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Marina Colasanti fala
sobre literatura, vida, amor e feminismo
André
Azevedo da Fonseca
André
Azevedo
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A
escritora e artista plástica Marina Colasanti nasceu em Asmara
(Eritréia), na África. Seguiu para a Itália
e, desde 1948 mora no Brasil. Já escreveu 33 livros, entre
ensaios, contos e obras infanto-juvenis. Em 1994 ganhou dois prêmios
Jabuti com os livros Rota de colisão, e Ana Z, aonde vai
você?. A escritora também exerceu intensa atividade
jornalística. Foi redatora do Caderno B e do Caderno Infantil,
do Jornal do Brasil, de 1962 a 1973. Assinou seções
nas revistas Senhor, Fatos&Fotos, Claudia, entre outras.
Marina
Colasanti esteve em Uberaba no dia 5 de abril para participar do
projeto Tim Estado de Minas - Grandes Escritores, no auditório
da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (FMTM). A escritora
concedeu uma entrevista exclusiva ao repórter, gravada na
manhã de 5 de abril no hotel onde estava hospedada, onde
falou sobre literatura, vida, amor e feminismo.
O
livro Contos de amor rasgado é repleto de charadas.
Por exemplo: um abriu a cabeça com uma chave; outra catava
piolho na filha e puxou, por um fio de cabelo, um pensamento; outro
esperou que a mulher ficasse tão gorda quanto uma paisagem.
Você decifra todos esses enigmas?
Marina
Colasanti: Não. Não e sim. Ou seja, livros como
esse eu tenho três livros de minicontos são
livros temáticos, eu escolho um tema antes. E eu estudo o
tema para estabelecer quais são os elementos construtivos:
o que segura esse tema em pé?, o que constitui esse tema?
Então, eu faço uma pauta desenvolvendo esses temas.
E os contos são escritos a partir disso e atendendo a isso,
porque meu intuito nesses três livros era de que eles tivessem
o leitor não percebe isso de maneira consciente, e
nem tem que perceber mas eu queria que eles tivessem uma
unidade. Que eles não fossem apenas contos mínimos
soltos no espaço, mas sim que fossem se somando, como se
ao término do livro o leitor tivesse que ter uma sensação
de completude, como se tivesse lido um romance, uma história
inteira. Um se acrescentando ao outro.
Eu
percebi uma estratégia de sedução em seu texto.
Em alguns casos, parece que, nesses enigmas, você arrisca
um sentido, sugere uma analogia, "joga verde" esperando
reações do leitor: ou que ele invente uma solução
e sinta que matou a charada, ou então se renda e se deixe
seduzir pelo mistério. Você faz isso?
Colasanti:
Claro. Porque também é uma exigência do miniconto.
Achar que o miniconto é apenas um conto encolhido, isso é
um equívoco fatal. Aí você tem um produto de
terceira classe. O miniconto funciona justamente quando dá
o pulo do gato! Você vem vindo distraído e de repente
ele te pega e
TCHUM! Vira de cabeça pra baixo a situação.
Te põe em desconforto, descompõe, desfaz a organização
na qual você vinha vindo. E essa desorganização
ou te propõe uma nova forma de organização,
ou justifica o princípio quando você chega no
final e dá aquele salto, você entende porque aquilo
estava lá no começo. O que é fascinante no
miniconto.
Esse
"pulo do gato" é uma exigência chave do miniconto?
Colasanti:
São uma série de exigências. Porque também
há uma exigência de forma, muito grande. Nada pode
sobrar, nada pode faltar. Se faltar ele fica muito hermético;
se sobrar, ele borra. Então é um texto muito exigente.
Oscar
Wilde uma vez disse: hoje trabalhei exaustivamente no texto:
fiquei a manhã inteira para colocar uma vírgula, e
a tarde inteira para tirá-la. É assim com você
também?
Colasanti:
Sem dúvida. Eu gosto muito de textos curtos. Não sou
romancista por causa disso. E nos minicontos, às vezes, eu
vou tirando tudo, vou tirando tudo que é supérfluo,
tudo que é supérfluo, tira, tira, tira, estica, estica,
estica
aí de repente olho: ai meu Deus, está
esticado demais! Está seco demais! Agora eu tenho que pingar
um pouquinho de água, tenho que inchar um pouco de volta.
Porque tem um ponto certo; é que nem bolo, tem um ponto em
que ele tem que ficar penetrável ele não pode
ser impenetrável senão ele rejeita o leitor. Se você
insiste muito na depuração, ele pode ficar impenetrável
demais. Aí tem que abrir.
Em
suas minicrônicas é muito comum você aniquilar
a fronteira entre as coisas e as metáforas despertadas por
elas; entre a sensação e o fato concreto. Para você,
imaginado e vivido é a mesma coisa?
Colasanti:
É. A intensidade da imaginação, a capacidade
da imaginação sempre me estarrece. Eu saio dos sonhos
sonhos noturnos boquiaberta! boquiaberta! Como que
eu sou capaz de fazer uma arquitetura como essa? De repente estive
andando em meio a palácios, e as arquiteturas de um preciosismo,
de um requinte e eu seria incapaz de desenhar semelhante
arquitetura, não sou arquiteta. Mas a cabeça sabe!
E eu não sei se ela faz isso em imagens, realmente, ou se
faz em palavras tão bem colocadas que eu tenho a impressão
de estar vendo imagens. Eu não saberia te dizer, porque com
palavras eu posso fazer qualquer arquitetura, mas eu não
saberia estruturar, erguer uma arquitetura de fato. Não sei
se no sonho eram imagens ou se são palavras; se é
o pensamento que a cabeça transforma em sensação
de imagem, como se estivesse dentro da imagem.
Mas
a intensidade do imaginário é... veja, esta sala,
esta cadeira é uma porcaria. Imagina só a sala que
eu faria com os mesmos elementos.
O pessoal do hotel não vai gostar de ler isso
Colasanti:
(risos) Não, é qualquer sala. A que eu posso fazer
na cabeça é muito melhor, porque eu coloco um clima.
Na vida é possível decifrar a alma de uma pessoa através
de um único gesto, como na literatura você faz com
seus personagens?
Colasanti:
Através de um gesto só, não isso na
vida real. E essa é uma das questões colocadas pela
literatura, e mais intensamente por um certo tipo de literatura.
Como eu te disse, sou adepta dos textos curtos e das poucas palavras.
Eu tenho sim, que escolher aquele único gesto que define
aquela pessoa. Então, embora eu tenha na cabeça muitos
gestos dessa pessoa, ao escrever eu tenho que selecionar o gesto
que é revelador dela.
É
como pintura japonesa. Japonês, quando faz pintura, ele não
pinta todas as folhas de bambu. Uma pinceladinha, outra pinceladinha,
e o bambu está ali. Esse é um requisito de uma determinada
escolha literária. Na vida real, às vezes, você
não precisa de gestos. Bastam palavras, atitudes, a maneira
de se sentar, a maneira de se vestir, para dizer quem é aquela
pessoa. Agora, isso exige uma certa prática na observação.
Mas, em geral, na vida real, você soma várias coisas.
Porque a pessoa, ao falar, está se movimentando, está
se inclinando numa direção ou em outra, são
muitos pedacinhos que você soma para ter um perfil dela.
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