# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 237, em 3 de março de 2003

andre.azevedo@uniube.br

 


No dia 10 de março de 2001, faleceu o personagem mais ilustre do centro da cidade

André Azevedo da Fonseca

arquivo da família

Na pose ao lado do prefeito de Uberaba, o sorridente Nestor experimenta o "ápice político". No verso da foto, a dedicatória escrita à mão: "Ao presidente Nestor, um abraço do prefeito Marcos Montes."

Além do aniversário de Uberaba, festejado no dia 2 de março, neste mês a cidade comemora o aniversário de morte do personagem mais ilustre da praça Rui Barbosa do final do século XX: seu Nestor, o orador.

Ostentando na blusa alguns pares de crachás que o identificavam ora como Imperador, ora como Presidente da República Federativa do Brasil, Ministro de Estado, Governador, etc, Nestor Alves Ribeiro metia a Folha de S. Paulo e o Jornal da Manhã debaixo do sovaco e passava as tardes proferindo discursos alucinados, denunciando a corrupção, o nepotismo, a malversação do dinheiro público e outras mazelas da política brasileira. "A Câmara de Vereadores é esta vergonha porque muitos deles entraram lá sem prestar concurso público", dizia.

Ninguém parava muito tempo para ouvi-lo. Só os que, surpreendidos, o viam pela primeira vez — além, é claro, das pessoas que aguardavam o coletivo, taxistas e fiscais de ônibus que estavam por lá à serviço. Mas seu Nestor não se importava: era furioso e contundente em sua oratória. "—É preciso acabar com a bandalheira dos poderes executivo, legislativo, judiciário e imperial do Brasil!". Seu vocabulário correto, típico de leitor de jornal, indicava certa erudição — apesar das idéias meios estabanadas. Ficava horas ao sol, gesticulando, lendo trechos de jornal e comentando as partes importantes.

Seu Nestor costumava discursar em três lugares: em frente à agência do Banco do Brasil, na avenida Leopoldino de Oliveira; na calçada da Câmara Municipal e nos arredores do ponto de ônibus em frente à casa de Tobias Rosa — patrimônio cultural da cidade, na praça Rui Barbosa.

O jornalista e professor da Uniube, Francisco Marcos Reis, lembra-se que, quando foi editor do Jornal de Uberaba, publicou uma entrevista "pingue-pongue" (perguntas e respostas) com Seu Nestor, realizado pela jornalista Rose Dutra. "Ele falava do problema da corrupção no país, que a corrupção gerava a pobreza. Era um discurso daqueles bem nacionalistas, valorizando as coisas do país, etc. Ele falava, por exemplo, que o Banco do Brasil tinha que ajudar o povo." Um Policarpo Quaresma uberabense, poderíamos dizer.


Nestor, em pose de galã: "A minha prezada sogra, ofereço-te esta fotografia em prova de minha amizade . Seu genro. Nestor Ribeiro"

Leitor inveterado

Pedreiro famoso, segundo os familiares, estudou poucos anos em um escola rural, mas sempre foi leitor inveterado de jornais e livros de Direito. Casou-se duas vezes, e por duas vezes ficou viúvo. Morou durante 40 anos com o irmão, João Alves Ribeiro e a cunhada, Clair Batista de Andrade, no bairro Santa Marta. Usava cabelos compridos, sempre amarrados. Quando dona Clair dizia para ele cortar o cabelo, ele retrucava: "Cabelo comprido está na moda. Vocês não entendem minha vida. Eu sou um político!". Segundo a família, seu Nestor conversava normalmente sobre qualquer coisa; mas quando o assunto era política, aí ele se entusiasmava e, como em um transe, não parava mais!

Ele discursava na praça de segunda à sexta, como se marcasse ponto em um serviço. Quando tinha mais dinheiro para ônibus, ia duas vezes: saía de manhã, voltava para o almoço, saia novamente à tarde e chegava em casa às 18hs, às vezes 19hs. Muitas vezes continuava discursando dentro do ônibus. Apesar de ter direito à passagem gratuita, por causa da idade, ele fazia questão de pagar. Dizia que a autoridade máxima do país tinha obrigação de bancar o próprio transporte. Em casa, dizia "hoje trabalhei muito", e explicava para a família os temas políticos que tinha abordado no discurso do dia.

Seu Nestor sofreu um derrame no dia 23 de fevereiro de 2001 e foi atendido no Hospital Escola. Todos os médicos o reconheceram: "—É o Sr. Nestor, aquele que fica discursando no centro da cidade!". Ele nunca admitia estar doente, pois não gostava de ir ao médico: dizia que, no hospital, poderiam tentar matá-lo. Evidentemente, ele temia um assassinato político. Seu Nestor também não aceitava comida, salgadinhos, biscoitos e nem mesmo água de ninguém que o oferecesse no centro da cidade: homem importante que era, poderia ser envenenado. Só depois de muito tempo, passou a confiar em algumas funcionárias da prefeitura e aceitava um copo d’água.

Dezoito dias depois do derrame, Seu Nestor, o orador, não resistiu. Morreu aos 78 anos, no dia 10 de março de 2001. Ele deixou uma filha. Segundo a família, até o prefeito de Uberaba, Marcos Montes, compareceu ao velório e deixou um buquê de flores. Seu Nestor foi enterrado com alguns de seus crachás, que gostava tanto. Uberaba perdeu o personagem mais ilustre da praça Rui Barbosa do final do século XX. Mas os alucinados discursos de Seu Nestor, o orador, ainda ecoam memória afetiva da cidade.

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