# Informações gerais


Matéria publicada no Revelação (jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba) n. 245, em 6 de maio de 2003

andre.azevedo@uniube.br

 


Marina Colasanti
fala sobre literatura, vida, amor e feminismo

André Azevedo da Fonseca

André Azevedo

A escritora e artista plástica Marina Colasanti nasceu em Asmara (Eritréia), na África. Seguiu para a Itália e, desde 1948 mora no Brasil. Já escreveu 33 livros, entre ensaios, contos e obras infanto-juvenis. Em 1994 ganhou dois prêmios Jabuti com os livros Rota de colisão, e Ana Z, aonde vai você?. A escritora também exerceu intensa atividade jornalística. Foi redatora do Caderno B e do Caderno Infantil, do Jornal do Brasil, de 1962 a 1973. Assinou seções nas revistas Senhor, Fatos&Fotos, Claudia, entre outras.

Marina Colasanti esteve em Uberaba no dia 5 de abril para participar do projeto Tim Estado de Minas - Grandes Escritores, no auditório da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM). A escritora concedeu uma entrevista exclusiva ao repórter, gravada na manhã de 5 de abril no hotel onde estava hospedada, onde falou sobre literatura, vida, amor e feminismo.

O livro Contos de amor rasgado é repleto de charadas. Por exemplo: um abriu a cabeça com uma chave; outra catava piolho na filha e puxou, por um fio de cabelo, um pensamento; outro esperou que a mulher ficasse tão gorda quanto uma paisagem. Você decifra todos esses enigmas?

Marina Colasanti: Não. Não e sim. Ou seja, livros como esse — eu tenho três livros de minicontos — são livros temáticos, eu escolho um tema antes. E eu estudo o tema para estabelecer quais são os elementos construtivos: o que segura esse tema em pé?, o que constitui esse tema? Então, eu faço uma pauta desenvolvendo esses temas. E os contos são escritos a partir disso e atendendo a isso, porque meu intuito nesses três livros era de que eles tivessem — o leitor não percebe isso de maneira consciente, e nem tem que perceber — mas eu queria que eles tivessem uma unidade. Que eles não fossem apenas contos mínimos soltos no espaço, mas sim que fossem se somando, como se ao término do livro o leitor tivesse que ter uma sensação de completude, como se tivesse lido um romance, uma história inteira. Um se acrescentando ao outro.

Eu percebi uma estratégia de sedução em seu texto. Em alguns casos, parece que, nesses enigmas, você arrisca um sentido, sugere uma analogia, "joga verde" esperando reações do leitor: ou que ele invente uma solução e sinta que matou a charada, ou então se renda e se deixe seduzir pelo mistério. Você faz isso?

Colasanti: Claro. Porque também é uma exigência do miniconto. Achar que o miniconto é apenas um conto encolhido, isso é um equívoco fatal. Aí você tem um produto de terceira classe. O miniconto funciona justamente quando dá o pulo do gato! Você vem vindo distraído e de repente ele te pega e… TCHUM! Vira de cabeça pra baixo a situação. Te põe em desconforto, descompõe, desfaz a organização na qual você vinha vindo. E essa desorganização ou te propõe uma nova forma de organização, ou justifica o princípio — quando você chega no final e dá aquele salto, você entende porque aquilo estava lá no começo. O que é fascinante no miniconto.

Esse "pulo do gato" é uma exigência chave do miniconto?

Colasanti: São uma série de exigências. Porque também há uma exigência de forma, muito grande. Nada pode sobrar, nada pode faltar. Se faltar ele fica muito hermético; se sobrar, ele borra. Então é um texto muito exigente.

Oscar Wilde uma vez disse: hoje trabalhei exaustivamente no texto: fiquei a manhã inteira para colocar uma vírgula, e a tarde inteira para tirá-la. É assim com você também?

Colasanti: Sem dúvida. Eu gosto muito de textos curtos. Não sou romancista por causa disso. E nos minicontos, às vezes, eu vou tirando tudo, vou tirando tudo que é supérfluo, tudo que é supérfluo, tira, tira, tira, estica, estica, estica… aí de repente olho: ai meu Deus, está esticado demais! Está seco demais! Agora eu tenho que pingar um pouquinho de água, tenho que inchar um pouco de volta. Porque tem um ponto certo; é que nem bolo, tem um ponto em que ele tem que ficar penetrável — ele não pode ser impenetrável senão ele rejeita o leitor. Se você insiste muito na depuração, ele pode ficar impenetrável demais. Aí tem que abrir.

Em suas minicrônicas é muito comum você aniquilar a fronteira entre as coisas e as metáforas despertadas por elas; entre a sensação e o fato concreto. Para você, imaginado e vivido é a mesma coisa?

Colasanti: É. A intensidade da imaginação, a capacidade da imaginação sempre me estarrece. Eu saio dos sonhos — sonhos noturnos — boquiaberta! boquiaberta! Como que eu sou capaz de fazer uma arquitetura como essa? De repente estive andando em meio a palácios, e as arquiteturas de um preciosismo, de um requinte — e eu seria incapaz de desenhar semelhante arquitetura, não sou arquiteta. Mas a cabeça sabe! E eu não sei se ela faz isso em imagens, realmente, ou se faz em palavras tão bem colocadas que eu tenho a impressão de estar vendo imagens. Eu não saberia te dizer, porque com palavras eu posso fazer qualquer arquitetura, mas eu não saberia estruturar, erguer uma arquitetura de fato. Não sei se no sonho eram imagens ou se são palavras; se é o pensamento que a cabeça transforma em sensação de imagem, como se estivesse dentro da imagem.

Mas a intensidade do imaginário é... veja, esta sala, esta cadeira é uma porcaria. Imagina só a sala que eu faria com os mesmos elementos.

O pessoal do hotel não vai gostar de ler isso…

Colasanti: (risos) Não, é qualquer sala. A que eu posso fazer na cabeça é muito melhor, porque eu coloco um clima.

Na vida é possível decifrar a alma de uma pessoa através de um único gesto, como na literatura você faz com seus personagens?

Colasanti: Através de um gesto só, não — isso na vida real. E essa é uma das questões colocadas pela literatura, e mais intensamente por um certo tipo de literatura. Como eu te disse, sou adepta dos textos curtos e das poucas palavras. Eu tenho sim, que escolher aquele único gesto que define aquela pessoa. Então, embora eu tenha na cabeça muitos gestos dessa pessoa, ao escrever eu tenho que selecionar o gesto que é revelador dela.

É como pintura japonesa. Japonês, quando faz pintura, ele não pinta todas as folhas de bambu. Uma pinceladinha, outra pinceladinha, e o bambu está ali. Esse é um requisito de uma determinada escolha literária. Na vida real, às vezes, você não precisa de gestos. Bastam palavras, atitudes, a maneira de se sentar, a maneira de se vestir, para dizer quem é aquela pessoa. Agora, isso exige uma certa prática na observação. Mas, em geral, na vida real, você soma várias coisas. Porque a pessoa, ao falar, está se movimentando, está se inclinando numa direção ou em outra, são muitos pedacinhos que você soma para ter um perfil dela.

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