Casou-se duas vezes, e por duas vezes ficou viúvo. Morou
durante 40 anos com o irmão, João Alves Ribeiro e
a cunhada, Clair Batista de Andrade, no bairro Santa Marta. Usava
cabelos compridos, sempre amarrados. Quando dona Clair dizia para
ele cortar o cabelo, ele retrucava: "Cabelo comprido está
na moda. Vocês não entendem minha vida. Eu sou um político!".
Segundo a família, seu Nestor conversava normalmente sobre
qualquer coisa; mas quando o assunto era política, aí
ele se entusiasmava e, como em um transe, não parava mais!
Ele
discursava na praça de segunda à sexta, como se marcasse
ponto em um serviço. Quando tinha mais dinheiro para ônibus,
ia duas vezes: saía de manhã, voltava para o almoço,
saia novamente à tarde e chegava em casa às 18hs,
às vezes 19hs. Muitas vezes continuava discursando dentro
do ônibus. Apesar de ter direito à passagem gratuita,
por causa da idade, ele fazia questão de pagar. Dizia que
a autoridade máxima do país tinha obrigação
de bancar o próprio transporte. Em casa, dizia "hoje
trabalhei muito", e explicava para a família os temas
políticos que tinha abordado no discurso do dia.
Seu
Nestor sofreu um derrame no dia 23 de fevereiro de 2001 e foi atendido
no Hospital Escola. Todos os médicos o reconheceram: "É
o Sr. Nestor, aquele que fica discursando no centro da cidade!".
Ele nunca admitia estar doente, pois não gostava de ir ao
médico: dizia que, no hospital, poderiam tentar matá-lo.
Evidentemente, ele temia um assassinato político. Seu Nestor
também não aceitava comida, salgadinhos, biscoitos
e nem mesmo água de ninguém que o oferecesse no centro
da cidade: homem importante que era, poderia ser envenenado. Só
depois de muito tempo, passou a confiar em algumas funcionárias
da prefeitura e aceitava um copo dágua.
Dezoito
dias depois do derrame, Seu Nestor, o orador, não resistiu.
Morreu aos 78 anos, no dia 10 de março de 2001. Ele deixou
uma filha. Segundo a família, até o prefeito de Uberaba,
Marcos Montes, compareceu ao velório e deixou um buquê
de flores. Seu Nestor foi enterrado com alguns de seus crachás,
que gostava tanto. Uberaba perdeu o personagem mais ilustre da praça
Rui Barbosa do final do século XX. Mas os alucinados discursos
de Seu Nestor, o orador, ainda ecoam memória afetiva da cidade.
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